sábado, 31 de maio de 2014

Virgínia Woolf - Um Teto Todo Seu

               Dimas Macedo



                Baseado em palestras proferidas pela autora, em 1928, o livro – Um Teto Todo Seu (São Paulo, Editora Tordesilhas, 2014), de Virgínia Woolf, compreende uma reflexão acerca das condições sociais da mulher e suas influências na produção literária feminina.

               Esse livro coloca em discussão o lugar que a mulher ocupa na sociedade e as suas dificuldades para expressar livremente o seu pensamento. Woolf defende que essas condições sejam transformadas, que a escrita feminina possa fluir sem sujeição e que a sua produção literária seja levada em consideração.

               Imaginando qual seria a trajetória da irmã de Shakespeare – caso o famoso escritor tivesse uma irmã e ela fosse tão talentosa quanto ele –, Woolf descortina para o leitor um cenário no qual as mulheres quase não dispunham de recursos financeiros e possuíam pouco prestígio social e intelectual.

               Afirma a autora que o papel reconhecido a cada um dos sexos pode interferir no desenvolvimento de suas habilidades; e mostra como, na época, o reconhecimento da competência de uma pessoa dependia de seu sexo, uma vez que a sociedade reservava aos homens e às mulheres papéis e atribuições bastante diferentes.

              Na sua época, a maioria das mulheres ainda não dispunha da liberdade e privacidade necessárias para ter um lugar próprio para refletir e elaborar a sua criação. Daí, a conclusão da escritora de que “uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu se quiser escrever ficção”.

              Com a linguagem original e a fluidez de pensamentos que lhe são próprias, Woolf denuncia uma duplicidade de padrões vigentes na sociedade, segundo a qual os homens eram estimulados a aprimorar suas habilidades criativas, enquanto às mulheres era reservado um papel de sujeição.

                Essa edição da Editora Tordesilhas, além do ensaio rigorosamente traduzido de Um Teto Todo Seu, traz uma seleção de trechos dos diários de Virginia, uma cronologia da vida e da obra da autora e um posfácio escrito pela crítica literária, romancista e colaboradora da Folha de São Paulo, Noemi Jaffe.

O Que é a Arte ?

              Dimas Macedo


Foto de Margleice Pimenta


              O que é a arte? O que é a vida? O que é o cosmos e o que são, por fim, as escrituras de luz do universo? Acho que todas as filosofias e religiões existentes não responderiam à nenhuma das minhas perguntas.

              Mistério. A vida é mistério e representação. E, enquanto mistério e representação, a vida é o nada que nunca se resolve. Um achado que se perde no abismo da alma a cada instante.

              O que seria o amor? O que seria a ânsia do artista? O que seriam a morte ou a linguagem madura do desejo? Um nada quando se está diante da tragédia? Um tudo quando se está diante da certeza?

             A arte é a certeza de tudo. E a imprecisão, por seu turno, é o elemento fundante de todos os processos de vida. A imprecisão e a sua espada de Vesúvio. A imprecisão riscando o vidro do espelho, pois a dor que até hoje me doía tanto já não é o fantasma com quem me deito soturno na varanda.   

              E a casa do ser seria mesmo a força da palavra? A palavra fundadora do belo e que não nos deixa provar a existência real? E a literatura, seria ela uma tragédia interior? A perdição completa de um ser? 

              A literatura como um tormento sagrado, um prazer doloroso ou ainda um sinal da mística que pulsa na espessura do meu ser? Por que os poetas e críticos de literatura sempre se mostraram em estado de tensão, nos recessos da vida interior?

              E por que todos os manuais acerca da arte literária jamais variaram de tom? Sim. E por que a Literatura funciona, para os escritores, como se fosse uma imposição, exercida sobre a energia vital de quem a empreende?

               E ao escritor, não caberia mudar a história, mas apenas sofrer a história e as tiranias do social, e contra elas investir com a claridade dos seus códigos semânticos? 

               Será se tudo nos é dado e tudo nos será tirado, no domínio da vida interior? E que apenas o infinito da linguagem representa o infinito da vida, e tudo mais é a extensão do nosso pensamento?  

