quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Frei Caneca em Lavras


               Dimas Macedo


              Episódio singular da história da Confederação do Equador, no Ceará, é a estada de Frei Caneca na vila de São Vicente das Lavras, em novembro de 1824, onde seria preso, pelas tropas legalistas, juntamente com o seu estado maior, e dali deportado para Pernambuco, em dezembro de referido ano.

              Após os insucessos do governo da Confederação do Equador, no Recife, retirou-se o Frei Caneca, com a sua tropa, para a região centro-sul do Ceará, onde aspirava instalar a capital política da República então constituída.

                Segundo Luís da Câmara Cascudo, corroborado por Paulo Bonavides, seria induvidosamente na vila de Lavras que a República iria instalar a sua sede, face à convergência de fatores sociais que apontavam a velha Princesa do Salgado, como o lugar propício para o Governo da Federação. 

               Esperava Frei Caneca encontrar-se, em Lavras, com o exército revolucionário de Pereira Filgueiras, que efetivamente ocupou a referida Vila, ali hasteando a bandeira da Confederação, a 24 de outubro de 1824, como noticiam, aliás, diversos historiadores cearenses.

                Os insucessos do governo de Tristão Gonçalves, oficialmente sediado em Aracati, e a sua morte brutal e sanguinária, em Santa Rosa, deixaram os insurrectos cearenses em lastimável estado de desânimo. 

                 Porém seria certo e justo o afirmar-se que, após o governo turbulento de Tristão Gonçalves, um novo governo provisório da Confederação, no Ceará, foi instalado na cidade do Icó, cabendo a sua presidência ao Padre Felipe Benício, revolucionário de primeira hora e arrojado defensor da República e da Federação.

                O padre Felipe Benício Mariz, “um dos que mostrou muita satisfação em assinar no Ceará a Acta da Confederação do Equador” e assim batizado em tributo a São Felipe Benício, é o ascendente da valorosa a família do sítio Roça Velha, situado em Quitaiús, no município de Lavras.

                 O valente e não menos memorável Frei Caneca, que entrou no Ceará e, por conseguinte, no município de Lavras, pelas fazendas Boa Vista e Umari, a 21 de novembro, é quem registra que o Padre Felipe Benício era o chefe do governo provisório, sediado no Icó, e que foi com as tropas de referido sacerdote que o seu exército, de primeiro, combateu no Ceará.

                Em Umari perdeu o Frei Caneca um dos seus homens, Feliciano Barbosa da Silva, que ficou sepultado no adro da Igreja daquela localidade, mas que foi desenterrado pelos seus inimigos no dia seguinte, os quais “cortaram-lhe as orelhas e o nariz, e pozeram-lhe um pão na mão, exposto às aves de rapina”.

              Pernoitou o Frei Caneca em Umari no dia 21 de novembro e ali se demorou até o final do dia 22. Sabe-se, pelo rastreamento dos seus passos, que no dia seguinte o bravo Frei Caneca costurou o Riacho da Pendência, em busca do lugar denominado Pendência, onde se encravava uma fazenda dos frades carmelitas, dali partindo em direção a Lavras, onde chegou a 24 de novembro de 1824.

               O próprio Frei Caneca deixou registrado que, alcançando as lavras de ouro do Salgado, constatou que a Vila de São Vicente Ferrer “estava quasi deserta, e as casas dos liberaes patriotas destruídas, segundo lá mesmo nos contaram, pelas tropas do Rio do Peixe, quando por ahi passaram atraz de Pereira Filgueiras”.  
 
                Sabe-se, por igual, que margeou e fez diversas costuras sobre o Rio Salgado, pensando, assim, atingir Missão Velha e a cidade do Crato. Mas é certo que jamais saiu do município de Lavras, estacionando, inicialmente, na Várzea Redonda e, depois, na fazenda Juiz, onde seria finalmente preso, a 29 de novembro, segundo registros que se podem ler no seu Diário.

                Entre os que foram considerados cabeças do movimento pelo Major Lamenha, chefe das tropas legalistas, estavam, além do Frei Caneca, o comandante da artilharia do seu estado maior, José Maria Ildefonso, o presidente da Confederação do Equador na Paraíba, Félix Antônio Ferreira de Albuquerque, o major Agostinho Bezerra Cavalcanti e o Frei Antônio Joaquim das  Mercês.

                 A entrada, na Vila de Lavras, das tropas de Lamenha, conduzindo Frei Caneca e todo o seu exército, na manhã de 30 de novembro, constitui, indiscutivelmente, um dos maiores episódios da história do Nordeste, merecendo, inclusive, de todos os lavrenses, o orgulho dessa soberba tradição.

                 Não era pequeno o exército que o acompanhava, pois contava, na oportunidade, com 600 baionetas, segundo o relatório do Major Lamenha, quando do julgamento de Caneca, na cidade do Recife; número, portanto, já bem reduzido, em relação aos 800 homens que o seguiam de perto, até a fronteira com o Ceará. 

       Mas voltando à prisão de Frei Caneca, lê-se que, “escoltados por dezesseis caçadores, um sargento e um alferes por nome Tapeti”, e comandados pelo Major Pastorinha, os revoltosos partiram da vila de Lavras para Pernambuco, no dia 1º de dezembro, palmilhando a Ribeira do Rio do Peixe, indo o cortejo pernoitar no lugar denominado Volta, dali saindo na manhã seguinte.

      A fazenda Volta, de forma inusitada, viria a se fazer, no futuro, o refúgio dos descendentes de Pereira Filgueiras, no município de Lavras, contando-se o poeta Filgueiras Lima e a professora Julieta Filgueiras entre eles, como, aliás, está registrado em Os Linhares, de autoria de Mário Linhares.  

                 O famoso Diário desse carmelita seria revelado, pela primeira vez, no bojo das suas Obras Políticas e Literárias, publicadas em Recife, em 1875. Posteriormente, o Diário seria reproduzido em diversas biografias ou compilações que foram preparadas em nome da sua memória e dos seus grandes feitos.
 
               E que não se espante o leitor com o fato de ter sido Lavras, ainda que de forma passageira, a capital da Confederação do Equador. Como já afirmei no meu livro – Ensaios e Perfis (Fortaleza, Editora Prêmius, 2004), antes de Frei Caneca, entre 1752 e 1754, Luís Quaresma Dourado já havia instalado, na Povoação de São Vicente, o governo da Capitania, ali deixando suas cinzas e a sua ilustre descendência, como é sobejamente de todos conhecido, especialmente no distrito de Amaniutuba.

3 comentários:

  1. Professor Dimas, vivendo e aprendendo, hein? Não sabia com tamanha riqueza de detalhes a vinda de Frei Caneca ao Ceará (só sabia que ele tinha vindo, mas nunca tinha visto tão a fundo tal informação).
    Agradeço por compartilhar o conhecimento! Abraço.

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  2. Em 2014, vamos produzir um documentário sobre a passagem de Frei caneca em Lavras. E você Dimas Macedo será o narrador.
    Abraço grande.
    Cristina Couto.

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  3. Excelente texto como sempre. Mais uma vez agradeço o envio dos livros.
    Um abraço

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