domingo, 29 de agosto de 2021

Memento Para Cristina Couto

                                                                         Dimas Macedo

   

          Cristina Maria de Almeida Couto é natural de Lavras da Mangabeira - CE (06/05/1963). Filha de Benevenuto Teles Couto, Engenheiro Agrônomo, e da professora Marilê Ferro de Almeida Couto, sendo seus avós paternos, Francisco Teles Couto e Júlia Alves Couto, naturais de Jardim (CE); e avós maternos, Antônio Augusto de Almeida, nascido em Sousa, na Paraíba, e Ana Ferro de Almeida, proveniente dos Inhamuns.

         Durante nove anos (a partir de 1971), morou no Posto Agropecuário do Sítio Volta, mudando-se depois para a residência oficial do Colégio Agrícola de Lavras da Mangabeira, instituições das quais seu pai foi diretor, guardando Cristina lembranças desses universos, especialmente, das casas espaçosas, arborizadas e muito confortáveis.

         Estudou as primeiras letras em sua terra natal, sendo alfabetizada por sua prima, Elzanê Férrer de Almeida, na residência do seu tio-avô, o poeta Manuel Augusto de Almeida, (Nequinho), que, possuidor de vasta sabedoria, ficava na sua cadeira de balanço observando o movimento escolar ao seu redor, onde três de suas filhas destacavam-se como professoras.

         O Vigário da Paróquia de Lavras, Padre Alzir Sampaio, em 1971, fundou o Colégio São Vicente Ferrer e entregou sua administração às Irmãs Beneditinas, oriundas de Olinda (PE). Cristina Couto cursou, nesse educandário, o segundo ano primário, ali permanecendo até concluir a oitava série do Ginasial, em 1977.

         Em 1978, passou a cursar o Científico na cidade do Crato, estudando no Colégio Diocesano e residindo no Colégio Santa Teresa, mudando-se para Campina Grande (PB) em 1979, para concluir o Segundo Grau.

         Em 1981, foi morar em São Paulo, onde começou o Curso de Comunicação Social, na Universidade Metodista de Piracicaba, lugar da sua residência. No ano seguinte, transferiu-se para a Fundação Universidade Regional do Nordeste (FURNE), em Campina Grande (PB), ali cursando um semestre e indo morar em Fortaleza, na época, já casada com o jornalista e radialista Evandro Nogueira.

         Dessa união, nasceram os filhos: Tícia Maíra Nogueira de Almeida Couto, Cientista Política, que trabalha no Congresso Nacional; e Evandro Nogueira de Almeida Couto, Psicólogo, lotado na Secretaria de Desenvolvimento Agrário do Estado, casado com Débora Diniz Mendes de Almeida Couto e pai de Levi Diniz Mendes de Almeida Couto.

         Em 2000, já com os filhos criados, voltou-se para as coisas da Cultura, universo no qual sempre gostou de viver, dedicando-se aos estudos e às pesquisas, aí começando a sua luta, junto com outros conterrâneos, pela preservação do Patrimônio Histórico e Arquitetônico da sua terra natal.

         Trabalhando com o apoio de lideranças culturais, institucionais e políticas, consegui o tombamento de sete prédios de significativo valor histórico para o seu Município e o Cariri, aí incluindo-se a Estação Ferroviária, a Casa de Câmara e Cadeia, e a Casa de Dona Fideralina Augusto, em Lavras da Mangabeira.

          Nos anos seguintes, conclui o Curso de Comunicação Social e Pedagogia, fez pós-graduação em Marketing Político, Assessoria de Comunicação e Metodologia do Ensino Superior, e mestrado em Jornalismo Cultural.  Já, em 2014, ingressou no Mestrado em História da Educação Comparada da Universidade Federal do Ceará, onde cursou todas as disciplinas, fez a Qualificação e o exame de Proficiência, sempre obtendo nota máxima.

         Cristina, no entanto, abandonou o curso por descobrir sua vocação para a História e que o ensino acadêmico exigia dela conhecimentos que julgou desnecessários para sua vida, ouvindo, na época, do seu amigo Jeová Batista de Moura (In Memorian) que ela, Cristina, para morrer analfabeta, já era escolarizada o suficiente.

       Em 2006, trabalhou como assessora política da Vice-Prefeitura de Fortaleza, sendo aí articuladora de Promoção da Igualdade Racial, fazendo, nessa época, o mapeamento das Comunidades Quilombolas do Estado do Ceará, em 2007.