               E por que se foram os meus dedos em uma língua breve? E os tédios todos que eu sentia nas tardes de domingo? Foram-se as lenhas e as minhas fogueiras todas que ardiam?
              Silêncio Branco! As Vozes do Silêncio e o seu pranto que não volta nunca. Pois a vida que se faz certeza já é uma certeza e é, de certa forma, alguma transcendência madura. 

                O Deus que eu matei, e que voltou ainda mais supremo? A Via Sacra de Deus que me será a âncora? Ou o mundo inteiro que será, agora, um grão de areia no deserto?










Sertão - Notas Para um Resenha

              Dimas Macedo
 
 

             Sertão Ser Tão Sertão (Bassano Del Grappa – Itália, 2011), de Bruno Pedro, é um livro de texto exuberante e de estilo inconfundível, no qual aparece visível o domínio estético, literário, linguístico e semântico das palavras. Fílmica a claridade das suas reminiscências. Densa, real e humana a caracterização das suas personagens.

             Um livro que pode ser lido como um romance ou como um manual de psicologia e sociologia de uma civilização no sertão do Nordeste, no qual as taras e virtudes atávicas de uma família são tangidas à superfície da linguagem por uma voz interior, ditada pela impostação do ambiente e pelos escaninhos da memória.

            Trata-se de um dos melhores livros sobre a formação social da região Sul do Ceará, fazendo lembrar, talvez, os estudos magistrais de Joaryvar Macedo ou a saga dos nossos colonizadores, descritas por Irineu Pinheiro, João Brígido dos Santos ou Gerardo de Mello Mourão.

            Recomendo a todos a sua leitura saborosa, a arquitetura da sua montagem a partir do filtro da memória, a transparência dos seus quadros, a riqueza de detalhes com que o autor constrói o seu universo.

             É lamentável que esse livro não tenha sido publicado por uma grande editora, e que ainda não seja conhecido pelo público. Nas suas páginas, a erudição funciona com um gosto de leveza e claridade, especialmente porque tecida pelo sentimento e pelos rigores da verdade.

             Não é um livro pedante, mas rascante, marcado pelas vozes de homens e mulheres a quem não foi reconhecido o direito de falar, mas de mourejar debaixo do sol inclemente ou na sombra dos velhos alpendres, ouvindo as sentenças de vida e de morte, ditadas pela Casa Grande e pelos seus ocupantes.

              Os conhecimentos teológicos, culturais e artísticos de Bruno Pedrosa, e os traços essenciais da sua formação antropológica, exsurgem, a cada passo desse livro, na proporção em que o leitor vai penetrando no seu universo literário e desvendo os símbolos verbais e as reminiscências que autor vai arquitetando.

             O Riacho do Machado aparece, nesse livro, não apenas como um leito pelo qual correm as águas que descem das Almacegas ou da Serra Negra, mas como uma medida pela qual a constância e a história dos homens e mulheres são aferidas, a partir da casa grande da Fazenda Catingueira.

              Sertão Ser Tão Sertão me parece um livro propositadamente alojado entre a História e a Literatura, entre a Razão e o Sentimento, entre a Verdade Pessoal e a Consciência Social de um artista, em cuja formação encontramos o Humanismo e o Ceticismo, a Tradição e o Memorialismo.

              Artista plástico de renome internacional, Bruno Pedrosa é um dos intelectuais brasileiros de maior projeção no exterior. Tendo passado pela experiência da clausura, como monge beneditino, e por uma sólida formação cultural, nos domínios da Filosofia e das Belas Artes, Bruno é original e soberano na produção da sua arte, sem a necessidade de pagar tributo às vanguardas ou à moda que necessita ser exibida.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

A Estirpe da Santa Teresa

                   Dimas Macedo

                       
                                                                                          Joaryvar e Dimas Macedo (1979)

          Em 19 de outubro de 1989, ao tomar posse na Academia Cearense de Letras, deixei escapar esta confissão: “Neto de um expressivo poeta popular e repentista cearense, e vinculado, por relações de parentesco, à linhagem dos desbravadores que construíram a civilização do Cariri, como produtor de cultura, orgulho‑me e jamais poderia desprezar esta minha requintada tradição”. 

        Hoje, contadas as conquistas e os horizontes que em mim se foram armazenando, sinto‑me satisfeito em partilhar da mesma sensação. Cresce, portanto, em mim, a convicção de que as minhas raízes atávicas constituem o intrincado labirinto com que costumo distrair a minha dispersão. 

