sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Mara Nóbrega - Ficção e Memória


           Dimas Macedo

                                                   Tela de Bruno Pedrosa

             A retomada da narrativa, nas últimas décadas do século precedente, assumiu o lugar do romance-ensaio, do nouveau roman e do fluxo descontinuado da consciência, remarcados pelos recursos da prosa poética e pelo intercâmbio da Literatura com outras formas de linguagem.

             Um romance não pressupõe, necessariamente, a existência de uma narrativa, e não exige, por outro lado, a tessitura do enredo enquanto elemento da sua composição, mas é certo que um romance necessita de perspectiva e de uma visão que dialogue com a linguagem e com as relações que se tecem no intercurso do destino.

               Neste romance, intitulado – Oiticica –, tecido pelo engenho criativo de Mara Nóbrega, aparecem reflexos, lastreados em diversas camadas, da retomada da narrativa, mas nele o que se impõe e se confirma como perspectiva, é uma mensagem de cunho filosófico a orientar a conduta da vida a partir do signo da epifania, revelando a autora a sua cultura psicanalítica e a sua compreensão da dimensão simbólica da existência.

                Silas, a personagem central do enredo, se apresenta diante do leitor como um protótipo do idealista que se perfaz pelas marcas da herança e da tradição; um ser que percebe as diferenças sociais que o cercam, mas que é guiado pelo impulso das suas decisões, rendendo-se depois, em face do inexorável, ao escaninho da memória e ao desvelo da Fé e da Compaixão.

                Moldado pela civilização e servido pelos valores da técnica, termina os seus dias desafiado pelos Evangelhos, e também escravo, mais do que convicto, das luzes da intuição e da verdade, situações que o levam para a encruzilhada em que a consciência sempre nos coloca, e na qual lhe é permitido a modificação do seu passado, através do perdão e do despojamento, da cura interior e da humildade.

                 As personagens manejadas pela argúcia da autora, são inconfundíveis, e se apresentam, a cada passo do enredo, a partir do discurso com que verbalizam as suas intenções.

                  Mas no romance o que chama verdadeiramente a atenção são as vozes e a diversidade de sentidos com que a fazenda Oiticica clama pela redenção da sua identidade e pelos valores da tradição e da herança, imantando-se na memória dos vivos e no ciclo das lembranças e das estações.

                   Belo romance, este – Oiticica –, com que Mara Nóbrega inicia os seus passos na longa ficção; bela a linguagem da sua narrativa; denso o teor com que a autora mantém a curiosidade do leitor, cativando-o até a última página do enredo, no qual lições de vida e de amor ao próximo nos são reveladas e ensinadas com a sabedoria da maturidade.

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