sábado, 28 de setembro de 2013

A Face do Enigma



                                Adriano Espínola
  
 
                                         Capa de Geraldo Jesuino

            É uma grande honra para mim tecer algumas palavras de louvor e admiração a duas figuras de minha particular estima e amizade: José Alcides Pinto e Dimas Macedo. Por isso, considero esta uma noite especial. Especial na verdade para todos nós que aqui nos reunimos em torno de um homem de gênio e de um ensaísta e poeta de primeira ordem, que a ele dedica um livro-álbum, de bela feitura gráfico-literária, enfeixando pesquisa biográfica, análise crítica, poesia e ilustrações, como a simbolizar, através da beleza plástica e conteudística do volume, a excelência da criação artística do autor de Cantos de Lúcifer.

            Afirmei que esta noite é especial também por uma outra razão que não somente literária. É que o homenageado fará oitent’anos, em 2003, e o livro de Dimas Macedo surge, assim, como a primeira das muitas manifestações, que se aproximam, de carinho e reconhecimento voltados para o amigo, o mestre e irmão em literatura, o poeta maior, José Alcides Pinto. 

            Esta noite representa, pois, uma dupla comemoração: a do artista, com cerca de 50 obras, nos mais diversos gêneros – poesia, romance, conto, ensaio, crítica, teatro – e a do homem, que chega, glorioso, aos oitent’anos de vida. Quando digo comemorar, quero ater-me ao étimo da palavra, que significa memorar com, isto é, lembrar conjuntamente, tornar a memória coletiva. Esta por certo a aspiração máxima de toda grande obra artística, de acordo com Borges, quando participa da memória da raça, fazendo-se patrimônio comum, com seu universo de símbolos, significados, gestos, notas ou traços que forjam a identidade e a capacidade de criar de um povo. Como assim ocorreu e ocorre com a obra de Camões, em Portugal, com Walt Whitman, nos Estados Unidos, com José de Alencar, Castro Alves e Jorge Amado, no Brasil, só para citar alguns exemplos. Toda obra literária, quando devidamente compartilhada, mercê de suas qualidades estéticas e de um plus indefinível, torna-se objeto permanente de co-memoração: passa a pertencer à memória coletiva. Como é o caso, entre nós, da obra de José Alcides Pinto. 

            Dito isto, louvemos a iniciativa de Dimas Macedo, materializada neste trabalho, A Face do Enigma (2002), que exigiu o concurso de outros tantos talentosos amigos, para que chegasse a resultado tão fino. Em primeiro lugar, gostaria de destacar aqui o projeto gráfico, a capa e a formatação eletrônica realizados por este extraordinário artista gráfico, desenhista e professor, Geraldo Jesuíno da Costa, a quem o Ceará tanto deve, nestes últimos 25 anos, ao elevar, nas oficinas da Imprensa Universitária da UFC, o nível da produção gráfica de numerosas obras literárias nossas, todas marcadas pelo bom-gosto, elegância e criatividade. Como podemos de pronto atestar em A Face do Enigma. Um livro que realmente dá prazer aos olhos, ao tato e ao olfato. Sim, porque um livro graficamente bem feito é cheiroso, é sedutor no seu formato, é elegante e suave ao toque, em tudo lembrando uma bela mulher. Com uma vantagem adicional: podemos levar os dois para a cama...

            Também o livro contou com a participação especial do gravurista Audifax Rios e, sobretudo, dos xilógrafos Abelardo Brandão, Augusto Amaral, Eduardo Eloy, Francisco de Almeida, Hélio Rola, Hilton Queiroz, Nauer Spíndola, Nilvan Auad, Roberto Galvão, Sebastião de Paula, Sérgio Lima e Silvano Tomaz, os quais, com suas criações na madeira ferida por golpes expressionistas, ilustram com alta categoria as décimas heptassilábicas de Dimas Macedo, em louvor de Alcides Pinto. E aí está, quero crer, o sentido maior da participação desses artistas no projeto, ao retomarem a tradição popular nordestina/cearense de juntar os versos de cordel às capas com desenhos talhados na madeira. Se é verdade que predominam na xilogravura de cordel os temas religiosos e míticos – herança medieval – numa tentativa inconsciente de conciliar o sagrado e o profano, configurando um tempo mítico e visionário, marcado pela dualidade vida e morte, sonho e realidade, começo e fim, segundo Bakhtine, os traços contrastivos de preto e branco da xilogravura ilustram à perfeição esse mundo e esse modo antitético de ver as coisas. Ora, no livro de Dimas Macedo, os xilógrafos convidados se encontram não só ilustrando, como manda a tradição,  os versos cordelistas de Macedo, mas também, por tabela, o mundo mítico e visionário, sagrado e profano de José Alcides Pinto.

            Igualmente digna de nota a iconografia selecionada pelo autor desta obra, representando o ambiente rural, a família e amigos do poeta nascido em São Francisco do Estreito, município de Santana de Acaraú. Há, nesta seção, uma espécie de fotobiografia do poeta maldito. Não só: contempla, ainda, o resgate fotográfico de personagens que achávamos pertencentes apenas ao seu universo ficcional. Curiosamente, as figuras de João Firmo Cajazeiras e do padre Francisco Araken da Frota, por exemplo, que ali aparecem, deixam de representar pessoas empíricas e passam a compor, com muito mais verossimilhança, a paisagem física e imaginária dos personagens Grilô Firmo e do padre Tibúrcio, tal o poder de impregnação criadora do autor de O Dragão.

