terça-feira, 7 de setembro de 2021

                      Dona Fideralina Augusto – Mito e Realidade

Grecianny Carvalho Cordeiro

 

          No Dia Internacional da Mulher, achei por bem não falar em violação dos direitos das mulheres, em violência doméstica, em aumento de crimes contra as mulheres durante a pandemia. Nada disso. Escolhi escrever sobre uma mulher de fibra, à frente de seu tempo, cuja trajetória foi inspiradora, levando-a a ocupar um relevante papel na História do Ceará: Dona Fideralina Augusto.

          No excelente livro Dona Fideralina Augusto – Mito e Realidade (Fortaleza: Armazém da Cultura, 2017), o escritor, professor e poeta Dimas Macedo faz um criterioso estudo acerca da vida da matriarca de Lavras da Mangabeira-Ce, ali nascida aos 24 de agosto de 1832, cuja liderança política exercida na região do Cariri, tornou-a uma figura mítica, lendária, atributo concedido àqueles personagens que se mostram à frente de seu tempo.

          Conforme atesta o autor, Dona Fideralina nunca alimentou pretensões políticas, até porque, isso era vedado às mulheres da época, onde imperava o “patriarcalismo e a cultura machista”. Mas foi depois do falecimento de seu pai, o tenente-coronel João Carlos, que Dona Fideralina, a filha mais velha, passou a ser a provedora da família, assumindo “a condição de varão num território em que as mulheres sequer tinham direito à educação.”

          Tempos depois, com a morte de seu esposo, o major Idelfonso, que ocupou cargos influentes em Lavras, Dona Fideralina assumiu o protagonismo político, sua grande paixão. Mas seu maior rival viria a ser o próprio filho, o coronel Honório.       

          Em meio ao coronelismo reinante no Nordeste, Dona Fideralina, mulher inteligente e determinada, cooptava homens sem provisões e aspirações para serem seus jagunços, encarregados de sua proteção e de sua família, em troca, garantia-lhes o sustento.

          Mesmo sem exercer cargo algum, Dona Fideralina era detentora do poder e da força - numa época em que a lei tinha pouca valia-, para tanto, fazia alianças das mais diversas, dentre elas, com o Padre Cícero e outros líderes políticos.

          Com a projeção política de seu filho, o coronel Honório, tido por facínora, Dona Fideralina viu-se obrigada a destituí-lo do poder pela força, em 1907, então voltou a reinar soberana. Também tomou parte no Pacto dos Coronéis (1911); na Sedição de Juazeiro (1914), contra o governo de Franco Rabelo, fornecendo homens e armas; apoiou a destituição de Nogueira Accioly.

          O livro de Dimas Macedo nos faz passear pela História como se estivéssemos lendo um maravilhoso romance sobre uma mulher lendária.

Dois Livros de Roberto Pontes

                               Dimas Macedo


 1. Memória Corporal


         A produção poética de Roberto Pontes o insere, com muita propriedade, entre as mais expressivas vozes da poesia cea­rense contemporânea, revelando-nos, talvez, a mais amadure­cida criação artística experimentada por um poeta brasileiro da sua geração.

          As suas cogitações metafóricas repousam na captação do binômio tempo/espaço, se redimensionando, a partir desse ponto, numa complexa experiência do reen­contro do homem com as suas potencialidades sentimentais e afetivas.

          Roberto Pontes procurou sempre acompanhar a evolução da sua poesia por esse prisma, ou seja, buscou sempre perse­guir essa dualidade de fenômenos presente em sua poética, e isso o levou, finalmente, a cristalizar a sua percepção do mundo em Unidade, inventário poético ainda inédito, e que é, sem ne­nhuma dúvida, o resultado de toda uma vivência encontrada nos seus livros anteriores Contracanto (1968) e Lições de Espaço (1970).

          Memória Corporal (Rio: Editora Antares,1982) é a reflexão mais depurada da sua cria­ção poética. É, por assim dizer, o complemento da visão humanística do homem já prontamente saciado no que tange às suas inquietações existenciais, vivendo em estado de plenitude toda a exuberante e enigmática força do amor como expressão de sensualidade e transcendência.

          Em Memória Corporal Roberto Pontes lega-nos um livro denso de lirismo, porque através do exercício da palavra conduz­-nos ao exercício do amor. Memória Corporal é um poema per­didamente sensual, contagiante à proporção que nos devolve a oportunidade da redescoberta das nossas reservas eróticas.

