segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Dimas Macedo - Edições Poetaria e Logomarcas

                                               
                                                                                    Dimas Macedo: este é o meu Selo Editorial
                                                                                    Criado pelo Mestre Greraldo Jesuino.
                                                                                                                                                                      


                                          

                                                                                Selo Editorial das Edições Aceite, estilizado
                                                                                pelo Mestre Geraldo Jesuino em 2001.
                                                                                Editei alguns livros com essa Logomarca.



                                                                                       Logomarca da minha Coluna 
                                                                                        semanal no site Direitoce.


sábado, 28 de setembro de 2013

A Face do Enigma



                                Adriano Espínola
  
 
                                         Capa de Geraldo Jesuino

            É uma grande honra para mim tecer algumas palavras de louvor e admiração a duas figuras de minha particular estima e amizade: José Alcides Pinto e Dimas Macedo. Por isso, considero esta uma noite especial. Especial na verdade para todos nós que aqui nos reunimos em torno de um homem de gênio e de um ensaísta e poeta de primeira ordem, que a ele dedica um livro-álbum, de bela feitura gráfico-literária, enfeixando pesquisa biográfica, análise crítica, poesia e ilustrações, como a simbolizar, através da beleza plástica e conteudística do volume, a excelência da criação artística do autor de Cantos de Lúcifer.

            Afirmei que esta noite é especial também por uma outra razão que não somente literária. É que o homenageado fará oitent’anos, em 2003, e o livro de Dimas Macedo surge, assim, como a primeira das muitas manifestações, que se aproximam, de carinho e reconhecimento voltados para o amigo, o mestre e irmão em literatura, o poeta maior, José Alcides Pinto. 

            Esta noite representa, pois, uma dupla comemoração: a do artista, com cerca de 50 obras, nos mais diversos gêneros – poesia, romance, conto, ensaio, crítica, teatro – e a do homem, que chega, glorioso, aos oitent’anos de vida. Quando digo comemorar, quero ater-me ao étimo da palavra, que significa memorar com, isto é, lembrar conjuntamente, tornar a memória coletiva. Esta por certo a aspiração máxima de toda grande obra artística, de acordo com Borges, quando participa da memória da raça, fazendo-se patrimônio comum, com seu universo de símbolos, significados, gestos, notas ou traços que forjam a identidade e a capacidade de criar de um povo. Como assim ocorreu e ocorre com a obra de Camões, em Portugal, com Walt Whitman, nos Estados Unidos, com José de Alencar, Castro Alves e Jorge Amado, no Brasil, só para citar alguns exemplos. Toda obra literária, quando devidamente compartilhada, mercê de suas qualidades estéticas e de um plus indefinível, torna-se objeto permanente de co-memoração: passa a pertencer à memória coletiva. Como é o caso, entre nós, da obra de José Alcides Pinto. 

            Dito isto, louvemos a iniciativa de Dimas Macedo, materializada neste trabalho, A Face do Enigma (2002), que exigiu o concurso de outros tantos talentosos amigos, para que chegasse a resultado tão fino. Em primeiro lugar, gostaria de destacar aqui o projeto gráfico, a capa e a formatação eletrônica realizados por este extraordinário artista gráfico, desenhista e professor, Geraldo Jesuíno da Costa, a quem o Ceará tanto deve, nestes últimos 25 anos, ao elevar, nas oficinas da Imprensa Universitária da UFC, o nível da produção gráfica de numerosas obras literárias nossas, todas marcadas pelo bom-gosto, elegância e criatividade. Como podemos de pronto atestar em A Face do Enigma. Um livro que realmente dá prazer aos olhos, ao tato e ao olfato. Sim, porque um livro graficamente bem feito é cheiroso, é sedutor no seu formato, é elegante e suave ao toque, em tudo lembrando uma bela mulher. Com uma vantagem adicional: podemos levar os dois para a cama...

