domingo, 3 de setembro de 2017

A Terra Onde Nasci

Dimas Macedo         
                                                

           Na minha condição de escritor, sempre permaneci fiel ao meu sonho, e Lavras da Mangabeira, a terra onde nasci, nunca me abandonou com as suas belezas, naturais e artificiais.

           Sinto-me em desconforto quando, anualmente, não posso contemplar o Boqueirão ou rever os lugares onde passei a infância, pois, como já afirmou Francisco Carvalho: “Lavras é um mito que o Salgado banha / com seu rumor de pífaro e realejo”, mostrando-nos, assim, esse grande poeta cearense, toda a ressonância da velha Princesa do Salgado.

           Em 13 de dezembro de 2010, quando me encontrava como Professor, na Universidade de Le Havre, escrevi, na minha agenda de viagens, que “reencontrei Lavras da Mangabeira em todas as cidades pelas quais passei em vários pontos da Europa: assim em Londres como em Bruges, Paris, Amsterdam, Bruxelas ou Colônia”.

            E acrescentei: “é como se o mapa-múndi fosse povoado de saudades e lembranças que se gravam nos recessos do sonho. É como se o Reno, o Tâmisa e o Sena refletissem a brisa serena do Salgado, o mais doce de todos os rios que os meus olhos não se cansam de ver”.

            É com estas palavras que desejo saudar os estudantes do Ensino Fundamental da minha terra, lembrando, com o coração cheio de saudades, dos meus tempos de aluno do Grupo Escolar Filgueiras Lima e do Colégio São Vicente Ferrer.

             Destaco a qualidade dos textos, em prosa e em verso, reunidos no livro – Lavras: o Lugar Onde eu Vivo –, escrito por esses estudantes e publicado em 2017, louvando a dedicação dos mestres que se empenharam na realização desse projeto.

            O Magistério é um sacerdócio e uma Missão. Quem descobre essa vocação e a ela se entrega, sabe o quanto isso é uma Graça e um motivo para viver a vida de forma ainda mais feliz.

             Orgulho-me também de ser Professor, função que exerço há quarenta anos. Lembro-me, perfeitamente, como tudo começou, em 1977, e as escolas e universidades pelas quais passei, no Brasil e no Exterior.

           Mas o que conta mesmo, para a minha visão de Professor, são os alunos, são os estudantes envolvidos com as suas atividades e com as suas esperanças e crenças num futuro melhor.

              Nos poemas e textos coligidos percebi um amor bastante carinhoso pela minha terra, especialmente, pelo Rio Salgado; e atentei que alguns alunos mostraram o seu interesse pela trajetória de lavrenses, como José Telles, Sinhá D’Amora, Eunício Oliveira e Maria Lina Machado, destacando-se a última como professora de expressão naquele Município.


            Aos participantes do projeto, apresento os meus parabéns. E não posso deixar de dizer que, nesse livro, se guarda um esforço incomum. Sinto-me feliz com o convite da Professora Lionete Tomaz para apresentar esse conjunto de escritos e de lições de amor à terra que nos viu nascer.

Medalha Boticário Ferreira

Dimas Macedo

                                                                             


          Com alegria, agradeço a Medalha Boticário Ferreira e me pergunto qual o meu merecimento. Quarenta anos de magistério, perfeitos em 2017, talvez justifiquem a homenagem ao escritor e ao jurista, mas, assim como Drummond, o Poeta de Itabira, tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo.

          Como cristão pauliano, atravesso estes tempos extremos que estamos vivendo como se fosse a ostra em seu enfrentamento com o vento, como se fosse o rumor que, às vezes, se funde com a concha e com ela se recolhe no sopro sublime da paixão.

           Sei que a vida é uma Graça, e que, a cada dia, eu a desfruto com a beleza que Deus nos confiou, e com os dons e os talentos que ele conferiu à minha inquietude: branda, como as águas serenas de um rio, mas incompreendida, às vezes, por aqueles que não aceitam a minha liberdade.  

