terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Roteiro de Farias Brito

      Dimas Macedo
  



      Quando pensei escrever as linhas fundamentais do meu livro Pensadores Cearenses, foi Farias Brito um dos primeiros nomes que defini para o projeto. A filosofia espiritualista por ele desenvolvida, de forma original e soberana, talvez justifique o meu amor renovado pela sua obra.

         A mística panteísta de Alcântara Nogueira, o fervor social da ideologia de Joaquim Pimenta, a metodologia da pesquisa histórica de Capistrano de Abreu, o culturalismo filosófico de Djacir Menezes, o normativismo democrático de Arnaldo Vasconcelos e a crítica social de acento literário, que permeia a obra de Raimundo Antônio da Rocha Lima, sempre me pareceram monumentos da cultura brasileira e orgulho supremo da cultura cearense.

       Nenhum momento da cultura brasileira, no entanto, me parece superior à obra filosófica de Farias Brito. O seu pensamento e a originalidade da sua expressão analítica, o mergulho transcendente que empreendeu em busca da verdade e das formas superiores do conhecimento ficarão pelos séculos tal uma luz misteriosa para os pensadores de todas as idades.

           Farias Brito é tão universal quanto Kant, e a sua reflexão, plural e instigante, é tão importante para o homem quanto a contribuição de Espinosa ou a mística de origem divina que reparte o mundo e os sentidos maiores da contemplação.

           Não precisou de escolas ou universidades para desenvolver as suas teses, nem de legitimação oficial para a proteção da sua pesquisa criadora; e não necessitou de doutrina pretérita para testificar as inquietações do seu ser em comunhão com a luz soberba da razão.

            Foi um criador de formas e sentidos, um especulador de conteúdos profundos e um desbravador de códigos e de dígitos esse cearense que Deus colocou na noite escura do homem. Foi, portanto, um eleito, esse cearense pobre de São Benedito, esse pária social elegante e desafortunado que o amor de Deus escolheu para anunciar a nova lógica cultural que as forças materiais haviam sufocado.

            Farias Brito nasceu no Ceará, nas escarpas da Serra da Ibiapaba, onde se encrava atualmente São Benedito, aos 24 de julho de 1862, e faleceu no Rio de Janeiro, aos 16 de janeiro de 1917.

            Optou, como muitos brasileiros do seu tempo, pelo bacharelado em Direito, formando-se em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito do Recife, em 1884. 

            Foi Promotor Público e Secretário de Estado em sua província de berço, agitou a vida cultural do Ceará no último quartel do século dezenove, e verberou as suas inquietações e os seus libelos sociais na imprensa da época em que viveu.

           Farias Brito fez-se Professor do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, através de memorável concurso, mas perdeu o direito de nomeação para Euclides da Cunha. Porém nada foi superior em sua vida do que a paixão de ordem filosófica.

           Poeta no início da sua trajetória, Farias Brito tornou-se com o tempo o filósofo puro da reflexão e da contemplação. A finalidade do mundo, o mistério que ronda a existência de todas as coisas, a vida do espírito e a sua energia inesgotável, os tormentos do ser e o triunfo final da vida interior – eis os assuntos do seu particular afeto e da sua inquietação e sede sempre renovada de pesquisa.

            Autor de A Filosofia Como Atividade Permanente do Espírito (1894), Filosofia Moderna (1899) e Evolução e Relatividade (1905), que formam o tratado de Finalidade do Mundo, Farias Brito publicou ainda O Mundo Interior (1914), A Base do Espírito (1912) e Cantos Modernos (1889).

             No Brasil e no mundo, muito já se escreveu sobre a obra desse notável cearense, muito já se disse contra e a favor da sua criação, mas a sua vida e o seu legado filosófico ainda constituem um desafio para todos nós. E um desafio também para o escritor cearense, Antônio Carlos Klein, que se dispôs a tracejar o seu itinerário, num livro de caráter didático que ficará, por certo, qual uma referência sobre a vida e a obra desse grande filósofo das Américas e da civilização do Hemisfério Sul.

           Refiro-me ao último volume da coleção Terra Bárbara, das Edições Demócrito Rocha, que traz por título justamente o nome do homenageado desta resenha, e que foi escrito com paixão e seguro domínio do seu objeto de pesquisa. 

            Autor da biografia de Paulo Bonavides, publicada no âmbito da mesma coleção, ofereceu-nos em seguida Antônio Carlos Klein o perfil biográfico de Farias Brito (Fortaleza, Edições Demócrito Rocha, 2004), firmando assim o seu nome como uma das expressões mais acabadas da nova geração de pesquisadores do Ceará e do Brasil.

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