quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Zito Lobo, Meu Pai: 90 Anos de Um Poeta

Dimas Macedo

                                                                        
                                                        
       Zito Lobo é pseudônimo pelo qual se tornou conhecido, em Lavras da Mangabeira (CE), o cidadão José Zito de Macedo, nascido no sítio Calabaço, daquele município, aos 29 de novembro de 1922, e falecido em Fortaleza, aos 24 de março de 1987.

      Recolhido na simplicidade da sua expressão gestual discreta e cativante, de característica marcadamente paternal e afetiva, esse amante incondicional das suas raízes cearenses é autor de um livro de poemas que, de forma sutil e reiterada, atesta o seu amor à verdade e à cultura da sua região.

      Mesmo acompanhando de perto, durante algum tempo, a sua dedicação à vida literária, jamais me acorreu a ideia de que, no final dos seus dias, a sua criação viesse a assumir tamanha gravidade, e de que  o seu espólio de poeta estivesse praticamente pronto para o prelo.

     Sabia ele, no entanto, do significado e do valor que permeavam a tessitura dos seus versos, e sabia, mais do que isso, que eu jamais me furtaria ao compromisso que um dia lhe fizera de publicar uma seleção dos seus poemas.

     Dessa circunstância é que nasceu a edição de Trovas e Poemas (Fortaleza, Editora Oficina, 1990; 2ª edição: Fortaleza, Edições Poetaria, 2011), volume no qual decidi reunir, de forma rigorosa, os seus poemas produzidos após a morte da minha mãe, Maria Eliete de Macedo, aos 10 de outubro de 1975.

     Da emoção e do enlevo que sempre costuraram as suas atitudes, ele não se furtou de falar ao silêncio da sua escritura literária, tecendo trovas, poemas e sonetos temperados pela coloração das lembranças e das recordações; e poemas que despertaram a atenção de escritores do porte de Joaryvar Macedo (de quem era irmão unilateral) e José Alcides Pinto, que escreveram, efusivamente, sobre a sua obra literária.

      Enquanto poeta, meu pai soube revestir os seus poemas do mais fino gosto popular, utilizando os recursos da trova e do repente para denunciar os contrastes e fraturas do nosso esquecido sertão, e da classe social na qual inseriu a sua visão de escritor, seguindo, nesse passo, a influência maior do meu avô, o destemido poeta Lobo Manso, uma das vozes mais expressivas da nossa literatura de cordel.

     Vivendo a epopeia dos que laboram na busca da Justiça e no cadinho da Resistência e da Verdade, é certo que seu nome remarca as tradições da comuna que o acolheu como cidadão, pois afora a militância de ordem literária, ostentava trajetória de vida fincada na participação e no desejo de realização do social.

     No Sítio Calabaço, sempre viveu da pecuária e do amanho da terra, mas em 1958, tangido pelas asperezas da seca, veio a fixar residência na cidade de Lavras, passando, a partir de então, a desenvolver atividades no Sítio Cajueiro, que adquirira, por compra, do seu primo e cunhado, Vicente Favela de Macedo.

     Colocando-se ao lado das vanguardas e iniciativas da cidade de Lavras, seria ele, naquele município, um dos fundadores do Círculo Operário dos Trabalhadores Cristãos, de cujo núcleo regional foi Presidente.

       Também no município de Lavras, meu pai foi um dos fundadores do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, sendo um dos instituidores, na gestão em que foi Tesoureiro de referido Sindicato, da Cooperativa dos Trabalhadores Rurais de Lavras da Mangabeira, que igualmente dirigiu.

       Em 1966, participou do processo de constituição do diretório municipal do MDB, ao lado de homens de determinação e de coragem, tais as legendas de Jaime Lobo de Macedo, João Guedes de Araújo, Antônio Pinto de Macedo e Otoni Lopes de Oliveira.

       E, ao abrigo dessa nova vivência democrática, teve o seu nome cogitado ao cargo de Prefeito, o mesmo ocorrendo em 1976, quando o industrial João Ludgero Sobreira o quis transformar em chefe da edilidade. De ambos os encargos, contudo, soube se eximir com elegância, demonstrando não possuir interesse pelas coisas do poder e da instituição municipal.

