terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A Questão Eleitoral e o Judiciário


      Dimas Macedo              

        As fraudes eleitorais, no Brasil, continuam decorrendo dos absurdos da legislação e da distorção com que a Justiça Eleitoral vai confirmando no poder uma elite política cada vez mais criminosa. Os partidos falam em financiamento público das campanhas, mas esquecem que a corrupção que nasce desde a existência do Fundo Partidário e dos valores que decorrem das liberações do Orçamento, já são o usufruto de uma engenharia vergonhosa.

         A corrupção no Brasil, neste ponto, está oficializada, e de forma que as propinas das obras licitadas, como no caso do Petrolão e de outras quadrilhas dessa natureza, já seriam a permissão de um ajuste de contas, culminando com a extorsão e um crime de maior gravidade, porque fundamentados numa máfia que desafia a lógica do Poder.

         Um charco, uma cloaca, uma situação asquerosa e abjeta, uma trapaça ou um jogo que se joga na vala de algum prostíbulo: tudo isso perfaz o objeto da corrupção dos partidos políticos brasileiros.

         O sistema político no qual nos inserimos é um antissistema todo ele eivado de dislexias, de impontualidades e de exceções que terminam não confirmando as regras. Daí as reticências do Poder Judiciário; daí a inclusão de todos os partidos num mesmo caldeirão; daí a existência permitida da fraude em todo o espaço desse tabuleiro.

          A representação e a questão eleitoral e partidária são pontos de estrangulamento da nossa Reforma Política. Vivemos um verdadeiro Estado de Exceção nessa seara, e os poderes Judiciário e Legislativo ainda não nos deram um caminho, pois sempre que avançam, recuam, ou, quando não recuam, jogam para o eleitor um retrocesso, porque a crise política brasileira, desgraçadamente, não é uma crise constitucional, mas constituinte, crise da empáfia e do personalismo.

          Não temos, no Brasil, uma lei eleitoral definitiva. A instabilidade e a imprevisão são os faróis que, a cada eleição, vão sendo acesos para caçar os incautos ou para abrir uma janela para a fuga, em demanda dos partidos de aluguel ou dos partidos criados para agradar ao presidente de plantão.

          A infidelidade partidária é uma tentação e uma prática nefanda. As leis e as decisões da Justiça Eleitoral são modificadas pelos interesses daqueles que se vão acomodando nos postos de comando. Se as cláusulas de barreiras já foram, no Brasil, uma conquista, hoje elas são peças de museu, que permitem a sobrevida dos partidos pequenos que nascem para agradar os donos do poder ou recolher as migalhas do Fundo Partidário.

         O Supremo Tribunal Federal proibiu, recentemente, as doações de pessoas jurídicas para o processo eleitoral, mas o Parlamento também não indicou, de forma coerente, que os financiamentos devem ser abertos e que os lobbies devem ser divulgados, como nos países de maior firmeza democrática.

          As formas de claridade da Democracia exigem o conhecimento daquilo que se joga nos bastidores de uma disputa pela posse da máquina política. O “caixa dois” e as “sobras de campanha” são resíduos infecciosos e crimes eleitorais que necessitam ser eliminados; são tumores malignos do poder político brasileiro; são imperfeições que precisam ser corrigidas pela lei eleitoral e pelo Poder Judiciário.

          Mas que Poder Judiciário de grau superior temos em Brasília? Que balcões de negócios se erguem ou se dissolvem pela sutileza nos corredores jurídicos do Planalto? Que trapaça se arma em Brasília, em muitos gabinetes?

          A burocracia e as procrastinações, no âmbito do Poder Judiciário, são a retórica e o abuso com que os magistrados e os operadores do Direito se lançam no discurso da não-decisão e na frieza das suas convicções elitistas, que não respondem ao clamor da Pós-Modernidade.

          São atitudes criminosas contra o Humanismo e os Princípios da Constituição; constituem parte da Corrupção, por meio da interpretação, como já esclareci no meu livro Direito Constitucional (Rio: Lumen Juris, 3ª ed., 2020); são golpes de poder contra o Estado de Direito.

           No Brasil, a Soberania da Constituição tem sido atacada, também, por essa mentalidade predadora; por essa miopia que não enxerga o universo sistêmico do Direito e as relações de alteridade que se tercem entre as necessidades e as aspirações de Justiça dos marginalizados.

