quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Roteiro de Sinhá D'Amora


            Dimas Macedo
 
                                                                              Autorretrato de Sinhá D'Amora

 Sinhá D’Amora é o nome artístico de Fideralina Correia de Amora Maciel, nascida Fideralina de Morais Correia Lima, no sítio Olho D’Água, município de Lavras da Mangabeira, a 1º de setembro de 1906. 

Filha de Josefa Rolim de Morais Correia Lima e do Cel. Francisco Augusto Correia Lima, um dos maiores vultos da história de Lavras, e neta da destemida e famanaz Dona Fideralina Augusto. 

Cursou as escolas primárias de Lavras, Jaguaribe e Icó. Com o Padre Raimundo Rolim de Morais, seu tio materno, iniciou os estudos de segundo grau. Em Fortaleza, estudou com professores particulares, casando-se aqui com o escritor Raimundo de Amora Maciel, da Academia Cearense de Letras. 

 Em 1933, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde cursou a Escola Nacional de Belas Artes, fazendo em anexo estudos superiores na Aliança Francesa, seguindo, neste passo, a tradição cultural do seu ilustre genitor.

 Em 1949, transferiu-se para Florença, na Itália, onde residiu por um ano, quando se graduou pela Academia de Belas Artes de Florença, ali tendo cursado também a Universidade de Estudos de Línguas e Artes e no Centro di Cultura per Stranieri, obtendo na cadeira de História da Arte o primeiro lugar.

   Em Florença, conheceu alguns dos nomes mais expressivos da artes plásticas do século vinte, contando-se entre eles, Pablo Picasso, mas vale destacar que logo em seguida Sinhá D’amora tomou o destino de Paris, onde cursou a Acadèmie de la Grand Chaumière.

  Em 1963, esteve novamente na Europa, em viagem de pesquisa estética, estudando a origem da escola impressionista no Museu Jean de Paume, em Paris, cidade para a qual regressou em 1976, para realizar curso de aprimoramento em língua francesa, viajando depois para o Japão e países do Oriente Médio em 1977.

  Conhecida nacional e internacionalmente pela suntuosidade dos seus quadros, participou, entre outras, das seguintes exposições: Salão Nacional do Rio de Janeiro – desenho e pintura (1941), Exposição Anual no Salão Nobre do Palace Hotel do Rio de Janeiro (1953 a 1961), Casa das Beiras de Lisboa (1963), Hotel Nacional de Brasília (1963), Salão da Mulher Brasileira do Museu Nacional de Belas Artes (1964), Museu Antônio Parreiras de Niterói (1965), Salão Nacional do Rio de Janeiro (sendo-lhe conferida isenção de júri, 1970), Amostra de Arte do Heverest Hotel do Rio de Janeiro (1971 a 1976) e Exposições da Youth For Understanding (em Nova York e outras cidades dos Estados Unidos, 1975 – 1976).

“Uma pintora ilustre, consagrada: quadros seus espalhados pelos museus e pinacotecas de sua terra e do estrangeiro. Mais carregada de medalhas de ouro que muito Marechal vencedor de batalhas. Exposições vitoriosas. Críticas laudatórias. Consagrada na Academia Brasileira de Belas Artes. Curriculum tão brilhante e raro”. Eis o que sobre ela disse Rachel de Queiroz em prefácio ao livro Sinhá D’Amora40 anos de Vida Artística (Rio, Livraria Eu & Você Editora, 1981).

  E não fez exagero Rachel, tendo em vista às láureas recebidas por Sinhá: Medalha de Bronze do Salão Nacional (1941), Medalha de Prata do Salão da Sociedade dos Artistas Nacionais (1947), Medalha de Honra do Salão de Abril de Fortaleza (1955), Medalha de Prata do Salão da Associação dos Artistas Brasileiros (1960), Menção Honrosa do Museu de Valparaiso – Chile (1970), Medalha de Ouro da Academia de Medicina Militar (1971), Medalha de Ouro do Salão de Maio da Sociedade Brasileira de Belas Artes (1972), Medalha de Prata do Salão Paulista de Belas Artes (1972), Medalha de Ouro da Sociedade dos Artistas Nacionais (1975), Comenda Grande Oficial da Ordem do Mérito das Belas Artes (concedida pelo Conselho Supremo da Ordem do Mérito das Belas Artes), Medalha José de Alencar (conferida pelo Governo do Ceará) e Troféu Sereia de Ouro, do Sistema Verdes Mares de Comunicações.

