sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

História Social de Quitaiús

                 Dimas Macedo


                                                                                                   Tela de Rosa Firmo


         Lavras da Mangabeira é o lugar para onde volto no mapa do afeto. É certo que perdeu, de último, os fulgores da sua tradição. Mas é para essa mágica cidade cearense que sempre projeto a minha emoção de escritor.

              Divide-se o município de Lavras em seis pequenos distritos, a saber: o da sua sede política, de bela arquitetura urbana, e aqueles que se denominam: Iborepi, Arrojado, Amaniutuba, Mangabeira e Quitaiús, outrora chamado também de São Francisco.

              Rosa Firmo Bezerra, uma das escritoras lavrenses de maior talento, é natural de Quitaiús, o distrito por igual do meu afeto e da minha primeira devoção, ribeirinho que sou do Riacho do Rosário, com o máximo orgulho de ser um Lobo de Macedo do sítio Calabaço.

           Joaryvar Macedo, meu tio paterno, estudou como poucos as origens históricas daquele município e nos deu as linhas de pesquisa da sua inculcada genealogia. Rejane Augusto é a continuadora da sua tradição.

            Mas o que vejo e percebo, de primeiro, é que é vasto, muito vasto o município de Lavras. E que Quitaiús tem uma raiz social diferente, uma comunidade fraterna e solidária e um jeito de pensar as coisas do saber que nos escapam à observação.

              E é por isto que precisamos de alguém para explicar a sua trajetória e nos dizer o tecido da sua evolução, com o domínio completo da palavra dos que nascem totais para escrever.

              Quitaiús é uma terra visivelmente protegida por Deus. Nação de mulheres vigorosas. Pátria de famílias ordeiras e ilustres. E de seres humanos que encarnam as melhores virtudes sociais.

              Os estigmas da fé em São Francisco e em Nossa Senhora do Rosário parecem que são fortes entre os que ali mourejam, de sorte que Quitaiús tornou-se, com o tempo, o lugar das vocações sacerdotais do município, mercê, talvez, da influência do Padre Cícero Romão de Juazeiro sobre o destino da comunidade.

                Impressiona-me que Quitaiús tenha dado onze sacerdotes à constituição do clero cearense, contando-se entre eles duas importantes figuras da Igreja Católica do Brasil: monsenhores José Edmilson de Macedo e Alonso Benício Leite. E que dali sejam naturais o padre Manoel Machado e o não menos renomado, Claírton Alexandrino de Oliveira, vigário-geral da arquidiocese, reitor da Igreja do Rosário e orgulho máximo da colônia lavrense em Fortaleza.

                Rosa Firmo Bezerra é filha de Mãe Nina e de Ioiô. É pedagoga de talento, poetisa, ensaísta, historiadora, líder carismática de grande vocação comunitária e escritora de densa produção, pois que sabe penetrar no sistema literário, com firmeza, persistência, sutileza e determinação diuturnas.                                                                      

                Pertence à Sociedade dos Poetas Vivos e Afins, de Natal, e à Academia Lavrense de Letras, onde ocupa a Cadeira 38, que tem como patrono Chiquinho Bezerra Sampaio, um dos maiores poetas de sua região.

                 É autora de Nobreza de Uma Mulher Sertaneja (2003), Cidades Históricas de Minas Gerais (2003), Prisioneira do Sol no Ocaso (2005), Chuvas de Verão (2005), Ponderações na Perspectiva de Luz (2006), Os Cantos do Luar (2008) e O Rosário de Quitaiús (Fortaleza, RDS Editora, 2010).

               Nesse seu último livro estuda Rosa Firmo Bezerra as origens, a afirmação comunitária, a evolução histórica e a formação urbana, social, cultural e política do distrito de Quitaiús, com absoluto domínio do seu objeto de pesquisa.

                Não se trata de compêndio da história oficial de Quitaiús, tão-somente, mas de livro que se faz, de primeiro, uma fusão de duas categorias de pesquisa: uma que se fia na tradição e na memória de um povo; e outra que se faz no ensejo da verificação apodítica, repassada ao manejo de documentos e registros.

