quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Em Torno de Sinhá D ' Amora


      Dimas Macedo


                                                                                                Boqueirão de Lavras
                                                                                               Próximo ao local em que
                                                                                               Sinhá D ' Amora nasceu.

          Sinhá d’Amora tem sido considerada por críticos de arte e historiadores como a maior artista plástica do Ceará e uma das grandes pintoras do Brasil. A sua importância para as artes plásticas, portanto, é incalculável. Acho que a sua obra devia ser mais pesquisada e discutida, assim como acontece com a produção de outros artistas de renome.

         Existe uma pequena biografia de Sinhá que aqui recomendo – aquela que foi escrita pelo Túlio Monteiro. Intitula-se Sinhá D’Amora e foi publicada em 2004 pela coleção Terra Bárbara das Edições Demócrito Rocha, de Fortaleza.

         No contexto da obra produzida por Sinhá D‘Amora, ponho em destaque o apuro clássico e erudito que ela emprestou à sua arte, com trânsito livre por diversas escolas e tendências, mas sempre mantendo os traços da sua originalidade e da sua fidelidade ao Ceará.

          Mesmo com seus quadros expostos em galerias e museus da Europa e da América Latina, tinha um amor muito grande pela sua terra. A Prefeitura Municipal de Fortaleza reconheceu a sua expressão cultural e lhe dedicou um Memorial, com parte do seu acervo, mas isso foi removido posteriormente sem nenhuma explicação, até o momento.

         Sinhá D'Amora circulou muito no exterior e tornou-se bastante conhecida. Esse seu intercâmbio foi de suma importância para a difusão da sua obra. A partir de 1933, ela passou a residir no Rio de Janeiro, onde cursou a Escola Nacional de Belas Artes, complementando os seus estudos na Aliança Francesa, e seguindo, neste passo, a tradição cultural do seu pai, que foi aluno do Bacharelado de Ciências e Letras do Colégio Pedro II.

        Em 1949, transferiu-se para Itália, onde se graduou pela Academia de Belas Artes de Florença, ali tendo cursado, também, a Universidade de Estudos de Línguas e Artes e o Centro di Cultura per Stranieri.

        Em Florença, conheceu alguns nomes expressivos das artes plásticas do século XX, contando-se, dentre eles, Pablo Picasso. Em seguida, ela tomou o destino de Paris, para onde viajou em outras oportunidades e onde cursou a Acadèmie de la Grand Chaumière.

         Sinhá foi uma mulher excepcional. Teve uma formação cultural rigorosa. Foi casada com o escritor Amora Maciel, da Academia Cearense de Letras, mas sempre se mostrou livre e decidida diante dessa relação.

          Preferiu não ter filhos e se dedicou à sua arte e aos seus intercâmbios sempre com muita liberdade. Não se deixou aprisionar pelas convenções sociais. Seu nome oficial – Fideralina – constituía uma homenagem à avó paterna – Dona Fideralina Augusto –, a célebre matriarca de Lavras da Mangabeira (CE), que tanto se destacou na história política do Nordeste.

         Para a minha honra, sou conterrâneo de Sinhá d’Amora, cujo perfil foi por mim tracejado no livro Lavrenses Ilustres (1981, 3ª ed. 2012). Com ela me correspondi bastante, eu, residindo em Fortaleza; ela, no Rio de Janeiro.

          Na década de 1990, Sinhá fixou residência em Fortaleza, e aí, consolidamos uma grande amizade. Frequentei as rodas de chás que ela oferecia para seus amigos, sendo o pivô desses encontros, o Cláudio Pereira, na época, presidente da Fundação Cultural de Fortaleza.

          Sinhá D’Amora tinha uma conversa vivaz e agradável. Era acolhedora e carinhosa. Um grande ser humano, acima de tudo.



domingo, 9 de dezembro de 2018

A Poesia do Salgado - Os Títulos

         Rodrigo Marques

                                           
                                                                      Escritor Rodrigo Marques


Dos livros de poemas de Dimas Macedo, restarão, para uma posteridade ainda longe, apenas as palavras dos seus títulos: Caos; Liturgia; Úmida; A distância; Lavoura; Vozes; Sintaxe; Silêncio; Desejo; Codicírio e outras que a leitora acompanhará neste capítulo ou em alguma parte perdida deste pequeno ensaio sobre o poeta de Lavras da Mangabeira.

