quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Pesquisas de Direito Público

                 Dimas Macedo



                                                                                   Faculdade de Direito de UFC
                                                                                       Foto: Jothe da Frota


               No meu livro – Pesquisas de Direito Público (Fortaleza, Edições Poetaria, 2011) – reuni um conjunto de noventa e cinco Projetos de pesquisa por mim coordenados e orientados, no âmbito da Faculdade de Direito da UFC, entre 1992 e 2011.

              Apresentados em forma de resumos, com indicação dos encontros Científicos ou Sessões Universitárias a que foram destinados, os seus originais – em versão definitiva ou em processo de desenvolvimento da pesquisa – podem ser consultados em diversas instâncias da Universidade Federal do Ceará.

            São trabalhos que envolvem considerável número de alunos da Faculdade de Direito da UFC, nas áreas de graduação e pós-graduação, incluindo-se aqui trabalhos apresentados em Faculdades e escolhas de ensino jurídico conveniadas com a nossa centenária Faculdade de Direito.

            Monografias de conclusão de cursos, dissertações de mestrado ou de finalização de cursos de especialização, teses e trabalhos acadêmicos apresentados em Encontros de Iniciação à Pesquisa e de Iniciação à Docência, e pesquisas monográficas protocoladas junto ao CNPq-PIBIC/CNPq-UFC e às Pró-Reitorias de Extensão e Pesquisa Da UFC: eis a matéria gravada nesse livro, que possui objetivo acadêmico e circulação exclusivamente restrita.

             O meu objetivo foi evidenciar, para a comunidade acadêmica, que o meu compromisso, com a Faculdade de Direito e a Universidade Federal do Ceará, como um todo, vai além das atividades de ensino e extensão, e que estou confortavelmente instalado nos escaninhos da pesquisa e dos programas de extensão e pós-graduação.

             Não saberia pensar a Universidade sem essa dinâmica e sem a interação, salutar e necessária, entre as atividades de ensino, pesquisa, extensão e comunidade universitária, todas exercidas com senso de responsabilidade e motivadas por paixões e opções necessariamente criadoras.

              A vida universitária que se confina ao monólogo do professor e à submissão do aluno a um modelo autoritário e estéril, tais os que vejo exercidos por docentes e comunidades acadêmicas dos mais diversos formatos, desvirtuam a autonomia da Universidade, depõem contra o desenvolvimento científico e tecnológico e a liberdade de pesquisa, e obstruem, por certo, o significado maior da permanência da Universidade entre nós.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Bergson - Poema

                                  Dimas Macedo





                                      De Bergson não se disse – “houve
                                      alguém mais do que ele
                                      no reino da  alegria”.

                                      O riso em Bergson é fingimento roto
                                      e a aura do seu texto é só melancolia.

                                      Bergson, mais do que Bergson,
                                       é a alma de Plotino,
                                       e mais do Plotino, é grego,
                                       e o Bergson que conheço é osso.

                                      A matéria de Bergson é a carne.
                                      A chave do seu corpo é o siso.
                                      E Bergson é Bergson de novo,
                                      sendo sempre o mesmo.
                                      25.09.2013

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Origens da Família Férrer

                 Dimas Macedo
 

                                         Irmã Aurélia Ferrer

                  Em 1804, na primitiva Povoação de Lavras, ainda não elevada à condição de Vila, o Governador do Ceará, João Carlos Augusto de Oyenhausen e Gravenburg (o Marquês de Aracati), descendente de uma das principais nobrezas da Europa, levou à pia batismal um dos filhos de Francisco de Oliveira Banhos e Ana Rosa de Oliveira Banhos.

                E, certamente por impulsos de sangue, permitiu que o menino levasse o seu nome para a posteridade. João Carlos Augusto, o filho afortunado de Ana Rosa, foi, assim como o seu qualificado padrinho, um dos grandes políticos da época em que viveu. Mas foi grande, fundamentalmente, porque reproduziu na descendência o sobrenome ilustre que herdara, por via de afetos que a tradição ainda não pode comprovar.