          O discurso jurídico brasileiro, em algumas das suas práticas mais obtusas, é tão enfadonho e verboso quanto o discurso parlamentar e partidário. E como se isso não bastasse, o excesso de recursos tem sido, entre nós, uma lástima, quando, na realidade, precisamos apenas de algumas regras recursais que possam ser obedecidas por todos, com as garantias que a Constituição já nos oferece.

         Pensamos, também, que a inserção do STF na estrutura do Poder Judiciário, e não como Corte Constitucional e poder de moderação ou de equilíbrio entre os demais poderes, é uma incongruência no corpo da Constituição, servindo, tanto mais, como balcão de negócios e de proteção para autoridades.

         Diante da existência do STF como órgão de proteção do colarinho branco, fica-nos a impressão de que a corte constitucional brasileira se encontra, talvez, sufocada ou, quem sabe, refém de toda a nossa crise jurídico-política.

          Onde, no Brasil, reside a Justiça para os pobres? E para onde fluiu o Direito Constitucional dos Oprimidos? Pensamos que apenas o Direito Constitucional de Lutas e de Resistência e a Desobediência Civil serão as formas de Direito que irão servir, no futuro, ao tecido político da Nação, já tão corroída pela fraude e a corrupção. 

           Defensores que somos da Constituição Material, temos a convicção de que os parlamentares e ministros e aqueles que cometem crimes de conexão com esses titulares de cargos de maior escalão, não deviam usufruir da Prerrogativa de Foro, uma categoria política que já não se enquadra nas constituições dos dias de hoje.

            A criação de uma Vara Criminal, em Brasília, para julgar esses malfeitores, como já proposto por um ministro do Supremo, não nos parece uma solução adequada. A justiça federal comum, que tem como cúpula o Superior Tribunal de Justiça, já se prestaria a esse papel. E no ápice do processo já temos o Supremo Tribunal Federal para resolver os desvios constitucionais acaso cometidos.

            Como instância original para o processamento de autoridades, é que o Supremo Tribunal Federal não deve permanecer. Essa competência, de configuração tanto mais ordinária, enfeia a nossa corte máxima e desvirtua o Guardião da Constituição. Bastam-lhe as competências recursais ordinárias e seu Recurso Extraordinário, pedra de toque da Constituição.

          Assim sendo, urge que possamos pensar o Brasil de uma forma totalmente nova, mas não contra o texto da Constituição, que é a nossa maior garantia. A Reforma Política que propomos é, de partida, um artigo jurídico precioso, um Princípio que não se pode postergar, uma urgência de primeira linha, com a qual se devem costurar todas as reformas.  
        
          Mas o Brasil não necessita apenas de uma Reforma Política; espera das suas elites uma revisão das suas práticas criminosas e a mutação do seu discurso jurídico, especialmente aquele de caráter judicial e decisório, estuário por onde a Constituição se derrui e a norma de Direito se transforma em norma de Poder, outorgada por quem apenas defende os privilégios e os valores da corrupção.

           O Direito de Cidadania e de Mudança Política ao qual aspiramos, infelizmente, não é uma dádiva do Estado; será uma conquista de todos ou nunca seremos um Estado Social de Direito.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Poética da Esfinge

    Dimas Macedo


             Uma nuvem densa de poeira cósmica inclinou-se um pouco para reverenciar o enigma que dali se erguia e o céu encobriu-se de azul para que os sinais ali aparecessem com toda a claridade. E a iluminação que dele irradiava deixava-o de modo a predizer profecias, a ruminar obstáculos, a erguer a voz até onde o silêncio se fizesse presente, até onde o amor fosse a expansão de todos os deuses prematuros.

          A solidão que dele se erguia estava muito próxima do sol.  Estava muito próxima de Deus. Estava ali a sufragar a permanência de uma oferenda simbólica. A que vinha do mais sólido castelo interior, da mais branca anatomia da alma. E ele tinha a certeza do que anunciava a cada ligação que fazia, a cada compressão do corpo sufocado pela falta de oxigênio.

           Sentia-se impotente quando queria escrever. Começava a falar e a voz chegava na garganta sempre embargada. Lembrou-se então de um sonho antigo que o atormentava e que um déspota assumira o poder para distrair sua cabeça atrabiliária, coroando de ócio a sua dança de equilibrista.