        Na sala de retratos em que deparo os meus mitológicos ancestrais caririenses, vejo que esses tangedores de gado, provenientes do rio São Francisco, já portavam em suas aventuras as marcas inconfundíveis da determinação, que deles fariam deles uma comunidade familiar respeitada em toda a história de sua região.

        Quando o historiador João Brígido dos Santos, em fins do século dezenove, vasculhava os arquivos da história do Cariri, a esses meus antecedentes já se referia como nucleadores de várias povoações e fazendas de criar, entre todas, sobressaindo‑se aquela denominada Engenho Santa Teresa, fundada pelo capitão Domingos Paes Landim, um dos pioneiros da colonização do Ceará.

         Núcleo originário e socioeconômico das famílias Terésios, segundo observações dos maiores historiadores do Cariri, a exemplo de Irineu Pinheiro e do Padre Antônio Gomes de Araújo, que pesquisaram as suas ori­gens e os primeiros anos da sua formação, o Engenho Santa Teresa, por séculos afora, manteria acesa a temperatura das suas chaminés.

         Deles, os Terésios, ocupar-se-ia o historiador Joaryvar Macedo ao traçar as linhas da sua inculcada genealogia, deten­do‑se na descendência do Capitão Domingos Paes Landim e da sua mulher Isabel da Cruz Neves, ascendentes dos Terésios que hoje se reúnem para proclamar a glória de Antônio Martins Filho e reconhecer o quanto Joaryvar Macedo é um imenso traço de união entre nós. 

       No seu monumental e não por demais relembrado – A Estirpe da Santa Teresa (Fortaleza: Imprensa Universitária, 1976) –, cuja segunda edição ora se dá à estampa, Joaryvar Macedo desvenda a linhagem dessas famílias e nos leva a intuir o que a trajetória dos Terésios pode­ria representar como desafio para os his­toriadores e sociólogos do Ceará.

        Abstraindo‑se o dado genealógico da questão dos Terésios, o que registrou a historiografia sul‑cearense, pertinente aos la­bores nos quais se envolveram muitos dos seus integrantes, a mim me parece constituir algo de substância singular com que a pesquisa histórica e a sociologia política podiam muito bem se entreter.

        Costumo dizer as pessoas que me abordam acerca dos Terésios, que o conjunto das suas aventuras nos per­mite cultuar uma tradição familiar que se arraigou na cultura da região do Cariri, por meio da sua mais forte tradição.