                 A Família Augusto, portanto, da cidade de Lavras da Mangabeira – Ceará, segundo Joaryvar Macedo (Os Augustos, Fortaleza, Imprensa Universitária, 1971), é originária daquele município, onde nasceu o menino João Carlos, cujos prenome, nome e sobrenome lhe foram confirmados pelo rito sagrado do batismo. 

               Essa singularidade, contudo, na pátria de Linhares Filho e de Sinhá D’Amora, não é um privilégio dos Augustos, tão-somente: o Major Antônio Raymundo Duarte (conhecido por Raimundo de Araújo Lima) e Anna da Luz do Sacramento (conhecida por Ana Gonçalves da Silva ou ainda por Naninha dos Pereiros) também geraram um varão que se tornou uma espécie de Abraão daquele município. Seu nome: Vicente Ferrer de Araújo Lima. A ele coube o privilégio de batizar os filhos (a todos, indistintamente) com o prenome que recebera em homenagem ao padroeiro da freguesia – São Vicente Ferrer.

               Férrer (com acento agudo na primeira sílaba) e não Ferrer, como são conhecidos os componentes dessa tradicional família da Ibéria, foi o artifício encontrado por Vicente Ferrer de Araújo Lima e sua mulher Maria Teixeira de Araújo para preservar um jeito de ser, lavrense, muito especial.

               Porém, deixando um pouco de lado os Araújo Lima – sobrenome que ungiu também um dos maiores lavrenses do seu tempo (Raimundo Ferreira de Araújo Lima: Deputado Geral e Ministro da Guerra do Império) –, passemos agora para o outro ramo da ancestralidade de Vicente Ferrer de Araújo Lima, pai da homenageada, cujo centenário é comemorado nesta ocasião.

               Seria ele, por via da avó ou do avô maternos, segundo uma versão e uma tradição histórica que ainda não pude comprovar (mas na qual vivamente acredito), bisneto privilegiado de Vitorino Gomes Leitão e de Joana Batista de Jesus; neto de Pedro Ribeiro Campos e Ana Maria Bezerra; e filho de Ana Gonçalves da Silva e de Raimundo de Araújo Lima.

                Não tenho elementos para confirmar ou negar essa afirmação. Mas posso assegurar, contudo, que nem o seu nome nem os nomes dos seus ascendentes (maternos ou paternos) figuram em Os Gomes Leitão – Ramos de Lavras, Crato e Cajazeiras, de Deusdedith Leitão (João Pessoa, Companhia Editora A União, 1982).

                Pesquisando seus traços biográficos, acho que é possível afirmar o seguinte: Vicente Férrer de Araújo Lima foi componente da Guarda Nacional da Comarca de Lavras, tendo, em fevereiro de 1890, na condição de republicano histórico, assumido o Conselho de Intendência Municipal.

                Em fase posterior da sua militância política, de forma serena, porém sempre firme e conciliatória, ocupou os cargos de Vereador e Presidente da Câmara, tendo exercido também o cargo de Prefeito Municipal de Lavras, em pelo menos duas oportunidades: a partir de 3 de maio de 1925, e a partir de 20 de setembro de 1926, segundo pude constatar em Lavras da Mangabeira – Um Marco Histórico, de Rejane Monteiro Augusto Gonçalves (Fortaleza, Tiprogresso, 2ª ed., 2004).

            Nascido na então Vila de Lavras, em 1858, ali faleceu aos 22 de novembro de 1929, contando 71 anos de idade. E para muito além de político e cidadão exemplar, senhoreou, em seu município, propriedades agrícolas e várias fazendas de criar, entre elas a Cachoeira, a Cabaceiras, os Pereiros, o Poço e a Várzea Cumprida, consorciando-se ali com Maria Teixeira de Araújo – Maria Teixeira Férrer, posteriormente, ou Mariinha Férrer, como ficou conhecida pelos seus conterrâneos. 