             Relações de estima e afetividade são formas de valores que sempre difundiu entre os seus. O que marca, contudo, a sua trajetória, é a disposição que sempre demonstrou de servir à causa social, ligando seu nome à prática de uma liderança carismática e católica que, na sua terra de berço, exerceu como poucos cidadãos, dando-me o privilégio de ter como padrinho o sempre virtuoso Padre Alzir.

            Transferindo-se para Fortaleza, em 1975, aqui viria a fixar residência no Bairro da Piedade, onde se tornou figura popular. Atuando como Cooperador Salesiano junto à Paróquia da Piedade, ali integrou a Associação do Sagrado Coração e a Associação de Nossa Senhora Auxiliadora, desempenhando funções de direção junto à Associação dos Merceeiros do Ceara e ao Círculo Operário dos Trabalhadores Cristãos – núcleo regional do Bairro da Piedade.

      Sua primeira mulher, Maria Eliete de Macedo, com quem se casou aos 27 de novembro de 1945, era sua prima legítima, tendo nascido no sítio Calabaço, em Lavras da Mangabeira, aos 20 de fevereiro de 1929, e falecido em Fortaleza, aos 10 de outubro de 1975. Já a sua segunda mulher, Francisca Nogueira Maia Macedo, era natural de Morada Nova (CE), mas é certo que com ela pouco conviveu, pois a morte o ceifou pouco tempo depois.

      Descendente dos desbravadores que construíram a civilização do Cariri, filho de Maria de Aquino Macedo e de Antônio Lobo de Macedo (Lobo Manso), uma das legendas da poesia popular do Ceará, José Zito de Macedo (Zito Lobo), para o meu orgulho, é hoje Nome de Rua em Fortaleza e em sua cidade natal, num reconhecimento, acredito, aos seus melhores atributos.

       Ao ensejo da criação da Academia Lavrense de Letras, o poeta Linhares Filho foi um dos primeiros a indicar o seu nome para Patrono de uma das Cadeiras, gerando, de plano, a concordância de todos os presentes.

      Honra-me, de forma profunda e recompensadora, o fato de ser filho desse denso e memorável José Zito de Macedo, que neste ano de 2012 completa os seus noventa anos.

      A sua retidão, a sua leveza de espírito e o seu desejo de servir ao próximo e de amar à causa de Deus e da Igreja constituem parte do que mais admiro na sua formação.

       Eu sempre o amei e venerei da forma mais sentida, e da forma ainda mais sagrada e dolorosa daquilo que faz parte de mim, e que me ensina a ser, a cada instante, um servo fiel do seu amor, bastando-me o seu exemplo como modelo de pai e de amigo, e de esposo fiel e generoso, sendo esteio de amparo e proteção para todos nós.
 
 
                                             
                                                       
                                                             Igreja de São Vicente Ferrer
                                                             Lavras da Mangabeira-Ceará


sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Retrato de Alzir Oliveira

            Dimas Macedo
                                      
            
 
                Intelectual, professor e pesquisador de renome – atividades a que se dedicou sempre com esmero –, Alzir Oliveira nasceu no sítio Mareco, nas proximidades de Quitaiús, município de Lavras da Mangabeira, aos 06 de maio de 1945.

           Filho de Vicência Bezerra de Oliveira e Raimundo Benício de Oliveira; foram seus avós maternos: Cristina Francisca de Sampaio e Joaquim Tomás de Aquino Sampaio, e, paternos: Maria da Cruz Neves e Firmino Benício de Oliveira.

            O nome com que foi batizado constituiu uma homenagem de seu pai ao Padre Alzir Sampaio, vigário de Lavras por mais de trinta anos e grande amigo da família.

            Aprendeu as primeiras letras no sítio Roça Velha, vizinho ao sítio Mareco, com a Profa. Dona Mocinha, transferindo-se depois para o Grupo Escolar de Quitaiús, onde estudou com a Profa. Altair Leite, cursando até a metade do quarto ano primário.