           Todos os poemas de Memória Corporal são peças artesa­nalmente trabalhadas e que ao longo do contexto poético evo­luem com a disciplina com que o amor atinge o seu estágio de purificação. Para o poeta o amor nasce com os gestos e se ple­nifica com a posse, que antecede ao repouso dos amantes e enuncia a morte do amor. E o amor, assim descrito em todos os seus ingredientes conceituais e retóricos, é que nos vem por fim revelar a memória e a verdade do corpo.

          Memória Corporal é um poema feito de libertação e parti­cipação. Em toda a sua travessia o prazer termina por resgatar o esquecido do homem e a nudez mostra-se despida de todos os preconceitos. Para o poeta é o amor que deve prevalecer em toda a sua ternura sobre as demais opções que possamos ima­ginar eleitas para as nossas recriações e redescobertas. O que há de predominar, assegura o poeta, é o amor em todas as suas formas de interpretação e representação.

          O resgate do desejo patenteia-se em todos os poemas de Memória Corporal e tematiza a ideia do texto poético, de tudo se podendo aferir a certeza de que Memória Corporal encerra uma duradoura unidade de concepção. Cada um dos quarenta e cinco poemas pode ser conhecido e assimilado em separado, não implicando, por outro lado, que todo o livro possa ser lido como um poema autônomo, que no seu cerne congrega o ato do fazer e do sentir o amor.

           Em Memória Corporal Roberto Pontes metamorfoseia o amor, imprimindo-lhe os mais diferentes matizes. Da mesma forma que se anuncia em "Cinco Prelúdios", o amor termina por completar seu ciclo evolutivo em "Epitáfio", último poema do livro, o qual, depois de pacientemente repensado, chega a nos despertar a feliz iniciativa de que em nós mesmos podemos res­taurar a nossa própria memória corporal.

           Finalizando, eu diria já sem nenhuma dúvida: Memória Cor­poral é um livro de profunda densidade humana. É, como sen­tencia Carlos d'Alge em "A Verdade do Corpo": "um canto g eral de integração e de ternura, de paz e de realização humanas". Ou ainda como nos quis comunicar Lúcia Helena na apresenta­ção do pequeno volume: "uma obra que se apresenta como uma das melhores realizações da poesia lírica contemporânea".

 

2. Poesia Insubmissa

 

           Poesia Insubmissa Afrobrasilusa, de (Fortaleza: Edições UFC/Rio: Oficina do Autor, 1999), de Roberto Pontes, é um livro que fere assunto muito pouco versado no âmbito dos estudos literários, no caso, as aporias encontradas no universo da construção poemática e as alternativas para superar seus paradoxos e contradições. Uma ética fundante do discurso poético e as questões políticas que a envolvem – eis o que propõe o autor discutir em referido estudo.

          Trata-se de uma instigante pesquisa de motivação acadêmica, escrita sob o signo da erudição e da competência e apresentada, originalmente, como dissertação de mestrado junto ao Curso de Mestrado em Letras da Universidade Federal do Ceará, em 1991. É, pois, trabalho que honra a produção científica da Universidade e que distingue, também com louvor, a trajetória literária de Roberto Pontes.

             A abordagem pretendida pelo autor fala de três dimensões da poesia contemporânea, que são, a rigor, três dimensões da poesia de todos os tempos, sendo elas: a) a poesia de projeção retórica, cujo modelo escolhido foi o da produção do português Jose Gomes Ferreira; b) a chamada poesia de impasse, representada pela fase política da criação de Carlos Drummond de Andrade; e, por último, a poesia de combate e de motivação transfor­madora, recaindo, neste caso, a preferência sobre a poesia angolana de expressão portuguesa de Agostinho Neto, o poeta de formação social que utilizou a poesia como instrumento de libertação do seu próprio país.

           A poesia como arma, seu poder de intervenção e de provocação de rupturas sociais e históricas, seu papel de instrumento conscientizador e de ordenação do caos: estas, em linhas gerais, as propostas de Poesia Insubmissa Afrobrasilusa, que versa, como já afirmei neste comentário, tema original e indiscutivelmente muito pouco explorado no âmbito dos estudos universitários.

           Na introdução do seu belo ensaio acadêmico declina o autor que foi guiado por uma fascinação antiga e por uma crença cada vez mais inabalável, a de que “a poesia é fundamental para o ser humano, mormente nos momentos históricos atípicos, quando os indivíduos parecem haver perdido a noção de si mesmos, quando já não têm a identidade necessária para imprimir sentido e direção à existência individual e à coletiva”.