Dimas, um aprendiz de ermitão, é daqueles escritores que não abdicam do espaço em branco do papel, manchando-o apenas quando algo válido surge. Nesta espécie de meditação, os títulos também são versos e o que vem depois deles são sombras do que está inscrito na capa. A tradição latino-americana produziu belos títulos. Neruda, Ferreira Gullar, Victoria Ocampo, Hilda Hilst, Octávio Paz: Arte de pájaros, Memorial de Isla Negra, Dentro da Noite Veloz, Tu não te moves de ti, A dupla chama; nem tudo é de poesia, mas os títulos são. Há uma tentação de minha parte em listar mais e mais a confirmar que no fundo todo escrito sobre literatura não passa de uma lista do que se deseja ler ou do que se gostaria de ter escrito.

É preciso conter-me, se não um a um, pelo menos aos títulos de Dimas Macedo de que mais gosto ou daqueles que invejo com um ódio benigno. Não vou seguir a cronologia de publicação, e é mera coincidência aqui tratarmos do primeiro, A distância de todas as coisas, publicado em 1987.

O título lembra igualmente o primeiro livro de Vinícius de Moraes: O caminho para a distância (1933). Ambos apresentam a “distância” em uma dúbia significação, tanto no seu campo semântico natural, relacionado ao espaço, aos mapas, aos destinos e às viagens; como numa significação temporal, de algo perdido no tempo, que ficou para trás, como a infância ou um amor findo. Que a distância é matéria da literatura não se discute, ela está lá nos romances de Joseph Conrad ou no Grande Sertão de Guimarães Rosa, também habita poemas e novelas imemoriais, como o conto do Mandarim, que ganhou forma em português com Eça de Queiroz, e que foi tão bem comentado por Carlos Guinzburg no seu imperdível Olhos de Madeira – nove reflexões sobre a distância.

As distâncias de Vinícius e de Dimas é também uma cartografia literária destes dois poetas, que em seus percursos partiram da palavra solene para o encontro do cotidiano. Vinícius, da linguagem oracular do seu primeiro livro, que depois adequadamente compilou com o título Sentimento do Sublime, chegou, como se sabe, ao mais prosaico cotidiano. Suas últimas parcerias musicais nada lembram o poeta que dizia:

                      Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
E que era preciso fugir para não perder o único instante
Em que foste realmente a ausência de sofrimento
Em que realmente foste a serenidade.

Dimas foi ao encontro do cotidiano não pelo compasso do samba, embora haja em seus versos um latente desejo de música. Sua poesia abandonou o sentimento do sublime através das viagens mundo afora, ao resenhar, em seus últimos livros, cidades e situações corriqueiras, como o menu de um restaurante, um quarto de hotel, uma rua...  sem falar na estratégia de reviver a dicção popular dos seus avós, como o poeta Lobo Manso e os cantadores anônimos do sertão, pela reinvenção da quadra. O destino é o mesmo de Vinícius, resguardadas as paixões de cada um e a dimensão delas. De A distância de todas as coisas até Codicírio (2018), sua poesia se distanciou do tom mais caricato da geração de 45 e se aproximou dos temas e de uma dicção mais informal, sem aquele ar pretensioso de alguém que guarda a verdade do mundo. Aliás, o parceiro de Garota de Ipanema parece ser mesmo o arquétipo de poeta no Brasil, afinal, todos ainda queremos ser Vinícius, e como ninguém consegue ser Marcus Vinícius de Moraes, Dimas, neste início, tateava o que veria a ser Dimas Macedo, o poeta.

Sem se perder do círculo do primeiro título, o seu complemento, “de todas as coisas”, é sintagma que qualifica filosoficamente a distância espacial e temporal. A distância de todas as coisas, pronunciada assim, afirma o caos e o isolamento das partes do mundo, é uma metáfora da nossa solidão e da incapacidade de dizê-la por completo. É o mistério sem mistério, pois no fundo só há o silêncio, e quando o rompemos fabricamos enigmas e não soluções para a Esfinge que, incomodamente, permanece muda.

 Qual a distância de todas as coisas se não o desespero e a consciência de que nos distanciamos de uma Unidade ou mesmo que esta Unidade nunca existiu? Se todas as coisas se distanciar, o que sobrará, o pó, o barro esfacelado? Tal o quadro O Grito, de Edvard Munch, o título da estreia do poeta Dimas é desolador. A imagem, na sua veste de versículo bíblico, é ela mesma uma charada, e nos confunde e nos põe a pensar, a inquirir se o tempo, a distância ou as coisas nos deixaram para trás ou se fomos nós mesmos que abandonamos o chão. E como nos paradoxos pessoanos, a construção desse verso é toda substantivada, sem a presença de verbos ou adjetivos, linguagem primeira que sintetiza um pensamento concreto sem perder o movimento.