          Em verdade, quando o Coronel Joca do Brejão mandava no Município de Barbalha, Antônio Joaquim de Santana era senhor absoluto em Missão Velha, Felinto da Cruz Neves resistia aos ataques dos seus adversários, em Santana do Cariri, e Marica Macedo do Tipy escrevia, com tintas de destemor e bravura, a chamada “Ques­tão do Oito” em Aurora, parece inquestionável que os Terésios espelhavam a elite mais refinada da República do Cariri.
         E, mais ainda, era evidente o papel dos Terésios quando se divisava que o tenente‑coronel José Joaquim de Maria Lobo era o mentor das irmandades religiosas de Juazeiro e alter ego do Padre Cícero Romão, no período que antecedeu a Floro Bartolomeu, e quando o Município de Aurora se ocupava em produzir um homem do porte de Joaquim Vasques Landim, o célebre Quinco Vasques, que ousou violar o feudo de Dona Fideralina, em Lavras da Mangabeira, escrevendo, aos 7 de abril de 1910, uma das páginas mais palpitantes da história do Ceará.
         Nos velhos tempos da Primeira República, quando o Sul do Ceará parecia um caldeirão, os Terésios ali já se destacavam como uma família deveras singular. Enquanto os clãs patriarcais de Várzea Alegre, Crato, Brejo Santo e Lavras da Mangabeira pareciam sempre preparados para a autofagia do banquete familiar, as distâncias entre os membros das famílias Terésios gradativamente se iam confundindo. 
        Tocar‑se num Macedo, em Aurora, num Lobo de Macedo, em Lavras, num Vasques Landim, em Missão Velha, era colocar o Tipy, o Calabaço e o Santa Teresa em prontidão. Era incrível como a solidariedade presidia a toda uma rica tradição familiar. No Calabaço, por exemplo, o Sítio onde nasci e onde nasceu Joaryvar, existia uma veneração quase sagrada aos nossos ancestrais e aos parentes que se espalhavam pelos demais municípios da região.
        Quando a projeção dos Terésios já não se continha nos limites da atividade municipal, alguns dos seus membros alçaram voo para o alcance de novas conquistas sociais, entre elas o exercício do governo de várias unidades da Federação, postos de destaque na magistratura estadual e federal, desempenho de funções ministeriais e administrativas nos altos escalões da República.
       O ramo que fincou raízes em Barbalha se projetaria com os Martins de Jesus. Quando eles resolveram se despedir das nascentes do Caldas demandaram em busca de Fortaleza para emprestar definitivos contornos à história cultural do Ceará. Antônio Martins Filho para fundar a Universidade Federal do Ceará e ser seu primeiro Reitor; Cláudio Martins para presidir à Academia Cearense de Letras e ao Conselho Estadual de Educação; Fran Martins para coordenar o Grupo Clã de Literatura, responsável pela implantação definitiva do modernismo no Ceará, e para se destacar como a maior autoridade brasileira no campo do Direito Comercial.
       A eles, no papel de engrandeci­mento da cultura cearense, juntar-se-iam os escritores Mozart Soriano Aderaldo, que seria presidente do Instituto do Ceará; Murilo Martins, que presidiu à Academia Cearense de Letras; Joaryvar Macedo e José Denizard Macedo de Alcântara, que seriam Secretários de Cultura do Estado e primorosos his­toriadores. 
         Durval Aires se destacaria como romancista, Martins de Alvarez como um dos nossos melhores e Nertan Macedo como o maior historiador do fanatismo religioso de Juazeiro, do cangaço e do coronelismo da região, ampliando os seus estudos para outros Estados do Nordeste, especialmente como um dos mais respeitados intérpretes da trajetória de Lampião. 
         Primos entre si, não se pode negar que esses homens não tenham atingido um patamar superior no processo de constru­ção do Ceará cultural.
         No Cariri, os Terésios desfrutaram e ainda hoje desfru­tam a fama de haverem gerado alguns dos maiores poetas po­pulares e repentistas da região. O ramo dos Lobo de Macedo foi o mais expressivo neste setor. 
         Meu trisavô, meu bisavô, meu avô e meu pai, por exemplo, sobressaíram-se como trovadores e repentistas. Dentre eles, meu avô, Antônio Lobo de Macedo, conhecido popularmente pela alcunha de Lobo Manso, tem sido reconhecido por folcloristas e historiadores como um dos mais expressivos poetas de ban­cada do Ceará, tendo recebido elogios de Florival Seraine, na sua Antologia do Folclore Cearense, e do grande sociólogo brasileiro Luís da Câmara Cascudo. 
         A eles, por via de consequência, devo boa parte do meu tirocínio inte­lectual e da minha acanhada inspiração. Orgulho‑me, no en­tanto, de terem sido eles poetas matutos, que nunca precisa­ram sair do recinto municipal para se projetar e crescer.
          Quem, mais do que os Terésios, poderia ter contribuído para a cultura do Ceará e para a sociologia política do Cariri? Esta pergunta cabe à historiografia responder. Não me compe­te tracejar conjecturas. Lamento apenas que Marica Macedo do Tipy seja hoje objeto de pesquisa no Centro Interdisciplinar de Estudos Contemporâneos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na série Matriarcas do Ceará, ao lado de Fideralina Augusto Lima e de Bárbara de Alencar, e no Ceará se ignore a sua atuação.