           Pensou em soerguer de uma vez por todas a lassidão que se depositava em seu corpo, mas não conseguia se livrar do aconchego da sua sentinela. Aumentou, então, a vigilância e descobriu que estava em estágio de lucidez permanente, vez que juntando os conhecimentos vários que ia armazenando, tinha construído uma utopia fantástica para explicar uma explosão iminente.

          O sonho entrara pela segunda janela da alma. O fio da linguagem se inoculara entre as vértebras do aparelho abdominal. Doía-lhe o coração cravejado pelas espadas do apocalipse. E enquanto se ia distraindo viu um pássaro pousado no fio do telégrafo, uma andorinha fazendo verão em seus lábios, um corpo de mulher estendido diante da solidão dos seus olhos.

           Não era possível que o primeiro tanque de guerra não estivesse nas ruas e que a praça, ali em frente, não estivesse contaminada por uma doença invisível. Erradicou da alma a sonolência, sacudiu os chinelos quando atravessou a última cancela e pressentiu que uma multidão viria abraça-lo a partir do mês de agosto, o tempo onde costumava plantar algumas sementes de paixão, alguns alqueires de dor, alguma esperança concreta que florescia no outono seguinte.

           A Associação dos Esculápios da Alma e a Margem Oculta do Rio Invisível da Face levantaram um brinde ao cavalheiro que ainda permanecia de pé, com o brasão do sol no lado esquerdo do peito, e cantaram matinas de amor para incensa-lo. Queriam uma placa de ouro para ele. Mas ele quis apenas a luz que se escorregava no silêncio, porque o seu arquétipo era uma lâmina de punhal bastante fecundada, com a qual removia a pátina de lodo que escorria pelo algeroz do enigma, pelo rosto compacto da esfinge, pela ilusão das vidas que não havia criado.

            Escalou em seguida as pirâmides que os esculápios lhe haviam armado no deserto e dedilhou as cordas de uma explosão desejável, a que não faz barulho, a que caminha pelo coração dos ouvintes, a que ressoa na camada ótica do asfalto e um dia será ouvida pela melhor assistência.

          E a inclinação da nuvem que passava tomava o sentido de uma alegoria festiva, tal a policromia de luzes que se desenhava no horizonte distante. Viu, então, que a luz era o anúncio de uma profecia e concluiu que a lágrima que escorre do olho esquerdo do anjo não é surreal como se imagina. É um sinal, talvez, de que estamos felizes e a felicidade é uma eterna nuvem passageira.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Fideralina - A Matriarca de Ferro

Dimas Macedo


           A poesia popular do Nordeste é uma das grandes expressões da cultura brasileira. Se diferencia da poesia erudita pelo acento melódico da sua sonoridade. Destaca-se por ser uma poesia rematada e escandida, e por ser uma forma de criação literária que se vale da metrificação e da rima, e da riqueza do vocabulário.

          Pertence a Poesia Popular ao gênero do Cancioneiro e das Cantigas de Gesta que exaltavam os guerreiros na Idade Média. Daí, o seu sentido heroico, a sua construção ritmada e a sua aproximação com o armorial, que é a cultura popular elevada ao plano da erudição.

          O folheto de cordel e a cantoria distinguem-se na área da poesia popular: o primeiro, caracteriza-se pela reportagem, o resgate da memória e a glorificação dos feitos e personagens de valor histórico; já, a cantoria, possui no repente e no improviso os elementos da sua força criadora.

        Geraldo Amâncio tem se destacado, no Ceará e no Nordeste, como um dos nossos melhores cantadores e como um dos pesquisadores mais respeitados da nossa poesia popular.
         Viajou pelo Brasil e o mundo em busca de um mesmo sentido: o som das cantorias, as suas formas armoriais e os traços essenciais da sua expressão em diversos países. Mas eis que sempre retorna ao seu velho torrão – o Ceará.

         Geraldo tem dezesseis discos gravados, incluindo várias parcerias, e alguns livros publicados, dentre eles, enumerando-se os seguintes: De Repente Cantoria, A História de Antônio Conselheiro, Cantigas que Vêm da Terra, Gênios da Cantoria e Assim Viveu e Morreu Lampião, Rei do Cangaço.

