sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O Caldeirão de Geraldo Amâncio



             Dimas Macedo              







             A poesia popular do Nordeste é uma das grandes expressões da cultura brasileira. Se diferencia da poesia erudita pelo acento melódico da sua sonoridade. Destaca-se por ser uma poesia rematada e escandida, e por ser uma forma de criação literária que se vale da estrofação e da rima, da metrificação e da riqueza do vocabulário. 

             Pertence a Poesia Popular ao gênero do Cancioneiro e das Cantigas de Gesta que exaltavam os guerreiros na Idade Média. Daí o seu apelo heroico, a sua construção ritmada e a sua aproximação com o armorial, que é a cultura popular elevada ao plano da erudição.

             O folheto de cordel e a Cantoria distinguem-se na área da poesia popular: o primeiro, caracteriza-se pela reportagem, o resgate da memória e a glorificação dos feitos e personagens de valor histórico; já a Cantoria possui no Repente e no Improviso os elementos da sua força criadora.

              Geraldo Amâncio, o autor do livro – O Caldeirão (Fortaleza: Premius, 2015) –, tem se destacado como um dos nossos melhores cantadores e como um dos pesquisadores mais respeitados da nossa poesia popular.

              Viajou pelo Brasil e o mundo em busca de um mesmo sentido: o som das cantorias, as suas formas armoriais e os traços essenciais da sua expressão em diversos países. Mas eis que sempre retorna ao seu velho torrão – o Ceará.

               Geraldo tem dezesseis discos gravados, incluindo várias parcerias, e alguns livros publicados, dentre eles, enumerando-se os seguintes: De Repente Cantoria, A História de Antônio Conselheiro, Cantigas que Vêm da Terra, Gênios da Cantoria e Assim Viveu e Morreu Lampião, Rei do Cangaço.

               No seu livro – O Caldeirão –, Geraldo Amâncio resgata um dos           episódios mais desumanos da história do Nordeste, que foi a destruição da comunidade do Caldeirão pelas forças reacionárias da nossa elite política e do nosso aparato militar.

               O crime executado contra o Caldeirão, encravado em terras do Cariri cearense, foi tão brutal e revoltante quanto aquele cometido pelo governo na comunidade de Canudos. Em Os Sertões, Euclides da Cunha verberou contra a destruição de Canudos; no seu livro, Geraldo Amâncio levanta a sua voz em defesa do Caldeirão.

                O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, para aqui me valer da expressão de Rosemberg Cariry, encontra agora em Geraldo Amâncio o seu poeta definitivo e o seu porta-voz, porque o ritmo e a expressão com que o autor lavrou as páginas do seu livro são testemunhos de uma escansão cultural e melódica que prima pela poesia de alta qualidade.

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