terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Irmã Aurélia Férrer

               Dimas Macedo

              Aurélia Teixeira Férrer (Irmã Férrer, Madre Férrer ou ainda Tia Ledy, como era carinhosamente tratada pelos seus sobrinhos e a quem cujo perfil me compete agora tracejar) nasceu em Lavras da Mangabeira, aos 26 de novembro de 1905.

         Aprendeu as primeiras letras no ambiente familiar, tendo por professores Henrique Augusto de Aquino e Afonso César Targino Filho, este último Juiz de Direito da Comarca de sua terra de berço.

          Em seguida, matriculou-se na Escola Pátria e Dever, do Professor Joaquim Genu, tendo, em 1923, ingressado no Colégio Nossa Senhora do Sagrado Coração, em Fortaleza, dirigido pelas Irmãs Doroteias, onde realizou os estudos secundários e o curso complementar.

           A sua inclinação de Aurélia, para a vida religiosa e espiritual, não se deve apenas à influência do irmão, o Cônego Sandoval, que foi a amizade e o afeto que lhe tocaram de perto a sensibilidade. Essa inclinação, por igual, atende a um jeito de ser de seus predecessores.

           O ilustre sacerdote lavrense, João Correia da Costa Sobreira, por exemplo, era irmão da sua bisavó Pulquéria; e da casa do seu trisavô, Francisco Xavier Ângelo, provinham os célebres revolucionários lavrenses, padres José Joaquim Xavier Sobreira, Cosme Francisco Xavier Sobreira e Francisco Xavier Gonçalves Sobreira, todos, assim como o primeiro, formados pelo Seminário de Olinda.

          Alguns colaterais de Aurélia assumiram, igualmente, funções sacerdotais. Mas nenhum deles, parece-me, e nenhum deles – repito –, em grau de santidade e apego aos Evangelhos, foi superior àquele que é, de fato, a glória do ramo materno da família, Tito de Alencar Lima (Frei Tito), célebre dominicano brasileiro de renome internacional, e seu primo em segundo grau.

           Decidindo-se pela vida religiosa, em Olinda (PE), cursou o noviciado da Congregação das Irmãs de Santa Dorotéia, onde teve por professor de Latim o Monsenhor Pedrosa. Terminando o aprendizado religioso em Olinda, seguiu para São Luiz do Maranhão, onde iniciou o seu apostolado, vindo, em seguida, prestar serviços à congregação em Fortaleza.

             No Colégio da Doroteias de Cajazeiras (PB) esteve por um período de dez anos e, em Alagoa Grande, no mesmo Estado, permaneceu durante os anos de 1954 e 1955. A Ordem das Doroteias conduziu-a para Belém em 1956 e, em 1959, as exigências do apostolado a levaram aos Estados Unidos, onde residiu por um período de quatro anos, regressando ao Brasil em 1963.

             Ali, estabeleceu-se na região da Nova Inglaterra, mais precisamente em Bristol e New Betford, onde realizou parte do seu trabalho social e os seus estudos superiores em Teologia e Psicologia na Universidade da Providência, em East Providence.

           Nos Estados Unidos, manteve relações de amizade e de serviço comunitário com a família Kennedy, de cuja residência foi hóspede, sendo, inclusive, correspondente de Jacqueline Kennedy no Brasil. Foi também correspondente, no Brasil, de Dag Hammarsjöld, ex-Secretário das Nações Unidas, a quem conheceu em uma de suas viagens à Europa, e cujo perfil cinzelou em um de seus escritos em prosa

             Dos Estados Unidos regressou diretamente para Belém, onde viveu boa parte da sua vida de religiosa. Ali integrou o núcleo regional da CNBB, por designação da Arquidiocese de Belém, e militou como jornalista na imprensa da capital paraense, nos jornais O Liberal, A Província e A Folha do Norte, mantendo na Rádio Liberal um programa de orientação religiosa.

            Em 1966, a serviço da Congregação, viajou por Portugal, Espanha, França, Itália, Suíça, Alemanha, Grécia e Israel, registrando essa peregrinação em magistrais poemas tocados pela magia da fé. Mas é certo que retornou para Belém, prosseguiu no seu apostolado, sendo transferida para Fortaleza, em 1977.