            De fato, se olharmos para a fase da poesia de Drummond escolhida para objeto de análise, aquela de dimensão lírica e social a um só tempo, que está enfeixada em A Rosa do Povo, não podemos discordar das argumentações do autor. E isso também poderíamos dizer da poesia de Agostinho Neto e de Gomes Ferreira, ambos, autores decisivos e com propostas poéticas decisivas para as experiências históricas vividas pelos seus países nas épocas em que fizeram suas intervenções artísticas.

           Por outro lado, se atentarmos para a literatura brasileira, no seu âmbito eu me permitiria citar, no rastro das argumentações do autor, o caso singularíssimo da poesia de Castro Alves, a qual foi elemento precioso no processo de libertação dos escravos e de tomada de posição em defesa de uma política do livro e da educação.

           A provocação acadêmica de Roberto Pontes, ao contrário do que se pode imaginar, não é uma proposta em torno do engajamento na área da literatura, que considero uma discussão falaciosa, nem uma tentativa de ideologização ou de partidarização da poesia ou de qualquer forma de criação literária. E, antes de tudo, uma tentativa de demarcação de uma ética fundante da construção poemática e as suas implicações políticas, sempre que fundamentadas numa estética de elevado nível literário, objetivo último a que poderia aspirar um escritor.

            As convicções do autor estão abeberadas em teóricos e críticos literários de formação clássica e moderna e no exame da produção original dos poetas escolhidos como objetos de estudo. Não se trata, portanto, de uma reinterpretação daquilo já interpretado, mas de uma leitura de fontes, com um tratamento de texto que retrata um modo de dizer muito pessoal, matizado por linguagem própria, com poucas citações, com indiscutível marca de estilo, com especificações que afastam o ensaio em apreço das técnicas de colagem ou copidescagem que têm caracterizado boa parte da produção universitária brasileira no campo da pesquisa de pós-graduação.

           Outro ponto a ressaltar é a rigorosa revisão de linguagem e de aspectos metodológicos, a qual, em parte, consagra, igualmente, a competência do orientador, que se lê no introito como sendo o poeta Linhares Filho, um dos mais eruditos professores do Curso de Mestrado em Letras da UFC.

            Falei de teóricos e críticos literários clássicos e modernos em que se abeberou a pesquisa. Entre os clássicos, gostaria de referir os nomes de Horácio, de Lucács, de Todorov, e de Lucien Goldmann e, entre os de língua portuguesa, os nomes de João Gaspar Simões e Otto Maria Carpeaux.

          Quanto à estrutura do trabalho e para finalizar as poucas linhas desta recensão, gostaria de destacar que o livro começa com uma introdução, onde são conceituados os elementos teóricos daquilo que o autor chama de Poesia Insubmissa Afrobrasilusa e cinco premissas metodológicas são ali racionalmente colocadas, como ponto de partida das argumentações, o que confere ao estudo um caráter de autêntica obra literária e não apenas o valor acadêmico que lhe possa ser atribuído.

            As conclusões estão sincronizadas com as premissas levantadas originalmente e por todo o corpo do ensaio perpassa um jogo equilibrado de coerência do discurso com o esforço do autor de pensar os questionamentos pela reserva teórica da sua própria cabeça, circunstância que também singulariza o estudo universitário em comento.

          Por fim, cumpre registrar ser o autor de referida tese um dos poetas de maior destaque da literatura cearense atual, o que de plano confere a este novo livro de Roberto Pontes um aparato todo especial, confirmado assim uma vocação literária que sempre julguei aliciante e muito criativa, criteriosa e indiscutivelmente bastante relevante.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

 

Bibliografia – Roteiro Para Pesquisadores

José Augusto Bezerra


              Prezados leitores, este é o livro dos livros do seu autor. Com o título de Bibliografia – Roteiro para pesquisadores, o consagrado escritor cearense Dimas Macedo, traz-nos, incrivelmente, quase duas mil fontes acerca da sua bibliografia ativa e passiva. Um trabalho beneditino de pesquisa, altamente criterioso, baseado em referências minuciosamente cotejadas, tanto pelas normas científicas da Biblioteconomia e da documentação, quanto pelos princípios da verificação apodítica, o que transforma esta obra numa primorosa edição definitiva, em relação ao primeiro tombamento de 2007.

             É fantástico o universo mostrado nessa bibliografia, cujas galáxias, estrelas e outros corpos celestes, nos remetem a diferentes mundos, nos vários gêneros literários, todos com seus brilhos peculiares.