            Também o livro contou com a participação especial do gravurista Audifax Rios e, sobretudo, dos xilógrafos Abelardo Brandão, Augusto Amaral, Eduardo Eloy, Francisco de Almeida, Hélio Rola, Hilton Queiroz, Nauer Spíndola, Nilvan Auad, Roberto Galvão, Sebastião de Paula, Sérgio Lima e Silvano Tomaz, os quais, com suas criações na madeira ferida por golpes expressionistas, ilustram com alta categoria as décimas heptassilábicas de Dimas Macedo, em louvor de Alcides Pinto. E aí está, quero crer, o sentido maior da participação desses artistas no projeto, ao retomarem a tradição popular nordestina/cearense de juntar os versos de cordel às capas com desenhos talhados na madeira. Se é verdade que predominam na xilogravura de cordel os temas religiosos e míticos – herança medieval – numa tentativa inconsciente de conciliar o sagrado e o profano, configurando um tempo mítico e visionário, marcado pela dualidade vida e morte, sonho e realidade, começo e fim, segundo Bakhtine, os traços contrastivos de preto e branco da xilogravura ilustram à perfeição esse mundo e esse modo antitético de ver as coisas. Ora, no livro de Dimas Macedo, os xilógrafos convidados se encontram não só ilustrando, como manda a tradição,  os versos cordelistas de Macedo, mas também, por tabela, o mundo mítico e visionário, sagrado e profano de José Alcides Pinto.

            Igualmente digna de nota a iconografia selecionada pelo autor desta obra, representando o ambiente rural, a família e amigos do poeta nascido em São Francisco do Estreito, município de Santana de Acaraú. Há, nesta seção, uma espécie de fotobiografia do poeta maldito. Não só: contempla, ainda, o resgate fotográfico de personagens que achávamos pertencentes apenas ao seu universo ficcional. Curiosamente, as figuras de João Firmo Cajazeiras e do padre Francisco Araken da Frota, por exemplo, que ali aparecem, deixam de representar pessoas empíricas e passam a compor, com muito mais verossimilhança, a paisagem física e imaginária dos personagens Grilô Firmo e do padre Tibúrcio, tal o poder de impregnação criadora do autor de O Dragão.

            Quanto à parte propriamente textual e literária, destacam-se, no livro, o roteiro biográfico, a apreciação crítica da obra, as décimas encomiásticas e a bibliografia do inventor de A Ilha dos Patrupachas.

            O levantamento da vida de José Alcides Pinto aqui se revela minucioso, preciso e com um toque novelesco na narrativa, de tal sorte que não sabemos, a certos instantes, se Dimas está compondo a biografia de um personagem fictício e lúcido, que se chama por vezes José Alcides Pinto, ou se realiza a biografia  de um homem real e louco, como João Pinto de Maria. Pinto por Pinto, os dois se confundem, a ponto de um não saber qual dos dois escreveu Os Verdes Abutres da Colina. “Eu não escrevi este livro.”, diz um, enfático; e o outro: “Mas quem o escreveria senão eu?”...

            De qualquer modo, a narrativa de Dimas Macedo se mostra, a nosso ver, como o melhor esforço biográfico realizado até hoje sobre o homem – ou o personagem ? – José Alcides Pinto, se é que ele existe de fato, se é que existe de se pegar, como diria Drummond a respeito de um outro notável bruxo, Guimarães Rosa...

            Em relação à abordagem crítica, Macedo atinge momentos de grande penetração interpretativa, não obstante o aspecto polifônico e multifário da obra alcidiana. Por exemplo, entende Dimas classificar com propriedade em dois sentidos diferentes a principal produção ficcional do nosso querido José: a 1a) voltada para o realismo mágico regionalista, abrangendo a Trilogia da Maldição (os romances: O Dragão, Os Verdes Abutres da Colina e João Pinto de Maria – Biografia de Um Louco) e a 2a) dirigida para a introspecção psicológica, onde se situa a Trilogia Tempo dos Mortos ( os romances: Estação da Morte, O Sonho e O Enigma).

            Quanto à poesia do autor, Dimas classifica-a com acerto em “pelo menos 4 principais matrizes temáticas”: 1a.) a lírico-amorosa (20 Sonetos de Amor romântico, Águas Premonitórias); 2a.) a pornô-fescenina (Os amantes e Relicário pornô); 3a.) a épico-social (Os Catadores de Siri, O Acaraú – Biografia do Rio) e 4a) a existencial-diabólica (Cantos de Lúcifer), não esquecendo de aludir a uma possível 5a vertente: a experimental-vanguardista, a exemplo dos livros Ordem e Desordem, Águas Novas e Concreto: Estrutura Visual-Gráfica.