  Entre as suas grandes realizações, no plano social, estão a criação do Curso de Restauração junto à Sociedade Brasileira de Artes Plásticas, e a fundação e manutenção do Museu de Artes Plásticas do Crato, tendo sido criado em Fortaleza, em 04 de fevereiro de 2002, o Memorial Sinhá d’Amora, no qual se encontram os seus arquivos e alguns dos seus quadros de maior destaque.

  Integrante da Academia Nacional de Belas Artes, Sinhá D’Amora é considerada a maior pintora cearense de todos os tempos e uma das maiores pintoras brasileiras, formando, ao lado de Rachel de Queiroz, a dupla máxima da inteligência feminina que o Ceará ofertou à cultura artística do Brasil.

   Sobre essa ilustre pintora cearense – que faleceu no Rio de Janeiro a 1º de dezembro de 2002 –, existe uma farta bibliografia, valendo destacar o livro de Túlio Monteiro: Sinhá D’Amora (Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2002), e o documentário em audiovisual: Sinhá D’Amora – Cientista da Tela e do Pincel, de Geórgia Juliana C. Augusto Gonçalves (Fortaleza, 2013).

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Dicionário de Sacerdotes Lavrenses


              Dimas Macedo



 
 

  No meu livro – Lavrenses Ilustres (3ª ed.: Fortaleza, 2012), biografei vários sacerdotes lavrenses; e outros tantos foram por mim perfilados em – A Brisa do Salgado (Fortaleza, Editora Imprece, 2011). Contudo, num balanço que realizei em meus arquivos, em janeiro de 2013, encontrei diversas notas e registros inéditos acerca de sacerdotes nascidos no município de Lavras.

  Atendendo a um pedido do Padre Evaldo Benedito Alves, vigário da Paróquia de Lavras, consolidei, num pequeno livro, em forma de verbetes, uma amostra dessas informações. Não cuido de sacerdotes que serviram na Paróquia de São Vicente Ferrer, mas de lavrenses que foram chamados à condição de Servos do Senhor.

 Infelizmente, em trabalhos dessa natureza, as falhas e omissões sempre acontecem: a) ou porque não conseguimos acessar os dados de que necessitamos; b) ou porque a situação histórica mudou a perspectiva da pesquisa; c) ou ainda porque as novas descobertas nos levaram a resultados que ainda não eram cogitados.

  No opúsculo a que me refiro, registrei apenas os nomes de quarenta e seis lavrenses que foram ordenados sacerdotes, ficando fora da pesquisa alguns religiosos que não atingiram essa condição, apesar das vidas edificantes que desenvolveram.

   Os sacerdotes, aos quais me refiro neste texto, foram arrolados em ordem cronológica, e o ponto de partida da metodologia foi a verificação dos seus nascimentos no circuito do atual município de Lavras. Peço aos leitores dessa pesquisa que leiam o meu texto com atenção, porque a pesquisa foi realizada com bastante cuidado.

     Concluindo, esclareço que foram os seguintes os sacerdotes por mim biografados no meu Dicionário de Sacerdotes Lavrenses (Fortaleza, Edições Poetaria, 2013), os quais foram agrupados neste artigo em quatro diferentes categorias, para uma melhor compreensão do assunto:

     Sacerdotes lavrenses do século dezoito e início do século dezenove: José Joaquim Xavier Sobreira, Cosme Francisco Xavier Sobreira, Francisco Xavier Gonçalves Sobreira, João Correia da Costa Sobreira, Manuel Roberto Sobreira, Francisco Roberto Correia, Francisco Roberto Sobreira e Francisco Roberto de Almeida, Joaquim Machado de Silva (1843-1889) e Joaquim Teodoro de Araújo (1847-1874).