             Observemos que além dos livros e opúsculos solo, que ultrapassam os cento e cinquenta, e da sua participação em CDs e produções audiovisuais, o autor registra setenta e três participações em livros em prosa e em verso, como coautor. Soma-se a tudo isto, a impressionante marca de seiscentos e oito artigos em jornais e revistas impressos e oitenta textos em jornais e revistas eletrônicos, que o leva a estar entre os mais prolíficos escritores cearenses, mesmo considerando-se os de outras eras.

              Na parte final da obra, podemos destacar cento e quarenta e uma preciosas apreciações de mestres da nossa literatura, em todo o Brasil, sobre sua obra, numa consagração impressionante. Releve-se nesse cenário a alta dimensão da sua imagem como poeta, local e nacional, já que setenta e duas destas considerações louvam a sua perícia como carpinteiro da poesia e alguns ousam compará-lo com Drummond, João Cabral, Artur Eduardo Benevides e Ferreira Gullart, entre outros. As demais, destacam seus estudos nos domínios da prosa, pela crítica literária, direito, sociologia, história, biografia, filosofia e estilística. Distinguem aspectos pessoais como concisão, simplicidades, humanismo, idealismo, urbanismo, ruralismo, sensibilidade, fé, transcendência, elegância literária, guardador de memórias, carinho pela terra, amor sensual, dilúvio interior, cantor da aldeia e sentimento do mundo.

               Um último olhar sobre  o tema diz respeito ao fato de o constitucionalista e filósofo do Direito, Dimas Macedo, nacionalmente reconhecido, não mencionar em suas produções nesse campo, suas conquistas na poesia, bem como, igualmente, em suas criações no Parnaso ou na crítica literária, não informar sobre seus lauréis nas áreas científica e filosófica, permitindo que cada vocação caminhe por sua vereda e tenha sua luz própria.

            Enfim, esta é a síntese da excepcional bagagem de um literato extraordinário, entre os maiores que nesta terra nasceram e cujas pegadas, nas várias áreas mencionadas, honram a história e as letras, de Lavras da Mangabeira, do Ceará e do Brasil.

                                                      José Augusto Bezerra

                                              Presidente da Associação Brasileira de Bibliófilos

                                     Membro do Instituto do Ceará e da Academia Cearense de Letras

                                                                                             Trinta Navios

                                                                 Italo Gurgel

         Livros, como navios, são feitos para navegar. Alguns deles ficam presos ao cais; outros se lançam em curtas e acanhadas navegações; outros mais, arrojados, vão além da esquina do horizonte e cravam padrões em todas as terras onde aportam.

         Dimas Macedo confessa com sincero fervor: ser escritor é uma necessidade que o impede de “morrer a cada momento”. Há mais de 40 anos, esse estro vital o tem levado a lançar ao mar da literatura dezenas de embarcações de longo curso, que hoje transitam pelas caudalosas correntes da poesia, da crônica, do conto, do memorialismo, do ensaio literário.

       Trinta Navios – glorioso lançamento da Sarau das Letras (2021) – agrega-se agora a essa frota tão diversificada quanto transbordante de talento e sensibilidade. Permeados por crônicas e entrevistas, afloram aqui ensaios de variada cepa, que penetram a trama de um abrangente rosário de leituras, extraindo a essência profunda de cada texto.

          Ao final, não são apenas os autores perquiridos que se revelam aos nossos olhos, traduzidos em suas emoções e recursos estilísticos. Dimas também se descortina em cada análise, impregnando os ensaios com toda a riqueza de sua verve poética: “...colaram em minha língua o sêmen de uma ostra e untaram meus dedos de mel e porcelana”, revela.

          O livro reúne anotações sobre personagens e obras que transitaram pelo universo particular do autor e lhe instigaram as emoções. De Sânzio Azevedo a Clauder Arcanjo, de Nilto Maciel ao Padre Antônio Tomás, de Eduardo Fontes a Jáder de Carvalho, são muitos os que inspiraram as observações críticas assentadas nos Trinta Navios. Aqui se ouvem os acordes da poesia popular nordestina, ali se auscultam as nuances de um novo gênero de escrita que vem lá do Sul.

           Quando descortina os meandros da própria alma, Dimas se revela através de uma prosa poética cheia de reminiscências e delírios. Repassando as dobras do passado, ele se vê “sozinho, menino entre mangueiras a ler um livro de luz quando não se tinha um livro impresso pela frente”. Mais tarde direciona seus passos “em busca da solidão e do silêncio”, aspirando à resignação, pensando em se “recolher em uma concha e flutuar nas águas”.