       Depois, tornar-se-ia Assessora de Comunicação da Câmara Municipal de Fortaleza, funcionando, a partir de 2009, como Assessora Parlamentar desse mesmo Poder, atuando em várias Comissões, entre as quais, a Comissão do Meio Ambiente e Moradia

        Nos anos de 2008 a 2010, foi interlocutora do Consulado de Portugal em Fortaleza e promotora e coordenadora de eventos lusófonos realizados no Ceará, em parceria com instituições como a Câmara do Comércio Brasil - Portugal, o SESC, Câmara Municipal de Fortaleza, Associação Mares Navegados, CPLP e IMPARH.

        Nos anos de 2010/2012, foi professora titular de Cultura Brasileira e Problemas Sócio-Econômicos, na Faculdade Evolutivo, de Fortaleza, sendo, igualmente, docente do Ensino Superior no Instituto Dom José de Educação e Cultura, onde lecionou História da Arte e Metodologia do Ensino de História.

        Em 2013, a convite do prefeito Gustavo Augusto Bisneto, assumiu a Secretaria de Cultura, Esporte e Turismo de Lavras da Mangabeira, ali ficando até final do mandato, com atuação memorável, comemorando-se no período os bicentenários da Paróquia (2013) e de criação do Município (2016).

        Como Secretária de Cultura, articulou, junto ao Governo do Estado, o Projeto de Arte Cênica, O Duelo, realizado pela Mundana Companhia de Teatro, de São Paulo, e apresentado em Lavras da Mangabeira em duas ocasiões, em junho de 2013 e dezembro de 2016.

        Coordenadora do Seminário Temático Cariri Cangaço, em Lavras da Mangabeira, nos anos 2013/2014/2015/2019, Cristina colaborou com a Revista do XII Congresso de História da Educação do Ceará / UFC, onde publicou o artigo “Uma Contribuição para a História da Educação Rural de Lavras da Mangabeira / CE”, sendo o evento realizado em sua terra natal, com o apoio da Secretaria de Educação do Estado.

        A convite do prefeito Cláudio Pinho, entre 2017 e 2019, passou a trabalhar como assessora da Secretaria de Educação de São Gonçalo do Amarante (CE). Nesse Município, foi também Coordenadora de Articulação Institucional da Secretaria de Governo do Estado - SEGOV, até agosto de 2020.

       Integrante do Instituto Cultural do Cariri, onde é titular da Cadeira que tem como Patrona, Fideralina Augusto, e Presidente da Academia Lavrense de Letras, onde ocupa a Cadeira 37, dedicada a Balbina Lídia Viana Arrais, Cristina é autora dos livros: As Cidades de Chico Buarque (2010), A Tragédia de Princesa – O caso Ildefonso Augusto de Lacerda Leite (2018). Almeida, Aragão & Afins – Do Sertão da Paraíba à Terra de São Vicente Ferrer das Lavras (2020).

        Tem artigos publicados nas revistas da Academia Lavrense de Letras e do Instituto Histórico e Cultural do Ceará, do Instituto Cultural do Cariri (Itaytera) e da Academia Cearense de Ciências, Letras e Artes do Rio de Janeiro (Terra de Sol). É articulista do órgão de divulgação do Movimento Internacional Lusófono e do site: https://www.joaovicentemachado.com.br, de João Pessoa (PB).

        Escreveu diversas orelhas, prefácios e posfácios a livros de outros escritores e tem se destacado como palestrante em congressos, simpósios, seminários e colóquios em assuntos vinculados às Artes e à Cultura ou ligados à Música Popular Brasileira e à história política do Nordeste.

                                                 Poeta Edmar Freitas 

                                                      Dimas Macedo



       Nas ilhas literárias em que o Brasil se divide, o mapeamento dos seus escritores ainda continua sendo feito pelos manuais de formação acadêmica e pela gratuidade com que seus poetas frequentam os clubes sociais e as academias.

       A literatura cearense, infelizmente, não é uma exceção nesse campo. Os nossos intelectuais também se distinguem pelos critérios acima referidos e, com raras exceções, não reconhecemos os escritores que edificaram suas trajetórias na modéstia, ou não transitam nos espaços elitistas.

          Prosadores como Nilto Maciel, Audifax Rios, Ana Miranda, Oswald Barroso ou Pedro Salgueiro é possível que não tenham sonhado ingressar em uma das nossas entidades acadêmicas, instituições que abrigam, no geral, seres considerados imortais.

         Edmar Freitas não é um poeta fabricado por essas vitrines sociais, é possível nunca tenha pensado sobre isso e que ainda não conheça (ou que conheça muito bem) as tinturas do meu coração, capazes de expressar essas verdades, desagradáveis, talvez, para seus leitores.