      Sacerdotes lavrenses do século dezenove (segunda metade): Aprígio Justiniano Babosa de Morais (1855-1931), João Carlos Augusto (1855-1918), Joaquim Franklin Gondim (1872-1919), Miguel Antônio de Souza (1874-1947), Raimundo Augusto Bezerra (1874-1935), Francisco Carlos de Morais (1876-1904), João Casemiro Viana Arraes (1876-1911), Vicente Augusto Bezerra (1880-1953), Leopoldo Augusto de Sousa Rolim (1885-1963), Manoel Carlos de Moraes (1885-1970), Raimundo Rolim de Moraes (1888-1975) e José Correia Lima (1899-1945).

        Sacerdotes lavrenses do século vinte: Sandoval Teixeira Férrer (1903-1975), Raimundo Nonato Dias (1911-1988), Alonso Benício Leite (1915-1991), Luiz Antônio dos Santos (1919-1969), Argemiro Rolim de Oliveira (1921-1986), João Crispim de Araújo (1925-2011), Manoel Lemos de Amorim (1927), Honório Joaquim de Moura (1927-2005), Raimundo Ricardo Sobrinho (1932), José Edmilson de Macedo (1935), José Alves de Oliveira (1935), Jeová Gomes Brasil (1936-2004)

         Sacerdotes lavrenses do século vinte (segunda metade): Manoel Bezerra Machado (1950), Clairton Alexandrino de Oliveira (1951), Luiz de Sousa Lima (1951), Vicente Ferrer Oliveira (1962), Donizete Bento Maia (1962), Alderi Leite de Araújo (1964), Erisvaldo Oliveira Silva (1965), Bozano Lima Gonçalves (1970), Cícero Mariano de Lima (1972), Cícero Adauto de Souza Santos (1974), José Reginaldo Machado Gabriel (1980) e Arileudo da Silva Machado (1984).

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Sua Majestade, o Juiz - Jáder de Carvalho


                                                           
                                                                        Dimas Macedo
 
 Premiado pela Academia Brasileira de Letras e aclamado pela crítica literária como um dos nossos melhores escritores, Jáder de Carvalho vem sendo reabilitado, por último, como romancista, a partir da reedição de romances como Aldeota e Sua Majestade, o Juiz.

Este último livro, um dos pontos de relevo da obra literária do autor, foi publicado pela Editora Musa, de São Paulo, em 1962, e teve uma segunda edição feita por Manoel Coelho Raposo, em 2001, no centenário de nascimento do poeta.

Ao lado de Aldeota, constitui o dueto de livros do autor que teve a maior repercussão, e que causou a mais acesa polêmica nos alicerces da sociedade cearense do início da década de sessenta, mostrando-nos Jáder de Carvalho o quanto a longa ficção é uma linha de força capaz de revelar a beleza ou as grandes misérias de um povo.

Tanto Aldeota quanto Sua Majestade, o Juiz tornaram-se, no Ceará das décadas de 1960 a 1980, romances de leitura quase proibida, tendo parte de seus exemplares sido recolhida, ou adquirida por conhecidos figurões da sociedade e da política cearenses para incineração ou destruição, numa tentativa de apagar as marcas da fraude e da corrupção que o romancista havia revelado.

Jornalista corajoso e sempre muito independente, Jáder de Carvalho nunca conseguiu apagar os vulcões que brotaram da sua alma de artista e de militante de esquerda que viveram à sombra do desassossego e da perseguição indiscriminada.

Não existe segmento da cultura ou da política cearense no qual ele não tenha atuado durante mais de meio século. Nascido nos ásperos sertões de Quixadá e criado na região sul do Ceará, mais precisamente em Lavras da Mangabeira, onde o seu pai fora um dos luminares da educação do Município, conhecia, como poucos, o Ceará em todas as suas dimensões: seus usos e costumes, a sua geografia e as suas lutas fratricidas, a sua religiosidade de caráter messiânico e sua identidade de nação castigada pela seca e pela esperteza das suas elites ociosas.

