segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Ignez Fiúza - Fotobiografia

                Dimas Macedo

 
                                      

               Apesar de falarmos em uma tradição moderna, sabemos que a modernidade compreende um estilo de vida que exige a presença do novo, isto é, a presença daquilo que se abre para a criação. A vida depende dos sentidos da imaginação e a arte é uma das formas de expressão desse movimento.

              A arte não se representa por si mesma. Ela depende da sua recepção e da sua interação com a sociedade. Desde Platão e da alegoria do mito da caverna, a arte passou a assumir a linguagem do desejo e a sua representação no espaço da vida social.

              A retomada da Arte na época do Renascimento somente se tornou possível tendo em vista a existência de dois elementos que a fizeram contemporânea da sua tradição: a presença decisiva do Mecenas e a emergência do Mercado como polos aglutinadores da sua expansão comercial e da sua produção artesanal em escala cada vez mais acelerada.

             O desenvolvimento de uma sociedade, a partir da chegada da Idade Moderna, passou a ser medido não apenas pela sua equação econômica, política e social, mas também e fundamentalmente a partir da sua produção cultural, desdobrada desde as fontes antigas do conhecimento até a produção de natureza artística, que passou, então, a definir o sentido do novo.

             Na sociedade cearense, esse percurso não se fez de forma diferente. O aceleramento do nosso processo industrial, a partir da modernização do seu planejamento, aparece conjugado com a nossa modernidade artística, de princípio no plano literário e, a seguir, na produção dos nossos artistas plásticos de maior relevo.

             A partir de meados da década de 1950, as artes plásticas do Ceará começaram a encontrar o seu ponto de inflexão, mas é com a sua acolhida, nas décadas seguintes, pelos seus promoters e marchants que elas se depararam inseridas no nosso sistema social.

             Poucos apreciadores das Artes Plásticas, no Ceará, se preocuparam, de fato, com o destino social desse movimento, ou se mostraram dispostos a assumir uma atitude de vanguarda com relação à sua presença nos nichos de consumo da sua produção.

              Ignez Fiúza, considerada a Musa das Artes Plásticas do Ceará, é a liderança empresarial que se destaca entre nós nessa atitude de vanguarda, assumindo, com a sua técnica e com o seu bom gosto, a promoção e a divulgação mercadológica dos nossos artistas plásticos de maior talento.

             Mas a sua atuação, nessa área, não se resume apenas à promoção das artes produzidas no Ceará: o alcance da sua visão trouxe também para a apreciação e o consumo dos cearenses as novas tendências das artes plásticas do Brasil, possibilitando que o Ceará pudesse conhecer novos estilos artísticos e novas formas de pesquisa que nos levasse, ainda mais, a mergulhar nos sentidos do novo, absorvendo as suas contradições e os seus maravilhosos jogos de luz e de tintas.

               A Galeria de Artes que Ignez Fiúza manteve em Fortaleza, durante várias décadas, em espaços nobres da cidade; o bristô e as elegantes casas de pastos que abriu, sempre finamente decoradas e no mais transformadas em galerias de beleza constituem um traço da sua personalidade fascinante.

               Ignez Fiúza sempre se destacou no Ceará como mulher de visão, como marchant de gosto artístico refinado, como Mecenas dos talentos artísticos mais jovens. Mas nos espaços que criou e manteve ela não dialogou apenas com as artes plásticas, pois fez-se também propagadora dos nossos valores literários e dos nossos movimentos de vanguarda, no plano da produção artística.

                Na sua conhecida Galeria, promoveu exposições de artistas plásticos de renome, tais como Floriano Teixeira e Aldemir Martins, mas ali também acolheu os escritores cearenses desde o Grupo Clã até o Movimento conhecido por Poesia Plural, no início da década de 1990.

               Em 2014, Ignez Fiúza chega ao apogeu da sua juventude, esbanjando vida e esperança, e a todos acolhendo com os fervores do seu coração. O êxito da sua trajetória, a sua conhecida elegância e o seu jeito agradável de conviver com os nossos artistas fazem de Ignez Fiúza uma das figuras de maior destaque da vida cultural do Ceará.

               A importância da sua atuação transborda às páginas da sua Fotobiografia (Fortaleza, Editora Traço, 2014), organizada por Elizabeth Fiúza e Janina Sanches, que reúne um conjunto de imagens e de objetos culturais acerca da sua trajetória, na qual se espelham a nossa tradição e os valores agregados por Ignez Fiúza ao campo da nossa produção artística.

               A honra que me foi conferida pelas organizadoras desse livro de escrever a apresentação do projeto e de louvar a grandeza de Ignez Fiúza é das maiores que eu poderia receber. E não existem letras, no meu vocabulário, para dizer do agradecimento que tenho que fazer.

              Não sou apenas admirador de Ignez Fiúza. Tenho o privilégio de ser seu amigo, e tenho recebido dela as suas melhores atenções. Apesar de achar que outro poderia ter sido o escolhido para escrever o prefácio desse livro, sou grato às autoras pela atenção, esperando que o meu discurso tenha dito o mínimo daquilo que eu gostaria de dizer.

               
                                                                                       Fortaleza, janeiro de 2014

 
                                                                                      

Um comentário:

  1. Amigo Dimas Macedo, somente você poderia dizer, com tanta elegância, os atributos desta bela jovem nonagenária. ambos merecem aplausos.

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