A verdade é que Dimas anuncia uma poesia metafísica ou alinhada a esta tradição filosófica, e com ela, ele corre o risco de ser místico ou ensimesmado na própria variação do seu eu. Se seus livros de direito se apoiam no materialismo, sua poesia é idealista, mas daquele idealismo de George Berkeley ou David Hume, questionadora dos limites da própria metafísica e da importância da linguagem para a constituição da realidade. Neste passo, o título Liturgia do Caos, publicado em 1997, sugere uma cerimônia em louvor ao Caos, destrutivo e criador.

A leitora que por ventura tomar este livro, lerá uma espécie de missal ou hinário, e pela brevidade do volume entenderá tratar-se apenas de um fragmento dos rituais do Caos. É uma coletânea de poemas e pronto, e o que se vê ali são poemas breves e distantes de um culto pagão. A sugestão é de que a poesia ela mesma tenha uma potência de Caos, pois ao mesmo tempo que é uma linguagem que desagrega a sintaxe, a coerência e a coesão de uma Ordem racional, cria à maneira do Deus, segundo os desejos de sua consciência e o modo como opera as relações de causa e efeito. Caos e criação de forma cíclica e contínua. Mas o que cria Dimas com seus poemas? Por se tratar eminentemente de uma lírica, Dimas cria uma persona, um personagem, um ser feito de palavras, mais do que feito de palavras, é feito de gestos, de acentos, de uma entonação, de uma voz. Aí, acredito, reside o sentido mais precioso da palavra liturgia neste contexto.

Uma liturgia não é só feita de palavras, senão de gesto e música. O aspecto teatral da liturgia, sua mise en scene, compõe a formação daquela persona. É uma persona eminentemente dramática, o sentimento é o de um poeta do final do século XIX, cuja tradição em língua portuguesa se assenta em Cesário Verde, Camilo Pessanha, Fernando Pessoa e Augusto dos Anjos. A liturgia do Caos também é uma liturgia de um Eu que Dimas Macedo arrisca compor ao longo dos seus livros. A dificuldade não está propriamente nas palavras, mas em adensar uma voz própria. A liturgia também se faz na repetição, na disciplina, em termos poéticos, na técnica, no leit motiv, na consciência estética, no diálogo com os mais antigos.

E nesse falar em Línguas, Codicírio, é dessas palavras que surgem no auge do transe, na embriaguez dionisíaca. E em sua novidade de neologismo, deixa em aberto possíveis significados. O mais evidente destes significados transparece a ideia de um alfarrábio ou de uma coleção apócrifa de algum poeta coletivo, um códice que fora perfumado ou manchado por um Círio seco, memória de alguma leitora que o folheou. O livro é uma exsicata de um círio, túmulo de uma memória de leitura. E mais do que um livro imaginário são as histórias da leitura deste códice improvável que o título projeta, como se a leitora que esquecera a flor na página fosse feita de areia e não o livro, para aqui recriar a imagem de Borges, e por metonímia as leituras que se fizeram desse Códice. Afinal, em que lugar da cidade de Fortaleza ou do mundo se ler Dimas Macedo? E quem mais, além de tu, leitora, e de Geraldo Jesuíno, está lendo A Poesia do Salgado? O plano da escrita e talvez de toda a escrita literária seja mesmo o da falta, uma lacuna que, em outra chave, podemos ler como silêncio, é o preço do texto poético e o motor último do Desejo.

Sintaxe do Desejo e Vozes do Silêncio são os últimos que acabo de glosar, porque os vejo como sinônimos, apesar de meu impulso seja remoer outras tantas páginas sobre Estrela de Pedra, uma estrela que perdeu o brilho, mas não o calor.... Enfim, a sintaxe do silêncio é o desejo e só a poesia poderia chegar a este paradoxo de forma clara como um enigma.

Dimas Macedo, O Poeta-Menino dos Cristais de Sonhos

Heliana Quirino


                                                                             Retrato de Heliana Quirino


         O menino do Cariri, que visitou o território do imaginário e viu seu pai tirar cristais de sonhos de lugares improváveis, sabia desde sempre sua determinação. Abraçou-se com o destino que quis zombar dos seus primeiros anos de vida na escola, tornou-se jurista e escritor. Quando quer, é editor, e, sempre, um professor. Mas foi com a literatura e a poesia que o poeta se casou.