            Mariinha Férrer, por via do avô paterno, era descendente dos Teixeira Mendes, da vizinha cidade do Icó. Já por via de sucessão da avó paterna (Ana Rosa Joaquina), e da avó materna (Pulquéria Bernardina Sobreira), possuía ascendência nas casas dos grandes patriarcas que povoaram o município de Lavras, e que foram, coincidentemente, seus trisavós: Francisco Xavier Ângelo Sobreira, senhor da Fazenda Logradouro (margem esquerda do Salgado), Capitão-Mor e Comandante Geral da Vila de São Vicente das Lavras; e Antônio José Correia, senhor da Fazenda Mangabeira (margem direita do Salgado) – sede da primitiva povoação de São Vicente Ferrer.

             Vicente Teixeira Mendes, o pai materno de Mariinha Férrer, nasceu em Lavras da Mangabeira, aos 21 de outubro de 1842, e faleceu na mesma cidade, aos 24 de fevereiro de 1884. Era filho de Antônio José Teixeira e Ana Rosa Joaquina Xavier Sobreira. Teve por esposa Silvéria Bernardina Sobreira: ela, filha de Pulquéria Bernardina Sobreira e do tenente-coronel Manuel Antônio Correia Favela.

             Pulquéria Bernardina Sobreira, a  sua avó materna, era filha de Maria Silvéria de Almeida e de Antônio José Correia, acima nominado. Já Ana Rosa Joaquina Xavier Sobreira, a sua avó paterna, era filha de Francisco Xavier Ângelo Sobreira e da sua segunda mulher, Cosma Francisca de Oliveira Banhos, irmã, esta última, de João Carlos Augusto, pai de Fideralina Augusto e fundador da oligarquia-mor do Vale do Salgado.

              Manuel Antônio Correia Favela, avô materno de Mariinha Férrer, era natural de Várzea Alegre e pertenceu à Guarda Nacional de Lavras, no posto de Tenente-Coronel. Rendido aos encantos da mulher e ao patrimônio desmedido do sogro, Antônio José Correia, fixou-se na gleba adotiva e ali contraiu relações sociais duradouras. 

                 Entre os seus descendentes, além de todos os integrantes da Família Férrer, estão os membros da Família Favela, contando-se entre eles o poeta popular lavrense, João Favela de Macedo, os ex-vereadores e líderes políticos daquele município, Vicente Favela de Macedo e Manuel Favela Saraiva (Nelzinho), e o monsenhor José Edmilson de Macedo, orador sacro de renome e Cônego Catedrático do Cabido da Sé da Bahia.

                 Vivenciando um dos casamentos mais duradouros e eficazes da história de Lavras, o coronel Vicente Férrer de Araújo Lima e sua consorte Mariinha Férrer foram pais de uma prole de 15 filhos, pelo menos – sete homens e oito mulheres, assim discriminados em ordem cronológica: Aurélia (a primeira deste nome), Maria Cira (consorte do Coronel Raimundo Augusto Lima), Elza (falecida ainda criança), Luís (Lêla Férrer, consorte de Guilhermina Augusto de Aquino), Maria, conhecida por Marian (consorte do Dr. José Gonçalves Linhares), Oswaldo (cognominado Teixeira, consorte de Augusta Benevides), Ana (cognominada Sinhara, consorte de José Lindolfo Bezerra), Celi (consorte de José Augusto Banhos), Benedicto (doutorando da Faculdade de Medicina da Bahia, falecido aos 19 de agosto de 1928), Anselmo (consorte de Guiomar de Holanda Cavalcanti), Silvéria (Soubé, sem descendência), Sandoval (sacerdote da ordem secular), Amâncio (falecido criança), Aurélia (Irmã Férrer, a segunda deste nome), Dorimedonte (Dori, consorte de Necita de Sousa Férrer) e Vicente Férrer de Araújo Lima Filho (Ferrim, sem descendência).