          Aqui desenvolveu parte da sua missão religiosa e educativa, junto ao Colégio de Nossa Senhora do Sagrado Coração, do qual foi professora e secretária. Junto à Arquidiocese de Fortaleza, dirigiu o Boletim Informativo Arquidiocesano, por designação do Cardeal Aloysio Lorscheider, de quem foi colaboradora em vários projetos de cunho social.

           Nas lides do magistério, distinguiu-se como professora de inglês, latim, francês, história e português. Além da publicação Na Voz do Uirapuru e da edição de outros folhetos, colaborou com a imprensa de Fortaleza e de outros estados.

          Poetisa de extraordinários recursos e prosadora bastante talentosa e erudita, em 1980, a Irmã Férrer publicou, em Brasília, pela Gráfica do Senado Federal, o livro de poemas Em Busca da Plenitude, bastante elogiado pela crítica e com ele propondo-se a restabelecer a poesia em Cristo, de quem se fez amante fiel e fervorosa.

           Estreando, aos 75 anos, com um livro pleno de poemas maduros e desataviados, chamou, de logo, a atenção de grandes escritores cearenses, tais como Jáder de Carvalho, José Valdivino, Moreira Campos, Linhares Filho e Artur Eduardo Benevides, que escreveram, de forma apaixonada (e cada um a seu modo), sobre o significado e a leveza estética da sua linguagem literária.

            Em 1986, atendendo a apelo de ordem interior, publicou o livro Mensagens e Perfis, pela Editora do BNB, com apresentações de Eduardo Campos e Joaryvar Macedo. Trata-se de um conjunto de ensaios e reflexões, todo ele aberto à participação e ao diálogo e assestado para a dimensão espiritual de grandes homens do seu tempo, que ali se acham perfilados.

      Se Em Busca da Plenitude reúne poemas tocados pela força do amor, pela transcendência da meditação, pela magia da fé, pelo sortilégio do espírito e pela seiva vivificante da sensibilidade e do afeto, Mensagens e Perfis, a seu turno, revela-nos uma prosadora plenamente senhora da linguagem e da mundividência com as quais apreende a composição do seu artesanato.

            No livro com que a Irmã Férrer assinala o seu ingresso no convívio das letras, eu diria que acha-se exposta a fratura da sua incontrolada emoção e da sua mensagem de sensibilidade e de encanto, ungida pelo sândalo da sua alegoria criativa e pelo compromisso com o soerguimento de um novo amanhã.

           A poesia com que ela nos brinda o sentimento rebelado diante das asperezas do mundo, representa muito bem o atestado de quem se deixou desabrochar poetisa em estágio de maturidade, circunstância que se deixa fotografar em todo o conjunto da sua produção, em cujo esteio a Madre Férrer se expõe como notável poetisa, até mesmo nos poemas em que a rima e o ritmo de gosto popular predominam.

           Prova-nos a Irmã Férrer a sua segurança quando trabalha na feitura de poemas mais longos; entretanto, nada fica a dever quando nos revela a sua perplexidade de artista na feitura de poemas de menor dimensão, ou ainda quando parte para a montagem de um soneto do porte de “Mãos Sacerdotais”, sendo proveitoso o efeito por ela extraído dessa modalidade de composição.

          Quanto aos textos, reunidos em Mensagens e Perfis, não saberia o que melhor apreciar: se as suas crônicas, banhadas pela leveza do cotidiano; se os seus ensaios, ungidos pelo lirismo e as revelações. Sua linguagem parece-nos acessível a qualquer tipo de leitor, e como função social os seus textos valem, sobretudo, pela mensagem com que a autora imanta a sua produção literária.

           Assegura-nos Joaryvar Macedo que as crônicas da Irmã Ferrer, enfeixadas em Mensagens e Perfis, são “reveladoras de uma prosa leve, suave, simples e, por isso mesmo, agradável e aliciante”, tendo Eduardo Campos afirmado que Deus está presente nas páginas descritas pela Irmã Férrer, “presente pela luminosidade de espírito de uma religiosa que sabe ver, sentir e escrever com segurança”.