          O título que recebo é o tributo com o qual se reconhece a dignidade de fazer literatura e de fazer a profissão de fé na palavra ritmada e na palavra fundadora do belo. A honraria, contudo, não cabe no meu contentamento.

           Pulveriza-se, antes, pelos espaços urbanos da cidade, desliza pelas suas casas de pasto e pelos seus polos de prazer e convivência, por onde espicho os meus olhos de ver e de sentir, porque de Fortaleza eu sei as suas ruas e o seu jeito gostoso de deitar.

          Sei que existem várias Fortalezas a quem agradecer: a Fortaleza que sofre com a violência e com sua falta de memória; a Fortaleza que dormita na Praia de Iracema; a Fortaleza que chora as suas contradições, mas que se reinventa pela boemia que pratiquei no Estoril e no Clube do Bode, na Confraria dos Puros e na Sociedade dos Poetas Vivos.

           Sim, porque não podemos mensurar em Fortaleza praias, ruas ou espaços coletivos que eu não tenha palmilhado, vinhos e sabores que eu não haja consumido, línguas ou idiomas da sua arquitetura que eu não tenha degustado com a minha linguagem de poeta.

          Ao Vereador Portinho, agradeço aquilo que ele fez pela poesia, nomeando a mim como o representante dos poetas e intelectuais de Fortaleza que esta Câmara de Vereadores achou por bem distinguir, porque aqui, de primeiro, se premia o escritor e se valoriza o cidadão, colocando-se a Literatura no centro do debate político.

         As tatuagens que o sal e o céu de Fortaleza foram modelando em meu corpo, ouvem, com desvelo, os sinos inquietos do meu coração, pois é com a alma dos que amam a liberdade e as formas de viver em plenitude que aqui compareço para agradecer a maior homenagem desta Edilidade.
          Assim, declaro de público e de tribuna que honrarei com vinhos e estrelas a medalha com que fui distinguido, o título com que fui agraciado, o qual ficará gravado na alma, com o fogo do incenso e da cidadania.

          O Boticário Ferreira, numa época que se perde no tempo, dirigiu o destino desta urbe, e o poço por ele perfurado, no logradouro que hoje leva o seu nome, tornou-se o coração da cidade. Como vereador e presidente da Câmara, governou a Fortaleza Velha com os olhos fincados no futuro e com a retidão que fez do seu nome uma legenda.

          Curvo-me ao exemplo do Boticário Ferreira, olho para o passado de onde vim, saúdo os amigos que nesta cidade conquistei, pondo entre eles a minha família e, de uma forma especial, os meus filhos e a minha mulher. Não cheguei aqui de supetão, mas juro que cheguei, trazendo na alma uma canção, que quero partilhar com o vento e com o edifício da Fé que se ergue, de forma soberana, no meu coração.

         Entre os que estão no Plenário, ponho em evidência o Professor João Arruda, que muito conspirou para que eu pudesse chegar até aqui, e destaco o nome de Marta Filgueiras, que veio de São Luiz para estar comigo nesta noite, ao lado de Lúcia Cidrão, de Pablo e de Diego, de Lúcia Macedo Maciel e de Sandra Maria de Macedo.


          Por último, não posso deixar de registrar: “um rio corre na alma e a minha calma talvez não denuncie aquilo que ocorre, aquilo que não morre e que se faz alento em minha vida”.

Entrevista Com Franklin Jorge


Dimas Macedo



Franklin Jorge - Em que circunstância surgiu o seu interesse pela Literatura?