            Marica Macedo do Tipy, Antônio Joaquim de Santa, Joca do Brejão, Joaquim Vasques Landim, Felinto da Cruz Neves, José Joaquim de Maria Lobo e João Lobo de Macedo, entre os mais antigos representantes da família, são símbolos da história po­lítica e cultural do Cariri a quem não podemos deixar de pres­tar o penhor do nosso respeito e a sinceridade da nossa admira­ção. 
        Não falo dos novos nem dos que vieram depois, lembran­do aqui tão‑somente que João Antônio de Macedo (João de Zeca) e Edson Olegário de Santana tornar-se-iam protótipos mais do que acabados do folclore político nordestino. Falo daqueles que devemos cultuar como referências e que nos inspiraram a deci­são de agir, sedimentando em cada um de nós o espírito de solidariedade que preside à convivência na casa dos Terésios.
         A Associação Cearense de Integração dos Terésios, por­tanto, tem a finalidade de congregar esses valores parentais, tem o fito de unir um conjunto de famílias que possui um mar­co genealógico comum e uma série de ramificações, denunci­ando para todos e cada um de nós o quanto é importante culti­var uma tradição, porque o sentido da união e da fraternidade dos Terésios, ainda que desprovido de outras pretensões, não deixa de ter um objetivo a atingir e uma lição a prestar à socie­dade, que é o exemplo da união e da fraternidade parental.
        Para nós que fazemos a Casa dos Terésios, não nos basta a esperança de que o mundo terá que mudar. Conforta-nos saber que o nosso imaginário é um sonho, que a nossa aliança se faz com a contribuição do que somos e com o legado dos nossos austeros ancestrais, todos portadores de méritos e virtudes que ora se tecem projetados na figura exemplar de Joaryvar Macedo, cujo livro, A Estirpe da Santa Teresa, é no momento oferecido aos leitores em sua segunda edição.
         Em verdade, esse livro que ora tenho a honra de apre­sentar, editado pela primeira vez em 1976, permanece até hoje como a mais extensa e criteriosa pesquisa genealógica cearense, sendo o seu autor o nosso maior genealogista, dada a envergadura dos estudos que realizou nessa área específica do conhecimento.
         A linhagem dos desbravadores que construíram a civili­zação do Cariri, especialmente aquela proveniente do Enge­nho Santa Teresa, encravado às margens do rio Salamanca: eis o assunto de que trata esse livro de Joaryvar Macedo, reeditado pelo Programa Editorial da Casa de José de Alencar, graças à lucidez e ao tirocínio do Professor Antônio Martins Filho, ele próprio o mais ilustre e o mais alto descendente dessa monu­mental árvore genealógica.
         Faz‑se agora oportuno registrar que esta edição fac‑si­milar de A Estirpe da Santa Teresa é uma realização, que julgo altamente relevante, da Associação Cearense de Integração dos Terésios (ACEITE), fundada em 31 de março de 1992, dirigida atualmente pelo Dr. Edilson Cruz Santana e da qual tive a hon­ra de ser o primeiro presidente.
       Orgulho-me, é claro, de pertencer à Casa dos Terésios e de ter sido o escolhido para falar em nome de todos vocês, me parecendo justo também registrar que a republicação de A Estirpe da Santa Teresa é a melhor homenagem que a ACEITE poderia prestar à memória de Joaryvar Macedo, que foi aclamado seu Patrono e de quem tenho a honra de ser sobrinho e admirador. Foi ele o primeiro escritor que procurei imitar e aquele que exerceu sobre mim a maior de todas as influências.
        Professor da Universidade Regional do Cariri e chefe do seu Escritório em Fortaleza, Joaryvar Macedo foi ainda membro do Conselho Estadual de Educação e sócio correspondente de várias instituições culturais, nacionais e internacionais, constituindo a sua morte prematura, em 29 de janeiro de 1991, uma tragédia que abalou, profundamente, a historiografia do Nordeste. 
       Em vida, foi Joaryvar Macedo a própria história do Cariri se movimentando, se expressando em gestos e palavras, se dimensionando nas páginas dos livros e opúsculos que nos legou e nos trabalhos esparsos respingados na imprensa caririense e na Revista do Instituto do Ceará, cujas páginas enriqueceu com a originalidade e a percuciência das suas observações.
        Joaryvar Macedo consolidou sua formação cultural estabelecido numa região e tratando quase que exclusivamente da temática histórica do Cariri, o que não o impediu de ter “uma visão histórica do Brasil através da região em que viveu”, segundo a opinião de Murilo Martins.
        Esse grande escritor cearense, sem nenhuma dúvida, foi uma das personalidades mais ilustres da nossa literatura e um dos mais eruditos historiadores do Ceará, cuja formação histórica pesquisou com argúcia de um beneditino.