          Para quem conhece uma das maiores personalidades do Ceará – Dimas Macedo, sabe que ele é, antes de tudo, a sequência de uma progressiva e legítima evolução de artistas- poetas. “Eu jamais poderia ultrapassar Lobo Manso”, diz o escritor sobre o seu avô, “pois não tenho nem metade de sua ousadia de poeta”.  Ele se refere ao bardo popularAntônio Lobo de Macedo, conhecido por Lobo Manso, um trovador que escreveu, entre outras coisas, clássicos da literatura de cordel, como é o caso de Poesias Contra os Profetas e as Profecias da Chuva e O Garrote Misterioso.

          “Eu nasci num sítio a nove quilômetros da cidade de Lavras da Mangabeira, chamado Calabaço, em alusão aos índios Kalabaças, habitantes da margem esquerda do Rio Salgado, região do Cariri. Sou caririense de quatrocentos anos”.

           Seus ancestrais, os tangedores de gado, desde o Rio São Francisco, chegaram na região do Cariri no final do século 17 para início do século 18. “Eu sou descendente dessa civilização, e o sítio onde nasci, o Calabaço, foi o último núcleo de resistência dos índios Kalabaças, que lutaram contra a invasão dos colonizadores e do exército colonial que dizimou diversas tribos pertencente à Nação Kariri, naquele Município”.

           Para escapar da devastação da seca que ocorreu no final da década de 1950, seu pai, o poeta popular Zito Lobo, mudou- se com a família para a cidade de Lavras. No inverno seguinte, Zito Lobo comprou um sítio de nome Cajueiro, próximo da cidade, e foi lá onde conseguiu tirar cristais de sonho para alimentar a família.

          “Cristais de sonhos é você sonhar com a tragédia e a devastação da pobreza e pegar uma enxada e uma roçadeira e garimpar o chão para tirar legumes, feijão, milho, criar galinhas, porquinhos, duas ou três vaquinhas de leite e fazer caldinho com angu para alimentar os filhos”.

          Do sítio Cajueiro, as lembranças são infinitas. A saudade da mãe que morreu ainda jovem, as histórias do pai e das muitas coisas que ainda devem ser escritas. “Eu ia para a escola montado num jumento. Eu vendia leite de porta em porta, na cidade de em Lavras, para ajudar na economia familiar”.

          Depois de algum tempo, Dimas Macedo teve um grave problema de saúde que deixou para sempre lesões em suas mãos. Ainda muito jovem, sofreu o fenômeno da rejeição e passou dois anos sem frequentar a escola.

           O futuro poeta sonhava com a claridade das luzes da escritura e não podia fazer nada por conta das mãos afetadas pela doença. É fácil compreender porque ele se considera um herói: “Esses sacrifícios deram ao meu espírito um temperamento algo nervoso, o desejo de ser feliz e o impulso da criação… E eu me orgulho de carregar essas marcas da infância, de querer estudar e não poder, de sonhar e não saber o que fazer com o sonho. Mas ali eu já sabia que eu tinha uma missão. Algo me dizia que eu não seria um puxador de enxada”.

           Dimas foi adiante, na estrada e na história:
        “Eu não sei para onde vou e nem me interessa. O que eu quero é caminhar, para a dor interna diminuir e eu sustentar a tensão de ser um artista, de ser um pensador”.

         Em que outra época gostaria de ter vivido?  “A década que vivi com muita intensidade foi a década de 1990. Foi a época do meu grande salto na literatura, quando me tornei crítico literário e fiquei nacionalmente conhecido. Essa foi uma época de que gostei imensamente, um período rico. Publiquei dois livros centrais da minha poesia: Estrela de Pedra (1994) e Liturgia do Caos (1996). Hoje, para se escrever a história literária do Ceará desse período, acho que será preciso consultar o acervo que eu deixei. Neste momento, eu estou numa fase de travessia, eu não sei para onde vou e nem me interessa. O que eu quero é caminhar, para a dor interna diminuir e eu sustentar a tensão de ser o artista que sou, de ser o pensador que sou”.