 
                   Assim sendo, encerro por aqui as anotações que me foram pedidas acerca da Família Férrer, de Lavras da Mangabeira – Ceará, à qual estou ligado por pelo mesmo sangue que correu nas veias de Mariinha Férrer, pois temos uma ascendência comum, na Casa-Grande do sítio Logradouro, isto é, somos descendentes de Xavier Ângelo, e nos unimos, de forma ainda mais sólida, pelos laços que nos vinculam aos Tomaz de Aquino.
 
                                                                                                                                              Fortaleza, janeiro de 2014

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Ignez Fiúza - Fotobiografia

                Dimas Macedo

 
                                      

               Apesar de falarmos em uma tradição moderna, sabemos que a modernidade compreende um estilo de vida que exige a presença do novo, isto é, a presença daquilo que se abre para a criação. A vida depende dos sentidos da imaginação e a arte é uma das formas de expressão desse movimento.

              A arte não se representa por si mesma. Ela depende da sua recepção e da sua interação com a sociedade. Desde Platão e da alegoria do mito da caverna, a arte passou a assumir a linguagem do desejo e a sua representação no espaço da vida social.

              A retomada da Arte na época do Renascimento somente se tornou possível tendo em vista a existência de dois elementos que a fizeram contemporânea da sua tradição: a presença decisiva do Mecenas e a emergência do Mercado como polos aglutinadores da sua expansão comercial e da sua produção artesanal em escala cada vez mais acelerada.

             O desenvolvimento de uma sociedade, a partir da chegada da Idade Moderna, passou a ser medido não apenas pela sua equação econômica, política e social, mas também e fundamentalmente a partir da sua produção cultural, desdobrada desde as fontes antigas do conhecimento até a produção de natureza artística, que passou, então, a definir o sentido do novo.

             Na sociedade cearense, esse percurso não se fez de forma diferente. O aceleramento do nosso processo industrial, a partir da modernização do seu planejamento, aparece conjugado com a nossa modernidade artística, de princípio no plano literário e, a seguir, na produção dos nossos artistas plásticos de maior relevo.

             A partir de meados da década de 1950, as artes plásticas do Ceará começaram a encontrar o seu ponto de inflexão, mas é com a sua acolhida, nas décadas seguintes, pelos seus promoters e marchants que elas se depararam inseridas no nosso sistema social.

             Poucos apreciadores das Artes Plásticas, no Ceará, se preocuparam, de fato, com o destino social desse movimento, ou se mostraram dispostos a assumir uma atitude de vanguarda com relação à sua presença nos nichos de consumo da sua produção.

              Ignez Fiúza, considerada a Musa das Artes Plásticas do Ceará, é a liderança empresarial que se destaca entre nós nessa atitude de vanguarda, assumindo, com a sua técnica e com o seu bom gosto, a promoção e a divulgação mercadológica dos nossos artistas plásticos de maior talento.

             Mas a sua atuação, nessa área, não se resume apenas à promoção das artes produzidas no Ceará: o alcance da sua visão trouxe também para a apreciação e o consumo dos cearenses as novas tendências das artes plásticas do Brasil, possibilitando que o Ceará pudesse conhecer novos estilos artísticos e novas formas de pesquisa que nos levasse, ainda mais, a mergulhar nos sentidos do novo, absorvendo as suas contradições e os seus maravilhosos jogos de luz e de tintas.

               A Galeria de Artes que Ignez Fiúza manteve em Fortaleza, durante várias décadas, em espaços nobres da cidade; o bristô e as elegantes casas de pastos que abriu, sempre finamente decoradas e no mais transformadas em galerias de beleza constituem um traço da sua personalidade fascinante.

               Ignez Fiúza sempre se destacou no Ceará como mulher de visão, como marchant de gosto artístico refinado, como Mecenas dos talentos artísticos mais jovens. Mas nos espaços que criou e manteve ela não dialogou apenas com as artes plásticas, pois fez-se também propagadora dos nossos valores literários e dos nossos movimentos de vanguarda, no plano da produção artística.

