terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Acerca da Irmã Aurélia Férrer

               Dimas Macedo
 



                Aurélia Teixeira Férrer – Irmã Férrer, Madre Férrer ou ainda Tia Ledy, como era carinhosamente tratada pelos seus sobrinhos –, cujo perfil me compete agora tracejar, nasceu em Lavras da Mangabeira, aos 26 de novembro de 1905.

                Aprendeu as primeiras letras no ambiente familiar, tendo por professores Henrique Augusto de Aquino e Afonso César Targino Filho, este último Juiz de Direito da Comarca.

                Em seguida, matriculou-se na Escola Pátria e Dever, do Professor Joaquim Genu, tendo, em 1923, ingressado no Colégio Nossa Senhora do Sagrado Coração, em Fortaleza, dirigido pelas Irmãs Doroteias, onde realizou os estudos secundários e o curso complementar.

                 A inclinação de Aurélia para a vida religiosa e espiritual não se deve apenas à influência do irmão, o Cônego Sandoval, que foi, por sinal, a amizade e o afeto que lhe tocaram de perto a sensibilidade. Atende, ao contrário, a um jeito de ser de seus predecessores.

                 O ilustre sacerdote lavrense, João Correia da Costa Sobreira, por exemplo, era irmão da sua bisavó Pulquéria; e da casa do seu trisavô, Francisco Xavier Ângelo, provinham os célebres revolucionários lavrenses, padres José Joaquim Xavier Sobreira, Cosme Francisco Xavier Sobreira e Francisco Xavier Gonçalves Sobreira.

                Alguns colaterais de Aurélia assumiram, igualmente, funções sacerdotais de forma virtuosa. Mas nenhum deles, parece-me, e nenhum deles – repito –, em grau de santidade e apego aos Evangelhos, foi superior àquele que é, de fato, a glória suprema do ramo materno da família – Tito de Alencar Lima (Frei Tito), célebre dominicano brasileiro de renome internacional, e primo, em segundo grau, de Aurélia.

                 Em Olinda (PE), cursou o noviciado da Congregação das Irmãs de Santa Dorotéia, onde teve por professor de Latim o Monsenhor Pedrosa. Terminando o aprendizado religioso, seguiu para São Luiz (MA), onde iniciou o seu apostolado, vindo, em seguida, prestar serviços à congregação em Fortaleza.

               No Colégio da Doroteias de Cajazeiras (PB) esteve por um período de dez anos e, em Alagoa Grande, no mesmo Estado, permaneceu durante os anos de 1954 e 1955. A Ordem das Doroteias conduziu-a para Belém em 1956 e, em 1959, as exigências do apostolado a levaram aos Estados Unidos, onde residiu por um período de quatro anos, regressando ao Brasil em 1963.

                Ali, estabeleceu-se na região da Nova Inglaterra, mais precisamente em Bristol e New Betford, onde desenvolveu parte do seu trabalho social, ali realizando os estudos superiores em Teologia e Psicologia na Universidade da Providência, em East Providence.

                 Nos Estados Unidos, manteve relações de amizade e de serviço comunitário com a família Kennedy, de cuja residência foi hóspede, sendo, inclusive, correspondente de Jacqueline Kennedy no Brasil. Foi também correspondente, no Brasil, de Dag Hammarsjöld, ex-Secretário das Nações Unidas, a quem conheceu em uma de suas viagens à Europa, e cujo perfil cinzelou em um de seus escritos em prosa

                 Dos Estados Unidos regressou para Belém, onde viveu a maior parte do seu apostolado. Ali integrou o núcleo regional da CNBB, por designação da Arquidiocese de Belém, e militou como jornalista na imprensa da capital paraense, colaborando com os jornais O Liberal, A Província e A Folha do Norte, e mantendo na Rádio Liberal um programa de orientação religiosa.

                  Em 1966, a serviço da Congregação, viajou por Portugal, Espanha, França, Itália, Suíça, Alemanha, Grécia e Israel, registrando essa peregrinação em poemas tocados pela magia da fé. Mas é certo que retornou para Belém, transferindo-se para Fortaleza, em 1977.

                 Aqui, desenvolveu parte da sua missão religiosa e educativa, junto ao Colégio de Nossa Senhora do Sagrado Coração, do qual foi professora e secretária. Nas lides do magistério, distinguiu-se como professora de inglês, latim, francês, história e português.

                Junto à Arquidiocese de Fortaleza, dirigiu o Boletim Informativo Arquidiocesano, por designação do Cardeal Aloysio Lorscheider, de quem foi colaboradora em vários projetos de cunho social, tendo colaborado com a imprensa local e aqui publicado diversos folhetos, contando-se entre eles aquele intitulado Na Voz do Irapuru.