Foi com a visão de sociólogo, por exemplo, que ele construiu todos os seus romances, desde a estreia, em 1937, com Classe Média, até o seu triunfo definitivo com os romances: Aldeota e sua Majestade, o Juiz.

Socialista convicto, poeta genuíno e de linguagem essencialmente clara e muito convincente, Jáder de Carvalho foi um dos arautos do modernismo no Ceará e um de seus representantes de maior relevo.

A partir de 1920, destacou-se pela sua liderança de vanguarda no campo específico da literatura; nas décadas de 1930 e 1940, experimentou os rigores do Estado Novo e todas as formas de discriminação contra a sua liberdade; mas é certo que, nas décadas seguintes e até a sua morte, em 1985, arrebatou e conquistou para si a condição de ícone e símbolo do povo cearense.

O livro de Jáder de Carvalho – Sua Majestade, o Juiz, reeditado pelo Armazém da Cultura, a partir do empenho e da visão abrangente de Albanisa Dummar, é talvez o mais expressivo romance do autor, ainda que não seja o mais conhecido de seus livros, no domínio da longa ficção.

No romance, Iguatu e a região central do Ceará, Santana do Cariri e Sobral, e a sociedade de Fortaleza do final da década de 1950, estão expostos com todos os seus vícios. A seca, em suas páginas, aparece como fenômeno climático e fato social que tomam a boca de cena da ação romanesca, mas as mazelas do Poder Judiciário cearense são aquilo que chama a atenção dos leitores.

A corrupção, a fraude e o estelionato praticados pelos nossos magistrados, mormente pelos nossos desembargadores, a partir da reificação de suas consciências e da subserviência ao poder político estadual, legitimando os seus atos arbitrários, são os elementos que saltam do romance como poderosos instrumentos de denúncia.

A construção da personagem principal do enredo, o desembargador José Sampaio Nogueira, com os traços da deformação e da paródia, da alienação e de outros componentes extraídos da teoria crítica de viés marxista, sempre me pareceu um momento alto do romance cearense.

Esse recurso extremo do discurso de Jáder de Carvalho talvez tenha prejudicado a recepção dos seus romances por parte da crítica e da nossa historiografia literária, porque entre nós a derrota da dialética foi sempre maior do que em muitos estados do Brasil.

Menor o romancista Jáder de Carvalho? Menor do que o jornalista, o intelectual, o sociólogo e o poeta? Não, não é possível que isso seja uma tese que tenha alguma consistência. Particularmente, acho que o Jáder foi grande, muito grande, como romancista. E como romancista, importa que ele seja, agora, conhecido pelas novas gerações.

Como não vou entrar, propositadamente, no enredo, nem antecipar a tessitura da trama, preparada inteligentemente pelo romancista, aproveito o ensejo deste prólogo para louvar a iniciativa de Albanisa Dummar.

Convoco o leitor para o debate e a todos sugiro a leitura desse livro, porque firmes as suas linhas de montagem, a sua potência narrativa e o seu indiscutível sentido de alusão e de paródia, condensados em linguagem literária madura e em estilo que se impõe ao gosto de todos os leitores.

O Estilista Paulo Bonavides



                          Dimas Macedo




                               Tela de Ana Costalima


              Apesar de vivermos a era dos direitos e de agirmos como se o Direito fosse uma conquista da legalidade, do positivismo e do normativismo – desprovido de conteúdo e legitimidade –, sabemos que o Direito é uma relação intersubjetiva de condutas, recortada por um conteúdo axiológico, pois o espírito do Direito (e não as suas normas) é tudo o que importa ao ponto de vista do intérprete.

              O conhecimento e a experiência do fenômeno jurídico requerem o humanismo e a democracia, a dignidade e a justiça como elementos de legitimação.

              Vivemos a era da globalização e do pós-positivismo, a era da Constituição como instrumento da paz e de estabilização da ordem econômica e, bem assim, de concretização dos direitos fundamentais e dos princípios constitucionais enquanto substância da normatividade e mandamentos de otimização do sistema jurídico.