domingo, 25 de maio de 2014

Lavras da Mangabeira (Àlbum de Lavras)

                Joaryvar Macedo


 


                                                                  Vila de São Vicente das Lavras





               As penetrações pioneiras e a ocupação do solo do médio Salgado, no sul do Ceará, das quais se tem notícia, datam do último quartel do Século XVII. Apossando-se daqueles terrenos, que amanhavam e onde criavam seus gados, os desbravadores, oriundos não apenas de Portugal, mas ainda, e, sobretudo, de capitanias do território pátrio, passaram, posteriormente, a requerê-los aos capitães-mores governadores da Capitania do Ceará.      
               
           Atendidos eles em suas solicitações, as sesmarias doadas formaram os lastros das antigas propriedades rurais. Uma delas chamou-se Mangabeira.

           Quando, aos primeiros anos da segunda metade do século XVIII, se processou, em alguns pontos do sul cearense, a exploração do ouro, esse trabalho estendeu-se a fazenda mangabeira, aliás com resultado insatisfatório. Por esta razão, em 1758 uma ordem régia determinava se sustassem as lavras ou extrações de minérios. Assim, os mineradores tiveram de dispersar-se, indo cuidar das atividades agropecuárias. Na Mangabeira, todavia, permaneceu um aglomerado humano, com o nome de Arraial de São Gonçalo, pouco depois Povoação de São Vicente Ferrer das Lavras da Mangabeira, em virtude de a capela ali construída haver sido dedicada ao famoso taumaturgo dominicano.

             Na sexta década do século XVIII, a povoação já era tida como florescente e em condições de erigir-se em vila. Com efeito, de uma representação da Câmara de Iço, datada de 25 de novembro de 1767, consta a conveniência da sua criação, por já ser o lugarejo assaz povoado e possuir “gente capaz de servir os diversos cargos”. Sua autonomia político-administrativa, entretanto, retardaria por cerca de meio século.

                Em face de uma provisão de 30 de agosto de 1813, instituiu-se a Freguesia de São Vicente Ferrer das Lavras da Mangabeira e, um triênio depois, através de alvará de 27 de junho de 1816, criou-se o município, com a elevação de povoado a condição de vila, sob a denominação oficial de Vila de São Vicente das Lavras, cuja instalação se deu a 8 de janeiro de 1818. Na ocasião, frente à Igreja Matriz, fixou-se o pelourinho, indicador da “supremacia local, sinal heráldico da vila que se erigia”, marcando “a nobreza da sua comunidade política”.

              Decorridos sessenta e seis anos, já instituída a comarca, fato ocorrido em 23 de agosto de 1873, a Vila de São Vicente das Lavras, por força de lei provincial de 20 de agosto de 1884, era elevada a categoria de cidade. Um decreto de 30 de dezembro de 1943 recuperava seu antigo, histórico e evocativo topônimo: Lavras da Mangabeira.

               Da extração do ouro em meados do Século XVIII, precisamente na fazenda da Mangabeira, conforme se registrou, proveio o nome da localidade. Aquele fato dera origem, ali, a algumas lendas, todas ligadas a metais preciosos. Segundo uma delas, por baixo do altar-mor da Igreja de São Vicente Ferrer passa um descomunal filão de ouro. Ali, também, sempre se narraram histórias soterramento de espadas de ouro, de utensílios e depósitos refertos de ouro e prata. Mil fascinantes, entanto, são as narrativas fantásticas envolvendo a caverna do boqueirão, a majestosa garganta aberta na serra, abaixo da cidade, por onde, na época invernosa, tranquilo e belo, passa o Salgado conduzindo a totalidade das águas que descem do sudeste do Ceará.

             Pelos meados do século passado, Lavras possuía muito poucas casas de taipa com frente de tijolo. Só a partir do último quartel daquela centúria, começaram a estruturar-se outras artérias. Eram sobremodo evocativos os nomes das vias públicas do pretérito, que constituem o núcleo antigo da velha cidade: Rua dos Alpendres (atual Padre Alzir Sampaio), Rua do Rio ou Rua da Beira do Rio (a hodierna Cel. Raimundo Augusto), Rua da Praia (depois Santos Dumont), Rua do Meio (atualmente Monsenhor Meceno), Rua do Tabuleiro (posteriormente Major Ildefonso), Beco da Rua da Praia (ao flanco esquerdo da igreja) e Beco da Matriz (ao flanco direito).

