terça-feira, 16 de julho de 2013

Roteiro de Ramalho Ortigão



      Dimas Macedo
 
 
 
Assim como não podemos entender a literatura brasileira sem a semântica nacionalista e o espírito criativo e polêmico de José de Alencar (e sem as sutilezas linguísticas e psicanalíticas de Machado de Assis), creio que não podemos compreender a literatura portuguesa e a sua consolidação definitiva sem o conhecimento da Questão Coimbrã, as Conferências do Cassino e o papel da Geração de 1870. 

Sei que o passado português está ligado aos mitos de Vieira e Camões, à aventura dos descobrimentos e à mística do sebastianismo. É para mim fato consumado que Fernando Pessoa é o príncipe da modernidade literária, não apenas em língua portuguesa; e que José de Sousa Saramago é o restaurador da linguagem barroca, mais sutil e a mais emblemática forma de comunicação que se fez do lado de cá dos Pirineus. 

Mas o que penso sobre Portugal é o máximo do que penso sobre a literatura e os acontecimentos da Geração de 1870. A geração de Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão. Sem mais nem menos e sem a necessidade de produzir paralelos.
O que se fez a partir dessa geração é o que faz a diferença na história política e cultural de Portugal. É o que faz a transição do arcaico e do conservador para os esforços da modernidade tardia e sempre conturbada que marca a trajetória daquela importante nação.

Ramalho Ortigão é a personagem principal do livro de Ednilo Soárez: Ramalho Ortigão – Um Marco na Literatura Portuguesa (Fortaleza, Expressão Gráfica, 2008). Uma marca, por certo. Ou até mesmo um bloco de mármore ou de granito imantado de gemas e cristais. Um ponto de interseção e equilíbrio. Uma travessia pênsil, fincada numa rocha (o passado) e que aponta para uma certeza e uma claridade: as saudades do futuro, para aqui ser fiel à expressão de Eduardo Lourenço. 

Não espere o leitor que eu fale de Ramalho Ortigão como sujeito ou como personagem. Ou que eu explique a extensão da sua obra. Ou faça alusão aos traços que marcaram a sua trajetória. Ou que eu registre aqui um comentário ou faça alguma distinção sobre a participação desse conhecido escritor na transformação da cultura portuguesa. 

 Mas de Ednilo, sim, quero falar, dos traços de percepção da sua obra, da sua visão de escritor e sociólogo, da maturidade das suas formas literárias, da linha de prumo com que maneja o intrincado labirinto do ensaio, do ensaio-poema ou do ensaio enquanto expressão de uma poética ancestral e genuína. 

Sólida a sua formação educacional e humanística. Indiscutivelmente madura a sua experiência. Íntegra, como a de poucos homens, a sua personalidade. Faltava-lhe, por certo, o exercício soberano da pena. Faltava-lhe o ato de afastamento da linguagem técnica que muito utilizou como político e gestor das coisas da administração e do governo. Eram-lhe também escassas as águas do repouso e a engenharia da escuta dos dons. 

Falo dos dons da escrita. Aqueles que ele revelou como historiador e sociólogo. Aqueles que ele difundiu como romancista, mostrando-nos os seus conhecimentos sobre as coisas do mar e das embarcações. Aqueles que ele agora nos ensina como ensaísta primoroso do campo literário. 

O Instituto do Ceará se houve por bem em fazê-lo um de seus integrantes, e bem assim a Academia Cearense de Retórica, consagrando-o no seu quadro de sócios titulares. E muito se engrandece a Academia Fortalezense de Letras em tê-lo como Presidente. 

Ramalho Ortigão – Um Marco na Literatura Portuguesa não é uma biografia no sentido da descrição cronológica dos fatos e acontecimentos que marcaram a vida do grande escritor português, mas constitui, com certeza, um tributo à historiografia das ideias que determinaram a autonomia de voo de Ramalho Ortigão.

             A dimensão visual da vida de Ramalho e a explosão da sua obra, a exegese da sua produção, as linhas de força da cultura lusa e a formação e consolidação do realismo em Portugal: eis os elementos e traços distintivos que fazem desse livro de Ednilo Gomes de Soárez um momento ímpar do ensaio, no âmbito da literatura luso-brasileira. 

Ednilo é um bom reconstrutor de cenários. Nele a paixão de ordem visual se faz um componente de monta. Existem, nesse livro, passagens e parágrafos que mais se assemelham à projeção de uma câmara cinematográfica do que a uma tela pintada com as energias da escrita.

 A escritura, em Ednilo, mostra-se um autêntico cruzamento de cores, insights, flashes e pincéis. Escritura que dialoga com as artes e a imaginação do leitor ou dos personagens que retrata, transforma ou reinventa. 

Sei que a apresentação de um livro é algo perfeitamente dispensável. Uma obra literária vale, sobretudo, pela sua expressão, isto é, pelo conjunto das suas formas e do seu conteúdo. Vale também pela visão de mundo do autor, pela sua erudição, pela sua cultura e pelo conhecimento que o autor demonstra do seu objeto de pesquisa. 

             Nesse livro de Ednilo Soárez, estes elementos se comunicam entre si, em grau de circularidade dialética e em grau máximo de harmonia e de expressão da escritura. E o leitor, neste caso, só pode é se sentir um privilegiado. Assim como eu, que vi, de primeiro, a superioridade cultural de Ednilo na tessitura desse livro exemplar e, sob todos os aspectos, relevante. 

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