              Depois das constituições do Estado Liberal e do apogeu do Estado Social de Direito, chegamos, finalmente, à pós-modernidade, e vislumbramos, de último, o Estado de dimensão comunitária e cooperativa, sintonizado com a sadia qualidade de vida e com o estágio da sociedade pluralista e aberta.

              Paulo Bonavides, no Brasil, é o guardião maior da Constituição e o mais expressivo de todos os arautos do Direito Constitucional entre nós, pois a ele os segredos da Teoria do Estado e da Sociologia do Direito são de primeiro revelados. Sabe ler a boa nova em todos os horizontes do direito e sabe discernir em torno dos assuntos sobre os quais explana.

            A filosofia do Estado e a ciência política constituem a casa do ser onde costuma ancorar a sua trajetória, rica, aliás, de achados científicos e epistemológicos, pois nunca lhe faltaram a visão do estilista e o desvelo com que sempre defendeu a língua portuguesa.

            Artista da palavra e escritor paradigmático, Paulo Bonavides escreve ou reescreve os seus livros numa linguagem fluente e elegante, recheada de metáforas e alegorias e de acentos fônicos que o aproximam do prazer do texto.

              No plano da vida pessoal, o professor Paulo Bonavides qual um príncipe da elegância e do afeto; e, no plano do Direito do Estado, um oráculo das crises constitucionais que se avizinham; e arauto ele o é por excelência dos achados jurídicos que se desenham no discurso acadêmico.

              Paulo Bonavides sabe impregnar os seus livros jurídicos de poemas, e de poemas no melhor sentido da palavra, porque de poesia são feitos os seus experimentos e a linguagem de todos os seus textos e ensaios.

             Um livro, no início da sua trajetória, por ele intitulado O Tempo e os Homens (Fortaleza, 1952), agora em terceira edição (Florianópolis, Editora Boiteux, 2005), sempre me pareceu um dos marcos da sua vocação de escritor e de esteta que sabe navegar, qual um mestre, no reino das palavras.

            Digo reino das palavras, para não dizer reino do discurso, porque discursivo e imantado de costura semântica e estilística é toda a textura dos seus ensaios e escritos filosóficos, labor que o projeta, de há muito, no concerto da ordem criativa.

              O ponto de partida de Paulo Bonavides, nesse livro exemplar e pioneiro, é a sociologia da cultura, com passeios pela crítica literária e pelos recortes de cunho biográfico, sem perder de vista o traço cultural que mais o distingue: a defesa da ética e da dignidade.

              A releitura dessa coletânea de crônicas e ensaios, no momento em que ele, Paulo Bonavides, se impõe como o maior de todos os nossos pensadores, ajuda-nos a entender o percurso de um pensador e de um homem que devotou toda a sua vida e toda a sua obra ao serviço do bem, da democracia e da transparência das virtudes políticas.

            Sabemos que a ética, o humanismo, a dignidade e a busca da justiça são os atributos (e também as lições) que ele, de primeiro e em todos os momentos, ensinou aos cientistas sociais e à cidadania do Brasil, do Brasil social e do Brasil desigual, que ainda se quer, em alguns de seus planos, em estágio de subnutrição e de desenvolvimento ainda não harmônico.

              O abismo da desigualdade racial, na década de 1940, já incomodava as aspirações do cientista político Paulo Bonavides. O espaço social do negro, na civilização americana, é o primeiro ponto de inquietação do jovem escritor e jornalista cearense, nas páginas fundamentais de O Tempo e os Homens.

              Digo páginas fundamentais porque nesse livro de Paulo Bonavides está a visão do observador e do analista da cena social e política. Figuras como – Eça de Queirós e a crítica por ele desferida contra a pasmaceira e o retrocesso da sociedade portuguesa; Juan Bauptista Alberdi e a sua visão de constitucionalista e de jurista, dissociada das ideologias institucionais do seu tempo; e os traços líquidos e plurais da paisagem dos cantadores e jangadeiros do Nordeste, ao lado de perfis de intelectuais como Rui Barbosa e Humberto de Campos – estão, nesse livro de Paulo Bonavides, a desafiar a curiosidade do leitor.