                 E não iria longe se dissesse que esse seu rosário de palavras tem, por igual, um cheiro de romance e rapsódia. E que foi escrito com as luzes da paixão e da ternura, e com a mansidão que dedicamos aos grandes projetos do espírito.

                Rosa Firmo sabe o que é empreender a escritura, namorar com o texto e escrever com determinação. Sabe o que é dizer a memória e o que é acender a paixão de criar, a partir de um ponto de observação.

               Quitaiús: um ponto na geografia do extenso mapa cearense e um estilo de vida que se pereniza pelo gosto da sua linguagem saborosa; e um tropo, portanto, que se valoriza pela geração do tecido literário que o divulgará e o tornará um signo do prazer.

                 A exercício de monta se impôs Rosa Firmo neste livro, um rosário de casos e de gens, um relato de memórias e dizeres a se perder de conta; e uma pesquisa da qual me orgulho de ter sido o orientador. Não que Rosa precise de orientação, mas porque Rosa é um rosário de sentimentos e de alteridades e sabe viver de gratidão.

               O livro cobre um período de quatrocentos anos de história, aproximadamente, pois a pesquisa recua às primeiras datas de sesmarias na região do Riacho do Rosário, onde fica encravado Quitaiús. Rosa examina, em seguida, os fautores da colonização daquela sorte de terras, o surgimento das primeiras famílias, as origens do topônimo e as lendas que cercam a criação da comunidade, mostrando-nos a saga e o heroísmo do Clã dos Clementes e o papel ali desempenhado por Cazuza Clemente (1834-1918), um dos grandes civilizadores do Riacho do Rosário.

                Os aspectos fisiográficos e a evolução sóciopolítica do distrito são também albergados em O Rosário de Quitaiús, mas são os aspectos culturais e a formação da religiosidade popular naquela localidade o que nos chama de perto a atenção. Quitaiús, não podemos esquecer, foi um dos núcleos de irradiação, no Ceará, das Comunidades Eclesiais de Base, mercê da liderança e do carisma do Padre Manoel Machado, um dos sacerdotes, por sinal, nascido naquele glorioso distrito de Lavras da Mangabeira.

                  A participação de Quitaiús na Prefeitura e na Câmara Municipal de Lavras da Mangabeira é também examinada por Rosa. E bem assim a composição das diversas famílias do distrito e as suas vinculações a lugares, sítios e fazendas daquela localidade, entre os quais podemos enumerar o Roça Velha, as Varas, o Cantinho, o Banco e a Tapera, onde nasceu a autora deste livro.

                 O processo educacional, os aspectos sociais e econômicos e as manifestações da cultura popular em Quitaiús estão neste rosário de textos e leituras a desafiar a curiosidade do leitor.

                  Orgulho-me de ter sido escolhido por Rosa para escrever o prefácio deste livro. Orgulho-me de ser seu amigo e admirador e de poder testemunhar, de primeiro, os acertos e os grandes desafios a que a autora se impôs.

                   Rosa Firmo se junta agora a Ìria Zógob, do distrito de Amaniutuba, a Rejane Augusto, historiadora da cidade de Lavras, e a Dias da Silva, Bruno Pedrosa e João Gonçalves de Lemos, em Mangabeira, para louvar o passado glorioso da velha Princesa do Salgado, uma das primeiras civilizações do Ceará e aquela em que o amor às tradições e às coisas do passado impediu uma nação de desaparecer.

Um comentário:

  1. Amigo, estou tomada de emoção e me questionando, sobre seu afeto e reconhecimento sobre meu singelo trabalho está sendo avaliado e divulgado pelo gigante da literatura cearense, (lavrense).
    Sei dos meus limites. Continuo engatinhando no meu caminhar de pesquisadora e memorialista. O que vale na vida é saber que podemos semear para depois alguém colher. Escalo os caminhos do riacho do Rosário tentando retirar o sumo sagrado para adubar as plantas ressequidas pela estiagem.

    Rosa

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