            Quando fala de monstros sagrados como Tancredo Neves, João Paulo II, Enrichetta Cesari, Teilhard de Chardin ou João Gonçalves de Sousa, por exemplo, a Irmã Férrer parece chegar ao melhor equilíbrio da sua produção. Contudo, não fica atrás quando descreve o drama dos desamparados, o universo dos simples ou a angústia dos que se acham privado de humanização.

           Devo registrar, agora, que os seus livros aqui referidos, com a ajuda de Miriam e de Zenilo Almada, foram por mim lançados no Náutico Atlético Cearense, em 20 de junho de 1990. E sobre eles escrevi um texto de crítica literária, que publiquei no Diário do Nordeste e que reproduzi no meu livro Ossos do Ofício (Fortaleza: Oficina, 1992).

             Orgulho-me também de ser o autor do seu perfil biográfico, aquele que se pode ler num dos meus livros mais afetuosos Lavrenses Ilustres (3ª ed. Fortaleza: RDS, 2012). Ali, de forma didática e resumida, exalto a sua postura de poetisa e de mulher, a sua trajetória exemplar de sertaneja que honrou a sua terra natal e o Brasil, mercê da sua projeção internacional, e que faleceu em Fortaleza, aos 10 de dezembro de 1995.

            Lamento que seu último conjunto de poemas, intitulado Poesias, ainda permaneça inédito, juntamente com o seu Diário de Viagem à Europa e Oriente Médio, escrito em 1966. Sei que essas relíquias e os seus objetos de uso pessoal foram recolhidos pela direção da Província Religiosa a que pertencia.

             Dali, em duas oportunidades, eu a carreguei nos braços para a Assistência Municipal de Fortaleza e o Pronto Socorro dos Acidentados, quando, sucessivamente, vítima de pequenos acidentes, fraturou o fêmur e a bacia. Nessas ocasiões de dor e sofrimento, ela se limitava a sorrir, olhava-me carinhosamente nos olhos e dizia: “Dimas, sempre você por perto cuidando de mim”.

          Não. Não era. O amor filial que eu tinha pela Madre Férrer era que me permitia a graça da aproximação, é que me havia dado o ensejo de levar os seus livros para as editoras. Numa dedicatória/agradecimento que me fez no primeiro de seus livros, registrou a minha participação no projeto. E quando publicou o segundo, pediu-me que escrevesse a apresentação. Mas vendo que eu havia indicado Joaryvar Macedo e Eduardo Campos para a tarefa, reservou-me a quarta-capa do livro e não perdoou a minha sutilidade.

          Pregoeira da mansidão e da bondade, mestra da vida espiritual e afetiva e expressão de amor maternal que muito me ensinou acerca da arte de viver, a Irmã Férrer constitui para mim o exemplo de quem se faz luz para o mundo, e ancora em Deus o significado de sua existência terrena.

           Acho que a sua posição de líder espiritual da família, deu-lhe uma posição de destaque entre todos os que admiravam a sua postura de santa e de doutora. Convivi com ela não apenas nesta condição, mas na condição de lavrense e de sócio privilegiado do clube de amigos que partilharam com ela as atenções de cearenses com quem conviveu em sua proveitosa existência.

           Talvez me seja lícito apontar, entre as suas admirações, o ex-ministro João Gonçalves de Sousa, Dona Risoleta Neves e o industrial Edson Queiroz, de cuja intimidade privou com o maior entusiasmo. E de forma muito especial, eu não posso deslembrar os nomes de Artur Eduardo Benevides e Dona Yolanda Queiroz, registrando que ninguém despertou mais bem-querer da sua parte do que Rachel de Queiroz, sua amiga e interlocutora privilegiada.

            Lembro-me das nossas conversas com Dona Yolanda Queiroz, tanto na Província das Doroteias, no bairro Dias Macedo, quanto na sede do Grupo Edson Queiroz, na Praça da Imprensa. Quanto a Rachel de Queiroz, invoco o fato de que Rachel tinha grande interesse por Fideralina Augusto, a célebre matriarca lavrense. E éramos Joaryvar Macedo, eu e a Irmã Aurélia Férrer as fontes que Rachel, às vezes, recorria enquanto finalizava o seu clássico Memorial de Maria Moura (São Paulo: Siciliano,1992).