Dimas Macedo – Eis um assunto que se revelou para mim em forma de mistério. Na infância, quando me perguntavam o que eu queria ser no futuro, eu respondia que o meu desejo era ser escritor. Não sei o que isso representava no meu caso. Eu não tinha livros de Literatura por perto. O meio em que eu vivia era muito pobre e acanhado, assim como eram o mundo e as condições de existência nas cidades do interior do Nordeste, no início da década de 1960. Mas o meu avô – Antônio Lobo de Macedo, conhecido, ainda hoje, como Lobo Manso – era um cordelista renomado e o meu tio Joaryvar Macedo já despontava como pesquisador, firmando-se depois como um dos grandes historiadores do Ceará, com passagens pela Academia Cearense de Letras e o Instituto do Ceará.

Franklin – O que o levou a escrever?

Dimas – A inquietação existencial e cosmológica, as figuras lendárias da política de Lavras da Mangabeira, as histórias contadas pela minha mãe, o rumor das águas do Salgado que passava próximo à nossa casa, a mania que eu tinha em querer contar as estrelas em noites de muita claridade, a fuga do drama que eu via prosperando no seio da minha família, o sino que plangia diariamente na torre da Igreja de Lavras, a teimosia que eu tinha em aceitar os limites da educação formal que me era imposta pelos meus pais, o medo de morrer de forma inesperada, assim como todas as crianças que partiam e cujos enterros passavam pela minha rua, marcando a minha voz e o meu jeito de ser com as suas despedidas.

Franklin – Como definiria o ato de escrever?

Dimas – O ato de escrever para mim é e será sempre será uma pergunta. A claridade das coisas e o absurdo da vida, no meu caso, aguçam a necessidade de perguntar por que estou vivo, por que habito essa fauna tão contraditória e indulgente que é a humanidade mergulhada na sua hipocrisia e na falsificação da verdade. Minha literatura clama pela Viva e pela Esperança, é contraditória, assim como são várias as minhas personas diante da escritura e da palavra. Parece-me que o poeta, o crítico, o historiador e o jurista estão em oposição diante do meu eu profundo. Seriam os meus outros eus, para aqui me valer da expressão de Fernando Pessoa.

Franklin – Como transcorreu sua infância? Alguma coisa, em particular, o marcou nessa fase de sua vida?

Dimas – A minha infância não foi nada fácil. Como disse, certa feita, numa crônica publicada quando ainda era muito jovem: “minha infância nunca teve graça”, pois, doente e com “sentença de morte pela frente”, o jeito que tive foi fantasiar a existência durante a juventude e abraçá-la com resignação na maturidade. Hoje a vida para mim é uma Esperança, edificada na Fé e nas minhas convicções acerca existência do Amor. Mas eu não acredito na salvação do homem pela Fraternidade, nem acredito que a Política ou suas ideologias possam resolver os grandes problemas sociais. Nesse ponto, acho que sou um cético, mas na minha essência profunda eu não me considero um pessimista. 

Franklin – Como descreveria a contribuição do Ceará à Literatura Brasileira?

Dimas – O Ceará deu ao Brasil uma grande contribuição à Literatura. Desde José de Alencar e Araripe Júnior, passando por Domingos Olímpio, Adolfo Caminha, Antônio Sales e Oliveira Paiva, tem sido expressivo esse contributo. José Albano é um poeta de grande inspiração e elaboração estilística; os romances de João Clímaco Bezerra e Rachel de Queiroz, os contos de Moreira Campos, a ficção de Herman Lima, a poesia de Francisco Carvalho e Gerardo Mello Mourão, o teatro de Eduardo Campos, a estética exemplar e simbólica de Alcides Pinto, sobre a qual escrevi o livro A Face do Enigma, e a criação literária de Natércia Campos e Nilto Maciel fazem do Ceará um território literário expressivo cujas marcas são a expressão da palavra levada às últimas consequências.

Franklin –  O que distingue, a seu ver, os escritores cearenses contemporâneos dos escritores históricos? Há algum traço discernível entre eles?