                Na sua conhecida Galeria, promoveu exposições de artistas plásticos de renome, tais como Floriano Teixeira e Aldemir Martins, mas ali também acolheu os escritores cearenses desde o Grupo Clã até o Movimento conhecido por Poesia Plural, no início da década de 1990.

               Em 2014, Ignez Fiúza chega ao apogeu da sua juventude, esbanjando vida e esperança, e a todos acolhendo com os fervores do seu coração. O êxito da sua trajetória, a sua conhecida elegância e o seu jeito agradável de conviver com os nossos artistas fazem de Ignez Fiúza uma das figuras de maior destaque da vida cultural do Ceará.

               A importância da sua atuação transborda às páginas da sua Fotobiografia (Fortaleza, Editora Traço, 2014), organizada por Elizabeth Fiúza e Janina Sanches, que reúne um conjunto de imagens e de objetos culturais acerca da sua trajetória, na qual se espelham a nossa tradição e os valores agregados por Ignez Fiúza ao campo da nossa produção artística.

               A honra que me foi conferida pelas organizadoras desse livro de escrever a apresentação do projeto e de louvar a grandeza de Ignez Fiúza é das maiores que eu poderia receber. E não existem letras, no meu vocabulário, para dizer do agradecimento que tenho que fazer.

              Não sou apenas admirador de Ignez Fiúza. Tenho o privilégio de ser seu amigo, e tenho recebido dela as suas melhores atenções. Apesar de achar que outro poderia ter sido o escolhido para escrever o prefácio desse livro, sou grato às autoras pela atenção, esperando que o meu discurso tenha dito o mínimo daquilo que eu gostaria de dizer.

               
                                                                                       Fortaleza, janeiro de 2014

 
                                                                                      

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Adriano Espínola


                         Dimas Macedo



                                        A Palavra e a palavra

                                       São os ossos do seu ofício

                                       Seu discurso é um artifício

                                       Mais belo que as aquarelas

                                       Para cantar as favelas

                                       Adriano faz modismo

                                       Patente é o seu vanguardismo

                                       Quando utiliza o repente

                                       É mesmo um irreverente

                                       Mágico do pós-modernismo

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

História Social de Quitaiús

                 Dimas Macedo


                                                                                                   Tela de Rosa Firmo


         Lavras da Mangabeira é o lugar para onde volto no mapa do afeto. É certo que perdeu, de último, os fulgores da sua tradição. Mas é para essa mágica cidade cearense que sempre projeto a minha emoção de escritor.

              Divide-se o município de Lavras em seis pequenos distritos, a saber: o da sua sede política, de bela arquitetura urbana, e aqueles que se denominam: Iborepi, Arrojado, Amaniutuba, Mangabeira e Quitaiús, outrora chamado também de São Francisco.

              Rosa Firmo Bezerra, uma das escritoras lavrenses de maior talento, é natural de Quitaiús, o distrito por igual do meu afeto e da minha primeira devoção, ribeirinho que sou do Riacho do Rosário, com o máximo orgulho de ser um Lobo de Macedo do sítio Calabaço.

           Joaryvar Macedo, meu tio paterno, estudou como poucos as origens históricas daquele município e nos deu as linhas de pesquisa da sua inculcada genealogia. Rejane Augusto é a continuadora da sua tradição.

            Mas o que vejo e percebo, de primeiro, é que é vasto, muito vasto o município de Lavras. E que Quitaiús tem uma raiz social diferente, uma comunidade fraterna e solidária e um jeito de pensar as coisas do saber que nos escapam à observação.

              E é por isto que precisamos de alguém para explicar a sua trajetória e nos dizer o tecido da sua evolução, com o domínio completo da palavra dos que nascem totais para escrever.

              Quitaiús é uma terra visivelmente protegida por Deus. Nação de mulheres vigorosas. Pátria de famílias ordeiras e ilustres. E de seres humanos que encarnam as melhores virtudes sociais.