           E tanto que, quando publicou o seu ensaio sobre Dona Fideralina (Rio, 1990), Irmã Férrer foi a escolhida para a distribuição do folheto entre os seus amigos cearenses. Heloisa Buarque de Hollanda, coautora de Dona Fideralina das Lavras, afirmou, certa vez, que um dos orgulhos de Rachel era ser conterrânea de três mulheres que muito admirava: Fideralina Augusto, Sinhá D’Amora e Aurélia Férrer, todas, coincidentemente, personagens do meu livro Lavrenses Ilustres.

           Se, entre nós, sabemos ou não sabemos o significado dessa poetisa estupenda e dessa cronista de escol, que o Ceará legou à literatura do Brasil, talvez não importe tanto no momento, quanto o fato de que, neste ano de 2005, a Sociedade Amigas do Livro (SAL) está sintonizada com o seu centenário.


           É a essa sociedade de mulheres que devemos a homenagem que hoje se presta à sua memória. À Gláucia Férrer Pompeu, em primeiro lugar, e à Glaura Férrer Dias Martins, sobrinhas diletas de Aurélia, sou grato de uma forma muito especial. E à Regina Fiúza, também, que me convidou, de forma prazerosa e sincera, para aqui falar sobre um dos esteios da minha vida pessoal.

                                                                                                                                           Centro Cultural Oboé,
                                                                                                                                     Fortaleza, 03/05/2005


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Lavras da Mangabeira e Seu Bicentenário

           Dimas Macedo
                      






            O município de Lavras da Mangabeira, um dos mais antigos do Ceará, nasceu em torno da mineração que se desenvolveu em suas cercanias, em meados do século XVIII, tendo sido suspensa a referida mineração por Carta Régia de 12 de setembro de 1758, por ser considerada onerosa às Cortes de Lisboa.

             Antes da emancipação política da comunidade de Lavras, foi criada a sua Freguesia, sob a invocação de São Vicente Ferrer, por Provisão de 30 de agosto de 1813, vinculando-se a nova Freguesia ao Bispado de Crato, sendo seu primeiro vigário o padre José Joaquim Xavier Sobreira.

O Município de Lavras da Mangabeira foi criado por Resolução Régia de 20 de maio de 1816, elevando-se a Povoação de São Vicente Ferrer à categoria de Vila, oficialmente instalada aos 08 de janeiro de 1818, ocasião em que foi levantado o Pelourinho (símbolo da autonomia política municipal), ficando a pertencer à comunidade lavrense uma vasta região do Sul do Ceará, onde se encontram, hoje, encravados os municípios de Aurora, Granjeiro, Várzea Alegre, Cedro, Umari, Baixio e Ipaumirim.

Assinada pelo Rei de Portugal e Príncipe Regente do Brasil, Dom João VI, citada Resolução Régia de 20 de maio de 1816, possuía a seguinte redação: “Sou servido levantar em vila a povoação de S. Vicente Ferrer das Lavras da Mangabeira com a denominação de – Vila de S. Vicente das Lavras. Terá por Termo todo o território da sua Freguesia, ficando desde logo desmembrada do termo da Vila de Icó com todos os rendimentos que lhe forem respectivos. Querendo beneficiar a Câmara da dita vila de S. Vicente das Lavras, e aliviar quanto for possível os moradores do seu termo, hei por bem conceder-lhe para patrimônio uma sesmaria de uma légua de terra em quadra, conjunta ou separadamente, onde a houver desembaraçada”.

Eis aqui, portanto, um fato de constatação muito fácil, na memória do qual devemos nos louvar: 20 de maio de 1816. Foi nesta data que o Município de Lavras conquistou a sua emancipação, e é em 20 de maio que devemos render os nossos louvores à sua tradição, comemorando o seu aniversário, como fazem os demais municípios do Brasil e como é reconhecido pelo Governo do Estado.