           “Esse tempo que se desenrola em torno de mim é miserável”, assegura com a convicção de quem carrega “lembranças terríveis”. Nada lhe ensinaram “que valesse a pena”. E daí? Afinal, “a felicidade é uma eterna nuvem passageira”.

            Dimas é esse poeta que explora a eternidade do efêmero. É o que se deixa impregnar pelo mais puro sentimento de renúncia. É o que se recolhe, sempre que pode, às lembranças de sua Lavras da Mangabeira, o mágico recanto onde o Salgado fez florir a mais luminosa plêiade que o Ceará já concebeu. É dali que eles partem, os Trinta Navios. Lépidos, levantam âncoras, enfunam as velas, dobram a primeira curva do rio e descem apressados a correnteza rumo aos sete mares.

                                                                                

                                                                               Fortaleza, janeiro / 2021

                                                Letra Lúdica: Dimas e Daniel

Hildeberto Barbosa Filho

                                            

Dimas Macedo e Daniel Mazza, dois cearenses e dois livros à mesa. O de Dimas, uma coletânea composta de artigos, crônicas, entrevistas, perfis, prefácios, testemunhos, discursos e pequenos ensaios, intitulado Trinta navios (Mossoró – RN: Sarau das Letras, 2021); o de Daniel, um livro de poemas, ou melhor, e mais precisamente, um poema, com o título de Sacrificium (Itabuna – BA: Mondrongo, 2021).

Dimas Macedo também é poeta, autor de uma obra já consolidada e com diversos títulos, dos quais destaco, entre outros, A distância de todas as coisas (1994), Estrela de pedra (2005), Vozes do silêncio (2003), Sintaxe do desejo (2006) e O rumor e a concha (2009). Aqui, no entanto, comparece, exercitando a prosa, diria entre jornalística e literária, para atender ao compromisso crítico e exegético que também o envolve no seu convívio diuturno com as letras: do seu estado, do Nordeste e do país.

Aos textos de caráter mais objetivo, voltados para a leitura e análise de autores e obras, de grupos, movimentos e instituições, juntam-se peças de natureza mais íntima, a exemplo de “A terra onde nasci” e “Solidão na infância”, descortinando aspectos subjetivos, traços psicológicos, incidências geográficas, atitudes intelectivas, recortes da sensibilidade que formam o substrato espiritual e ético de um autor, ao mesmo tempo em que auxiliam o leitor na compreensão de sua personalidade literária e nas disposições temáticas e formais de sua obra poética e ensaística.

As entrevistas, enquanto aquele “diálogo possível”, na feliz expressão de Cremilda Medina, traz o Dimas Macedo quase que de corpo inteiro, noticiando os meandros multifários de suas leituras, os percursos intrínsecos de seus processos expressivos, sua concepção estética, política, existencial e, sobretudo, a posição do homem, do homem que se nutre da seiva luminosa da palavra, diante das coisas, dos seres e da vida.

Se pinçarmos os artigos que concernem à configuração de seus pares, temos, em certo sentido, e enviesadamente, um portal de acesso a nomes e obras relevantes que integram o acervo da literatura feita no Ceará, na sua rica e incontestável tradição histórica e cultural. Jáder de Carvalho, Clauder Arcanjo, Padre Antônio Tomas, Nilto Maciel, Joca do Arrojado, Sânzio de Azevedo e Cristina Couto são alguns dos nomes que constam desse livre mapeamento crítico, a alargar o olhar do leitor pela extensiva e diversificada produção literária deste país.

Seja falando dos outros, seja falando de si, mais uma vez o escritor, poeta e jurista Dimas Macedo se revela senhor de sua composição verbal, indispensável como documento de suas preocupações intelectuais, mas também como exemplo vívido de uma escrita fluente em seu estilo individual, marcada pela presença do leitor culto, ilustrado, perceptivo, e pelos sinais concretos da linguagem elegante e bem cuidada.

Daniel Mazza, por sua vez, de uma geração mais nova, tem, em Sacrifium, o seu quarto livro de poemas. Antes vieram a lume Fim de tarde (2004), A cruz e a forca (2007) e A sinfonia do tempo: primeiro livro de filosofia (2014), compondo, assim, o seu patrimônio poético singular.

Em que pese a distribuição dos poemas em conjuntos autônomos (“O túmulo vazio”, “O calvário”, “O deserto” e “Sacrficium”), vejo os textos como um poema só, cerrado e coeso na sua expressão formal e temática de índole sobretudo reflexiva, no que Daniel se põe em perfeita sintonia com os critérios escolhidos por sua poética individual, exercitada desde os livros anteriores.