              Os estigmas da fé em São Francisco e em Nossa Senhora do Rosário parecem que são fortes entre os que ali mourejam, de sorte que Quitaiús tornou-se, com o tempo, o lugar das vocações sacerdotais do município, mercê, talvez, da influência do Padre Cícero Romão de Juazeiro sobre o destino da comunidade.

                Impressiona-me que Quitaiús tenha dado onze sacerdotes à constituição do clero cearense, contando-se entre eles duas importantes figuras da Igreja Católica do Brasil: monsenhores José Edmilson de Macedo e Alonso Benício Leite. E que dali sejam naturais o padre Manoel Machado e o não menos renomado, Claírton Alexandrino de Oliveira, vigário-geral da arquidiocese, reitor da Igreja do Rosário e orgulho máximo da colônia lavrense em Fortaleza.

                Rosa Firmo Bezerra é filha de Mãe Nina e de Ioiô. É pedagoga de talento, poetisa, ensaísta, historiadora, líder carismática de grande vocação comunitária e escritora de densa produção, pois que sabe penetrar no sistema literário, com firmeza, persistência, sutileza e determinação diuturnas.                                                                      

                Pertence à Sociedade dos Poetas Vivos e Afins, de Natal, e à Academia Lavrense de Letras, onde ocupa a Cadeira 38, que tem como patrono Chiquinho Bezerra Sampaio, um dos maiores poetas de sua região.

                 É autora de Nobreza de Uma Mulher Sertaneja (2003), Cidades Históricas de Minas Gerais (2003), Prisioneira do Sol no Ocaso (2005), Chuvas de Verão (2005), Ponderações na Perspectiva de Luz (2006), Os Cantos do Luar (2008) e O Rosário de Quitaiús (Fortaleza, RDS Editora, 2010).

               Nesse seu último livro estuda Rosa Firmo Bezerra as origens, a afirmação comunitária, a evolução histórica e a formação urbana, social, cultural e política do distrito de Quitaiús, com absoluto domínio do seu objeto de pesquisa.

                Não se trata de compêndio da história oficial de Quitaiús, tão-somente, mas de livro que se faz, de primeiro, uma fusão de duas categorias de pesquisa: uma que se fia na tradição e na memória de um povo; e outra que se faz no ensejo da verificação apodítica, repassada ao manejo de documentos e registros.

                 E não iria longe se dissesse que esse seu rosário de palavras tem, por igual, um cheiro de romance e rapsódia. E que foi escrito com as luzes da paixão e da ternura, e com a mansidão que dedicamos aos grandes projetos do espírito.

                Rosa Firmo sabe o que é empreender a escritura, namorar com o texto e escrever com determinação. Sabe o que é dizer a memória e o que é acender a paixão de criar, a partir de um ponto de observação.

               Quitaiús: um ponto na geografia do extenso mapa cearense e um estilo de vida que se pereniza pelo gosto da sua linguagem saborosa; e um tropo, portanto, que se valoriza pela geração do tecido literário que o divulgará e o tornará um signo do prazer.

                 A exercício de monta se impôs Rosa Firmo neste livro, um rosário de casos e de gens, um relato de memórias e dizeres a se perder de conta; e uma pesquisa da qual me orgulho de ter sido o orientador. Não que Rosa precise de orientação, mas porque Rosa é um rosário de sentimentos e de alteridades e sabe viver de gratidão.

               O livro cobre um período de quatrocentos anos de história, aproximadamente, pois a pesquisa recua às primeiras datas de sesmarias na região do Riacho do Rosário, onde fica encravado Quitaiús. Rosa examina, em seguida, os fautores da colonização daquela sorte de terras, o surgimento das primeiras famílias, as origens do topônimo e as lendas que cercam a criação da comunidade, mostrando-nos a saga e o heroísmo do Clã dos Clementes e o papel ali desempenhado por Cazuza Clemente (1834-1918), um dos grandes civilizadores do Riacho do Rosário.