Em 20 de maio de 2016, Lavras da Mangabeira comemora seus 200 anos de emancipação política, e em 20 de agosto deste ano, foram assinalados os 134 anos da elevação da antiga Vila de São Vicente das Lavras à categoria de cidade. 

Mas este último fato não pode ser tomado como se fosse uma data alusiva à autonomia política da comuna, como se vive a propalar há bastante tempo, por conta da desatenção de muitos lavrenses que deviam resguardar este fato de comprovação histórica inconteste.

Talvez pelo fato de se ter comemorado, em 20 de agosto de 1984, o centenário tão somente da elevação da vila de Lavras à categoria de cidade, é que esse equívoco passou a encobrir a autenticidade de um fato histórico relevante.

 Lavras da Mangabeira (CE) é um município de muitas tradições e de configuração cultural e história quase mitológica. Orgulho-me de ali ter nascido, aos 14 de setembro de 1956.


          


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Bergson - Poema

                                  Dimas Macedo





                                      De Bergson não se disse – “houve
                                      alguém mais do que ele
                                      no reino da  alegria”.

                                      O riso em Bergson é fingimento roto
                                      e a aura do seu texto é só melancolia.

                                      Bergson, mais do que Bergson,
                                       é a alma de Plotino,
                                       e mais do Plotino, é grego,
                                       e o Bergson que conheço é osso.

                                      A matéria de Bergson é a carne.
                                      A chave do seu corpo é o siso.
                                      E Bergson é Bergson de novo,
                                      sendo sempre o mesmo.
                                      25.09.2013

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Origens da Família Férrer

                 Dimas Macedo

                                         Irmã Aurélia Ferrer

             Em 1804, na primitiva Povoação de Lavras, ainda não elevada à condição de Vila, o Governador do Ceará, João Carlos Augusto de Oyenhausen-Gravenburg (o Marquês de Aracati), descendente de uma das principais nobrezas da Europa, levou à pia batismal um dos filhos de Francisco de Oliveira Banhos e Ana Rosa de Oliveira Banhos.

             E, certamente por impulsos de sangue, permitiu que o menino levasse o seu nome para a posteridade. João Carlos Augusto, o filho afortunado de Ana Rosa, foi, assim como o seu qualificado padrinho, um dos grandes políticos da época em que viveu. Mas foi grande, fundamentalmente, porque reproduziu na descendência o sobrenome ilustre que herdara, por via de consanguinidade e veracidade que ainda não foram comprovadas.

              A família Augusto, portanto, da cidade de Lavras da Mangabeira (CE), segundo Joaryvar Macedo, no seu livro Os Augustos (Fortaleza: Imprensa Universitária, 1971), é originária daquele município, onde nasceu o menino João Carlos, cujos prenome, nome e sobrenome lhe foram confirmados pelo rito sagrado do batismo.

               Essa singularidade, contudo, na pátria de Linhares Filho e Sinhá D’Amora, não é um privilégio dos Augustos, tão-somente: o major Antônio Raymundo Duarte (ou Raimundo de Araújo Lima, para o historiador Joaryvar Macedo) e Anna da Luz do Sacramento (ou Ana Gonçalves da Silva ou ainda Naninha dos Pereiros) também geraram um varão que se tornou uma espécie de Abraão daquele município.

              Seu nome: Vicente Ferrer de Araújo Lima. A ele coube o privilégio de batizar os filhos com o prenome que recebera em homenagem ao padroeiro da freguesia – São Vicente Ferrer.

               Férrer (com acento agudo na primeira sílaba) e não Ferrer, como são conhecidos os componentes dessa tradicional família da Ibéria, foi o artifício encontrado por Vicente Férrer de Araújo Lima e sua mulher Maria Teixeira Mendes para preservar um jeito de ser, lavrense, muito especial.

                No que tange à ancestralidade do coronel Vicente Férrer, já se afirmou que seria ele, por da avó o do avô maternos, segundo uma versão e uma tradição que ainda não pude comprovar (mas nas quais vivamente acredito), bisneto de Vitorino Gomes Leitão e de Joana Batista de Jesus e neto de Pedro Ribeiro Campos e Ana Maria Bezerra.