          No seu livro O Beato José Lourenço, o Caldeirão e a Matança dos Romeiros (Fortaleza: Prêmius, 2017), com o seu talento de poeta, Geraldo Amâncio resgatou um dos episódios mais desumanos da história do Nordeste, que foi a destruição da comunidade do Caldeirão pelas forças reacionárias da nossa elite política.

          Agora, voltando-se mais uma vez para região do Cariri, Geraldo Amâncio conta a história da conhecida coronela de Lavras da Mangabeira, cujo perfil biográfico foi por mim tracejado em Dona Fideralina Augusto – Mito e Realidade (Fortaleza: Armazém da Cultura, 2017).

          No seu novo livro, Fideralina Augusto – A Matriarca de Ferro (Fortaleza: Expressão Gráfica, 2018), Geraldo Amâncio escreve o poema mais expressivo do cancioneiro de Dona Fideralina Augusto, mostrando-nos que a sua trajetória e as suas ousadias deram-lhe, com certeza, uma tradição memorável.


           Trata-se de livro arquitetado com a erudição e o talento de um grande poeta, cujo repente o eleva nas páginas da nossa história literária, celebrando, de último, a memória de Fideralina Augusto, a nossa Matriarca de Ferro, que tanto de projetou na história política do Brasil.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

No Instituto Cultural do Cariri


       Dimas Macedo 


          2017 foi um ano proveitoso para a minha missão de escritor. Fugi o quanto pude das academias e dos seus rituais enfadonhos, mas terminei refém do Instituto Cultural do Cariri, a cuja sedução me rendi, na mesma proporção quanto o desejei, assim como seguimos a alma de uma bela mulher.

           Não postulei nenhuma das cadeiras existentes no ICC, mas aquela de número um, da área de Filosofia, me foi destinada pela conspiração de alguns amigos, entre os quais, João Tavares Calixto Júnior, Heitor Feitosa Macedo e Emerson Monteiro.

          Ali tomei posse com um discurso feito de improviso, ao ensejo do lançamento, no Crato, do meu livro Dona Fideralina Augusto – Mito e Realidade. Não me lembro daquilo que disse na ocasião, mas é certo que o coração tremeu e as pernas saíram do lugar.

          Percebi a presença de Joaryvar Macedo no plenário, e na alma ecoaram as palavras de Antônio Martins Filho recitando os poemas de Augusto dos Anjos, do Cego Aderaldo e de José de Mattos.

           Afundei no passado, assim como descemos nas águas de um rio, e ressurgi na Praça da Matriz, em Lavras da Mangabeira, levado pela poesia de Filgueiras Lima, o maior poeta das canções de ritmo de todo o Ceará, e meu patrono naquela casa de cultura.

           Por ser nova a cadeira que passei a ocupar, nela sentou-se apenas José Humberto Tavares de Oliveira (poeta e professor, assim como o autor deste texto), filho da cidade do Crato e descendente dos Tavares Filgueiras do Município de Lavras, de onde provieram os seus pais.

           Autor de livros como Pintos de História do Brasil (trovas, 1979) e Versos de Saudade (poemas, 1999), nesta trilha, seguiu os passos do seu primo, Filgueiras Lima, e com ele bateu-se pela Educação, em Fortaleza, e como estudante, no Ginásio do Crato.

           Ambos foram grandes como educadores e intelectuais e como seguidores de Antônio Martins Filho. Não sei se conviveram com Joaryvar Macedo, mas aposto que se orgulhariam, se vivos estivessem, do talento incomum desse grande lavrense.

            O Instituto Cultural do Cariri faz lembrar as figuras de Irineu Pinheiro, de J. de Figueiredo Filho e, especialmente, do Padre Antônio Gomes de Araújo, o autor corajoso de O Apostolado do Embuste e de outros escritos ancestrais que fizeram do sul do Ceará um território glorioso.

           Teria o Padre Antônio Gomes escrito ou influenciado a redação do livro de Otacílio Anselmo Padre Cícero – Mito e Realidade, ou o mundo de J. de Figueiredo Filho seria realmente uma Farmácia? Pereira Filgueiras seria maior do que Tristão Gonçalves ou, pelo contrário, qual o historiador do Cariri mais fiel às fontes de pesquisa?