            Em 1956, com a decisão de seu pai de ir morar em Juazeiro do Norte, em busca de horizontes para sua atividade comercial e chances de educação dos filhos, Alzir passou a estudar no Colégio Salesiano Dom Bosco, onde concluiu o primário e iniciou o ginasial.

            Em 1959, foi estudar no Instituto Padre Rinaldi, na cidade de Carpina, Pernambuco, ali terminando o ginásio e iniciando o científico, que veio a concluir no Colégio Diocesano do Crato, em 1965.

           O curso de Graduação em Letras foi realizado na Faculdade de Filosofia do Crato, vinculada à Universidade Regional do Cariri, no período de 1966 a 1969, tendo por colega de vida acadêmica o seu conterrâneo Joaryvar Macedo.

           De 1964 a 1970, lecionou História Geral e Língua Inglesa, no Colégio Diocesano do Crato e em outros educandários da cidade, tais o Ginásio Pio X e o Colégio Santa Teresa.

           De 1971 a 1978, foi professor de Linguística e Língua Portuguesa na Faculdade de Filosofia de Cajazeiras, hoje Centro de Formação de Professores, tendo lecionado também na Faculdade de Direito de Sousa e no Curso de Letras da Fundação Francisco Mascarenhas, em Patos.

            Em 1978, passou a ensinar na Universidade Regional do Nordeste, ingressando, em 1980, na Universidade Estadual da Paraíba, como professor de Linguística e Língua Latina, ali permanecendo até 1994, quando se aposentou, tornando-se professor visitante dessa Universidade de 1995 a 1998. Nessa última data, ingressou, como professor concursado, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde permanece.

             De 1975 a 1978, cursou mestrado em Língua Portuguesa na PUC-RJ, com área de concentração em Dialetologia; e, de 2003 a 2007, realizou o seu doutorado em Linguística Aplicada, no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da UFRN, desenvolvendo pesquisas voltadas para o ensino das línguas clássicas, nas áreas de letramento e de gêneros discursivos.

              Integrante do grupo Civilizações Antigas, organizado por docentes da Universidade Federal de Minas Gerais, o professor Alzir Oliveira tem participado de inúmeras viagens de estudo, com visitas a sítios arqueológicos greco-romanos na África, Ásia e Europa.

             Em 2000, esteve na Sicília (Itália); em 2001, visitou os Sítios Arqueológicos da Grécia e da Turquia; em 2003, viajou a Bari (na Itália); e, em 2009, realizou o Roteiro de Dom Quixote, na Região de La Mancha, na Espanha, visitando a França em 2011.

              É autor de vários ensaios no campo da sua especialidade, destacando-se, entre eles, “Território da Linguagem”, “Discurso e Prática do Latim no Ensino de Graduação” e “Tradições Populares da Pecuária Nordestina”, incluído este último no Dicionário Crítico Câmara Cascudo.

              É sócio efetivo da Associação Brasileira de Linguística, do Grupo de Estudos Linguísticos do Nordeste, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.

             Sempre empenhado na efetivação dos seus estudos científicos, ainda não se permitiu a sua estreia no campo literário. Os seus poucos poemas revelados, contudo, não deixam de expressar os seus sentimentos com relação à terra que o viu nascer.

               Avesso a notoriedades, nunca se deixou levar por vaidades ou elogios de qualquer natureza. A sua formação humanística e a sua simplicidade constituem os seus grandes atributos, sendo também relevantes as suas qualidades espirituais e humanas.

               As reminiscências da infância, vivida no sítio Mareco, em Lavras da Mangabeira, constituem o seu ancoradouro, orgulhando-se de ser ribeirinho do Riacho do Rosário.

               Trata-se, portanto, de um cearense que muito bem nos representa, no campo da erudição e no estudo do grego e do latim; e que honra, com a sua vocação de humanista, a cultura letrada do Brasil.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Memória de Frei Reginaldo

 
 
            Dimas Macedo



                Filho de José Alves de Araújo e de Alzira Crispim de Araújo, João Crispim de Araújo nasceu no sítio Cantinho, distrito de Mangabeira, na parte dessa localidade que extrema com a sede municipal de Lavras da Mangabeira, a 1º de fevereiro de 1925.