            O que avulta de erudição e de pujança intelectiva, nesse conjunto de escritos, impregnados de cunho ideológico, deixam antever o pensador e o jurista em que se transformou o grande mestre cearense. Muita coisa mudou, é certo, na profundidade do seu raciocínio, mas em termos de destemor e de bravura, transformou-se Paulo Bonavides num escritor exemplar e corajoso.

              É diversificado o conteúdo de O Tempo e os Homens, mas o que neste texto quero destacar é a expressão do estilista Paulo Bonavides e a confirmação da sua irrenunciável vocação de escritor, cuja estreia se deu em 1948, com Universidades da América, prefaciado por Gilberto Freyre e que lhe valeu, na época, o prêmio Carlos de Laet, da Academia Brasileira de Letras.

            Os organizadores da terceira edição, professores Filomeno Moraes e Martônio Mont’Alverne Barreto Lima, discípulos fervorosos de Paulo Bonavides, assim como o autor destas linhas, afirmam, no prefácio de citado volume, o seguinte:

             “As análises de Paulo Bonavides fogem ao discurso fácil, da visão bipolar dos nossos problemas e das suas soluções possíveis, enfrentando os desafios de compreender o Brasil em toda sua diversidade. Esse aspecto é o que faz do professor Paulo Bonavides um intelectual singular e fortalecedor da ideia de que, nos trópicos, a originalidade acadêmica não é somente possível como representa algo dadivoso”.

              Cultor sutil e refinado do rigor da língua, da sua estilística mais aprimorada e da sua semântica desafiadora, Paulo Bonavides é um dos escritores, no Brasil, de melhor e maior produção. Acho, pessoalmente, que Paulo Bonavides é o mais alto entre todos os pensadores do Brasil na atualidade. E o mais erudito entre todos os seus grandes intelectuais.

               Penso que o Brasil, um dia, reconhecê-lo-á qual o jurista mais culto, o mais sofisticado e o mais aparelhado defensor da liberdade, porque arauto da Constituição, cientista do Estado, filósofo da política e germanista de primeira linha, pleno de erudição e de saberes que nunca se esgotam.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

José Joaquim Xavier Sobreira - Primeiro Vigário de Lavras


          Dimas Macedo

                                    
                                              
                                                        Padre José Joaquim Xavier Sobreira, 
                                                    1º Vigário de Lavras da Mangabeira (CE)
              

 José Joaquim Xavier Sobreira, “de projeção indiscutível”, nasceu no sítio Logradouro, a 4 quilômetros da antiga povoação de São Vicente Ferrer, “por volta de 1777”, segundo Joaryvar Macedo. Filho do Capitão-Mor e Comandante Geral da Vila de São Vicente Ferrer das Lavras, Francisco Xavier Ângelo, e de sua primeira mulher Ana Rita de São José.

Foi aluno do Seminário de Olinda, por onde se ordenou sacerdote. Político de atuação marcante na formação do Ceará independente e célebre propulsor de movimentos libertários, José Joaquim Xavier Sobreira foi o primeiro vigário (colado) de Lavras da Mangabeira, desde a criação da freguesia, aos 30 de agosto de 1813, até o ano de 1821.

 Desde muito cedo, interessou-se pelas coisas da política, tendo-se sido, incialmente, Procurador Geral da Província do Ceará junto ao Conselho de Procuradores Gerais das Províncias do Brasil, instituído por decreto de 16 de fevereiro e instalado no Rio de Janeiro aos 2 de junho de 1822.

Por sua ação à frente das lutas pela consolidação da Independência, e pela instauração de uma ordem que viesse a representar os pressupostos da legalidade, seu nome, pelo decreto de 3 de junho de 1822, comporia a “relação dos cidadãos que mais se distinguiram” e que “mais fervorosos se portaram pela causa de Independência, e reconhecimento de Sua Majestade o Imperador” nas diversas Vilas da Província do Ceará.