              O Cariri é um enigma. O sul do Ceará é uma região aquartelada, e da Chapada do Araripe até o Boqueirão de Lavras, corre o sangue dos heróis que deram significação ao Ceará, desde os índios da Nação Kariry até a saga dos mineradores; desde os tangedores de gado do meridional até as guerras da Independência e da Confederação do Equador.

              Onde mais existe o Cariri? Na rebeldia de Bárbara de Alencar, em 1817, na saga poética de Patativa do Assaré, no engenho fabuloso construído pelo Padre Cícero, nos milagres de Maria de Araújo, na Sedição de Juazeiro e na prepotência dos seus coronéis, no sacrifício de José Lourenço e na eliminação do Caldeirão, e na mente, algo diabólica, do Padre José Martiniano.

              E se nada existe para além dos historiadores, louvo, neste texto, o gênio absoluto de Joaryvar Macedo, que no ICC, de primeiro, me antecedeu, e que, contra o ICC, se rebelou, para fundar a historiografia do futuro em todo o Cariri, e porque, no Nordeste, ele foi o maior dos genealogistas.

             Volto para o Cariri sempre que regresso a Lavras da Mangabeira, a terra, certamente, onde não nasci e o osso mais difícil de roer, em toda a minha vida, a terra do meu coração e o berço antológico dos meus pais, pelos quais, agora, sinto um desejo imenso de matar alguém e de esquecer, para sempre, a velha Princesa do Salgado.
       

                                                                                                  Fortaleza, dezembro de 2017

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Literatura no Ceará

       Dimas Macedo


           A literatura cearense acha-se razoavelmente estudada pela historiografia e pelos aportes da crítica e do ensaio literário, graças, principalmente, aos esforços de Dolor Barreira e Sânzio de Azevedo. O primeiro debruçou-se sobre as suas fontes, documentadas por historiadores de outras áreas do conhecimento, e o segundo, fez a condensação de todas essas fontes, sistematizou aquilo que passou ao largo das visões superficiais, e deu à nossa história literária, o seu critério de cientificidade e rigor metodológico.

            Sânzio destaca-se, ademais, pelos estudos sistemáticos dedicados a instituições do nosso passado literário e pelos seus ensaios acerca de poetas e prosadores de talento, cujas produções elevam-se por sua importância e pela qualidade.

            As contribuições de Otacílio Colares (Lembrados e Esquecidos), Artur Eduardo Benevides (Evolução da Poesia e do Romance Cearense), Braga Montenegro (Natureza e Evolução do Conto Cearense) e aquilo que registrei nos meus livros Leitura e Conjuntura (1984), A Metáfora do Sol (1989), Crítica Imperfeita (2001) e Ensaios e Perfis (2004) constituem, igualmente, fontes que merecem ser repassadas.

             A partir da década de 1970, quando foi publicado o livro Literatura Cearense, de Sânzio de Azevedo, o Curso de Letras da UFC passou a assumir uma vanguarda nesse campo de estudos, especialmente naquilo que interessa à análise e interpretação da obra dos nossos escritores, feitas, inicialmente, pelos seus professores e, posteriormente, pelo seu corpo discente.

           Ali foram divulgados ensaios e teses de mestrado sobre a produção de autores do porte de Francisco Carvalho, Moreira Campos, José Alcides Pinto, Eduardo Campos, Artur Eduardo Benevides, Pedro Lyra e Rachel de Queiroz; e pesquisas sobre instituições como a Padaria Espiritual e o Grupo Clã.

            Difundiu-se, também, no Curso de Letras da UFC, a realização de seminários e a formação de grupos de pesquisa que dirigiram os seus olhares para a literatura cearense, atividade exitosa de que é exemplo o livro que ora se publica – Percursos da Literatura no Ceará (Fortaleza: Expressão Gráfica, 2017), o qual constitui um dos melhores conjuntos de ensaios sobre a nossa produção literária.

           O livro comporta uma visão panorâmica, contemplando escritores de todas as idades, cujas obras, indiscutivelmente, têm a sua relevância e clamam pela sua interpretação e leitura, cabendo, aqui, ressaltar os exemplos de José de Alencar e Juvenal Galeno, os dois escritores cearenses da minha maior predileção.