                Não tenho elementos para confirmar ou negar essa afirmação, mas posso assegurar que nem o seu nome nem os nomes dos seus ascendentes maternos figuram em Os Gomes Leitão – Ramos de Lavras, Crato e Cajazeiras, de Deusdedith Leitão (João Pessoa: Companhia Editora A União, 1982).

                O     que posso aqui afirmar (e o faço com a mais absoluta certeza), é que esse notável lavrense era filho de Anna da Luz do Sacramento e do major Antônio Raymundo Duarte, o qual foi vereador em Lavras da Mangabeira, nos períodos de 1870-1873, 1873-1876 e 1877, tendo assumido a presidência do Legislativo lavrense em 1873, 1875, 1876 e 1877, verificando-se a sua morte em 1878 e ocorrendo a morte da sua mulher aos 21 de setembro de 1900.

           Segundo a historiadora Rejane Augusto, em 1877, então com dezoito anos, Vicente Férrer de Araújo Lima “residia com a família no sítio Unha de Gato, onde vivam a maior parte do tempo, porém com residência na cidade de Lavras: na casa separada da Igreja por um beco”.

           Com a morte do seu pai, o coronel Vicente Férrer ficou com a propriedade da casa residencial da família, adquirida por herança e por compra realizada junto aos herdeiros, o mesmo ocorrendo com os sítios  Cachoeira o Pereiros, este último, herdado da sua mãe, Anna da Luz do Sacramento.

          Vocacionado para a vida política, foi componente da Guarda Nacional da Comarca de Lavras, tendo, em fevereiro de 1890, na condição de republicano histórico, assumido o Conselho de Intendência Municipal.

           Em fase posterior da sua militância política, de forma serena, porém sempre firme e conciliatória, ocupou os cargos de vereador e Presidente da Câmara, tendo exercido o cargo de prefeito municipal de Lavras, em pelo menos duas oportunidades: desde 3 de maio de 1925 e a partir de 20 de setembro de 1926, segundo pude constatar em Lavras da Mangabeira – Um Marco Histórico, de Rejane Monteiro Augusto Gonçalves (2ª ed. Fortaleza: Tiprogresso, 2004).

            Nascido na então Vila de Lavras, em 1858, ali faleceu aos 22 de novembro de 1929, contando 71 anos de idade. E para muito além de político e cidadão exemplar, senhoreou, em seu município, propriedades agrícolas e várias fazendas de criar, entre elas a Cachoeira, a Cabaceiras, os Pereiros, o Poço e a Várzea Cumprida, consorciando-se ali com Maria Teixeira Mendes ou Maria Teixeira de Araújo ou  ainda Mariinha Férrer, como ficou conhecida pelos seus conterrâneos.

               Mariinha Férrer, por via do avô paterno, era descendente dos Teixeira Mendes, da vizinha cidade do Icó. Já por via de sucessão da avó paterna (Ana Rosa Joaquina) e da avó materna (Pulquéria Bernardina Sobreira), possuía ascendência nas casas dos grandes patriarcas que povoaram o município de Lavras, e que foram, coincidentemente, seus bisavós: Francisco Xavier Ângelo Sobreira, senhor da Fazenda Logradouro (margem esquerda do Salgado), capitão-mor e comandante geral da Vila de São Vicente das Lavras; e Antônio José Correia, senhor da Fazenda Mangabeira (margem  direita do Salgado) – sede da primitiva povoação de São Vicente Ferrer.

              Seu pai, Vicente Teixeira Mendes, nasceu em Lavras da Mangabeira, aos 21 de outubro de 1842, e faleceu na mesma cidade, aos 24 de fevereiro de 1884. Era filho de Antônio José Teixeira e Ana Rosa Joaquina Xavier Sobreira. Teve por esposa Silvéria Bernardina Sobreira: ela, filha de Pulquéria Bernardina Sobreira e do tenente-coronel Manuel Antônio Correia Favela.