            Trata-se de Frade da Ordem dos Franciscanos Menores (OFM), conhecido na vida religiosa pelo nome de Reginaldo Araújo, cuja infância transcorreu entre o sítio Campos, no município do Icó, e o sítio Cigano, pertencente ao território de Baixio, tendo os seus irmãos se espraiado também pelo distrito de Amaniutuba.

            Chamado de Josi por seus familiares, desde muito cedo, sentiu a chama do amor e da fraternidade nos recessos do seu coração, e percebendo o sopro de Deus em sua caminhada, se deixou levar pelos ruídos da voz interior, consagrando-se à liberdade da obediência e aos exemplos da vida de Jesus.

             Aos vinte e três anos, atendendo aos apelos da sua vocação, ingressou no Convento de Santo Antônio, na cidade de Canindé, para onde sempre regressou, pois ali se sentia mais à vontade em face da religiosidade popular.

            Serviu nas províncias dos Capuchinhos em Campina Grande (Paraíba), e em São Cristóvão (Estado de Sergipe), onde se destacou como Ecônomo e Diretor Espiritual. Esteve durante algum tempo em Salvador, adido ao Convento de São Francisco, localizado na comunidade de Brotas, hoje, Casa de Repouso São Francisco.

             Durante mais de quinze anos, serviu no Convento de Santo Antônio, no Recife, onde trabalhou no Comissariado da Terra Santa, condição que possibilitou a sua passagem por diversos Conventos Franciscanos a serviço dessa missão.

              Frei Reginaldo Araújo residiu também em Fortaleza, no Convento Nossa Senhora das Dores, tendo sido acolhido, a partir da década de 1960, na Província Franciscana de Canindé, comunidade onde viveu a maior parte dos seus sessenta anos de consagração.

             Naquela localidade, destacou-se pelos seus relevantes serviços prestados à causa social, contando-se entre eles a instalação do Hospital São Francisco, casa de repouso na qual veio a falecer, aos 19 de dezembro de 2011.

            No seio da comunidade franciscana, era tratado carinhosamente pelo nome Régis, tinha como lema de vida: “colhemos aquilo que plantamos”, e costumava afirmar que veio ao mundo para viver os Evangelhos de Jesus.

            Conhecido pela sua humildade e desapego, viveu até o último momento os votos de obediência, castidade e pobreza, consagrando-se, durante toda a vida, ao ideário de Servo do Senhor, sempre em defesa dos necessitados, ajudando-os conforme o mandamento cristão: “dá, de tal forma, que a tua mão direita não veja o que a mão esquerda entrega ao teu irmão”.

            Franciscano de grandes virtudes, modelo de honradez e dignidade, Frei Reginaldo Araújo era detentor de um espírito alegre e comunicativo, e costumava dizer para todos que “tudo estava tinindo”, e que a fraternidade e o amor estavam no centro da ressurreição e no caminho de volta para o pai.

            Um dos seus irmãos, de nome Josemar, destacou-se, em Lavras da Mangabeira, pela vocação da causa que abraçou – a política institucional, tendo sido Vereador e Vice-Prefeito daquele Município.

           Ao lado do Frei Jeremias Ciriaco, nascido no distrito de Quitaiús, e também pertencente à Ordem dos Franciscanos Menores (OFM), Frei Reginaldo Araújo forma a dupla de religiosos, nascidos em Lavras da Mangabeira, que mais alto se elevaram diante vida consagrada à causa dos irmãos.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O Reino Português de Lourenço e Saramago

               Dimas Macedo

 
Portugal a Partir do Porto
Foto do Autor
 
       Do mar português de Luís de Camões, ao tudo enquanto nada que permeia a criação literária de Fernando Pessoa, correm as águas armoriais da cultura lusa. O Barroco, no campo literário, é, possivelmente, o seu melhor tecido emblemático; e o labirinto linguístico é feito às vezes de surpresas, que ousam renovar os desvios da língua, mas o que fazem, não raro, é pagar tributos à geografia simbólica da solidão e da saudade.