          As releituras de A Normalista, de Adolfo Caminha, e Dona Guidinha do Poço, de Oliveira Paiva, pagam tributos à transição de nossa literatura e ao salto de qualidade com a qual ela se impôs, na virada do século dezenove para o século vinte, onde o realismo se fez uma presença mais do que marcante, tendo-se em vista, fundamentalmente, a produção destes romancistas.

           Os ensaios dedicados à obra teatral de Carlos Câmara e Eduardo Campos – induvidosamente, os nossos maiores teatrólogos – chamam a atenção do leitor. A importância destes escritores, para além da qualidade das suas criações, reside num ponto que considero de vital importância: a exposição dos nossos costumes e a denúncia das nossas contradições, no plano social.

            No âmbito de todas as culturas, situam-se o mito e a parlenda, a carnavalização da história e os engenhos faustosos do picaresco, que, às vezes, nos levam ao armorial. Nesse caso, um dos artigos reunidos se volta para essa seara, aí contemplando as astúcias e artimanhas de João Grilo, tecidas por Arievaldo Viana e Francisco Melchíades.

          A ficção de Rachel de Queiroz, Moreira Campos, Airton Monte, Socorro Acioli, Jards Nobre e Caio Porfírio Carneiro, e a poesia de Roberto Pontes aparecem expostas neste livro, em menor ou maior proporção, destacando-se, entre os ensaios reunidos, um panorama da crônica cearense, traçado por Maria Lílian Martins de Abreu.

          Fernanda Diniz, de sociedade com Alexandre Vidal de Sousa, Fernângela Diniz da Silva e Francisco Wellington Rodrigues Lima, cuidam da organização do volume Percursos da Literatura no Ceará, e nos dão, desta forma, um testemunho de amor aos nossos escritores.

          Trata-se de livro produzido no âmbito do projeto Ceará em Letras, que é o marco, talvez, de maior expressão da nossa pesquisa literária, nos dias atuais, e a cujas raízes ligam-se os nomes de Fernanda Diniz e Jailene de Araújo Menezes.


           Irmano-me com os organizadores desse livro e a todos agradeço o convite para escrever o seu prefácio. Recebo-o como homenagem ao trabalho de pesquisa que realizei, tendo como foco a nova literatura cearense, pois de outra forma não saberia entender a deferência.

Lavras da Mangabeira - Contos e Poemas

           Dimas Macedo
         

           A Escola de Ensino Educacional e Profissional Prof. Gustavo Augusto Lima, de Lavras da Mangabeira (CE), não produz apenas conhecimentos em matéria de Aquicultura, Agroindústria ou Agropecuária, conforme a sinonímia dos seus objetivos.

          Sabe que a literatura é um ato de transformação e de coragem, que a escritura é uma existência pressuposta na raiz das nossas emoções e sentimentos, e que nos recessos mais profundos do nosso inconsciente, reside uma camada de luz e de mistério, a qual precisamos cavoucar com a força da palavra.

           A literatura é a forma mais poderosa de recriação e de reconstrução da nossa existência e da realidade que nos cerca com os seus dramas e apelos. A literatura nos traz o cheiro gostoso da palavra, e nos faz revisitar a vida que abandonamos a cada passo da nossa caminhada.

          Fazemos literatura para que possamos ser modelos de inspiração para quem nos lê, para que possamos tocar profundamente o coração humano com aquilo que escrevemos, “para que sejamos uma canção nova” ou “um sopro de vida através da arte da escrita”.

      É com estas palavras, e sentindo-me honrado com o convite da Professora Sara Holanda Laurindo, que apresento a IV Coletânea de Contos e Poemas produzida por professores e alunos da Escola de Ensino Educacional e Profissional Prof. Gustavo Augusto Lima, de Lavras da Mangabeira, em 2017, dando-nos estes novos escritores a sua contribuição para os prazeres da literatura.  
           
          Os textos, em prosa e verso, são excelentes em face das suas qualidades e da forma com que foram revestidos. Testemunham aspirações e desejos de uma comunidade e dos seus integrantes, todos envolvidos com os valores da Esperança e do sentido de Ética e de Justiça.

           Falam de sentimentos e homenageiam a terra que me serviu de berço, referindo-se, igualmente, a alguns dos seus personagens, como é caso de Dona Fideralina Augusto, a célebre matriarca dos sertões do Salgado, que tanto se projetou na história política do Nordeste.