             Alguns dos imóveis integrantes do núcleo primevo merecem destaque por suas linhas arquitetônicas: a Igreja-Matriz de São Vicente Ferrer, reconstruída ao tempo do paroquiado do padre Raimundo Augusto Bezerra em ordem a ampliação do templo menor, edificado em 1803, pelo capelão padre Joaquim de Figueiredo Arnaud, no mesmo local da primitiva capela; o edifício da Cadeia Pública, cuja construção remota ao ano de 1877; o sobradinho da rua Mons. Meceno, esquina com a Praça Getúlio Vargas; muitos casarões de residências da gente grada da terra, em geral rebentos da sua antiga aristocracia rural, vários deles pertencentes ainda a seus descendentes. Diversos desses prédios acham-se hoje descaracterizados, alguns inteiramente. Nem todos, porém, sofreram a deplorável ação deletéria da febre reformista.

            As ruazinhas antigas de Lavras da Mangabeira foram testemunhas silentes de importantes eventos sócio-políticos da história provincial cearense e de outros que a estes sucederam, dos quais, ora, se referem alguns, dentre os mais remotos. A partir de 1822, sua população vê crescer o prestígio e influência da vila, através da atuação e projeção do filho da terra e primeiro vigário da paróquia, o padre José Joaquim Xavier Sobreira. Figura de prol dos movimentos libertários na gleba cearense, com assinalados serviços prestados à causa da Independência, esse ilustre levita lavrense, depois de haver sido eleito procurador-geral da Província do Ceará junto ao Conselho de Procuradores-Gerais das Províncias do Brasil, integrou o segundo governo temporário cearense, em 1823, ano em que, também, se elegeu deputado a Assembleia Geral Constituinte.

              Em 1823, aos 27 de abril, por ali transitava, procedente do litoral, e rumo ao Piauí e Maranhão, a tropa chefiada pelo capitão-mor José Pereira Figueiras, com a finalidade de combater João José da Cunha Fidié, que, naquelas plagas, a despeito da proclamação da independência do Brasil, criava empeços à nova ordem estabelecida. Já no ano seguinte, os comandados do mesmo capitão-mor Figueiras, aos 24 de outubro, em marcha para o Crato, ocupavam a vila destruindo o pelourinho substituindo a bandeira imperial pela republicana. Ainda em 1824, lá eram detidas as forças de Pernambuco e Paraíba, fugitivas de suas províncias, em face de esmagação do movimento revolucionário da confederação do equador. Entre os prisioneiros, encontrava-se o idealista e bravo frei Joaquim do Amor Divino Caneca. Dali partiram, escoltados, no dia 16 de dezembro daquele ano, em direção ao Recife.

               Ao tempo de guerra civil absolutista do Coronel Joaquim Pinto Madeira, irrompido no extremo sul do Ceará, no ano de 1832, Lavras serviu-lhe como um dos mais relevantes cenários. Naqueles tropéis de forças antagônicas armadas, agindo, especialmente, todo o meridional da Província, a Vila de São Vicente transformou-se, por vezes, em ponto de concentração e de resistência, sendo, aos 21 de março daquele ano, invadida pelas tropas legalistas.

             Tablado de acontecimentos assim marcantes e, no sul cearense, um dos salientes centros de irradiação dos movimentos a prol da independência pátria, Lavras, nada obstante, apresentava no passado, quiçá mesmo em consequência de toda essa ebulição, aspecto físico pouco ou nada lisonjeiro. Efetivamente, quando em 1838, era visitada por George Gardner, esse respeitável naturalista escocês, fazendo-lhe interessante registro, assegurou, a certa altura do seu depoimento, que a vila “continha de oitenta a cem casas, todas pequenas e muitas caindo em ruínas”. Já em fins de 1859, ao demorar-se na localidade, a célebre Comissão Científica de Exploração encontrou-se “pequena e tristonha, com duas escolas primárias e uma igreja...”.