             Pulquéria Bernardina Sobreira era filha de Maria Silvéria de Almeida e de Antônio José Correia, acima nominado. Já Ana Rosa Joaquina Xavier Sobreira era filha de Francisco Xavier Ângelo Sobreira e da sua segunda mulher, Cosma Francisca de Oliveira Banhos, irmã, esta última, de João Carlos Augusto, pai de Fideralina Augusto e fundador da oligarquia-mor do Vale do Salgado.

              Manuel Antônio Correia Favela, avô materno de Mariinha Férrer, era natural de Várzea Alegre e pertenceu à Guarda Nacional de Lavras, no posto de tenente-coronel. Rendido aos encantos da mulher e ao patrimônio desmedido do sogro, Antônio José Correia, fixou-se na gleba adotiva e ali contraiu relações sociais duradouras.

               Entre os seus descendentes, além de todos os integrantes da família Férrer, estão os membros da família Favela, contando-se entre eles o poeta popular lavrense, João Favela de Macedo, os ex-vereadores e líderes políticos daquele município, Vicente Favela de Macedo e Manuel Favela Saraiva (Nelzinho), e o monsenhor José Edmilson de Macedo, orador sacro de renome e Cônego Catedrático do Cabido da Sé da Bahia.


               Vivenciando um dos casamentos mais duradouros e eficazes da história de Lavras, o coronel Vicente Férrer de Araújo Lima e sua consorte Mariinha Férrer foram pais de uma prole de desesseis filhos, pelo menos – oito homens e oito mulheres, assim discriminados em ordem cronológica: Aurélia (a primeira deste nome), Maria Cira (consorte do Coronel Raimundo Augusto Lima), Elza (falecida ainda criança), Luís (Lêla Férrer, consorte de Guilhermina Augusto de Aquino), Maria, conhecida por Marian (consorte do Dr. José Gonçalves Linhares), Oswaldo (cognominado Teixeira, consorte de Augusta Benevides), Ana (cognominada Sinhara, consorte de José Lindolfo Bezerra), Celi (consorte de José Augusto Banhos), Benedicto (doutorando da Faculdade de Medicina da Bahia, falecido aos 19 de agosto de 1928), Anselmo (consorte de Guiomar de Holanda Cavalcanti), Silvéria (Soubé, sem descendência), Sandoval (sacerdote da ordem secular), Amâncio (falecido criança), Aurélia (Irmã Férrer, a segunda deste nome), Dorimedonte (Dori, consorte de Necita de Sousa Férrer) e Vicente Férrer de Araújo Lima Filho (Ferrim, sem descendência).

                                                                                                                                               Fortaleza, janeiro de 2014

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Ignez Fiúza - Fotobiografia

                Dimas Macedo

 
                                      

               Apesar de falarmos em uma tradição moderna, sabemos que a modernidade compreende um estilo de vida que exige a presença do novo, isto é, a presença daquilo que se abre para a criação. A vida depende dos sentidos da imaginação e a arte é uma das formas de expressão desse movimento.

              A arte não se representa por si mesma. Ela depende da sua recepção e da sua interação com a sociedade. Desde Platão e da alegoria do mito da caverna, a arte passou a assumir a linguagem do desejo e a sua representação no espaço da vida social.

              A retomada da Arte na época do Renascimento somente se tornou possível tendo em vista a existência de dois elementos que a fizeram contemporânea da sua tradição: a presença decisiva do Mecenas e a emergência do Mercado como polos aglutinadores da sua expansão comercial e da sua produção artesanal em escala cada vez mais acelerada.

             O desenvolvimento de uma sociedade, a partir da chegada da Idade Moderna, passou a ser medido não apenas pela sua equação econômica, política e social, mas também e fundamentalmente a partir da sua produção cultural, desdobrada desde as fontes antigas do conhecimento até a produção de natureza artística, que passou, então, a definir o sentido do novo.

             Na sociedade cearense, esse percurso não se fez de forma diferente. O aceleramento do nosso processo industrial, a partir da modernização do seu planejamento, aparece conjugado com a nossa modernidade artística, de princípio no plano literário e, a seguir, na produção dos nossos artistas plásticos de maior relevo.