                Os aspectos fisiográficos e a evolução sóciopolítica do distrito são também albergados em O Rosário de Quitaiús, mas são os aspectos culturais e a formação da religiosidade popular naquela localidade o que nos chama de perto a atenção. Quitaiús, não podemos esquecer, foi um dos núcleos de irradiação, no Ceará, das Comunidades Eclesiais de Base, mercê da liderança e do carisma do Padre Manoel Machado, um dos sacerdotes, por sinal, nascido naquele glorioso distrito de Lavras da Mangabeira.

                  A participação de Quitaiús na Prefeitura e na Câmara Municipal de Lavras da Mangabeira é também examinada por Rosa. E bem assim a composição das diversas famílias do distrito e as suas vinculações a lugares, sítios e fazendas daquela localidade, entre os quais podemos enumerar o Roça Velha, as Varas, o Cantinho, o Banco e a Tapera, onde nasceu a autora deste livro.

                 O processo educacional, os aspectos sociais e econômicos e as manifestações da cultura popular em Quitaiús estão neste rosário de textos e leituras a desafiar a curiosidade do leitor.

                  Orgulho-me de ter sido escolhido por Rosa para escrever o prefácio deste livro. Orgulho-me de ser seu amigo e admirador e de poder testemunhar, de primeiro, os acertos e os grandes desafios a que a autora se impôs.

                   Rosa Firmo se junta agora a Ìria Zógob, do distrito de Amaniutuba, a Rejane Augusto, historiadora da cidade de Lavras, e a Dias da Silva, Bruno Pedrosa e João Gonçalves de Lemos, em Mangabeira, para louvar o passado glorioso da velha Princesa do Salgado, uma das primeiras civilizações do Ceará e aquela em que o amor às tradições e às coisas do passado impediu uma nação de desaparecer.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O Corpo do Frei Tito

                                            Dimas Macedo

                                       

 
 O corpo do Frei Tito

é uma bandeira de lutas

e uma página viva

de mortificações

e de legendas do povo cearense

 

Dos sertões de Lavras

ao cosmopolitismo

dos espaços parisienses

o corpo do Frei Tito

trescala uma proposta

de fraternidade e de amor

 

Vive a altivez do Frei Tito

como uma vigília a pairar

por sobre a solidão dos ditadores

 

Com ele

a utopia e a paixão

se fizeram escudos da verdade

e a rebeldia

se ergueu em holocausto

para celebrar o seu último sacrifício

 

Morreu o Frei Tito

apunhalado pela traição

mas com ele ressuscita

a fome insaciável

de liberdade e de justiça

pois o povo ainda teima

em cultivar a resistência

e em sonhar com a vanguarda

de um tempo menos nebuloso

 

O povo continua sonhando

com o pão da verdade que lhe falta à mesa

e com uma luz capaz de clarear

os sangradouros da sua alegoria libertária

 

Que a lição do Frei Tito

nos sirva de incenso

para esconjurar a violência

e afastar o ódio do coração dos opressores

 

Que os restos mortais do Frei Tito

nos despertem a certeza

de que a intolerância será destruída

e de que os valores essenciais da existência

continuarão brotando do coração dos oprimidos

 

Que a crucificação e as cinzas do Frei Tito

nos sirvam de sementes

e se transformem

em viçosos grãos de esperança.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Roteiro de Itamar Filgueiras

                Dimas Macedo


                 Filho do agricultor José Tavares Filgueiras e da professora Julieta Macedo Filgueiras, José Itamar de Macedo Filgueiras nasceu em 16 de maio de 1944, na cidade de Lavras da Mangabeira (CE), onde passou a infância. Foi alfabetizado e preparado para o exame de admissão ao ginásio por sua genitora.