            No tocante às décimas, DM expõe seu talento poético para louvar  - dentro da melhor tradição popular cordelista, acima aludida – o artista e a obra. Destacaria, por seu poder de síntese descritiva, a seguinte décima:

Erótico e contemplativo
Exótico parece um monge
Seus versos ressoam ao longe
Seu canto é quase profético
Seu jeito quase esquelético
Lhe dá a dimensão de sábio
É um romancista hábil
Porém seu fazer artístico
Revela um poeta místico
Só no murmurar dos lábios.

            Por fim, o atento autor de Leitura e conjuntura elenca, na exaustiva bibliografia, toda a produção literária de JAP, mencionando até o poema Canto da Liberdade (1945), raramente lembrado.

            Meus amigos, gostaria de recordar aqui algumas palavras, certamente insuficientes, que alinhei nas orelhas do livro Trilogia da Maldição, publicada pela editora Topbooks, em 1999, com as quais busquei delinear o perfil literário e humano deste agreste filho de Orfeu, ora homenageado: “José Alcides Pinto, na excepcionalidade de seu gênio literário, é filho da grande mãe lunar com as águas escuras do Acaraú; centauro de luz e sombra, cujo dorso de cristal impuro investe furioso contra o sol e as estrelas fumegantes. Como Rimbaud, mandou para o inferno as palmas acadêmicas dos mártires, os raios da arte bem feitinha e bem acabada, para retornar à adolescência e à sabedoria primeira e eterna. Ou para seu próprio nascimento. Pois, como ele diz, no seu poema Fúria: ‘Nasci premonitório e vegetal como uma ilha. E, sob a minha espinha, há todo um alfabeto desconhecido enterrado (como um tesouro no fundo do mar)’. Cabe a todos nós, leitores, decifrar esse alfabeto desconhecido, dramático e belo da arte e da figura de José Alcides Pinto”.

            Posso lhes assegurar que, para tentar decifrar o tesouro literário submerso de José Alcides, não há, - sem desmerecer outros importantes trabalhos anteriores, como os de José Lemos Monteiro, Nelly Novaes Coelho, Floriano Martins e de Paulo de Tarso Pardal – não há, repito, outro roteiro tão belo e seguro quanto este que nos oferece agora o poeta e crítico Dimas Macedo, ao contemplar A Face do Enigma e generosamente compartilhá-la conosco.
                
                                                                                                                          DN Cultura, Fortaleza, 22.12.2002.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Defensoria Pública: Organização e Funcionamento


                      Dimas Macedo
                  
                 
                                   
                O acesso à Justiça Social, na pós-modernidade, constitui um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito. A sua dimensão substancialista se impõe qual a exigência das políticas públicas que mais alto se elevam, na seara do planejamento e da democracia participativa.

              A garantia constitucional do acesso ao Poder Judiciário não expressa, necessariamente, uma igualdade material de condições daqueles que aspiram à proteção do Direito em um mundo povoado de desestruturas e desigualdades.

               A Constituição de 1988, por se achar comprometida com as novas exigências do Direito, mostra-nos o quanto avançamos na criação de um discurso jurídico que aponta para uma pragmática emancipatória, mas também deixa claro que os Direitos Fundamentais não estão no seu texto apenas para serem compulsados.

               Urge a sua concretização, especialmente enquanto Direitos Humanos que não admitem o seu confinamento, nem a sua postergação, nem a sua violação, sob qualquer pretexto, porque inadiáveis as suas necessidades e a positivação da sua concretude.

               Muitas são as garantias processuais, institucionais e materiais de Direitos albergadas pela nossa Constituição, mas nenhuma delas se equipara em importância ao instituto da Defensoria Pública, a primeira entre todas as garantias, e o único, entre todos os órgãos do Estado a quem foi confiada a missão de proteger a vida e as necessidades mais elementares do sujeito.

             Antes de qualquer discussão acerca da Defensoria Pública, importa que possamos dirigir para ela um olhar diferenciado. Não se trata de instituição imparcial, assim como o Poder Judiciário ou de órgão de defesa da sociedade ou Estado, tais como o Ministério Público ou as Procuradorias dos entes federados.

              A Defensoria Pública, ao contrário, se expressa qual a reivindicação mais alta da cidadania, e qual a instituição social de maior alcance, a quem a Constituição entregou a missão de lutar pela dignidade dos espoliados pelo capital e pela violência decorrente das artimanhas do poder. 