             A partir de meados da década de 1950, as artes plásticas do Ceará começaram a encontrar o seu ponto de inflexão, mas é com a sua acolhida, nas décadas seguintes, pelos seus promoters e marchants que elas se depararam inseridas no nosso sistema social.

             Poucos apreciadores das Artes Plásticas, no Ceará, se preocuparam, de fato, com o destino social desse movimento, ou se mostraram dispostos a assumir uma atitude de vanguarda com relação à sua presença nos nichos de consumo da sua produção.

              Ignez Fiúza, considerada a Musa das Artes Plásticas do Ceará, é a liderança empresarial que se destaca entre nós nessa atitude de vanguarda, assumindo, com a sua técnica e com o seu bom gosto, a promoção e a divulgação mercadológica dos nossos artistas plásticos de maior talento.

             Mas a sua atuação, nessa área, não se resume apenas à promoção das artes produzidas no Ceará: o alcance da sua visão trouxe também para a apreciação e o consumo dos cearenses as novas tendências das artes plásticas do Brasil, possibilitando que o Ceará pudesse conhecer novos estilos artísticos e novas formas de pesquisa que nos levasse, ainda mais, a mergulhar nos sentidos do novo, absorvendo as suas contradições e os seus maravilhosos jogos de luz e de tintas.

               A Galeria de Artes que Ignez Fiúza manteve em Fortaleza, durante várias décadas, em espaços nobres da cidade; o bristô e as elegantes casas de pastos que abriu, sempre finamente decoradas e no mais transformadas em galerias de beleza constituem um traço da sua personalidade fascinante.

               Ignez Fiúza sempre se destacou no Ceará como mulher de visão, como marchant de gosto artístico refinado, como Mecenas dos talentos artísticos mais jovens. Mas nos espaços que criou e manteve ela não dialogou apenas com as artes plásticas, pois fez-se também propagadora dos nossos valores literários e dos nossos movimentos de vanguarda, no plano da produção artística.

                Na sua conhecida Galeria, promoveu exposições de artistas plásticos de renome, tais como Floriano Teixeira e Aldemir Martins, mas ali também acolheu os escritores cearenses desde o Grupo Clã até o Movimento conhecido por Poesia Plural, no início da década de 1990.

               Em 2014, Ignez Fiúza chega ao apogeu da sua juventude, esbanjando vida e esperança, e a todos acolhendo com os fervores do seu coração. O êxito da sua trajetória, a sua conhecida elegância e o seu jeito agradável de conviver com os nossos artistas fazem de Ignez Fiúza uma das figuras de maior destaque da vida cultural do Ceará.

               A importância da sua atuação transborda às páginas da sua Fotobiografia (Fortaleza, Editora Traço, 2014), organizada por Elizabeth Fiúza e Janina Sanches, que reúne um conjunto de imagens e de objetos culturais acerca da sua trajetória, na qual se espelham a nossa tradição e os valores agregados por Ignez Fiúza ao campo da nossa produção artística.

               A honra que me foi conferida pelas organizadoras desse livro de escrever a apresentação do projeto e de louvar a grandeza de Ignez Fiúza é das maiores que eu poderia receber. E não existem letras, no meu vocabulário, para dizer do agradecimento que tenho que fazer.

              Não sou apenas admirador de Ignez Fiúza. Tenho o privilégio de ser seu amigo, e tenho recebido dela as suas melhores atenções. Apesar de achar que outro poderia ter sido o escolhido para escrever o prefácio desse livro, sou grato às autoras pela atenção, esperando que o meu discurso tenha dito o mínimo daquilo que eu gostaria de dizer.

               
                                                                                       Fortaleza, janeiro de 2014

 
                                                                                      

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Adriano Espínola


                         Dimas Macedo



                                        A Palavra e a palavra

                                       São os ossos do seu ofício

                                       Seu discurso é um artifício

                                       Mais belo que as aquarelas

                                       Para cantar as favelas

                                       Adriano faz modismo

                                       Patente é o seu vanguardismo

                                       Quando utiliza o repente

                                       É mesmo um irreverente

                                       Mágico do pós-modernismo