          A palavra que eu mais gosto é: Amor. Pode parecer uma coisa banal, mas eu estou falando do amor autêntico, dessa força que move montanhas, que é superior aos organismos vivos.  Essa força imaterial do planeta que você leva no coração e que é capaz de destruir todos os exércitos. Ódio é a palavra que eu não gosto e não sei como se ela se conjuga no coração de um ser humano. Eu não consigo entendê-lo em qualquer plano. O máximo que posso sentir pelas pessoas que amo, é raiva, mas, às vezes, isso acontece somente para corrigir a energia do sangue.

         Um filme para ver de novo. Os filmes de Akira Kurosawa.

         Politicamente, eu sou um militante político, decepcionado com o fracasso da esquerda e com a alienação dos seus ideais, trocados pelos valores do Capitalismo e da corrupção. Um militante político desiludido, mas que acredita no triunfo da Democracia e nas garantias da Constituição. O que me entristece, é ver a minha geração, a geração de políticos cearenses que beiram a casa dos 60 anos, totalmente derrotada, pois perderam a perspectiva do sonho. Aliás, sobrou talvez a dignidade de Maria Luíza Fontenelle. Mas, ainda assim, sou um cidadão que continua confiando na Política e no seu poder de regeneração e de superação das desigualdades sociais. Sem a Política, não podemos pensar na Paz, nem na Tolerância.

         Eu ressuscitaria Albert Camus.

     O livro que já li várias vezes foi O Estrangeiro, de Albert Camus. Eu sou o personagem existencialista deste romance. Sou a reprodução dele e a reprodução moral e poética do meu avô Lobo Manso, dois personagens que povoam a minha constituição cultural e psicológica.
         Eu me acalmo com o silêncio, o sexo e o recolhimento.

       Eu me irrito com a estupidez, com a imbecilidade. Às vezes, me calo porque não tenho paciência para viver fora da lucidez.

         A emoção que me domina: a emoção que a leitura proporciona, o amor vivo e correspondido pela mulher amada. E a emoção de viajar, quando eu mudo um pouco de persona.

          Um dia ainda vou fugir e ficar inacessível.

          Existem heróis?  A história está cheia de heróis, principalmente os que tiveram Fé e Esperança em seus projetos existenciais. Meu pai foi um desses heróis. Ele lutou a vida toda contra a morte e a desesperança, sustentou a família com o exemplo imortal da dignidade e com uma fé descomunal que me deixou de herança.

      Religião:  eu tenho uma fé que me sustenta. Mesmo vivendo para além da Religião, sou fascinado pela Teologia e tenho muitos exemplos de parábolas que gosto de repetir e de escrever sobre elas.

            Dinheiro é para gastar, numa relação de equilíbrio.

            A vida é um rio, indiscutivelmente. Viver é saber remar contra a maré. O perigo não está fora das prisões que escolhemos para viver ou sucumbir, mas no âmbito daquilo que guardamos e temos medo de partilhar até com quem escuta o nosso coração.

            Se eu tivesse o poder, eu mudaria a imbecilidade das pessoas.

         Eu gostaria de ser Dimas Macedo. Quero ser eu, eternamente. Por dinheiro, eu não me trocaria. E nem por nenhum gênio da arte. Eu quero mais é que eles sejam quem são para que eu possa admirá-los, para que eu possa ser mais fã das suas criações geniais.

            Não perco uma oportunidade de ajudar o próximo. Tenho a virtude da bondade, mas o que faço pelos outros eu faço em silêncio.

            A solidão e o silêncio: Dimas é um cavaleiro solitário que tem muito amor. O produtor de arte, para ele, tem por temperamento a solidão. Ele escreve para esquecer a infância, para esquecer os seus mortos, as dores da alma e para continuar vivo. “A Literatura e a Existência para mim são a mesma coisa. E eu não faria questão de viver se não existisse a Literatura, e esta é a ausência que eu busco todos os dias, é a busca infinita da alma”.

            O Brasil é uma Nação que trago dentro da minha alma, é o meu País a que jamais renunciarei, pois eu o amo profundamente.  Sua bonita história de luta ainda não foi escrita. O que até aqui se contou foi ditado pela elite, foi muito bem escrito pelos acadêmicos… No Brasil, a elite sempre pisou no povo e o presidente Lula, que veio do povo, se vendeu ao Capitalismo internacional. Não fez as reformas de que o Brasil precisava. E ele tinha legitimidade para fazer as reformas

             O ser humano está na pior travessia de todas as civilizações já vividas, porque houve, nesta civilização, uma grande brincadeira com a Ciência e a Tecnologia, com os segredos que entretêm e que iludem a vida humana – destruíram a imagem de Deus, seja ele quem for, destruíram os segredos de todos os padrões estabelecidos. Particularmente, eu acredito no ser humano, só que vivemos um momento de apogeu e de miséria, e este é um momento de miséria.