             Tem, assim, a Defensoria Pública uma missão genuinamente política, e acentuadamente voltada para a sociedade, apesar de ser vista como um órgão do Estado, e para alguns qual um órgão do Executivo, às vezes muito dócil à vontade do governo que está de plantão.

                Os pobres, os excluídos da comunhão social, os perseguidos pelo aparelho policial, os desalojados das suas moradias pelo aparato da força e pela insensibilidade do Poder Judiciário constituem o exército cristão do humanismo que clama pelos Defensores Públicos.

              A defesa dos interesses públicos que lhes são afetos é a maior de todas as missões existentes no universo do Direito, porque é a forma mais abnegada de exercício do Ministério Público, e assim também o ministério que mais se distingue no plano social.

              O princípio da Defensoria Pública e as suas linhas de atuação estão amplamente consagrados no Brasil, quer pela Constituição Federal de 1988, quer pelas leis orgânicas e pelas Constituições estaduais que a organizam, não dependendo, portanto, da vontade dos detentores do poder.

               A sua estrutura orgânica não é ou nunca poderá ser superior à sua missão de servir aos desamparados ou de concretizar o seu desiderato normativo e os seus objetivos sociais.

               A maneira como se acha organizada a Defensoria Pública no Brasil, as suas formas de atuação, os seus princípios institucionais e os seus laços de aproximação com a cidadania estão no livro de Amélia Rocha – Defensoria Pública: Fundamentos, Estrutura, Funcionamento (São Paulo, Editora Atlas, 2013) – como em poucos momentos da reflexão sobre essa temática.

             O papel da atuação judicial e extrajudicial da Defensoria Pública, a sua mediação comunitária, a sua legitimação coletiva, como forma de realização do Acesso à Justiça, e a necessidade de humanização da sua prática corporativa ganharam um olhar especial nesse livro de Amélia Rocha.

             A sensibilidade humana e afetiva que distingue a personalidade de Amélia encontra-se bastante acentuada nesse livro, ao lado dos fervores (e dos amores) da autora pela causa da cidadania e da participação.

             A sua condição de exímia poetisa, que sabe temperar com ironia os seus achados poéticos e paradigmáticos, me parece um traço positivo a remarcar a sua postura de jurista.

              E de forma que o seu livro de estreia, no campo específico do Direito, se acha bafejado pelo humanismo e a criatividade, o que nos faz pensar nas exigências da cultura jurídica da modernidade, que requer a criatividade e a argumentação como pontos de partida.

              Não é a aplicação das leis pelo Poder Judiciário aquilo que, na pós-modernidade, melhor aquilata a concretização do Direito. A sua pragmática é, nos dias de hoje, um valor ainda mais alto. E é a partir da pragmática que Amélia avalia o desempenho da Defensoria e a sua correlação com os Direitos Humanos.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Um Olhar Para o Nordeste Desde a Bulgária


           Rumem Stoyanov


 Em 1859, o Tsarigradski Vestnik (Jornal de Tsarigrad, ou seja, Constantinopla) publica a novela curta Imigração ao Brasil. O autor, cujo nome hoje ignoramos, narra as peripécias de uma família camponesa que, por causa duma seca, vê-se obrigada a vender sua terra e ir ao Brasil. Assim, com aqueles 18 folhetins, traduzidos por Mikhail Zafirove Iossif Dainelov, inicia-se a temática brasileira em língua búlgara. É o começo da brasilística búlgara. Devido ao reduzido espaço destas linhas não cabe explicar por que o primeiro livro brasileiro editado na Bulgária data apenas de 1938: Dona Paula, contendo contos de Machado de Assis e Artur Azevedo, trazidos por Krum Iordanoav, provavelmente via francês. 

A poesia brasileira estreia ainda mais tarde: 1962. Naquele ano o semanário Literaturen Front, órgão da União dos Escritores Búlgaros, no seu número 12, inclui versos de Ribeiro Couto e Drummond de Andrade, junto ao artigo “A poesia Contemporânea Brasileira”, assinado por Caetano da Silva. Os textos foram vertidos por Gueorgui Mitskov, através do francês. Porém já são dezenas os livros brasileiros em búlgaro, a partir de 1955, trabalhados diretamente do português. 

