sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Mário Pontes: Um Homem Chamado Noel

                   Dimas Macedo



            Talvez Mario Pontes não saiba que eu o conheci em 1983, “numa expressiva reunião de intelectuais”, no Lunas Bar, Rio de Janeiro, tal como registrei meu livro Leitura e Conjuntura (Fortaleza: Edições Secult, 1984); e que naquele momento eu já o admirava como um dos meus escritores prediletos.

            Creio que Mario não se lembra de nada sobre isto: que eu sentei-me confortavelmente ao seu lado para admirar, ainda mais, a sua prosa e ouvir o elogio que ele fazia, de corpo presente, à produção jornalística e teórica de Luís-Sérgio Santos, meu editor no Suplemento de Cultura do Diário do Nordeste.

            A minha primeira viagem ao Rio de Janeiro, naquele ano de 1983, se fazia pelas mãos de Roberto Pontes e a acolhida generosa de Pedro Lyra e de Normanda, em cujo apartamento nos instalamos para conferir a Primeira Bienal Internacional do Livro, representantes que éramos, Roberto Pontes, Luís–Sérgio e eu, da Associação Profissional dos Escritores do Ceará. 

            Lembro que Maura Sardinha, da Editora Antares, presenteou-me não somente com o livro Celebrações do Outro (1983), de Ana Miranda (com a presença de Ana Miranda entre nós), mas também com o romance O Coração é um Caçador Solitário (Rio: Editora Antares, 1983), de Carson McCullers, sobre o qual Mario havia escrito veemente, o que me fez admirar ainda mais a sua virtuose.

            Editor do suplemento literário do Jornal do Brasil e jornalista de renome em Fortaleza, onde publicou o seu primeiro livro (Brevidade, 1966) e ajudou a cozinhar a edição de vários jornais cearenses, Mario Pontes já era, na época em que o conheci, o fascinante autor de Milagre na Salina (Rio: Editora Brasília/Rio, 1977)longa ficção a que me refiro em A Metáfora do Sol (Fortaleza: Editora Oficina, 1989) – e de um livro de ensaios sobre literatura de cordel - Doce Como o Diabo (Rio: Editora Codecri, 1979).

            Posteriormente, Mario Pontes nos daria o maior de todos os seus livros – Ninguém Ama os Náufragos (Rio; Editora Nova Fronteira, 1981), além da novela Chora Violão (1985), e do livro de contos – Andante Com Morte, editado pela Bertrand Brasil (1999), firmando-se também como um dos nossos melhores tradutores. Admirador da sua trajetória de cronista e da sua sensibilidade literária, decidi incluir o seu nome no meu livro Crítica Imperfeita (Fortaleza: Imprensa Universitária, 2001) entre os escritores que ilustraram o Ceará para além das fronteiras do Estado.

            Em outubro de 2003, vinte anos após o nosso encontro no Rio de Janeiro, Mario Pontes continua muito longe e muito próximo de mim. E tanto que, assim, preparando-me para aterrissar em São Luís, em gozo de licença poética, Natalício Barroso, a quem não posso faltar uma vírgula, sequer uma vírgula, pediu-me que levasse comigo na bagagem, para os meus lençóis e as minhas fazendas maranhenses, o mais novo livro de Mario – Um Homem Chamado Noel (Fortaleza: Edições Funcet, 2003) –, com a observação de que escrevesse as linhas impressões de leitura. 

            “Para que isso, Natalício”? Perguntei um tanto quanto incomodado. Natalício sorriu e entendi que não havia saída. Pendurei-me, então, nos moinhos de vento da Praia do Calhau e no Reviver de São Luís do Maranhão. Pensando no que é glória de ser escritor e de sentir a pulsação de um estro literário maior. E assim fui lendo preguiçosamente os contos do Mario e preguiçosamente não fazendo nenhuma anotação. Limitei-me a ouvir uma voz, a de Lucas, que me encantou desde o primeiro texto do volume.

             Presente em cada uma das narrativas do livro, a voz onisciente de Lucas parece formatar, a cada passo, traços indeléveis da personalidade do autor, ora como testemunha, às vezes, como narrador, mas no geral e fundamentalmente, como estrutura polifônica da escritura literária de Mario. 

             Nos contos reunidos em Um Homem Chamado Noel, segundo o seu editor, “o leitor encontrará algumas figuras curiosas, como o patético ancião que fez de seu velho automóvel um jardim suspenso e festeja o 7 de Setembro percorrendo a cidade no lombo de um pangaré, empunhando uma bandeira que desafia todas as leis da heráldica; a mascote de um time de futebol com quem o destino foi particularmente impiedoso; o soturno Noel, que vive de glórias irrecuperáveis”.

Nesse livro novo de Mario, de alguma maneira, encontro o fechamento de uma proposta literária que o autor semeou no volume de estreia – Milagre na Salina –, pois que em ambos se guardam um fio condutor das narrativas e uma mesma unidade morfológica, elementos que se projetam, às vezes, no seu tecido estilístico, com acentos em toda a tessitura semântica dessa quase novela de Mario.

               Claro que se trata de um livro de contos, sem nenhuma duvida.  Contos com a melhor técnica da historia curta.  Mas Um Homem Chamado Noel, pode ser lido também como um romance.  O romance de Lucas, possivelmente um alter ego do autor, que se reparte, nesse livro, entre os muitos apelos da memória e os Fios de Ariadne da escritura literária.

               Uma teia de fragmentos que se unificam, contraditoriamente, em face do desenho da letra e da escrita polifônica que permeia as estórias de Lucas, que vão desde a descoberta do mundo do personagem principal dos contos de Um Homem Chamado Noel até o limite maduro da condição humana com que se defronta o narrador no ultimo texto do volume.

              Um romance? Talvez. Possivelmente um gênero ou qualquer coisa de corte literário elevado (e refinado), provando-nos o autor que a literatura, quando muito pouco, é fundamentalmente isto: entretenimento e representação; e quando muito grande, como aquela que neste livro se lerá, é tudo o que acima falei e muito mais: é aquilo que se faz com as formas da estética para que as linhas da estética se façam os fios da memória e o tecido maduro da arte literária.

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