Dimas – Os escritores contemporâneos afastaram-se um pouco do drama secular e da tragédia que remarcaram a nossa formação, mas em poetas como Adriano Espínola e Luciano Maia (principalmente, neste último) vemos o Ceará redesenhado, pela luminosidade do sol e pelo mito da sua redenção através da transfiguração do Rio Jaguaribe. Carlos Emílio Correia Lima é um escritor que me parece injustiçado e Audifax Rios é um romancista que precisa ser avaliado. Nos dias atuais, eu citaria a poesia de Roberto Pontes, Horácio Dídimo e Linhares Filho, e destacaria a ficção de Pedro Salgueiro e Tércia Montenegro, elevando a um posto mais alto os romances de Ana Miranda.
  
Franklin Jorge – Como descreveria a vida cultural do Recife em relação a de Fortaleza?

Dimas – Eis um pergunta que continua nos desafiando. A vida cultural de Recife é pujante e em seus intelectuais se pode colher uma maior consciência política. Fortaleza é mais provinciana e os seus muros ainda são feitos de palhas de coqueiro, apesar dos seus grandes achados culturais e estéticos, como é o caso da Academia Francesa e da Padaria Espiritual. Coisas típicas da formação política dessas duas cidades, tão próximas e tão distantes em face dos processos sociais, industriais e políticos e que se diferenciam, também, desde a base das suas inserções em áreas mais ou menos extensas do nosso semiárido.

Franklin – Crê que o Jornalismo, como o conhecemos, caminha para a dissolução e desaparecimento?

Dimas – Não acredito na hipótese da dissolução do jornalismo tal como o conhecemos hoje. As suas formas de expressão se transformaram, está havendo uma pluralidade de nichos editoriais, a sua qualidade está muito pior, mas a dissolução que vejo no jornalismo é a dissolução da verdade, a falsificação do fato, a negação da reportagem que já não é a mesma e que se dissolve, também, pela necessidade de criação da notícia, imposta pela velocidade da vida exposta nas redes sociais, que precisam ser alimentadas, ainda que tenhamos que matar o nosso semelhante em nome da cegueira que atravessa o espaço midiático. É, parece que já estou concordando com a sua pergunta, e isso já é motivo para ressaltar que precisamos discutir com mais profundidade esse tema de tão alta relevância. 

Franklin – Como e em que circunstância conheceu Nilto Maciel? Como vê a sua contribuição à Literatura e o seu trabalho de divulgador dos escritores brasileiros? Como o descreveria?


Dimas – Perdem-se no tempo as minhas andanças e os meus colóquios com Nilto Maciel. Um dos raros escritores incomuns na Literatura brasileira das últimas décadas, infelizmente, desaparecido. A nossa produção literária e a geração de escritores seus contemporâneos muito devemos à sua liderança e influência. E tanto mais, somos devedores da sua criação literária, original e desafiadora. Nilto Maciel escreveu uma obra de gênio, uma escritura de corte sintético e de alcance simbólico que primam pela correção gramatical e pelo refinamento estético e estilístico. Sem nenhuma dúvida, Nilto é uma dos nossos maiores escritores. Seu trabalho de divulgação dos autores brasileira talvez encontre poucos exemplos com os quais possa concorrer. A criação da revista O Saco, em Fortaleza, ainda na década de 1970, e a repercussão alcançada pela sua proposta, mexeram, profundamente, com a nossa literatura. Depois, já residindo em Brasília, Nilto Maciel fundou a Editora Códice e a revista Literatura, cuja trajetória todos nós conhecemos. Associei-me a ele nesses dois últimos projetos. Mantive com ele uma correspondência franca e proveitosa, especialmente, na época que escrevíamos à mão ou de forma datilografada. Talvez essa correspondência valesse alguns volumes, se ainda estivéssemos na época em que a escritura feita dessa forma tinha o seu significado. Sempre irônico e resignado com os tormentos da sua vida interior inquieta, Nilto Maciel era, no entanto, uma viajante, e viajante em todos os sentidos. Não demorava muito em um mesmo endereço. Trocou a cidade de Baturité, onde nasceu, por Fortaleza. Depois, mudou-se para Brasília, onde desempenhou as suas funções de burocrata, como funcionário do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, lastreando-se no seus conhecimentos de Bacharel em Direito. Mas isso conta muito pouco na sua biografia, pois o que importa destacar na sua vida é a Literatura, que fundamenta toda a sua vida enquanto destino e vocação. 

