quinta-feira, 17 de abril de 2014

Ciência, Tecnologia e Contrastes Regionais

                Dimas Macedo 

      Concebido a partir de uma dissertação de mestrado, no Programa de Pós-Graduação em Sociologia na UNB, o livro de Fernando Barros – Confrontos e Contrastes Regionais da Ciência e Tecnologia no Brasil (Brasília: Paralelo 15/Editora Universidade de Brasília, 1999) – toca numa dessas feridas brasileiras que, de moda na década de 1970, passou a ser tema pouco lembrado como causa do atraso do nosso País, em relação às nações desenvolvidas.

     O que o livro de Fernando Barros questiona são as desigualdades regionais pertinentes ao nosso desenvolvimento científico e tecnológico, analisando-as fora da vala comum na qual o tema é questionado, sempre de forma superficial ou sem maiores profundidades.

    Segundo Fernanda Sobral, doutora do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília e apresentadora do volume, “trata-se de uma análise que não recai em raciocínios simplistas como o de demonstrar mais uma vez que as desigualdades constituem um reflexo da lógica capitalista”.

     Partindo da discussão acerca do caráter polissêmico do conceito de região, o autor traça um esboço das diferenças regionais da nossa base técnico-científica, denunciando a sua excessiva concentração no Sul e Sudeste do País. A constatação e essa denúncia, que soam fácil aos nossos ouvidos, somente nas últimas décadas vem despertando a preocupação dos nossos gestores.

     Infelizmente, ainda somos testemunhas do descaso político brasileiro para com o incremento das atividades científicas e tecnológicas em Estados estranhos às regiões Sul e Sudeste.

     Nessa sua instigante pesquisa, Fernando Barros opõe-se a essa visão perfunctória, eivada de preconceitos seculares e, principalmente, de alta dose de egocentrismo, que parte do falso pressuposto de que devemos deixar a massa do bolo crescer, para só depois dividi-lo.

     Além de trazer tabelas explicativas com dados que ratificam a existência do problema, a obra leva o leitor a questionamentos que não são inteiramente resolvidos, nem facilmente solucionáveis, tais como: não seria o planejamento do desenvolvimento científico e tecnológico, em nível local, mais adequado ao atendimento das necessidades sociais e econômicas regionais?

    Teria o planejamento mais condições de incentivar a participação do setor produtivo? E a articulação do governo federal com os estados-membros, não seria essencial para conter as desigualdades regionais, no plano do desenvolvimento tecnológico, e não seria, também, um incentivo à produção de conhecimento científico?

    Por último, o autor confronta o caso brasileiro com o tratamento dado à questão regional pela União Europeia e pela França, que conseguiu transformar-se em modelo de Estado descentralizado, no qual a instância regional desempenha papel estratégico para a organização e o desenvolvimento harmônico de todo o seu território, por meio de 21 regiões, com conselhos eleitos, com poder de decisão e de alocação de recursos financeiros próprios, concorrendo todos para a unidade  e solidariedade nacionais.

Um comentário:

  1. Provocações intelectuais extremamente válidas as suas, professor. É salutar lembrar que mestre é mais do que aquele que ensina, e o senhor propõe debates sempre interessantes!

    Atenciosamente,
    Davi Guimarães Mendes

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