domingo, 14 de julho de 2013

Sânzio de Azevedo Ensaísta

                Dimas Macedo
                        
          
                                                                                                                                                                                
Difícil, extremamente difícil um curioso leitor dos encantos da historiografia literária cearense que, por qualquer motivo, não tenha lido um ou alguns dos livros do escritor Sânzio de Azevedo, um dos luminares das letras contemporâneas do Ceará.

           Sânzio de Azevedo é escritor de prosa fluente e segura e analista literário, também, de rara capacidade de intelecção. E, por isto mesmo, a leitura de seus trabalhos de pesquisa é sempre um convite a novas descobertas e a novas modalidades de prospecção.

            É autor, entre outros, dos seguintes livros:  Literatura Cearense (Fortaleza, Academia Cearense de Letras, 1976), Novos Ensaios de Literatura Cearense  (Fortaleza, Edições UFC, 1992) e A Padaria Espiritual e o Simbolismo no Ceará (Fortaleza, Secretaria de Cultura e Desporto, 1983), por cujas páginas perpassam o equilíbrio do ensaísta e a aguda percepção do observador das contradições e da dialética dos fatos sociais.

            Sobre a sua produção de ensaísta, assim se expressou Artur Eduardo Benevides: “Sânzio é um pesquisador de mão cheia, cousa, aliás, a que se dedica com o maior interesse e seriedade, como atividade maior do seu espírito e o resultado é que, hoje em dia, já ninguém pode escrever sobre a vida ou a produção literária do Ceará, sobretudo do século dezenove, sem ler antes os seus lúcidos e coerentes estudos”.

            Quem vier a ler os seus Dez Ensaios de Literatura Cearense (Fortaleza, Casa de José de Alencar/UFC, 1985) verá confirmada essa assertiva de Artur Eduardo Benevides. Basta que o leitor se demore em qualquer das páginas desse livro, e aí observará o quanto é difícil não se acercar do seu fim. Os estudos: “Júlio Maciel e a Poesia do Seu Tempo”, “Rodolfo Teófilo e o Amor à Verdade”, “José Alcides Pinto – Vanguardista e Romântico”, e “Rachel de Queiroz e o Romance da Seca”, entre outros, conferem a Sânzio de Azevedo um lugar entre os grandes ensaístas do Brasil.

              Os seus livros são infiltrados da mais densa capacidade de comunicação. E a sua produção, ao contrário do que se pensa, não se restringe apenas ao fenômeno literário regional. Ela sempre se ampliou para absorver outros setores da nossa formação, ainda hoje à espera do seu historiador, isto porque a literatura brasileira, somente a partir das últimas décadas, é que presenciou o surgimento de pesquisadores voltados para a integração da nossa produção literária.

              Acrescento, ademais, que, há vinte e cinco anos, legou-nos Sânzio de Azevedo um de seus livros fundamentais. Refiro-me a Aspectos da Literatura Cearense (Fortaleza, Imprensa Universitária da UFC, 1982), uma coletânea de estudos focalizando figuras de relevo da nossa história literária, ou ainda resgatando valores literários esquecidos.

             Aspectos da Literatura Cearense, além de constituir trabalho deveras alentado, arvora-se em realização editorial, sobremodo lúcida, do que se depreende que a quantidade em nenhum momento se sobrepôs à qualidade dos escritos. O livro é composto de dezesseis ensaios, a maioria deles publicada em revistas acadêmicas ou como introdução a edições críticas de títulos ou autores sobre os quais se debruça.

            Nas páginas desse seu inventário de escorços literários, reúne Sânzio de Azevedo estudos em torno da personalidade e da obra de escritores do porte de Antônio Sales, José Albano, Lívio Barreto, José de Alencar, Joaquim de Sousa, Américo Facó, Papi Júnior, Carlos Gondim, Oliveira Paiva, Mário da Silveira, Cruz Filho, Juvenal Galeno, Alf. de Casto, Adolfo Caminha, Braga Montenegro e Otacílio de Azevedo.

             E, prosseguindo na análise de Aspectos da Literatura Cearense, o que me parece seguro concluir é que se trata de livro concebido e executado por um escritor de talento. É trabalho que busca projetar para o universal o que repousava entre as cinzas de uma das regiões culturais do Brasil.

              E quando falo em regiões culturais, lembro que o Brasil já foi comparado a um grande arquipélago literário, como quer a teoria de Viana Moog. E, neste passo,  concretiza Sânzio de Azevedo uma sugestão de Afrânio Coutinho, no sentido de que a história da literatura brasileira  possa ser levantada a partir das manifestações no âmbito das suas províncias culturais.

              Professor do Centro de Humanidades da UFC e membro da Academia Cearense de Letras, onde ocupa a cadeira número 1, que tem como patrono Adolfo Caminha, Sânzio de Azevedo é Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, sendo a sua tese de pós-graduação intitulada: A Padaria Espiritual e o Simbolismo no Ceará (Fortaleza, 1983).

             Sendo culto  e erudito como poucos escritores da sua geração, é, entretanto, um crítico que não se deixa seduzir pela consagração. Tal como o pai, o poeta Otacílio de Azevedo, Sânzio é um operário das letras, fiel ao seu destino de esteta, e mais do que isso: um ensaísta de múltiplas e variadas facetas a quem devemos render as nossas  homenagens.

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