   Herculano, Garret, Pascoaes, Camilo Castelo Branco e tantos outros, fiéis ao imaginário do mito português, desenharam de Portugal a tatuagem lírica, mas não de forma genial ou sutil quanto Eça de Queiroz ou Miguel Torga, ou não de jeito tão francamente existencial e filosófico quanto Guerra Junqueiro ou Antero de Quental, ascendentes maiores de Pessoa e de Vergílio Ferreira.

   Mas nenhum deles, acredito, foi tão perdidamente simbólico ou tão rispidamente cético e barroco quanto, respectivamente, Eduardo Lourenço e José Saramago, possivelmente os dois maiores escritores portugueses vivos. [em 2000].

    O que impressiona, neles, é como ambos foram tocados pelo sentimento da diáspora e como se expatriaram do território português e continuaram devendo à cultura lusa as maiores reverências possíveis. Lourenço lhe fazendo acenos de Vence, em pleno território francês; e Saramago se resignando à solidão dolorida de Las Tias, pequeno povoado da ilha Lanzarote, nas Canárias – ambos, no entanto, envolvidos até a medula com a melancolia feliz e com os signos da simbologia imperial portuguesa, que os castelos de Pessoa e a polifonia armilar dos seus brasões elevaram talvez ao plano da cosmogonia e representação universal.

     Neste sentido, como ponto de partida, parece-me ser o verso célebre de Fernando Pessoa – Minha pátria é a língua portuguesa – o coroamento de síntese inimaginavelmente icônica em qualquer cultura moderna.

     A reinvenção do barroco, na literatura de Saramago, e a Mitologia da Saudade, almejando Portugal como destino, na Heterodoxia de Eduardo Lourenço, são espaços seminais que refletem um indiscu­tível apelo saudosista.

    Podemos observar em Saramago, especialmente em um livro de crônicas de uma fase bem anterior àquela de construção do grande romancista, intitulado – A Bagagem do Viajante, uma referência expressa às “Saudades da Caverna”, onde Saramago leciona que “esta atração pelo primitivo português, que até na decoração de nossas casas ganha aspectos de ideia fixa, quase agressiva, se por um lado pode significar a continuidade, em plano diferente, de certa atração de contrários que nos caracterizou como sociedade particular, (...) há de certamente obedecer a razões menos visíveis e mais universais”.

   Essas razões a que se refere José Saramago, penso que são aquelas da tradição e do imaginário português que, segundo Eduardo Lourenço, “ousaram colocar-se no centro do mundo”, revelando assim o autor de Heterodoxia a ousadia e a erudição da eterna sensibilidade portuguesa e da sua alma tão enlevada e envolvente.

     Sem a fidelidade à língua portuguesa e sem a sua recriação através de volteios e de inigualáveis torneios barrocos, talvez Saramago jamais tivesse conseguido ser lido, e é possível também que essa língua – que é nossa e pela qual sentimos e pensamos de maneira quase solitária – jamais pudesse almejar o seu futuro Prêmio Nobel, uma vez que o passado não permitiu a Portugal os louvores do reconhecimento.

     A Bagagem do Viajante, de forma gentil e emblemática, aponta para o eterno retorno da cultura lusa. Mas sobre o seu autor cabe finalmente perguntar: o que seriam José de Sousa Saramago e a sua imaginação sediciosa? Em que consistiria o êxtase da sua grande aventura com a língua? Estas perguntas, claro, me exigem que lhes diga algo sobre o estilo saramaguiano, isto é, sobre os traços góticos e barrocos de sua escri­tura literária.

   Minhas rendas verbais, no entanto, possuem outros acentos literários e, por isto mesmo, prefiro dizer que amo Saramago pelas muitas virtudes do seu texto e pela virtuose semântica e estilística do seu universo polifônico. E que vejo em sua obra os fundamentos da cultura lusa como um todo, principalmente o memorial do convento português, que é o lócus que esconde a sua solidão de místico e de poeta, que se tornou cético em relação ao destino que não lhe permitiu pensar por intuições e metáforas, mas apenas por alusões e alegorias.