terça-feira, 28 de março de 2017

Martins Filho, o "EU" e Outras Pessoas (1)

                        Vianney Mesquita*



                                                          Pensamento gentil de paz eterna,
                                                         Amiga, oh morte, vem! Tu és o termo
                                                         De dois fantasmas que a existência forma:
                                                         Estalma vã e este corpo enfermo.

                                                      (Luís José de JUNQUEIRA FREIRE.
                                                       Salvador, 31.12.1832; 24.06.1855 – 22 anos).

          A 74 anos de trânsito do celebrado e contraditado Autor da Fazenda Pau d’Arco, adita-se a sua copiosa bibliografia crítica outra peça de incontestável valor, didático quanto histórico, de autoria do Prof. Antônio Martins Filho, conhecido de todo o Ceará, mercê de sua atuação na vida educacional e político-institucional do Estado.

          Reporto-me a Reflexões sobre Augusto dos Anjos, obra lançada em outubro de 1988, pela Coleção Alagadiço Novo, da Universidade Federal do Ceará, coordenada pelo Autor. Este segmento editorial uefeceano publica estudos e debates inéditos sobre a prosa e o metro das letras alencarinas, bem como reedita alguns trabalhos que, por motivo de sua publicação restrita, já há algum tempo, desapareceram de circulação e, em consequência, fugiram do alcance do estudioso e do público ledor.

          A Coleção Alagadiço Novo, cuja mais recente produção é o citado livro do Reitor Martins Filho e acerca do qual procederei adiante lábeis considerações, dentre os 15 volumes trazidos a lume, serviu-se, também, com tempestividade e gosto, de selecionar excertos da literatura cearense – verso, prosa de ficção, historiografia literária e outros gêneros – restabelecendo a oportunidade de leitura, ao mesmo tempo em que traz achegas importantes à acumulação dos nossos feitos literários.

           Martins Filho, na plena forma de acompanhamento do estado d’arte e no seu invejável vigor físico (2), realiza, agora, antiga pretensão, até então insatisfeita, de vir a público, com os seus compreendimentos hauridos quando participante da Academia dos Infantes, da cidade do Crato e cuja divisa era Ad Augusta per Angusta (A lugares elevados por difíceis veredas), revelando-os ao imenso contingente de admiradores do Rapsodo dos Tamarindeiros.

         Consoante seu depoimento, manifesto na apresentação do livro, ainda não experimentara o lance de se pronunciar publicamente a respeito do assunto, conforme sua intenção, assentado no testemunho da imensa aleia de autores e biógrafos que perlustraram a vida e a obra deste profundissimamente hipocondríaco Vate Paraibano.

         Neste sentido, tomou tento em levantar dados e empreender investigações, comparando opiniões, acatadas umas e desprezadas outras, para, ao final, oferecer um volume muito bem organizado, onde alista, com alevantado padrão de análise, diversos aspectos do trabalho do Poeta, a quem Olavo Bilac, num de seus não raros assomos de enfatuamento, disse desconhecer-lhe a existência, negando o lipemaníaco estanceiro de A um Carneiro Morto, antes que o galo cantasse pela terceira vez.

         Não bastasse a cristalina exposição, em linguagem a um só tempo rica e acessível, do seu modo de entender Augusto dos Anjos (3) e sem a pretensão de alevantar voos no terreno da Teoria Literária, o volume enfeixa, subsidiariamente, excepcional extrato das mais doutas opiniões dos críticos que apreciaram a carreira daquele que teria convivido com Koch (4).