              Eu sou um ser humano feito de palavras e atravessado por uma crise existencial que não para de pulsar. Sou um escritor, apenas isto. Incompreendido, desamparado e amante da solidão e do silêncio. Uma pessoa simples, cheia de esperanças e detentora de uma fé inabalável. Minha mensagem é que o amor é o princípio de tudo, e que o perdão nos torna mais humanos e nos ajuda a viver em paz com os nossos semelhantes. Eu sou ainda, em larga medida, o que uma jornalista escreveu na minha página, sou “o mar que derrama”, eu sou carnal e resoluto. Sexo, como eu já falei, é uma das coisas que me mantêm vivo. O sexo ou a morte, quando estão abraçados, um dos dois tem que morrer… isso é que está faltando no mundo, o elemento do sangue, essa tua emoção de agora, a palavra presa na garganta…

          O filho de Zito Lobo tem 50 livros publicados, mais de 200 prefácios pelo Brasil. Editor, crítico literário, designer gráfico ou o que mais ele quiser ser. É o responsável pela introdução de Patativa do Assaré na literatura cearense. “Não se escreve a História da Literatura recente do Ceará sem ver o que Dimas Macedo escreveu sobre toda uma geração”, assim constata o professor Sânzio de Azevedo.

           Dimas Macedo escreveu sobre o Grupo Clã, sobre Moreira Campos, Juvenal Galeno, Patativa do Assaré. Quando escreveu sobre este último, chegou a indagar para si mesmo:  “o que vão fazer com Patativa do Assaré? Vão jogar no lixo a sua produção? ”. Por três vezes, Dimas o encontrou: primeiro, nas Chuvas de Poesia de 1982/83. “A gente jogava poemas do alto dos edifícios, na Praça do Ferreira”; a segunda vez, foi na campanha das Diretas Já e na campanha da Anistia; a terceira, a residência do poeta, em Assaré. 

           Nos dois primeiros momentos, Dimas estava no miolo desses Movimentos, como militante político e, fundamentalmente, no cento do Movimento pela Constituinte. “Eu escrevi uma tese sobre a evolução constitucional no Brasil, a partir da visão marxista. Esse livro muito me orgulha, e eu me orgulho, por nunca ter escrito para agradar. Sempre fui da contramão, sou da contramão e assim terminarei meus dias, na contramão”.

            Foram três meses de flertes e cafés-encontros, até que o neto de Lobo Manso (1888-1960), o singular poeta Dimas Macedo, escolhesse um caminho ligeiramente diferente para a condução da entrevista.

          Seguindo em direção ao Porto das Dunas e Prainha, fez o trajeto determinado em sua mente, enquanto dava “aula de história”, entre uma fala e outra, explicava coisas pela estrada: “Tá vendo aquele cenário (apontou para um lado do caminho)? É a casa de Ana Miranda, um belo refúgio”. As palavras do poeta, buscaram imediatamente, na minha memória, trechos de seu poema “Paisagem”, dedicado à Prainha:

            …. Porque me encantas assim tão facilmente/ com teus minérios de vento sobre a areia? // Essas casinhas brancas sobre as ondas/ esses lajedos de pedras purpurinas…/Aqui o sol comanda a minha vida/Aqui as velas do amor me dizem tudo…/ Talvez o amor me abrace nessas dunas. / Talvez a paz, aqui, me reconheça…

          – Eu não sei bem o que falei, mas sei que vivi uma bela experiência, brincou o “menino dos cristais de sonhos” ao final da entrevista.

                                                                                                                                    Segunda Opinião.                                                                                                                                Fortaleza, 29/08/2017.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Dona Fideralina Augusto - Mito e Realidade


       Cristina Couto


   O efeito mágico que as águas do Rio Salgado têm feito na vida dos lavrenses sempre foi um verdadeiro prodígio. Seu poder de fertilização edificou na mente dos seus filhos a capacidade de poetizar e de buscar a fundo suas origens.

Em Lavras da Mangabeira (CE) e na região do Cariri ninguém reinou tanto como Dona Fideralina Augusto, mulher forte, que viveu à frente do seu tempo, numa época comandada pelos homens. Ela foi senhora da sua vontade e da vontade de muitos. Nada nem ninguém ousou desobedecer a essa velha matrona.