          Todavia, nas últimas décadas do século em transito até princípios do vigente, Lavras logrou prosperar. Foi quando passou a constituir-se em razoável centro comercial, e as localidades mais próximas se lhe tornaram satélites. Surgiram, então, mais algumas artérias, e as antigas tiveram seus imóveis reconstruídos ou melhorados. Desde essa fase da história lavrense, se regular desenvolvimento econômico, as famílias abastadas se preocuparam mais com o encaminhamento dos filhos aos centros adiantados, onde pudessem habilitar-se para os cursos superiores que não poucos vieram a concluir.

          Essa, outrossim, a época em que Lavras mais se notabilizou pela vigência, ali, de uma das mais célebres e vigorosas oligarquias nordestinas – a família Augusto. Na verdade, alicerçada na casa-grande da fazenda do Logradouro de propriedade de Francisco Xavier Ângelo Sobreira, segundo capitão-mor e comandante-geral da vila e genitor do sobredito deputado José Joaquim Xavier Sobreira, a referida oligarquia, famosa e aguerrida, consolidou-se mercê do irrecusável prestígio do categorizado chefe político major João Carlos Augusto, tronco da supracitada linhagem. Ressalte-se que o domínio oligárquico dos Augustos de Lavras, de singular notoriedade, de marcada atuação e de decisiva influência na atividade política do Ceará, atingiu o fastígio enquanto teve por personagem central a destemida dona Fideralina Augusto Lima.

             A notável matrona sertaneja em apreço, considerada uma das figuras femininas de maior projeção na vida política cearense, fora dotada de tal capacidade de liderança, dominação e influência que entrou até mesmo para o terreno lendário.

            Celeiro de personagens de real valor, de legítimos mandões e oligarcas, Lavras se constituiu, por isso, em cenário de arraigadas rivalidades de origem político-partidária, causadoras de contundentes atos de violência e de funestas lutas fratricidas, responsáveis por seu declínio, após um período de certa florescência, e sua estagnação ao longo de algumas decúrias.

           Hodiernamente, no entanto, a cidade experimenta um novo surto de desenvolvimento. Lá estão para atestá-lo as novas e modernas ruas, praças e edifícios, os estabelecimentos comerciais e os de prestação de serviços, educandários, hospitais, agências bancárias, indústrias, clube ou centros sócio-recreativos e assistenciais, meios de comunicação, entre outros órgãos e entidades que lhe conferem os foros de comuna de fato progressista.

           Registre-se, ademais, que Lavras da Mangabeira ressai, notadamente, qual berço pródigo de um povo operoso e inteligente, bem assim de numerosos filhos insignes. Neste tocante, afirmou o historiador Dimas Macedo: “Dali alçaram voo meninos sonhadores e inquietos que mais tarde se projetariam nas mais diferentes atividades humanas”. Em verdade, naquele chão fecundo, viram a luz do dia conselhos imperiais, ministros e secretários de estado, líderes políticos de nomeada, senadores, deputados, desembargadores, professores universitários, sacerdotes, cientistas, escritores, poetas, artistas, militares, médicos, advogados e, em, suma, profissionais liberais em profusão e em todas as áreas, podendo-se, enfim, contar algumas centenas de graduados, vindos ao mundo sob aqueles céus.

            Os lavrenses, ilustres ou não, como os demais bons filhos das boas terras                 ardorosamente s gleba dadivosa e bela do seu nascimento e se enternecem, fascinados por sua história, suas tradições e suas lendas. E os ausentes, quando retornam, no silêncio de sua tranquilidade interior, comovidos e agradecidos, como o poeta Linhares Filho, bendizem o torrão natal, em amorável e terna confidência:

              “Nossa Terra! Antes de seres Lavras da Mangabeira, foste a Mangabeira das Lavras, revelando-se bem tua natureza de árvore, natureza pela qual, completando o aconchego de colo materno do chão, abrigas, refrescas com tua sombra e alimentas com os teus frutos os teus filhos e os que moram em ti, como a extinta Mangabeira anciã, que acolhia os teus primeiros povoadores e os viajantes que passavam por teu solo. Posta em boa hora nos trilhos do progresso estás, no entanto serás sempre a doçura e singeleza da nossa eterna infância, o reencontro de nós mesmos, cansados e desfigurados pelos caminhos enganosos da vida, nós que vimos a ti, materno seio, para a queixa e o alívio”.