   Particularmente, do ponto de vista da linguagem, José de Sousa Saramago é um escritor enigmático. É cético, como disse, e pessimista como todo intelectual que se preza. Se tivesse enveredado pelo romance de ideias, talvez fosse hoje um ficcionista derrotado. Teve, no entanto, o dom de pesquisar a estética e estabelecer um tormentoso diálogo com a língua. E isto talvez seja tudo para sua reputação de militante político renomado.

    A excelência que permeia a luminosidade do seu texto, a extraordinária beleza de sua dicção literária, a polissemia dos sentidos e a arqueologia da existência social e individual, a consciência de estar no mundo e de ter que gravitar em meio a incompreensão e a desigualdade – configuram, com certeza, uma personalidade e uma estrutura literária maiores do que se podiam pretender.

    No mais, que se ponha em relevo, na imensa bagagem saramaguiana, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, o maior, talvez, de todos os seus empreendimentos barrocos, e que se releve o Evangelho Cristão-Português de Saramago, antes mesmo que a cegueira seja uma visão a enfocar o nosso sentimento e o modo de sentir e de pensar o reino português.

   Isto pode nos levar, também, à concussão de que a mitologia do mar português de Luís de Camões tenha se esgotado talvez nos artifícios barrocos saramaguianos. Não é assim que penso, no entanto.

    O que não posso esquecer é aquilo que me ensinou Eduardo Lourenço no seu livro – Mitologia da Saudade, o seu último conjunto de escritos, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, em 1999, com orelhas espantosamente saramaguianas.

      Pois bem: para Eduardo Lourenço, “na trama do imaginário português convivem: a imagem do reino cristão, o sentimento de isolamento e fragilidade, o sebastianismo e a ideia de um povo messiânico, a visão de um país – predestinadamente colonizador e oniricamente imperial”.

   Mas é a saudade, assegura Lourenço, o ícone maior da cultura que se armou em Portugal, e o elemento que alinhava todos os demais. Saudades da infância, também, ou do tudo que é nada - o lugar não dito ou não revelado na escritura de Saramago, e que se tornou, igualmente, uma obsessão em suas entrevistas, especialmente depois que assumiu a diáspora e não conseguiu esquecer Portugal como destino. A Mitologia da Saudade nele é tão intensa e tão forte quanto em Eduardo Lourenço.

  Para Saramago, Eduardo Lourenço sempre insistiu no labirinto de sua vasta obra – a obra de maior ensaísta português da atualidade – em referir-se a “um lugar de crepúsculo que se esvai como um rio entre a decepção de outrora carregada de sonho e o sonho de hoje sonhado pela memória dessa decepção”.

   E acrescenta Saramago: “nenhuma dúvida, portanto, sobre o tema central das reflexões de Eduardo Lourenço: o que sempre o ocupou e preocupou foi Portugal, um Portugal que, depois de ter inventado, como lhe cabia, os seus mitos fundadores, fantasiosos como todos são, também precisou criar o que poderá ser chamado de mitos mantenedores, cujo ofício têm sido o de sustentar e prolongar as esperanças coletivas, sucessivamente colocadas num porvir que sucessivamente se nega”.

  “Foi por este caminho que viemos desde as trovas do Bandarra ao profetismo pessoano, com passagem pela “volta” de D. Sebastião, pelas exaltações patrióticas de Vieira, pelo melancolismo saudoso de Pascoaes. Equívoco grave, porém, seria pensar-se que a reflexão de Eduardo Lourenço se gratifica em brumosas contemplações de ausências. Pelo contrário: tudo o que o autor de Nós Como Futuro escreveu até hoje obedece a uma necessidade de ver e compreender o que há por trás dos véus em que parecem esconder-se, mais do que Portugal, os portugueses”.