            Na sua terra natal, tudo parece que virou folclore, como nos contos mitológicos das grandes civilizações, especialmente porque aquele Município viveu todas as suas fases, tais como o nascimento, apogeu e declínio, nos permitindo, agora, uma volta ao seu passado glorioso.

            Dimas Macedo é, hoje, o maior historiador lavrense. Com a sua memória fotográfica e o seu poder de percepção aguçada, capta as histórias perdidas e as informações escondidas. Sua sensibilidade de poeta e sua genialidade intelectual ultrapassam as fronteiras do tempo.

Ao escrever Dona Fideralina Augusto – Mito e Realidade (Fortaleza: Armazém da Cultura, 2017), Dimas faz justiça com as próprias mãos e com o brilho da sua palavra, contestando as muitas inverdades sobre a velha matrona lavrense. Neste livro, o autor busca resgatar a história como ela é, e não como as pessoas gostariam que ela fosse.

Com a leitura deste livro, o que acabamos descobrindo é que a fênix lendária de Lavras da Mangabeira – Dona Fideralina Augusto –, renasce das cinzas em que muitos dos seus opositores teimaram em enterrar a sua memória.

            Nele, Dona Fideralina Augusto ressurge magnífica, imperiosa e poderosa como sempre foi, e sua história, que outrora fora escrita com estilhaços de pólvora do seu bacamarte, agora acha-se reescrita com a caneta do seu admirador maior e arqueólogo da cultura lavrense, Dimas Macedo.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Célia Oliveira e Eduardo Fontes


Dimas Macedo



        Célia Oliveira

         A busca do tempo compreende muitos regressos e avanços. No universo, nada me parece mais circular do que essa equação. O tempo existe para nos entreter. E quanto mais nos afastamos do presente, menos dolorida será a nossa sensação de perda, e muito mais prazerosa será a nossa satisfação.


         Daí a busca do tempo melhor, aquele que reluz na demão do passado, que nos faz reviver a infância e que nos leva a pensar o quanto aquilo que perdemos é essencial para nós, e o quanto aquilo que ganhamos pode implicar na nossa negação.

         O tempo que perdemos, contudo, compreende também o espaço, a rua, o mundo e os encantos da terra em que nascemos; a casa do ser e a linguagem; a transposição da báscula do desejo e a intermitência de um rio que pode ser chamado, talvez, de Rio Acaraú.

         O tempo melhor da escritora Célia Oliveira, no seu livro de estreia, parece ser o tempo no qual tudo se pode restaurar: traços da formação escolar, os sinos da primeira comunhão e a procura incessante da claridade e da luz, na velha e na nova cidade de Sobral.

         A naftalina das lembranças, o cheiro inclemente da chuva, a imposição daquilo que ficou para trás; a família, mais uma vez a família, a marca das coisas da infância e o desejo de tomar uma nova direção: eis o espaço do sonho para o qual a autora nos quer conduzir.

         Mas o que aqui quero registrar, é que o livro O Melhor Tempo (Fortaleza: Expressão Gráfica, 2013), de Célia Oliveira, é muito mais do que bom, muito bom mesmo de ler e de guardar: para ser revivido pela emoção.

       Eduardo Fontes

        Os intervalos que chamam de feriadão, para mim são Dádivas do Espírito, Sementes da Graça, soluções que Deus oferta aos escritores (aqueles a quem ele confiou esta missão) para um ajuste de contas com a escritura e a leitura, expressões sagradas da eternidade, chamas que devemos segurar contra a tempestade, a espessura dos ventos e o tecido das nossas amarguras.

         Ciranda Poética (Fortaleza: Expressão Gráfica, 2018) foi o livro que destaquei, neste fim de semana, para ler e, a partir dele, meditar sobre a vida, a natureza, os animais, a oração, a estética, a melodia, o êxtase, a simplicidade, a estesia das formas e o fortificante das palavras, suas entonações, sua rebeldia e a sua grave resposta às inverdades do mundo.

          Ao concluir a leitura desse livro de Eduardo Fontes, sinto-me tocado pela Bênção Apostólica de Sua Santidade, o Papa Francisco, de quem também sou devoto, pois sou católico e homem de rebeldia ética, assim como o autor, que é poeta dos maiores, cada vez mais exíguo e mais silencioso, poeta que sabe respeitar as margens do papel e poldar o verbo do discurso.

