domingo, 9 de março de 2014

Antônio Girão Barroso: Aproximações

          Dimas Macedo


                Antônio Girão Barroso é uma legenda viva da cultura cearense. Não foi apenas um poeta, no sentido mais genuíno da palavra, pois a sua atividade, como agitador de ideias e líder de movimentos de vanguarda, transcendeu à cena literária cearense.

               A implantação do modernismo no Ceará muito deve aos fulgores do seu intercâmbio e à sua capacidade de comunicação e de sintonia com aqueles que fizeram, em São Paulo, a Semana de Arte Moderna, tendo mantido relações de amizade com escritores como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Cassiano Ricardo e Carlos Drummond de Andrade.

               Foi um modernista de primeira hora, que não se deixou levar, em nenhum momento, pelas formas fixas do poema. No seu livro de estreia, de 1938, deu abrigo, como poucos poetas brasileiros, ao evangelho desse movimento, e foi arauto, no Ceará, dessa nova estética literária.

              Na década de 1940, fez-se um dos expoentes do Grupo Clã de Literatura, ao lado de poetas, tais Artur Eduardo Benevides e Aluísio Medeiros, e de ficcionistas como Fran Martins, Eduardo Campos e João Clímaco Bezerra, tendo participado do Congresso Cearense de Poesia e da Sociedade Cearense de Artes Plásticas, exercendo também a crítica literária, a crítica de cinema e a crítica de arte com notável conhecimento dos seus objetos de pesquisa.

             O Movimento de Arte Concreta, no Ceará, muito aprendeu com esse importante poeta modernista, tendo dele recebido todos os aplausos e o registro das suas manifestações. Influenciou, também, o poeta Antônio Girão, o Grupo SIN de Literatura, no final da década de 1960, e, nas décadas seguintes, foi uma espécie de guia e protetor das novas gerações.

              O seu jeito humano e perdidamente poético de viver constitui um traço da nossa cultura letrada, da nossa atividade boêmia e dos movimentos estéticos que eclodiram em Fortaleza durante quase meio século. Simples e despojado de qualquer forma de empáfia, brincalhão e feliz assim como uma criança que sabe os valores do afeto, Girão tinha um espírito levemente travesso e um coração permanentemente aberto para o novo.

             Publicou pouco, muito pouco mesmo o poeta Antônio Girão, em relação ao tempo no qual atuou como escritor de vanguarda, mas o que deixou publicado, nesse campo, é suficiente para colocá-lo entre os grandes poetas cearenses, tendo sido recolhido, até agora, pouco mais que uma centena de poemas de sua autoria.

             É possível que tenha perdido boa parte daquilo que escreveu, pois era, assumidamente, um grande sonhador, desprovido de preocupações para com o legado da sua produção, que se impôs à poesia do Ceará e do Brasil pela clareza, limpidez estética e correção sintática dos seus grandes achados estilísticos.

               Em Girão, a poesia flui de forma desataviada e espontânea, traz acentos melódicos, que nos fazem tamborilar o ritmo das artérias, e imagens lapidadas por recortes cênicos que nos colocam diante da beleza do cotidiano, porque plástica e lírica a cosmovisão dos seus insights criativos.

             Nele, o poeta não se compara nunca com o cronista; o ensaísta paga tributo aos cenários da vida cultural; e o crítico nele se revela com todo o aparato da forma que lhe permite o recurso à lírica e à estética como panos de fundo do seu artesanato.

               A criação poética de Girão talvez esteja, apenas parcialmente, reunia em Poesias Incompletas (Fortaleza, Edições UFC, 1994); e a sua prosa, ainda dispersa em jornais e revistas, começa a ser resgatada em Aproximações. Não creio, sinceramente, que no livro estejam reunidos todos os escritos em prosa de Girão, mas apenas parte daquilo que foi possível pesquisar.

             O título - Aproximações, assim como aquele que nomina o seu livro de poemas, acompanharam o autor nos seus últimos anos de vida. Mas o poeta, é certo, não organizou nenhum desses livros, como pretendia, pois não lhe sobravam tempo nem razão para assuntos dessa natureza.

              O seu coração e a sua conhecida ternura de poeta, sempre disposto a celebrar a vida com os seus amigos, não cediam lugar para o óbvio, perseguido por todo escritor de talento: a concatenação dos seus escritos dispersos.

              Devemos ao seu filho, Oswald Barroso, a ressurreição de Girão como poeta póstumo, e, agora, a sua sobrevivência como cronista e ensaísta. Engrandeceu-se Oswald como pesquisador, resgatando parte da prosa jornalística deixada por seu pai.

            Ter sido escolhido para fazer o prefácio desse livro é algo que me toca de uma forma muito especial. Convivi bastante com Girão, com ele mourejei na boemia e dele recebi as atenções que poucos poetas, seus contemporâneos, dispensaram a escritores da minha geração.

            Girão me ensinou a arte de ser breve e a arte de buscar as fontes de leitura especialmente antenadas com o novo. E creio que posso registar que ele me ensinou a ser um escritor melhor e a viver a cena cultural como extensão da minha escritura literária.

            Os assuntos versados em Aproximações constituem um mosaico de intenções artísticas. Trata-se antes de uma cultura de acervo, na qual a literatura cearense aparece diante das suas mutações, especialmente aquelas processadas enquanto Girão atuava com o brilho da sua inteligência.

            O resgate da sua produção se impõe à cultura das novas gerações, porque Antônio Girão já é parte da história que se conta e da literatura que, no Ceará, caminha soberana para a sua afirmação definitiva.
             Não pretendo falar sobre a temática do livro, nem explicar o sumário de Aproximações. Melhor mesmo é deixar que os leitores, de primeiro, mergulhem na leveza desses escritos de Girão.  

2 comentários:

  1. Grande Dimas! Tudo bem? Belas palavras, Antônio Girão Barroso de fato foi bastante importante (não só, mas em grande parte) pela vanguarda que representou nas letras cearenses.. Sabe me dizer se e onde já está à venda essa obra? Forte abraço!

    ResponderExcluir
  2. A breve, porém grande explanação de Dimas sobre a obra de Antônio Girão, nos leva a admiração e ao sentimento de estarmos em frente de uma personalidade da literatura universal. No meu caso, pouco o conheci, mas, esse pouco, já me é o bastante. Pessoalmente lembro da ternura, da ingenuidade e do ser avesso aos padrões ululantes. Lembro do semblante não superior, da postura honesta e da delicadeza ao receber, mesmo que fosse um menino travesso. E ainda lembro do sorriso, sempre igual e verdadeiro. Lembro também do meu pai, o mais velho do ninho, quando dele falava. Enfim, lembro que poderia exigir mais se mais soubesse de quem eu era pelo hoje sou.

    ResponderExcluir