quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Vasco dos Santos - O Solitário da Montanha

 Dimas Macedo

 

          A arte que tem o dom de transformar as partituras de fogo da solidão e do afeto, para aí edificar um reino de luz e de beleza, onde a palavra e a imagem constituem os achados antológicos de maior relevo, só podia mesmo sobreviver a todas as idades do homem e chegar até nós de forma exuberante e serena.

           A literatura é essa arte ancestral e mitológica, porque contemporânea do homem primitivo e do homem de todas as idades, das religiões fundadoras da verdade e de todos os cenários de ressurreição dos devaneios humanos e de suas veladas esperanças.

           Os poemas heroicos das civilizações primitivas, as fábulas com que no passado os ensinamentos foram transmitidos, as gestas medievais, o teatro de destinos cruzados com que os gregos tanto se bastaram, os romances de cavalaria, os tratados filosóficos de todas as utopias políticas, o romance burguês e de costumes sociais dos séculos dezoito e dezenove são exemplos de literatura que se fez para a glória dos valores mais afortunados.

           O romance é, por essência, o gênero de maior ambição no plano literário. Enquanto a poesia se faz com a estética do fragmento e da linguagem, o romance é construído com a forma, o conteúdo e a visão de mundo dos escritores mais afortunados. O romance se perfaz desde a unidade dos arquétipos sociais e psicanalíticos e da expressão com a qual se tecem os fios de ouro da semântica.

          Um romance se faz com estruturas relacionais e com enredos polifônicos e também com gestos e ações de sentido filosófico, quando se trata, é claro, de um romancista de talento. Existe um movimento no romance que somente o romancista compreende em um primeiro momento.

          No entanto, quando o autor de um romance é, ao mesmo tempo, criador de outros universos, gêneros literários e polifonias para além da dispersão e da unidade do ser, como é o caso dos poetas e dos que sabem a arte do pensamento por imagens (ensaístas e críticos literários de maior estofo), é claro que desse autor podemos esperar o melhor.

          E o melhor, acredito, é aquilo que colhemos do romance O Solitário da Montanha (São Paulo: Nova Aldeia, 2005), última criação de Vasco dos Santos, um dos maiores arautos do romance histórico e do mar salgado da escrita na literatura de língua portuguesa.

         E o que documenta esse romance maduro de Vasco dos Santos? Uma história de amor e heroísmo, uma história de movimento e de ação do espírito, posicionada contra os contextos arcaicos da imensa violência do mundo. Somente a vida, louvada desde a solidão dos que amam, faz sentido nesse romance de enredo sublime, cuja leitura recomendo com entusiasmo.

         Não é feita de matéria bruta a sua tessitura, nem de discursos formais enfadonhos é construído o enredo exemplar dessa narrativa. O autor, ao contrário, a escreveu com as tintas da paixão e a ungiu com a sintaxe da solidão e do desejo, fiel ao seu ideário de esteta e à sua vocação de escritor.

          Resta-me dizer uma palavra acerca do enredo desse grande romance e dessa sinfonia estilística, que tanto me tocou a emoção e o engenho, que tanto me curou da intensa agonia de viver com o seu extraordinário poder de catarse e de efeitos visuais e sinérgicos que se leem no seu articulado.

           Se aqui fosse somar o talento do escritor que arquitetou esse livro com a erudição que sempre remarcou a produção do romancista, do ensaísta e do poeta que se harmonizam na personalidade singular de Vasco dos Santos, creio que teria motivos para dizer que estamos diante de um dos nossos maiores escritores.

            Lícito não me seria, também, silenciar acerca da claridade estética desse livro, aí incluindo-se a sua leveza e concisão de linguagem, a sua disciplina formal e o seu diversificado conteúdo.

            Fica aqui a recomendada a necessidade da sua leitura: imperdível, humana, maneirosa, sutil e desafiadora, sob qualquer ângulo em que o romance e o seu argumento possam ser examinados, para o triunfo da literatura que hoje se pratica no Brasil.


                                                                                   Fortaleza, 2005


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