terça-feira, 20 de maio de 2014

Na Esfera das Letras

         Dimas Macedo


               Na Esfera das Letras (Fortaleza, Edições Secult, 2010) é o livro mais simples, o mais afetivo e, possivelmente, o menos ousado dos livros de Joaryvar Macedo. E como esclareci no prefácio de Ensaios e Perfis – o seu inventário de inéditos, que organizei, em 2001, para a Casa de José de Alencar –, este novo conjunto de textos do autor foi encontrado pelos seus amigos: Melquíades Pinto Paiva e Antônio Renato Casimiro.

           Trata-se de uma coleção de resenhas produzidas num tempo bastante recuado, como me foi possível observar, na versão original do volume, que data de 1986, quando se deu a sua transferência para Fortaleza.

            Na acepção precisa da palavra, Joaryvar foi um historiador sagaz e minudente, expondo totalmente aos ventos, como nenhum outro, as fontes primordiais da genealogia do Cariri cearense, ou interpretando a sociologia do trabuco que se forjou no sul do Ceará.

           Professor de latim e de línguas neolatinas e estudioso da literatura brasileira da fase colonial e do período romântico, Joaryvar Macedo tinha orgulho finíssimo de suas veleidades estéticas, inclusive de seus arroubos juvenis de poeta, recolhidos em Caderno de Loucuras (1965).

          Autor de O Poeta Lobo Manso (1975), Joaryvar nos daria, posteriormente, meia dúzia de livros de acentos predominantemente literários: Pedro Bandeira, Príncipe dos Poetas Populares (1976), Fagundes Varela e Outros Rabiscos (1978), Composições Poéticas de Hermes Carleial (1979), O Talento Poético de Alencar e Outros Estudos (1984), Um Vernaculista e Um Poeta (1985) e Antônio Lobo de Macedo: O Homem e o Poeta (1988), sendo este o seu penúltimo livro publicado.

          Império do Bacamarte, o maior de todos os seus livros, foi editado em 1990, e no ano seguinte, a vinte e nove de janeiro, Joaryvar Macedo nos deixou, fazendo a sua viagem para os braços de Deus, de cuja intimidade privou desde os primeiros passos da adolescência, como aluno de vários seminários teológicos do Nordeste.

          Acho que somente um católico fervoroso, do porte de Joaryvar Macedo, seria capaz de registrar, num livro de intenções literárias, como este – Na Esfera das Letras –, que “religiosos de ambos os sexos, vivendo na incomparável paz do claustro, inquietaram-se com a sorte de quantos se empolgaram com os ouropéis do mundo profano”.

          A sua erudição e a sua conhecida sede de pesquisa sempre chamaram a atenção do Cariri, onde se houve como o mais conhecido historiador da região, porque ninguém desvendou, melhor do que ele, a história do sul do Ceará e a colonização do meridional cearense.

           Em outras oportunidades, escrevi acerca desse autor e do seu significado para a historiografia cearense, referindo-me à sua argúcia de pesquisador e de esteta; apresentei dois de seus livros: São Vicente das Lavras (1988) e Império do Bacamarte (1990); e é certo que produzi ensaios e resenhas, nos quais focalizei a sua obra de historiador e genealogista.

             Sobre ele publiquei, em 1998, o opúsculo: Martins Filho e Joaryvar Macedo, que reproduzi em Crítica Imperfeita (Fortaleza, Imprensa Universitária, 2001) e, de forma reduzida, em A Brisa do Salgado (Fortaleza, Imprece Editorial, 2011). Mas tudo isto é pouco para dizer da minha admiração pela sua personalidade e pela sua figura cativante.

             Na Esfera das Letras é o mais modesto de todos os seus livros, no plano da estética ou da crítica literária, mas não é, por conseguinte, o menos erudito. Conhecimento e manipulação da matéria sobre a qual se debruça é o que não falta a Joaryvar Macedo nesse conjunto de escritos.

           Partindo da premissa de Murilo Martins, de que Joaryvar Macedo teve uma visão do Brasil e do mundo, tendo como ponto de observação a região onde ele nasceu, seria correto dizer que o seu livro – Na Esfera das Letras – é uma das portas pela qual o autor recepcionava os livros que vinham de longe, minutando as suas impressões de leituras nos velhos jornais do Cariri.

            São notas de jornalismo literário o que o livrinho contém. Notas passageiras e desataviadas. Feitas, porém, com o rigor e a erudição do intelectual e com a argúcia do crítico, cujo estilo de dizer a palavra e exemplo de vida e de amor constitui uma marca na minha formação.  

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