Foi Presidente do Colégio Eleitoral da Comarca do Crato, reunido no Icó a 16 de outubro de 1822, que impugnou a Junta Governativa eleita em Fortaleza em 15 de janeiro do mesmo ano. Nessa oportunidade, em face da sua incontestável liderança, foi preso pelo comandante de armas, Manuel Antônio Diniz, ficando detido até ser libertado pelas tropas comandadas pelo Capitão Pereira Filgueiras.

Em ofício de 14 de novembro de 1822, enviado aos deputados em Cortes pelo Ceará, foi apontado por membros da Junta Governativa de Fortaleza, como sendo o “primeiro motor” das agitações independentistas reinantes no interior da Província e que tinha como focos de irradiação as vilas de Lavras, Crato e Icó.

Integrou o primeiro Governo Provisório do Ceará, logo após a Independência do Brasil, eleito em Icó, empossado no Crato, aos 19 de novembro de 1922, e instalado em Fortaleza, aos 23 de janeiro de 1823, cuja ideia de criação, existência e legitimidade foi ele o primeiro a proclamar, mantendo-se nesse posto, especialmente como Secretário do referido Governo Provisório, até 4 de março do mesmo ano.

  Também por conta da sua liderança, em de 27 de novembro de 1822, foi escolhido emissário da Câmara do Crato para, no Rio de Janeiro, explicar ao Imperador as razões da criação do primeiro Governo Temporário do Ceará.

   Em 27 de abril de 1823, no entanto, já se encontrava na vila de Lavras, para assistir a passagem, naquela localidade, do Comando Revolucionário liderado por Pereira Filgueiras, que se destinava ao Piauí para combater João da Cunha Fidié.

     Em 24 de outubro de 1824, presenciou o exército Republicano da Confederação do Equador ocupando a vila de Lavras, ai destruindo o Pelourinho e substituindo a Bandeira Imperial pela Bandeira Republicana. Na época, o seu pai, Francisco Xavier Ângelo Sobreira, era o capitão-mor da referida vila, mas toda a sua família estava comprometida com causa da Federação e da República.

    Eleito Deputado à primeira Assembleia Constituinte do Brasil, instalada na Corte, a 23 de maio de 1823, ali representou o Ceará com a maior distinção. Sendo, no entanto, dissolvida a Assembleia, aos 12 de dezembro de 1823, regressou à sua terra natal, onde faleceu, aos 50 anos de idade, presumivelmente envenenado por sua madrasta, Cosma Francisca de Oliveira Banhos, aos 17 de maio de 1827, sendo sepultado na igreja matriz de Lavras da Mangabeira.

   Seus serviços prestados à causa da Independência são relevantes. Empossado o Governo Provisório do Ceará, já na sessão extraordinária desse Conselho, de 24 de janeiro de 1823, tomando a direção da palavra, destacar-se-ia pelo delineamento dos planos que traçou com vistas à Independência do Piauí e Maranhão, os quais foram acolhidos por unanimidade, cabendo-lhe “um papel importante no feito das armas cearenses naquelas províncias”, segundo o historiador Geraldo Nobre.

   Era irmão de dois outros importantes vultos do clero cearense: Francisco Xavier Gonçalves Sobreira, revolucionário e líder de movimentos de independência no Piauí, onde foi vigário da freguesia de Marvão – hoje município de Castelo; e Cosme Francisco Xavier Sobreira, vigário coadjutor em Lavras e pároco de São Mateus dos Inhamuns – hoje Jucás, sendo ambos, igualmente, originários do Sítio Logradouro.

          O nome de José Joaquim Xavier Sobreira, cujos feitos são aqui sumariamente relatados, é, com certeza, uma das mais lamentáveis omissões nas tentativas de biografação de cearenses ilustres feitas por historiadores, a começar pelo Barão de Studart, com o seu Dicionário Bio-Bibliográfico Cearense.

                                                                in Dicionário de Sacerdotes Lavrenses

                                                           (Fortaleza, Edições Poetaria, 2013)