               Poetisa e prosadora bastante talentosa e erudita, publicou a Irmã Férrer, em 1980, pela Gráfica do Senado Federal, um substancioso livro de poemas – Em Busca da Plenitude, muito elogiado pela crítica e com ele propondo-se a restabelecer a poesia em Cristo, de quem se fez amante fiel e fervorosa.

               Estreando, aos 75 anos, com um livro pleno de poemas maduros e desataviados, chamou de logo a atenção de grandes escritores cearenses, tais como Jader de Carvalho, José Valdivino, Moreira Campos, Linhares Filho e Artur Eduardo Benevides, que escreveram, de forma apaixonada (e cada um a seu modo), sobre o significado e a leveza estética da sua linguagem literária.

               Em 1986, publicou o livro – Mensagens e Perfis, pela Editora do BNB, com apresentações de Eduardo Campos e Joaryvar Macedo. Trata-se de um conjunto de ensaios e reflexões, todo ele aberto à participação e ao diálogo e assestado para a dimensão espiritual de grandes homens do seu tempo, que ali se acham perfilados.

                Se Em Busca da Plenitude reúne poemas tocados pela força do amor, pela transcendência da meditação, pela magia da fé e pelo sortilégio do espírito, Mensagens e Perfis, a seu turno, revela uma prosadora plenamente senhora da linguagem e da mundividência com as quais apreende a composição do seu artesanato.

               No livro com que a Irmã Férrer assinala o seu ingresso no convívio das letras, eu diria que acha-se exposta a fatura de uma grande emoção e de uma mensagem de sensibilidade e de encanto, ungida pelo sândalo da sua alegoria criativa e pelo compromisso com o soerguimento de um novo amanhã.

                A poesia com que ela nos brinda o sentimento rebelado diante das asperezas do mundo representa o atestado de quem se deixou desabrochar poetisa em estágio de maturidade, circunstância, aliás, que se deixa fotografar em todo o conjunto da sua produção.

                Prova-nos a Irmã Férrer a sua segurança quando trabalha na feitura de poemas mais longos; entretanto, nada fica a dever quando nos revela a sua perplexidade de artista na feitura de poemas de menor dimensão, ou ainda quando parte para a montagem de um soneto do porte de “Mãos Sacerdotais”, sendo proveitoso o efeito por ela extraído dessa modalidade de composição.

               Quanto a seus textos, reunidos em Mensagens e Perfis, não saberia o que melhor apreciar: se as suas crônicas, banhadas pela leveza do cotidiano; se os seus ensaios, ungidos pelo encanto do lirismo e das revelações. Sua linguagem, por outro lado, parece facilmente acessível a qualquer tipo de leitor, e como função social os seus textos valem, sobretudo, pela mensagem com que a autora imanta a sua produção literária.

               Assegura Joaryvar Macedo que as suas crônicas, enfeixadas em Mensagens e Perfis, são “reveladoras de uma prosa leve, suave, simples e, por isso mesmo, agradável e aliciante”, tendo Eduardo Campos afirmado que Deus está presente nas páginas descritas pela Irmã Férrer, “presente pela luminosidade de espírito de uma religiosa que sabe ver, sentir e escrever com segurança”.

              Quando fala de monstros sagrados como Tancredo Neves, João Paulo II, Enrichetta Cesari, Teilhard de Chardin ou João Gonçalves de Sousa, a Irmã Férrer parece chegar ao melhor equilíbrio da sua produção. Contudo, não fica atrás quando descreve o drama dos desamparados, o universo dos simples ou a angústia dos que se acham privados do senso de fraternidade e humanização.

               Devo registrar, agora, que os seus livros aqui referidos, com a ajuda de Miriam e Zenilo Almada, foram por mim lançados no Náutico Atlético Cearense, em 20 de junho de 1990. E sobre eles escrevi um texto de crítica literária, que publiquei no Diário do Nordeste e que reproduzi no meu livro Ossos do Ofício (Fortaleza, Editora Oficina, 1992).

               Orgulho-me também de ser o autor do seu perfil biográfico, aquele que se pode ler num dos meus livros mais afetuosos – Lavrenses Ilustres (Fortaleza, RDS Editora, 2ª ed., 2012). Ali, de forma didática e resumida, exalto a sua postura de poetisa e de mulher, a sua trajetória exemplar de sertaneja que honrou a sua terra natal e o Brasil, mercê da sua projeção internacional, e que faleceu em Fortaleza, aos 10 de dezembro de 1995.