              Aos 12 anos, ingressou no Seminário do Crato, onde cursou, como aluno interno, o ginásio e o colegial, transferindo-se para o Seminário da Prainha, em Fortaleza, onde esteve matriculado até 1965, quando convenceu seus familiares que não possuía vocação para o clero.             

              Desligando-se do Seminário, prestou vestibular para o curso de Letras da Universidade Federal do Ceará e se iniciou na profissão para a qual realmente tinha vocação: o magistério. Começou como professor de Língua Portuguesa do Curso de Admissão ao Ginásio do Centro Educacional Agapito dos Santos, em março de 1966.

               Mesmo trabalhando dois expedientes e estudando no terceiro, cursou a Faculdade de Letras da UFC com brilhantismo, formando-se em 1969, quando já se encontrava casado com a professora Luzia Filgueiras, com quem teve três filhos e partilhou sua vida até a morte.

               Como professor de Língua Portuguesa, atuando prioritariamente no Ensino Médio (ou equivalente), foi corresponsável pela educação escolar de várias gerações de alunos de muitos colégios de Fortaleza, tanto na rede pública como na particular.

                Logo após a formatura, prestou concurso – e passou em primeiro lugar – para o Colégio Municipal Filgueiras Lima e para a rede estadual de ensino, sendo lotado no Colégio Castelo Branco, onde atuou, inclusive, como vice-diretor.

               Na rede particular ensinou nos colégios Capistrano de Abreu, Cearense Sagrado Coração, Sistema, Gustavo Barroso, Castelo, Rui Barbosa, Santa Cecília (onde foi coordenador da 3ª série do 2º grau), Christus, Geo-Stúdio (do qual foi sócio fundador), Batista Santos Dumont, Master e 7 de Setembro.

               Em Fortaleza, destacou-se com um dos mais renomados professores que atuaram na preparação de alunos para o vestibular, tendo ensinado Língua Portuguesa nos cursos pré-vestibulares: Instituto Pedagógico Cearense, Tony, Gregório Mendel, Cipam, Impacto, Skema, Positivo e Geo-Stúdio.

              Prestou serviço junto à Secretaria de Educação do Ceará, como Professor de Língua Portuguesa, em cursos de reciclagem para professores; como membro da equipe elaboradora dos currículos de Língua Portuguesa e Literatura e como membro de bancas examinadoras de concursos, na área da sua especialiudade.

              Em 1977, ingressou como professor na Universidade Estadual do Ceará, onde lecionou até a sua aposentadoria. Ali, além de exercer atividades de ensino, foi Coordenador da Área de Comunicação e Expressão do Ciclo Básico e membro de Comissões Examinadoras de Concursos para Professor de Literatura Portuguesa.

             É autor de várias apostilas de Língua Portuguesa, adotadas nos cursos Pré-Vestibulares em que foi professor, sendo de sua autoria o livro – Fale e Escreva Corretamente, livro-texto dos cursos de língua portuguesa do Espaço Cultural Itamar Filgueiras, do qual foi o único professor e proprietário.

            O Espaço Cultural Itamar Filgueiras e o Curso por ele ministrado, funcionaram durante vinte anos e destinavam-se a pré-vestibulandos, profissionais liberais e demais interessados num melhor domínio da língua portuguesa, constituindo o mais conhecido e conceituado curso dessa especialidade existente em Fortaleza.

             Além das suas atividades como professor, destacou-se como parecerista em questões de Língua Portuguesa, em matéria referente a recursos de correção de provas e no pertinente à revisão de monografias, teses e livros de diversos gêneros.

            A sua dedicação ao magistério, o seu devotamento à causa da cultura e a sua retidão moral lhe renderam diversos tributos, destacando-se, entre eles, o título de Cidadão de Fortaleza e a condição de integrante da Academia Cearense da Língua, tendo falecido aos 05 de abril de 2012.

            Um ano após a sua morte, o Espaço Cultural Itamar Filgueiras foi incorporado ao patrimônio do Grupo Educacional Evolutivo, de Fortaleza, onde foi inaugurado um busto em sua homenagem.