            Quanto à parte propriamente textual e literária, destacam-se, no livro, o roteiro biográfico, a apreciação crítica da obra, as décimas encomiásticas e a bibliografia do inventor de A Ilha dos Patrupachas.

            O levantamento da vida de José Alcides Pinto aqui se revela minucioso, preciso e com um toque novelesco na narrativa, de tal sorte que não sabemos, a certos instantes, se Dimas está compondo a biografia de um personagem fictício e lúcido, que se chama por vezes José Alcides Pinto, ou se realiza a biografia  de um homem real e louco, como João Pinto de Maria. Pinto por Pinto, os dois se confundem, a ponto de um não saber qual dos dois escreveu Os Verdes Abutres da Colina. “Eu não escrevi este livro.”, diz um, enfático; e o outro: “Mas quem o escreveria senão eu?”...

            De qualquer modo, a narrativa de Dimas Macedo se mostra, a nosso ver, como o melhor esforço biográfico realizado até hoje sobre o homem – ou o personagem ? – José Alcides Pinto, se é que ele existe de fato, se é que existe de se pegar, como diria Drummond a respeito de um outro notável bruxo, Guimarães Rosa...

            Em relação à abordagem crítica, Macedo atinge momentos de grande penetração interpretativa, não obstante o aspecto polifônico e multifário da obra alcidiana. Por exemplo, entende Dimas classificar com propriedade em dois sentidos diferentes a principal produção ficcional do nosso querido José: a 1a) voltada para o realismo mágico regionalista, abrangendo a Trilogia da Maldição (os romances: O Dragão, Os Verdes Abutres da Colina e João Pinto de Maria – Biografia de Um Louco) e a 2a) dirigida para a introspecção psicológica, onde se situa a Trilogia Tempo dos Mortos ( os romances: Estação da Morte, O Sonho e O Enigma).

            Quanto à poesia do autor, Dimas classifica-a com acerto em “pelo menos 4 principais matrizes temáticas”: 1a.) a lírico-amorosa (20 Sonetos de Amor romântico, Águas Premonitórias); 2a.) a pornô-fescenina (Os amantes e Relicário pornô); 3a.) a épico-social (Os Catadores de Siri, O Acaraú – Biografia do Rio) e 4a) a existencial-diabólica (Cantos de Lúcifer), não esquecendo de aludir a uma possível 5a vertente: a experimental-vanguardista, a exemplo dos livros Ordem e Desordem, Águas Novas e Concreto: Estrutura Visual-Gráfica.

            No tocante às décimas, DM expõe seu talento poético para louvar  - dentro da melhor tradição popular cordelista, acima aludida – o artista e a obra. Destacaria, por seu poder de síntese descritiva, a seguinte décima:

Erótico e contemplativo
Exótico parece um monge
Seus versos ressoam ao longe
Seu canto é quase profético
Seu jeito quase esquelético
Lhe dá a dimensão de sábio
É um romancista hábil
Porém seu fazer artístico
Revela um poeta místico
Só no murmurar dos lábios.

            Por fim, o atento autor de Leitura e conjuntura elenca, na exaustiva bibliografia, toda a produção literária de JAP, mencionando até o poema Canto da Liberdade (1945), raramente lembrado.

            Meus amigos, gostaria de recordar aqui algumas palavras, certamente insuficientes, que alinhei nas orelhas do livro Trilogia da Maldição, publicada pela editora Topbooks, em 1999, com as quais busquei delinear o perfil literário e humano deste agreste filho de Orfeu, ora homenageado: “José Alcides Pinto, na excepcionalidade de seu gênio literário, é filho da grande mãe lunar com as águas escuras do Acaraú; centauro de luz e sombra, cujo dorso de cristal impuro investe furioso contra o sol e as estrelas fumegantes. Como Rimbaud, mandou para o inferno as palmas acadêmicas dos mártires, os raios da arte bem feitinha e bem acabada, para retornar à adolescência e à sabedoria primeira e eterna. Ou para seu próprio nascimento. Pois, como ele diz, no seu poema Fúria: ‘Nasci premonitório e vegetal como uma ilha. E, sob a minha espinha, há todo um alfabeto desconhecido enterrado (como um tesouro no fundo do mar)’. Cabe a todos nós, leitores, decifrar esse alfabeto desconhecido, dramático e belo da arte e da figura de José Alcides Pinto”.

            Posso lhes assegurar que, para tentar decifrar o tesouro literário submerso de José Alcides, não há, - sem desmerecer outros importantes trabalhos anteriores, como os de José Lemos Monteiro, Nelly Novaes Coelho, Floriano Martins e de Paulo de Tarso Pardal – não há, repito, outro roteiro tão belo e seguro quanto este que nos oferece agora o poeta e crítico Dimas Macedo, ao contemplar A Face do Enigma e generosamente compartilhá-la conosco.
                
                                                                                                                          DN Cultura, Fortaleza, 22.12.2002.

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