         Pede-me que escreva o prefácio do seu livro Metáforas de Sal e assume o risco pelas consequências daquilo que eu possa dizer. Edmar, no entanto, me parece um poeta bastante original, econômico com o uso das palavras e consciente (plenamente consciente) do extrato sintático e melódico da sua produção.

          A estética do fragmento, os valores da existência humana (nos sentidos usados pela Filosofia e a Inquietude) e a simbologia das nossas raízes sociais estão no seu livro como portas de entrada no seu universo, rico de sugestões e de gosto literário que se reinventa pela criação do poema.

          Trata-se de um poeta que tem a consciência da sua expressão, e que não faz literatura apenas como forma, mas como maneira de sonhar com a sua memória, pagando um tributo expressivo à Literatura.

          Gostei bastante de Metáforas de Sal, da sua concisão, da sua temática e da música com gosto de palavras que ele reinventa. Edmar Freitas é poeta dos bons, e escritor que sabe carregar na alma a chama da poesia que ilumina o coração humano, e que os deuses revelam apenas aos artistas eleitos.

           Poesia não é apenas sentimento artístico, nem, muito menos, um conjunto de ideias ou de ideologias. São palavras ou formas literárias que expressam uma visão de mundo, ou no sentido da sua interpretação no sentido da sua transformação.

             Não se trata de arte descritiva, mas criativa. A melodia, o ritmo e a metáfora se integram na sua estrutura polifônica e nas suas assonâncias e tonalidades. A poesia fala pelos poetas, e quem não é poeta não pode exprimir a sua voz ou auscultar as suas ressonâncias.

            Eis, portanto, o sentido das minhas impressões e o aplauso com que recebo a poesia desse excelente poeta cearense, Edmar Freitas, em cuja construção estética podemos sorver o sal da escrita que perdura no nosso coração.

Dois Escritores: Clèmerson e Alana

Dimas Macedo

1. Clèmerson Clève

 

          Em 2011, Clèmerson Merlin Clève presenteou os leitores com as peças reunidas no livro Teatro Inexperto, e agora, na condição de poeta, traz a lume Amor Fati, sendo para mim um prazer a leitura desse caderno de poemas.

         A estética e a linguagem literárias estão presentes nesse seu novo livro, aí transbordando a partitura poética, o verso escandido desde o seu nascedouro, e a crise existencial que perpassa a visão de mundo do autor.

         Teria Clèmerson Merlin Clève escondido o poeta para dar lugar ao constitucionalista em que se transformou? Eis uma pergunta. Mas os poetas, independentemente de sua claridade, existem para a Literatura, em qualquer tempo da juventude ou da maturidade.

   Para a minha perspectiva de crítico, vejo em Clèmerson um escritor inteiro, despersonalizado, a lutar com os seus heterônimos e com os seus dramas, difundidos entre as suas vozes, que são, indiscutivelmente, plurais e polifônicas.

         São muitos os elementos estéticos, imagéticos, filosóficos e melódicos que vejo presentes em sua poesia contida em Amor Fati. Os ritos, os ritmos e as metáforas também ressaem nessa bela construção poética.

         O poeta que habitava em Clèmerson há bastante tempo estava mesmo a merecer uma voz. Para os seus leitores, foi proveitoso que ele tenha liberado a sua voz e a sua tensa emotividade de artista.


2. Alana Alencar


Já escrevi sobre Alana Alencar e sua poesia multifacetada, externando, de público, quando do lançamento do seu livro Trago do Verbo (Fortaleza: Editora ABC, 2002), a minha opinião sobre o seu lugar na literatura cearense.

          Alana possui um domínio de linguagem que a faz única entre os poetas da sua geração: é dona de um alfabeto próprio e de uma escritura literária particularíssima.

           E é justamente disto que um artista de talento precisa: ser desigual em relação a seus contemporâneos; ser original no processo de montagem do seu universo linguístico.

Não faz por menos essa renovada e autêntica poetisa, com o seu segundo inventário de poemas, cujo título, Nunca Sei Dizer Direito, é um dos mais belos que vi, de último, na poesia brasileira que resiste à tentação das vanguardas.

É uma honra, uma imensa honra recomendar aos leitores esse livro instigante, em que Alana supera os seus desafios semânticos, a sua necessidade de formas e as suas armadilhas verbais, e se consolida como um dos nomes da poesia de boa qualidade que hoje se faz no Ceará.

 Não existe o que destacar acerca desse livro, impondo-se a sua leitura integral e o prazer que podemos tirar de seus poemas. É o que espero e o que vai acontecer com todos os leitores.