                 Lamento que seu último conjunto de poemas, intitulado Poesias, ainda permaneça inédito, juntamente com o seu Diário de Viagem à Europa e Oriente Médio, escrito em 1966. Sei que essas relíquias e os seus objetos de uso pessoal foram recolhidos pela direção da Província Religiosa a que pertencia.

                 Dali, em duas oportunidades, eu a carreguei nos braços para a Assistência Municipal de Fortaleza e o Pronto Socorro dos Acidentados, quando, sucessivamente, vítima de pequenos acidentes, fraturou o fêmur e a bacia. Nessas ocasiões de dor e sofrimento, ela se limitava a sorrir, olhava-me carinhosamente nos olhos e dizia: “Dimas, sempre você por perto cuidando de mim”.

                Não. Não era. O amor filial que eu tinha pela Madre Férrer era que me permitia a graça da aproximação, é que me havia dado o ensejo de levar os seus livros para as editoras. Numa dedicatória/agradecimento que me fez no primeiro de seus livros, registrou a minha participação no projeto. E quando publicou o segundo, pediu-me, de forma carinhosa, que escrevesse a apresentação. Mas vendo que eu havia indicado Joaryvar Macedo e Eduardo Campos para a execução da tarefa, reservou-me a quarta-capa do livro e não perdoou a minha sutilidade de amigo.

                 Pregoeira da mansidão e da bondade, mestra da vida espiritual e afetiva e expressão de amor maternal que muito me ensinou acerca da arte de viver, a Irmã Férrer constitui para mim o exemplo de quem se faz luz para o mundo e ancora em Deus o significado de sua existência.

                 Acho que a sua posição de líder espiritual da família, deu-lhe uma posição de destaque entre todos os que admiravam a sua postura de santa e de doutora. Convivi com ela não apenas nesta condição, mas na condição de lavrense e de sócio privilegiado do clube de amigos que partilharam com ela as atenções de cearenses com quem interagiu.

                Talvez me seja lícito apontar, entre as suas admirações, o ex-ministro João Gonçalves de Sousa, Dona Risoleta Neves e o industrial Edson Queiroz, de cuja intimidade privou com o maior entusiasmo. E de forma muito especial, eu não posso deslembrar os nomes de Artur Eduardo Benevides e Dona Yolanda Queiroz, registrando que ninguém despertou mais bem-querer da sua parte do que Rachel de Queiroz, sua amiga e interlocutora privilegiada.

                Lembro-me das nossas conversas com Dona Yolanda Queiroz, tanto na Província das Doroteias, quanto na sede do Grupo Edson Queiroz, na Praça da Imprensa. Quanto a Rachel de Queiroz, invoco o fato de que Rachel tinha grande interesse por Fideralina Augusto. E éramos Joaryvar Macedo, eu e a Irmã Aurélia Férrer as fontes que Rachel, às vezes, recorria enquanto finalizava o seu clássico – Memorial de Maria Moura (São Paulo, 1992).

               E tanto que, quando publicou o seu ensaio sobre a grande coronela lavrense – Dona Fideralina das Lavras (Rio, 1990) –, foi a Irmã Férrer a escolhida para a distribuição do folheto entre os seus amigos cearenses. Heloisa Buarque de Hollanda, co-autora de Dona Fideralina das Lavras, afirmou, certa vez, que um dos orgulhos de Rachel era ser conterrânea de três mulheres que muito admirava: Fideralina Augusto, Sinhá D’Amora e Aurélia Férrer, todas, coincidentemente, personagens do meu livro – Lavrenses Ilutres.

             Se, entre nós, sabemos ou não sabemos o significado dessa poetisa estupenda e dessa cronista de escol, que o Ceará legou à literatura do Brasil, talvez não importe tanto no momento, quanto o fato de que, neste ano de 2005, a Sociedade Amigas do Livro – SAL está sintonizada com o seu centenário.

             É a essa sociedade de mulheres que devemos a homenagem que hoje se presta à sua memória imperecível. À Gláucia Férrer Pompeu, em primeiro lugar, e à Glaura Férrer Dias Martins, sobrinhas diletas de Aurélia, sou grato de uma forma muito especial. E à Regina Fiúza, também, que me convidou, de forma prazerosa, para aqui falar sobre um dos esteios de toda a minha vida.

                                                                                                                                           Centro Cultural Oboé,
                                                                                                                                     Fortaleza, 03/05/2005


Um comentário:

  1. Estive presente nesse raro momento tão importante em que você amigo convidou-me para assim conhecer a história dessa ilustre lavrense
    no Centro Cultural Oboé. Se o tempo nos permitisse seria importante a cada dois meses reunirmos na ALL para saborear de suas palestras.
    Abraços
    Rosa

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