Nesta crescente presença literária do Brasil na Bulgária, o Nordeste tem seu lugar cada vez de maior destaque, tanto na prosa como na poesia. Os dados existentes permitem e exigem uma pesquisa detalhada sobre a presença do Nordeste na Bulgária. Nesta oportunidade, limito-me apenas a mencionar nomes e fatos, sem entrar em interpretações e conclusões. 

Jorge Amado é o pioneiro das letras nordestinas na Bulgária. Em 1948, o diário Izgrev publica Terras do Sem Fim, em 82 números, com o título O Direito do Forte. A tradução, do inglês, pertence a Sider Florin. O romance reaparece com outro nome, Cacau e Sangue, no ano seguinte. Curiosamente houve outra versão (1956), desta vez por Jeliaz Tsvetanov, também através do inglês. Desde 1948, temos numerosos textos de Jorge Amado, inclusive O Cavaleiro da Esperança, a biografia de Luis Carlos Prestes. Atualmente o baiano está sendo reeditado. Durante decênios Jorge Amado foi o principal representante das letras brasileiras na Bulgária, a tal ponto que houve um período no qual a quantidade de seus livros superava o resto dos brasileiros e ainda hoje ele é o campeão da literatura brasileira entre os búlgaros. 

Josué de Castro chegou a ser Presidente do Conselho da Organização da Alimentação e Agricultura da ONU. Talvez isto, contribuiu para a edição do seu impressionante trabalho sociológico: Geopolítica da Fome, cuja tradução ao búlgaro data de 1956, sendo tradutor Todor Neikov. 

De 1963 é o romance O Sol do Meio-Dia, que pertence à pena de Alina Paim, sendo tradutor Todor Tsenkov. Surpreende que naqueles tempos de lenta e difícil comunicação tenha aparecido apenas dois anos mais tarde que o original. 

Em 1969 sai Vidas Secas de Graciliano Ramos, traduzido por Rumen Stoyanov, com um breve posfácio deste. Numa antologia e na imprensa há três contos de Ramos, devidos ao mesmo brasilista: “História de um Bode”, “Uma Canoa Furada” e “A Espingarda de Alexandre”.                                                                                                  
A prestigiosa editora Narodna Cultura (Cultura Popular) lança em 1968 a antologia Poesia Latinoamericana. Os tradutores Alexandre Muratov e Atanas Daltchev escolheram oito brasileiros: Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Joaquim Cardoso, Murilo Mendes, Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes, Ferreira Goulart. Das 30 peças, 11 pertencem a Bandeira, mais de um terço. E se acrescentamos os de Cardoso (três), veremos que quase a metade dos títulos é de nordestinos. 

Em búlgaro temos textos de Câmara Cascudo, que Rumen Stoyanov traduziu de História de Nossos Gestos, e uma revista para cegos os imprimiu em braile. Mas um dos brasileiros mais conhecidos mediante contos avulsos é Osman Lins. 

Poetisa e pintora, nascida em Maranhão, Josélia Costandrade visitou a Bulgária com meninos brasileiros que participaram da Assembleia Mundial da Paz e assim nasceram três poemas relativos ao país balcânico.
Em 1989, foi traduzido Norte das Águas, coletânea de narrativas (tradutores Gueorgui Alexandrov e Margarita Drenska) e versos (Gueorgui Belev) de José Sarney, com reproduções de quadros dele, com o título de Curso das Águas. 

O ano 1996 deixa mais um livro brasileiro: Solo Para Quinze Vozes (seleção, tradução, prólogo e notas Rumen Stoyanov). Delas quatro vieram de nordestinas: Manuel Bandeira (5 trabalhos), Ledo Ivo (2), Jorge de Lima (1), Odilo Costa Filho (7), Ferreira Goulart (4). Quer dizer, dos 62 poemas 19 são de nordestinos. 

O teatro Sava Dobroplodni, na cidade de Silistra, à beira do Danúbio, em 2005 incluiu no seu repertório o Auto da Compadecida de Ariano Suassuna, traduzido (do alemão) por Stefan Staitchev, que é o diretor da encenação. 

A partir de 1992, na Universidade de Sófia São Clemente de Ojrida, funciona um curso de graduação em filologia portuguesa. O titular é Rumen Stoyanov. Os alunos obrigatoriamente estudam, durante dois semestres, letras brasileiras. Nele são tratadas as obras de Lins do Rego, como integrante do regionalismo. Naturalmente, comentam-se também Graciliano Ramos, Jorge Amado, Os Sertões de Euclides da Cunha. Outro curso de Stoyanov, sobre relações culturais búlgaro-brasileiras, contém numerosas referências a livros relacionados com o Nordeste. 