    Por fim, registro que A Viagem a Portugal, de José Saramago, muito mais do que A Bagagem do Viajante, a que me referi, assim como as linhas barrocas da sua arquitetura verbal e polifônica, são atestados, grandiloquentes também, de que Saramago sucumbiu ao mar português de Luís de Camões e ao sebastianismo que fez de Pessoa o Príncipe-Infante da modernidade literária.


Palestra apresenta no VI Encontro de Intelectuais e Artistas da Diáspora, realizado em Fortaleza, em junho de 2000.

sábado, 10 de novembro de 2012

A Arte de Cláudio César

              Dimas Macedo


                                                                                  Painel da AL do Ceará.
                                                                                  Tela de Cláudio César.
                           



                   Cláudio César é um dos artistas de maior talento que conheço, e tudo o que ele produz, nos recessos do seu ateliê, me chama de plano a atenção. Na sua obra, vejo a linhagem de um traço barroco, que se funde com o pós-moderno, mas que não paga tributo nenhum às vanguardas, pois entre ruptura e tradição, ele prefere ser fiel à intuição do seu imaginário. 

           Autor de um estilo seco e elegante, Cláudio César é um artista plástico bastante realista, e é por isto que a sua obra é tão impactante. Sua criação, às vezes, aponta para o caos; noutras vezes, ela nos induz o campo da visão para o abstrato; mas tudo o que faz a sua obra é nos provocar a consciência para o conflito político que sempre nos espera.






             Para Roberto Galvão, a criação plástica desse grande artista cearense ensina-nos “a ter contato com saberes, desejos e prazeres, por vezes, até inconscientes que, talvez, tivéssemos dificuldade de perceber em diálogos outros que não através da arte”. 

             E no mais acrescenta Galvão que a arte de Cláudio Cesar reflete (e também representa) o desencanto do mundo atual, com sua crueza profana, e por certo também com a sua “alegria triste, com um sabor por vezes amargo de falsa moral”.

             Nas suas telas, desenhos e esculturas, Cláudio César se faz representar a partir daquilo que constitui a sua identidade e a sua rispidez, mas é certo também que ele se deixa revelar a partir da sua emoção artesanal, tornando-se, com isso, sagaz e expressivo, claro, funcional e comunicativo.

             Cláudio César, de forma induvidosa, é um dos grandes artistas plásticos do Brasil nos dias atuais, mas como é desabusado e radical na arte de fazer concessões, e de agradar às tendências da moda, vai se deixando ser o rebelde sem causa que o é. E é por isso que ele se torna um artista tão original.

              Na sua mais recente exposição, feita no Centro Cultural dos Correios, em Fortaleza, podemos perceber uma amostra do seu crescimento, e acompanhar o percurso da sua trajetória, rica de nuances e de criações que sempre se renovam.

                Natural do Rio de Janeiro, Cláudio veio muito cedo para o Ceará e aqui desenvolveu o seu aprendizado, dedicando-se, de forma obstinada, aos apelos da sua profissão, aqui auferindo prêmios expressivos, em mostras individuais e coletivas, isto sem contar o seu contributo para a história da arte cearense. 

               O painel de sua autoria, afixado no hall da nossa Assembleia Legislativa, é bem uma amostra daquilo que somos enquanto o povo e nação, enquanto misticismo e rebeldia, e enquanto escola de ironia e de humor. 

               Além de pintor, escultor e desenhista, Cláudio César é também Advogado, tendo realizado, na sua juventude, cursos de desenho básico e de desenho de publicidade nas oficinas no Parque Lage, no Rio de Janeiro, e no Serviço Nacional do Comércio (SENAC).

               Em 1992, Cláudio foi agraciado com Medalha de Prata, por ocasião da ECO-92, mudando-se para Fortaleza dois anos depois e aqui obtendo o reconhecimento, tanto de setores da crítica, quanto da acolhida da sua obra em acervos públicos e particulares.

               Não vou abusar da paciência dos leitores enumerando o rol de suas conquistas, senão dizer que, enquanto apreciador da arte, poeta e crítico literário, eu muito o admiro a sua criação, e muito me orgulho, também, de tê-lo na conta de amigo.