Sacrificium associa o impulso lírico a uma intrínseca e intensa dramaticidade, enredada a partir de uma releitura, cuidada e criativa, dos episódios bíblicos, aqui e ali, cotejados com elementos próprios do paganismo laico, de que resulta, quase sempre, sugestiva tensão estética a reger o movimento das ideias e das emoções que constituem o tecido substantivo da matéria poética.

As epígrafes de Nicolai Berdiaeff e Tomás de Aquino podem, desde já, sinalizar para o conteúdo religioso do assunto e do drama que se desenrola neste poema. Mas não se iluda o leitor: a religiosidade, aqui, de fundo eminentemente cristão, não se estreita nos limites de um púlpito doutrinário nem na cadência fechada de uma liturgia dogmática. A pungente e iluminada meditação que se elabora, à força iterativa dos versos, com suas repetições, paralelismos e metáforas impactantes, se é de ordem religiosa, ou, mais precisamente mística, é, ainda mais, de ordem metafísica, na medida em que os signos bíblicos evocados como que transcendem seu estatuto primeiro, para alcançar a energia atemporal dos temas permanentes.

Esses temas permanentes residem no tempo, na eternidade, na morte, no sofrimento, na paixão, enfim, no calvário e no sacrifício de ser e existir. No segundo soneto, de “Tumulo vazio”, por exemplo, é a vida que se pensa poeticamente, para além dos acentos denotativos das referências sagradas. Leia-se o poema: “A chama morrediça, consumindo ∕ Vai a lenha dessa vida, e consumindo-se ∕ No mesmo instante vai em que o instante ∕ Se evola e deixa apenas um montículo ∕ De cinzas em silêncio: o resultado ∕ Da combustão da vida. Eis a única ∕ Resposta que este mundo pode dar: ∕ O silêncio de cinzas em silêncio. ∕ Porque é isto simplesmente a vida aqui: ∕ Um punhado de cinzas, o presente ∕ Que o sopro do futuro a cada instante ∕ Dispersa no passado... A vida aqui, ∕ Um sonho a cada instante, que não temos. ∕ E o que temos, só um sonho a cada instante”.

Não diria ser a poesia de Daniel Mazza uma poesia simplesmente religiosa, cristã ou católica. Os adjetivos a limitam e, em certo sentido, a conspurcam. Sua poesia me parece simplesmente poesia, sem atributos nem epítetos “esclarecedores”. Poesia enquanto sondagem e experiência do que vive e perdura na alma do ser humano, vertida, por assim dizer, numa linguagem de alta voltagem estética. Sagrada, não pela substância, mas pelo visceral acordo entre substância e forma.

domingo, 29 de agosto de 2021

Memento Para Cristina Couto

                                                                         Dimas Macedo

   

          Cristina Maria de Almeida Couto é natural de Lavras da Mangabeira - CE (06/05/1963). Filha de Benevenuto Teles Couto, Engenheiro Agrônomo, e da professora Marilê Ferro de Almeida Couto, sendo seus avós paternos, Francisco Teles Couto e Júlia Alves Couto, naturais de Jardim (CE); e avós maternos, Antônio Augusto de Almeida, nascido em Sousa, na Paraíba, e Ana Ferro de Almeida, proveniente dos Inhamuns.

         Durante nove anos (a partir de 1971), morou no Posto Agropecuário do Sítio Volta, mudando-se depois para a residência oficial do Colégio Agrícola de Lavras da Mangabeira, instituições das quais seu pai foi diretor, guardando Cristina lembranças desses universos, especialmente, das casas espaçosas, arborizadas e muito confortáveis.

         Estudou as primeiras letras em sua terra natal, sendo alfabetizada por sua prima, Elzanê Férrer de Almeida, na residência do seu tio-avô, o poeta Manuel Augusto de Almeida, (Nequinho), que, possuidor de vasta sabedoria, ficava na sua cadeira de balanço observando o movimento escolar ao seu redor, onde três de suas filhas destacavam-se como professoras.

         O Vigário da Paróquia de Lavras, Padre Alzir Sampaio, em 1971, fundou o Colégio São Vicente Ferrer e entregou sua administração às Irmãs Beneditinas, oriundas de Olinda (PE). Cristina Couto cursou, nesse educandário, o segundo ano primário, ali permanecendo até concluir a oitava série do Ginasial, em 1977.

         Em 1978, passou a cursar o Científico na cidade do Crato, estudando no Colégio Diocesano e residindo no Colégio Santa Teresa, mudando-se para Campina Grande (PB) em 1979, para concluir o Segundo Grau.