          Límpida me pareceu a textura de Ciranda Poética, límpida, a sua linguagem, escorreito e bom de deslizar o seu texto, as suas síncopes, as suas reticências, a ironia das suas sentenças, dos seus “Poemas Tresloucados” e das suas “Lições Filosóficas”, coroando-se o livro com a síntese bela e feliz das suas orelhas, escritas por Ulysses Alencar Reis Fontes.

           Ora, ora, seu poeta Eduardo Fontes, as Academias são ocas e vazias, tediosas, alienadas e totalmente fora de esquadro. Eu já as chamei de "cadinho do mofo e da inveja". Se a nossa obra for autêntica, se contiver o sal da terra e o sentimento da entonação, ela já se basta, e nós, poetas, nos bastamos sem precisar da imortalidade.

             O que fazemos, quando somos poetas, é semear palavras para nada, porque la vie est belle, seu poeta. Lá vie é lume que se apaga e é um grão de areia que começa.

Homenagem a Dimas Macedo - Medalha Boticário Ferreira


       Cristina Couto
                                                 



          O universo literário, ao qual pertence o intelectual Dimas Macedo é tão amplo quanto o seu universo cultural. Dotado de uma inteligência ímpar, de uma memória invejável e de uma sensibilidade notável, carrega numa só alma e numa única existência a inspiração do poeta, a marca criativa do escritor, a inquietude do pesquisador, a imparcialidade do jurista, a analise valorosa do crítico literário, e a generosidade do amigo.

          Esse ser é tão especial e tão grande que chega a transbordar pelos poros, pelos dedos e pelos sentidos.

        Assim, como todo e bom lavrense, Dimas carrega no peito e na alma a marca e o amor pela terra natal. Ele pertence a uma geração de grandes poetas, escritores e pesquisadores lavrenses que sempre colocaram o torrão natal em primeiro plano. Os poetas a cantam, os pesquisadores a decifram e os escritores a descrevem.

        Conhecida como celeiro de intelectuais, terra de homens destemidos, corajosos e prestigiosos, a Princesa do Salgado viveu seus tempos de apogeu, mas, como toda grande civilização teve seu declínio e seu fim. Vivemos hoje dos seus tempos áureos de muita luta e muita glória, de um passado brilhante, do qual, podemos nos orgulhar.

        Não tenho dúvidas, a nossa pequena Lavras, existe apenas, na literatura, e para nós, lavrenses que a amamos incondicionalmente ela se encontra no tempo da delicadeza perdida. O que é lamentável.

        Dimas como poeta consegue transportar sua alma para os mais diversos mundos, sobrevoa leve toda a galáxia, mas sempre retorna para as margens do Rio Salgado, e corre outra vez menino para as travessuras na Rua da Praia; a inquietude do pesquisador mexe com a alma sensível do poeta e o faz retomar as investigações dos fatos passados, e agora na pele do escritor os registram para que a nossa história não seja esquecida.

        O olhar microscópico com que analisa as obras literárias acaba valorizando a escrita e o viés de cada autor dentro do seu universo literário; Dimas é um amigo generoso, um caçador de talentos, dando a cada um de nós a oportunidade da revelação.

        Filho de uma grande mulher, Dona Eliete, do poeta Zito Lobo e sobrinho do historiador Joaryvar Macedo, Dimas herdou da mãe a coragem, do pai a diplomacia e do tio a responsabilidade de continuar as pesquisas e os registros sobre a história de Lavras da Mangabeira e do Ceará. Herança que sempre levou ao pé da letra e tem desfrutado com muita maestria.

      Amante das letras e apaixonado pela vida, Dimas é uma figura pública reconhecida e respeitada por todos. Seu nome é sinônimo de credibilidade e de referência nas mais diversas áreas do conhecimento. 

       Autoridade em Direito Constitucional, em História do Ceará, em especial, de Lavras da Mangabeira, biógrafo, cordelista, poeta erudito e popular, ele consegue desde a erudição ao populismo, sem perder a genialidade do seu espirito poético.

         Dimas é único e muitos, é grande demais para caber nos recantos minúsculos da mente humana, mas ele não deixa por menos, se faz pequeno para entender a pequenez dos mortais. Ele é capaz de ocupar um espaço e todos os outros.
     
             Ele é enigmático, é mágico, e é real. Homem ele é grande, amigo é cativante e poeta é altíssimo.
                                                                                          Fortaleza, 10 de agosto de 2017