O cearense Márcio Catunda é, de longe, o poeta nordestino mais divulgado na Bulgária, pois viveu nela durante anos, até 2000, como diplomata. De 1999 ficou À Sombra das Horas, bilíngue. Rumen Stoyanov realizou a escolha dos 33 títulos, tomados de 6 coletâneas, a versão dos originais em português e espanhol e fez o prólogo àquelas páginas. Na segunda capa, lê-se um fragmento duma resenha de Francisco Carvalho sobre o autor. Em 2000 encontramos 73 peças intituladas London Gardens And Other Journeys vertidas ao inglês pela búlgara Donka Mangatcheva e pelo autor. Naquele ano, tão fértil editorialmente para Catunda e a poesia nordestina na Bulgária, vemos ainda Crescente, CD e livro, contendo 14 canções na voz de Juliana Areias, as letras de Márcio Catunda, ao igual que algumas das músicas. O incansável Márcio produziu mais um CD, Noites Claras, e agora foram 16 letras e músicas dele, cantadas por Stefka Onikian e Mitko Onikian. 

Começando em 2003, a Embaixada Brasileira em Sófia vem apoiando edições de livros bilíngues. Abre a série Sete Contos Brasileiros. A seleção, introdução e notas sobre os autores são do Embaixador José Augusto Lindgren Alves. O Nordeste está representado por Clarice Lispector com “Feliz Aniversário”. Coloco-a aqui porque a escritora viveu a infância em Alagoas e Pernambuco e deu os primeiros passos literários no Nordeste. A tradutora foi Iordanka do Nascimento. 

Dois anos mais tarde temos Outros Contos Brasileiros, igualmente escolhidos, prefaciados e anotados por Lindgren Alves. Desta vez os narradores são doze, traduzidos por Vera Kirkova. Rachei de Queiroz figura com “Tangeriene-Girl”. 

Novamente com a ajuda da Embaixada, é publicada a antologia Poesia Contemporânea Brasileira (2006), selecionada por Lindgren Alves, Flora Kleiman e Rumen Stoyanov, que fez a tradução e um dos prefácios; o outro é de Lindgren Alves. Entre os doze escolhidos, dois são nordestinos: Manuel Bandeira, que abre a lista, e João Cabral de Melo Neto, respetivamente, com 9 e 5 textos. 

Maria da Guia Silva Lima, cearense, professora aposentada da UFC, casada com o búlgaro Zahari Krivochiev, escreveu a nota “O Ciclo Brasileiro de Elissaveta Bagriana” e traduziu os poemas dessa poetisa: “Whisky com Gelo e Lágrimas” e “Punhado de Neve”, dedicados a Pedro Rousseff, pai da Presidenta Dilma  (Rio de Janeiro, 2011). E aqui paro este brevíssimo resumo das letras nordestinas na Bulgária. 

Graças à iniciativa da Universidade Federal do Ceará, o presente livro – Poemas do Nordeste, de Dimas Macedo e Francisco Carvalho, sai com o selo da Universidade de Sófia, em 2012. Ela foi fundada em 1888 e leva o nome de São Clemente de Ojrid (840-916), razão pela qual o rastro dele figura no logo. O santo foi o discípulo mais importante de São Cirilo e São Metódio, criadores da escrita glagolítica (glagolati significa falar), tradutores (do grego ao búlgaro) da Bíblia e de escritores. Os dois irmãos e monges, junto com São Benedito, foram proclamados pelo Vaticano Padroeiros Celestes da Europa. São Clemente é um dos escritores de maior relevo na literatura búlgara antiga (ela nasce em 852) e personagem central na difusão do cristianismo na Bulgária e também entre os demais povos eslavos. A segunda escrita búlgara, chamada de cirílica, em homenagem a São Cirilo, é atribuída pela paleoeslavística à autoria de São Clemente de Ojrid. 

Com Poemas do Nordeste, quer dizer, com os versos de Dimas Macedo e Francisco Carvalho, a literatura do Nordeste dá um passo diferente na Bulgária, já que pela primeira vez trata-se duma colaboração entre duas universidades. Tomara que ele seja o início dum labor sistemático e mutuamente proveitoso.