         Em 1981, foi morar em São Paulo, onde começou o Curso de Comunicação Social, na Universidade Metodista de Piracicaba, lugar da sua residência. No ano seguinte, transferiu-se para a Fundação Universidade Regional do Nordeste (FURNE), em Campina Grande (PB), ali cursando um semestre e indo morar em Fortaleza, na época, já casada com o jornalista e radialista Evandro Nogueira.

         Dessa união, nasceram os filhos: Tícia Maíra Nogueira de Almeida Couto, Cientista Política, que trabalha no Congresso Nacional; e Evandro Nogueira de Almeida Couto, Psicólogo, lotado na Secretaria de Desenvolvimento Agrário do Estado, casado com Débora Diniz Mendes de Almeida Couto e pai de Levi Diniz Mendes de Almeida Couto.

         Em 2000, já com os filhos criados, voltou-se para as coisas da Cultura, universo no qual sempre gostou de viver, dedicando-se aos estudos e às pesquisas, aí começando a sua luta, junto com outros conterrâneos, pela preservação do Patrimônio Histórico e Arquitetônico da sua terra natal.

         Trabalhando com o apoio de lideranças culturais, institucionais e políticas, consegui o tombamento de sete prédios de significativo valor histórico para o seu Município e o Cariri, aí incluindo-se a Estação Ferroviária, a Casa de Câmara e Cadeia, e a Casa de Dona Fideralina Augusto, em Lavras da Mangabeira.

          Nos anos seguintes, conclui o Curso de Comunicação Social e Pedagogia, fez pós-graduação em Marketing Político, Assessoria de Comunicação e Metodologia do Ensino Superior, e mestrado em Jornalismo Cultural.  Já, em 2014, ingressou no Mestrado em História da Educação Comparada da Universidade Federal do Ceará, onde cursou todas as disciplinas, fez a Qualificação e o exame de Proficiência, sempre obtendo nota máxima.

         Cristina, no entanto, abandonou o curso por descobrir sua vocação para a História e que o ensino acadêmico exigia dela conhecimentos que julgou desnecessários para sua vida, ouvindo, na época, do seu amigo Jeová Batista de Moura (In Memorian) que ela, Cristina, para morrer analfabeta, já era escolarizada o suficiente.

       Em 2006, trabalhou como assessora política da Vice-Prefeitura de Fortaleza, sendo aí articuladora de Promoção da Igualdade Racial, fazendo, nessa época, o mapeamento das Comunidades Quilombolas do Estado do Ceará, em 2007.

       Depois, tornar-se-ia Assessora de Comunicação da Câmara Municipal de Fortaleza, funcionando, a partir de 2009, como Assessora Parlamentar desse mesmo Poder, atuando em várias Comissões, entre as quais, a Comissão do Meio Ambiente e Moradia

        Nos anos de 2008 a 2010, foi interlocutora do Consulado de Portugal em Fortaleza e promotora e coordenadora de eventos lusófonos realizados no Ceará, em parceria com instituições como a Câmara do Comércio Brasil - Portugal, o SESC, Câmara Municipal de Fortaleza, Associação Mares Navegados, CPLP e IMPARH.

        Nos anos de 2010/2012, foi professora titular de Cultura Brasileira e Problemas Sócio-Econômicos, na Faculdade Evolutivo, de Fortaleza, sendo, igualmente, docente do Ensino Superior no Instituto Dom José de Educação e Cultura, onde lecionou História da Arte e Metodologia do Ensino de História.

        Em 2013, a convite do prefeito Gustavo Augusto Bisneto, assumiu a Secretaria de Cultura, Esporte e Turismo de Lavras da Mangabeira, ali ficando até final do mandato, com atuação memorável, comemorando-se no período os bicentenários da Paróquia (2013) e de criação do Município (2016).

        Como Secretária de Cultura, articulou, junto ao Governo do Estado, o Projeto de Arte Cênica, O Duelo, realizado pela Mundana Companhia de Teatro, de São Paulo, e apresentado em Lavras da Mangabeira em duas ocasiões, em junho de 2013 e dezembro de 2016.

        Coordenadora do Seminário Temático Cariri Cangaço, em Lavras da Mangabeira, nos anos 2013/2014/2015/2019, Cristina colaborou com a Revista do XII Congresso de História da Educação do Ceará / UFC, onde publicou o artigo “Uma Contribuição para a História da Educação Rural de Lavras da Mangabeira / CE”, sendo o evento realizado em sua terra natal, com o apoio da Secretaria de Educação do Estado.

