Dimas Macedo
É sempre com alegria que retomo, de
tempos em tempos, a leitura dos clássicos da literatura nacional, flutuando as
minhas preferências ao sabor dos encantos com que descubro edições críticas ou
fac-similares de livros consagrados pelo público ou aprovados pelo rigor
metodológico da crítica.
A vigésima segunda edição do romance A Bagaceira, de José Américo de Almeida
(Rio: José Olímpio, 1985), que traz ilustrações de Poty e estudo crítico de M.
Cavalcanti Proença, é bem um exemplo, tipicamente brasileiro, de livro que tem
resistido à voragem do tempo e às circunstâncias eliminatórias da durabilidade
e da tradição.
Publicado, pela primeira vez, em 1928,
A Bagaceira passaria para a nossa
história literária como um dos momentos mais lúcidos da sua maturação, abrindo
perspectiva nos processos de crise e de tragédia em que se encontrava hibernado
o romance nacional, a ponto de renovar, inclusive, a elaboração estética que a literatura
das secas havia instaurado entre nós.
Ostentando uma trama simples e
comovente, sem maiores complexidades psicológicas ou de natureza linear, esse
romance de José Américo de Almeida empolga, principalmente, pela profusão de
uma linguagem aliciante e metafórica, exibida como condição de denúncia dos
cenários que o autor busca interpretar, tendo em vista a nossa estrutura
social.
O sentido possessivo e indominável da
personalidade de Dagoberto; os conflitos que modelam a compreensão das
diferenças experimentados por Lúcio Marçau; o instinto libidinoso e erótico,
sempre palpitante e aceso no espírito e no corpo de Soledade; os valores
referentes à reparação da honra ultrajada, vivenciada pela revolta de Valentim;
o desejo de satisfação sensual permanentemente reprimido nas cogitações sexuais
e afetivas de Pirunga; e a condição de subproduto social divisada na expressão
submissa de Xinane – são situações
que, incontestavelmente, emprestam ao romance de José Américo de Almeida uma envolvente beleza polissêmica e uma
aliciante grandeza literal.
O livro, todo ele costurado por uma
simbologia sensorial e sugestiva, trescala como que o aroma da poesia brejeira
e o perfume estonteante da simplicidade das coisas do sertão.
Em A Bagaceira, cada assunto aflorado na tessitura discursiva, recebe
do autor um tratamento todo especial, quer seja de natureza estética ou
estilística, quer seja de valorização da linguagem ou do conteúdo paisagístico
vividos pelos seus personagens principais.
Trata-se, pois, de um livro cuja
leitura hoje mais do que nunca se impõe. Desfrutar aquilo que se esconde por
trás da expressão dessa obra de José Américo de Almeida é vivenciar um
exercício de admiração. Mais do isso: é penetrar num universo que somente os
obstinados pela sugestão da arte literária sabem compreender e, integralmente,
problematizar.
In Ossos
do Oficio (Fortaleza: Editora Oficina, 1922)
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