           A esse respeito, aliás, considerando a periculosidade da tísica (o doente era feito o portador da SIDA de hoje – 2017 -com gravidade, decerto, ainda maior), há de se repensar essa possibilidade, em vista, por exemplo, da calorosa recepção por ele experimentada, quando chegou a Leopoldina – MG, desde o Rio de Janeiro, para ser diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira. E, seja expresso, não se ajuntavam sob um mesmo recinto nem paratíficos, tampouco leprosos, muito menos tuberculosos.

          Em vista das controvérsias sobre os estados mórbidos que perseguiram Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nos 30 anos de vivo – se tísico, psicopata, lipemaníaco com tendências suicidas ou portador de bronquiectasia – Martins Filho é de opinião que o celebérrimo Autor de Eu e outras Poesias se constituiu num “belíssimo caso médico”, que até animou o facultativo cearense Saboya Ribeiro (5) a sustentar tese de doutor junto à Universidade da Bahia, subordinada ao título Estudo Nosográfico de Augusto dos Anjos.

         O Professor Antônio Martins Filho louva-se, exempli gratia, em Eugênio Órris Soares [João Pessoa (hoje) 14.10.1884; Rio de Janeiro, 02.1964], o maior biógrafo de Augusto dos Anjos, escritor coestaduano do Poeta, que, como ninguém, entendeu as atitudes idiossincrásicas daquele da progênie “do carbono e do amoníaco”, o qual versejou em sua incomparável loquacidade cientificista, burilando com excessiva facilidade os polissílabos esdrúxulos – como no verso decassilábico de apenas duas palavras – “Misericordiosíssimo carneiro” – com impecável cadência e agradabilíssima sonoridade.

         Augusto dos Anjos, qual Junqueira Freire (ver epígrafe), também, “poeta da morte”, tem a lembrança recobrada, como capítulo à parte da Literatura Nacional, por via do livro de Martins Filho. Não se lhe pode, pela maneira sui generis de tornear, filiar a nenhuma escola. Não foi simbolista, embora com alguns traços de Paul Marie Verlaine. Tampouco é válido estabelecer vínculos seus com Charles-Pierre Baudelaire, porquanto provindo de um Parnaso diferente, particular; modernista: nisso não é possível cogitar.

         Antônio Martins Filho está inserto como relevante componente da biobibliografia referente a Augusto dos Anjos, além do citado Órris Soares, na grande ala de Antônio Torres, Francisco de Assis Barbosa, Hermes Fontes e outros expoentes, os quais rememoram (quer Olavo Bilac queira ou não) a grandiloquência da “Paleontologia dos Carvalhos”. Ele inicia na apreciação do Áugure Paraibano aqueles que, diferentemente dos da minha idade, em tempo mais recuado e tranquilo, nunca tiveram a ventura de incursionar pelas incomparáveis medidas poéticas do Profeta da Vila do Espírito Santo.

            Augusto dos Anjos, como Álvares de Azevedo, Castro Alves, Fagundes Varela, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire e outros assomados pelo Mal do Século, influenciou, sobremodo, o jeito de versificar daqueles que lhe cultuaram e cultivaram como uma das maiores expressões da literatura poética do País, não apenas pela temática naturalista esquisitamente bela e chocante, senão, também, em razão da sua profunda cultura científica manifesta por intermédio de suas magnificamente cadenciadas e sonorosas estrofes.

NOTAS DO EDITOR

(1) Reprodução, em parte e com modificações, do Capítulo 2 de MESQUITA, Vianney. Impressões –Estudos de Literatura e Comunicação. Fortaleza: Agora-Imprensa Universitária da UFC, 1989. 176 p.

 (2) O Fundador e primeiro reitor da Universidade Federal do Ceará, mais antiga instituição acadêmica do nosso Estado, nasceu no Município do Crato, em 22.12.1904 e faleceu em Fortaleza em 20.12.2002.