        A convite do prefeito Cláudio Pinho, entre 2017 e 2019, passou a trabalhar como assessora da Secretaria de Educação de São Gonçalo do Amarante (CE). Nesse Município, foi também Coordenadora de Articulação Institucional da Secretaria de Governo do Estado - SEGOV, até agosto de 2020.

       Integrante do Instituto Cultural do Cariri, onde é titular da Cadeira que tem como Patrona, Fideralina Augusto, e Presidente da Academia Lavrense de Letras, onde ocupa a Cadeira 37, dedicada a Balbina Lídia Viana Arrais, Cristina é autora dos livros: As Cidades de Chico Buarque (2010), A Tragédia de Princesa – O caso Ildefonso Augusto de Lacerda Leite (2018). Almeida, Aragão & Afins – Do Sertão da Paraíba à Terra de São Vicente Ferrer das Lavras (2020).

        Tem artigos publicados nas revistas da Academia Lavrense de Letras e do Instituto Histórico e Cultural do Ceará, do Instituto Cultural do Cariri (Itaytera) e da Academia Cearense de Ciências, Letras e Artes do Rio de Janeiro (Terra de Sol). É articulista do órgão de divulgação do Movimento Internacional Lusófono e do site: https://www.joaovicentemachado.com.br, de João Pessoa (PB).

        Escreveu diversas orelhas, prefácios e posfácios a livros de outros escritores e tem se destacado como palestrante em congressos, simpósios, seminários e colóquios em assuntos vinculados às Artes e à Cultura ou ligados à Música Popular Brasileira e à história política do Nordeste.

                                                 Poeta Edmar Freitas 

                                                      Dimas Macedo



       Nas ilhas literárias em que o Brasil se divide, o mapeamento dos seus escritores ainda continua sendo feito pelos manuais de formação acadêmica e pela gratuidade com que seus poetas frequentam os clubes sociais e as academias.

       A literatura cearense, infelizmente, não é uma exceção nesse campo. Os nossos intelectuais também se distinguem pelos critérios acima referidos e, com raras exceções, não reconhecemos os escritores que edificaram suas trajetórias na modéstia, ou não transitam nos espaços elitistas.

          Prosadores como Nilto Maciel, Audifax Rios, Ana Miranda, Oswald Barroso ou Pedro Salgueiro é possível que não tenham sonhado ingressar em uma das nossas entidades acadêmicas, instituições que abrigam, no geral, seres considerados imortais.

         Edmar Freitas não é um poeta fabricado por essas vitrines sociais, é possível nunca tenha pensado sobre isso e que ainda não conheça (ou que conheça muito bem) as tinturas do meu coração, capazes de expressar essas verdades, desagradáveis, talvez, para seus leitores.

         Pede-me que escreva o prefácio do seu livro Metáforas de Sal e assume o risco pelas consequências daquilo que eu possa dizer. Edmar, no entanto, me parece um poeta bastante original, econômico com o uso das palavras e consciente (plenamente consciente) do extrato sintático e melódico da sua produção.

          A estética do fragmento, os valores da existência humana (nos sentidos usados pela Filosofia e a Inquietude) e a simbologia das nossas raízes sociais estão no seu livro como portas de entrada no seu universo, rico de sugestões e de gosto literário que se reinventa pela criação do poema.

          Trata-se de um poeta que tem a consciência da sua expressão, e que não faz literatura apenas como forma, mas como maneira de sonhar com a sua memória, pagando um tributo expressivo à Literatura.

          Gostei bastante de Metáforas de Sal, da sua concisão, da sua temática e da música com gosto de palavras que ele reinventa. Edmar Freitas é poeta dos bons, e escritor que sabe carregar na alma a chama da poesia que ilumina o coração humano, e que os deuses revelam apenas aos artistas eleitos.

           Poesia não é apenas sentimento artístico, nem, muito menos, um conjunto de ideias ou de ideologias. São palavras ou formas literárias que expressam uma visão de mundo, ou no sentido da sua interpretação no sentido da sua transformação.

             Não se trata de arte descritiva, mas criativa. A melodia, o ritmo e a metáfora se integram na sua estrutura polifônica e nas suas assonâncias e tonalidades. A poesia fala pelos poetas, e quem não é poeta não pode exprimir a sua voz ou auscultar as suas ressonâncias.

            Eis, portanto, o sentido das minhas impressões e o aplauso com que recebo a poesia desse excelente poeta cearense, Edmar Freitas, em cuja construção estética podemos sorver o sal da escrita que perdura no nosso coração.