         Entre os escritos que integram essa antologia, ponho em relevo os textos que enfocam as comunidades de Mangabeira e Amaniutuba, mas não deixo de perceber, em toda a estrutura do livro, que o sentimento, a emoção e o afeto andam de mãos dadas com a reflexão e com o desenvolvimento da mentalidade e a da cultura pedagógica.

          A idealização desse livro e a sua concretização, devemos ao espírito inquieto de Sara de Holanda Laurindo e Maria Daniela Alencar, mas aqui não podemos esquecer a participação dos professores Talita Mello, Vinícius Brunno e Sarah Denise. A arte visual de Israel Calten e o trabalho do núcleo gestor e dos coordenadores, liderados por Rivandi Leandro Costa, Andreza Gonçalves de Sousa e Francisco Monteiro de Sousa, devem, igualmente, ser postos em relevo.

            Pondo-se o olho no sumário no livro, aí já podemos perceber a dinâmica que preside o seu processo de montagem, no qual os alunos aparecem irmanados com os seus professores, mostrando-nos que a literatura é uma arte que prima pela superação das barreiras entre o popular e o erudito, revelando-nos o gosto da linguagem que se tece no nosso inconsciente.

Bruno Paulino - A Menina da Chuva


 Dimas Macedo


           Chovemos de alegria quando a palavra renasce, ou quando o sol se apresenta na nossa janela, anunciado a chegada do novo. A lua clareia o nosso esquecimento e a chuva nos redime diante da memória, refletindo em nós a incerteza dos nossos idiomas.

          Existiríamos, afinal, se não fosse a força da palavra ou a nossa vontade de potência? Seríamos o que, se não pudéssemos ouvir o canto de um pássaro ou o silêncio da chuva, tamborilando na nossa consciência?

          Seria mesmo o vento aquilo que anuncia a chuva? Ou seria a chuva uma menina que nasce, saltitando como um passarinho? Seria a Literatura um ninho de avoantes, Lá nas Marinheiras, ou seria a escritura uma rede que nos faz sonhar com A Menina da Chuva?

         Uma luva: eis um pouco daquilo que a palavra enobrece. Eis como se tece a espessura de um livro: um siso, talvez, retirado da boca de um Anjo, ou de um Arcanjo de gestos femininos, tais aqueles que Bruno Paulino projeta para os seus leitores.

         Bruno Paulino, com A Menina da Chuva (Fortaleza: Expressão Gráfica, 2017) usa de tal forma o vocábulo que nos faz cativo do seu texto. Não o leio de supetão; leio-o de sofreguidão e de ternura, alisando uma ostra com os dedos e sentindo gosto do texto literário que a sua palavra reinventa.

          Ponho água benta no bolso e lambo com o rosto a linguagem da sua tessitura. A ternura de Bruno Paulino é uma língua e as suas viagens passam pela prosa, onde uma rosa se põe em cada persona que traceja, e uma bandeja de linho recolhe aí as suas vestes.

         A literatura de Bruno é uma coisa rara que nos traz de volta para a vida. É como se aí existissem a despedida e o regresso, a crosta de um verso ou um cabrito saltitando na neve.
         Bruno Paulino e A Menina da Chuva colaram em minha língua o sêmen de uma ostra e untaram meus dedos de mel e porcelana. Passei uma semana na rede, sentindo uma paixão intensa pela arte.

          E, de parte a parte, enquanto lia o seu texto, um rouxinol cantou para mim uma canção de gesta e de estio. Fez-se um frio morno em minha pele e eu sonhei que estava flutuando nas águas de um rio.

         Senti febre e frio lendo o texto desse grande poeta, desse esteta de coisas impassíveis, como se legíveis fossem os tecidos da sua urdidura polifônica. Resolvi, então, escrever uma crônica para Bruno. E decidi, também, que sou uma Menina que tem uma dúzia de uvas no banheiro.

           A Menina da Chuva é um livro plural e pioneiro. Trata-se de um rosário nas contas de um terço, e de um livro mais claro que escuro. Ouço vozes, às vezes, quando tento esquecer a sua arte. Face a Face, eu compreendo A Menina da Chuva qual um jogo, qual a tela gráfica na boca de um rifle.


           Bruno Paulino é um escritor travesso. Tem um berço, uma louça e um camafeu de prata. Senta-se em cadeiras altas e faz literatura com gosto.