(3) Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu na atual Sapé (Engenho do Pau d’Arco, na então Província da Paraíba do Norte, hoje Estado da Paraíba, cuja capital era a cidade de Paraíba, hoje João Pessoa), em 20 de abril de 1884, e morreu em Leopoldina-MG, no dia 12 .11.1914).

(4) Heinrich Robert Koch foi um patologista e bacteriologista alemão, nascido em Hanover em 11.12.1843 e falecido em Baden-Baden em 27.05.1910. Foi ele a descrever, pela primeira vez, a bactéria provocadora da maioria dos casos de tuberculose, pelo que recebeu, em 1905, o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia. Segundo Vianney Mesquita (Esboços e Arquétipos, 2016, p. 86), o remédio contra o chamado Bacilo de Koch, que teria acometido Augusto dos Anjos, a Penicilina (Penicilium Notatum), foi descoberto pelo bacteriologista escocês Sir Alexander Fleming (1881-1955), com a colaboração do cientista tedesco Ernst Boris Chain (1906-1979) e Sir Howard Florey (1898-1968), os quais repartiram o Nobel de Medicina e Fisiologia de 1945. “Eis que se deu o caso de o vento haver trazido um esporo de mofo, o célebre humilde cogumelo, que repousou na lâmina de um experimento (1928), com cultura de estafilococus”. (Opus citatum).


(05) O Visconde de Saboya – Vicente Cândido Silveira de Saboya, barão e visconde. Médico, juiz e oficial superior da Guarda Nacional. Nasceu em Sobral-CE, em 13 de abril de 1836; falecido em Petrópolis-RJ, 18 de março de 1909.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Centenário de Gustavo Augusto Lima

Dimas Macedo
                                                                     

          Nascido aos 5 de janeiro de 1917 na cidade de Lavras da Mangabeira. Filho do Cel. João Augusto Lima e de Marieta Leite Lima. Fez o curso primário na terra natal e o ginasial no Ginásio do Crato e Colégio Castelo Branco, em Fortaleza, de 1929 a 1934.

           Ingressou na Escola de Agronomia da Universidade Federal do Ceará, em 1936, para diplomar-se Engenheiro Agrônomo em 1939, profissão a que deu notável desempenho, como funcionário público e cientista dos mais conceituados.

         Em Fortaleza, foi servidor do Tribunal de Contas do Estado e subassistente da Secretaria de Agricultura. Por seis meses, serviu ao Instituto Baiano do Fumo, na Estação Experimental de Afonso Pena, na Bahia.

           De regresso à terra natal, exerceu as funções de secretário da Prefeitura e o cargo de prefeito municipal, por duas vezes, a primeira de 31 de março de 1946 a 10 de março de 1947, por nomeação do Interventor Pedro Firmeza, e a segunda, de 6 de janeiro de 1948 a 31 de janeiro de 1951, eleito que fora a 8 de dezembro de 1947.

        Na cidade que lhe serviu de berço, foi encarregado do Fomento do Fumo, resultante de acordo firmado entre o Estado do Ceará e o Município de Lavras, e ali criou o serviço de combate à saúva, debelando mais de vinte mil sauveiros existentes no município.

         Como prefeito de Lavras da Mangabeira, foi profícua a sua administração, destacando-se a instalação do Posto Agropecuário e da Usina de Eletrificação da cidade, a criação do Colégio Agrícola, a construção dos prédios da Prefeitura Municipal e dos Correios e Telégrafos, a reconstrução do Grupo Escolar.

       No Colégio Agrícola por ele edificado, exerceu as funções de Professor Catedrático de Agricultura Geral e Especial e o cargo de diretor, nomeado por portaria de 31 de dezembro de 1953, exercendo a direção desse estabelecimento de ensino até 28 de maio de 1963.

          Do posto de Professor, afastou-se para exercer o mandato de Deputado Estadual, função que exerceu de 30 de maio de 1963 a 8 de dezembro de 1965. Na tribuna da Assembleia Legislativa, muito reivindicou em favor do seu município e do ensino agrícola no Ceará, tendo apresentado diversos de projetos de leis em prol do desenvolvimento agrícola do Ceará, fazendo de Lavras da Mangabeira o centro das suas atenções.

         Em 1967, reassumiu as funções de professor do Colégio Agrícola, cargo que ocupou por bastante tempo. Cientista e escritor, membro da Associação de Engenheiros Agrônomos do Ceará e do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia, é autor dos livros: A Cultura do Arroz (1973), A Cultura do Milho (1976), A Cultura do Feijão-de-Corda (1980) e A Cultura da Cana-de-Açúcar (1984).
Para o escritor Pereira de Albuquerque, o que mais o fascinava esse notável lavrense “era o exercício do magistério, bom professor que era. A sala de aula era o seu palco preferido. Aí, sim, cercado de alunos e dissertando sobre agricultura, oferecia o melhor de si”.

           Foi um dos mais eficientes prefeitos que Lavras da Mangabeira conheceu e um dos seus maiores beneméritos. A sua retidão, o seu humanismo e a sua devoção à causa social e educacional constituem um exemplo de vida e de trabalho a iluminar as novas gerações.

     Como destacou João Alves Teixeira, em artigo publicado no jornal O Povo, enquanto prefeito de Lavras “ele revolucionou, inovou, construiu, conseguindo milagres, verdadeiramente surpreendentes, na área sócio-educativa-assistencial”.

          Tendo falecido aos 28 de dezembro de 1988, a sua trajetória de vida encontra-se retratada no livro – Gustavo Augusto Lima: 1917 – 2017, de Rejane Monteiro Augusto Gonçalves (Fortaleza, 2017), sendo ele Patrono de uma das cadeiras da Academia Lavrense de Letras.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Meus Sessenta Anos



           Dimas Macedo
                                                                           

            Comemoro os meus sessenta anos saboreando aquilo que mais aprecio: os prazeres da Literatura e o gosto sereno das palavras com as quais reinvento as minhas travessias. Dolorosa seria a minha vida se eu não pudesse ser o escritor no qual me transformei.

           Sou um amante excessivo do desejo, um esteta cuja expressão nunca é alcançada, um ser carnal e resoluto, um agiota da música e do silêncio, um místico cuja obsessão é a ausência ou o triunfo supremo da linguagem.

           Existencialista até a medula de todos os sentidos, não espero da vida senão a energia para continuar amando, senão a renúncia de tudo aquilo que aspiro, senão a fuga em busca das respostas, senão a solidão e os vinhos com os quais alimento os meus heterônimos.

           Sei que o poeta, o homem e jurista que representei irão sucumbir, silenciosamente, após a minha morte; e que ficarei, talvez, qual um retrato na mente de um amigo, qual uma corda lançada no abismo, em busca daquilo que nunca será encontrado. 

           Diante dos sessenta anos, percebo o tamanho da minha pequenez e da minha insignificância. Sei que nada sou, que nada serei e que as minhas cinzas serão esquecidas, que os meus livros e os meus registros serão apagados e que viverei em poucos corações, e que apenas o corpo de um Anjo provou o sal da minha boca.

           Confesso que nada tenho para confessar, que nenhuma palavra me resta dizer e que este artigo foi escrito em testemunho do meu esquecimento e em tributo à vida da forma como eu a vivi: livre, desembaraçada, aberta, recheada de defeitos e inacabada como a minha obra literária. 

           Do que posso me orgulhar de ter feito? Orgulho-me porque eu trouxe ao mundo a existência dos meus filhos, porque me entreguei ao Amor quando eu achava que a vida já tinha terminado.

           Todos os tecidos da existência são solúveis, e todos os desejos que nascem, a tirania dos homens procura reprimir com as suas normas desumanas. Eis a religião na qual acredito. O resto será a paródia da vida e o silêncio, e a composição de um poema que nunca será terminado.