quarta-feira, 8 de setembro de 2021

                           Confidências a Dimas

                                     Clauder Arcanjo*

 

 

Lembro o meu pai

apascentando estrelas

e solidões

em tardes duradouras

e a minha mãe

na sombra do alpendre

de olhos no algeroz.

Lembro o meu pai, Dimas, mas não tive a poética de descrevê-lo tão bem. Dele, tu acreditas, colhi a singeleza do luar sertanejo, o abrigo do conselho amigo; enquanto minha mãe, com suas mãos-úberes e dadivosa, ofertava o pão, o leite e o afago para toda a família.

Lembro o meu pai

taciturno

em horas de agonia

e a minha mãe

tecendo alegorias

ao seu rebanho

de dores e aflições.

Até hoje, Dimas Macedo, busco descobrir o segredo do engenho dos meus pais. Zequinha, de saúde não tão boa, mas forte na palavra; e Maria, companheira a tanger-lhe as fraquezas, a sarar-lhe as dores com lenimentos de carinho. Logo em seguida, os dois, tomavam nossas mãos e guiavam-nos na direção da luta da educação. Enquanto meu pai, nas agonias frequentes, escondia-nos a batalha do diário sustento.

E tu, Dimas, a te confessares com teus pais, descritos em versos tão fortes, transmuta-los em fraternos, e paternos, de todos nós.

Lembro o meu pai

e a minha mãe

em inventários

elaborando

o seu rosário de preocupações.

                                       &&&

         Adoro conversar sobre literatura com quem costura versos na algibeira das pequenas digressões. Dimas Macedo é mestre neste valioso ofício.

Rosa Guimarães a linguagem,

a liberdade nos sertões gerais.

Quando cuido em louvar-te o trocadilho, tu, Dimas, me narras o vasto mundo mineiro, agora em outro trem.

Longo é o texto, vasto é o sonho:

Minas é o mundo e algo mais.

Drummond, gauche, nos faz companhia, vindo de Itabira, e tu convidas novas poéticas personagens. E eu, de queixo caído e de olhos alados, sou ser-tão todo ouvido.

O sertão nas asas do vento é Riobaldo.

Diadorim é poema que se faz em mim.

Quando menos dou conta, lá tu me aprontas contos de saga sem fim. Montados em burros estradeiros, marchamos por dentro de sagarana. Toda magia, enfim.

Saga, sagarana:

onde a magia do burrinho pedrês?

A noite se estica no mineiro proseado; e, conosco, despontam novos condenados, a luzirem seus olhos de leitorados entre tantas minas gerais.

Manuelzão e Miguilim:

essas estórias plurais.

Em tudo, Guimarães Rosa. Por tudo, Rosa Guimarães. Veredas do ser tão sem fim.

Veredas do sertão:

Rosa Guimarães, princípio e fim.

— Bem-vindos, rosas, rosianos, rosários, diadorinhos, sagrados sagaranos, pedreses burrinhos, riobaldos dos vastos mundos dos sertões: grandes veredas, nonadas, letras do céu e do chão! — bendize-nos, mestre Rosa. Ô trem bão, sô!

                                          &&&

         A lua e as estrelas

o sol e os alabastros,

as cicatrizes de Deus

e as mulheres nuas

são formas puras de amor

que reconheço,

são como cactos

que me ferem os olhos

Quando me defronto com versos de fina cesura, os meus olhos, Dimas, ganham o brilho do halo da lua. Entre sol, lua, estrelas e donzelas, somos todos bestas-feras, dissimulados como se feridos por pontudo anzol. Por mulheres, eleitas princesas, montamos casas, subimos na mesa, e ofertamos o peito indefeso a todas as penas do Céu.

na distância,

tais os mistérios densos,

as perdas preciosas,

a dor de não viver a vida

presa na garganta.

                             &&&

         Em águas de Caponga,

nas ribeiras do sol,

o mar se vai tornando laranja;

e se vão plantando

estrelas e silêncios;

Quando anoitece, amigo Dimas, sempre fujo da beira do mar. E se à tarde eu estiver na Caponga, onde as águas se alaranjam com o descanso do sol, recolho logo o meu bisaco, pois bem sei que dentro de mim brotará um plantio de estrelas cadentes e uma fieira de silêncio de dar dó.

e se vão tecendo

memórias e lembranças:

nos lençóis de linho

e na nudez de plumas

da magia de Uka;

Um certo dia perdi as horas e quando dei por mim a noite já havia se tecido fogosa. Com pouco, as memórias me lembraram de coisas que já as imaginava mortas e enterradas. Qual nada!, elas me jogaram sobre um lençol de espinhos. E eu, frente à nudez primitiva da vida, suei entre espantos, magias, uivos e gritos.

se vão fazendo lenha

os nossos corpos;

se vão tornando pão

os nossos lábios,

lavados pela chama.

                                         &&&

         Fortaleza de noite:

eis todo um argumento

para viver a vida

plena de sentimento.

Lamento de cidade devassada pelos sorrisos da noite, pelas paixões declaradas sob o luar de um mar de asfalto, acompanhadas bem de perto pelos verdes mares. Abriga-me, Fortaleza!

Deslizo pelas ruas

sorvendo antiga brisa.

No rio do asfalto

a noite se eterniza.

Em tuas ondas de corpo, valentes e dadivosas, opera-se o milagre do sonho e do coito eternos; enquanto nos leitos brancos, as mãos se ofertam às serpentes assanhadas do amor. Em Fortaleza.

Fortaleza tem corpo

e atração fatal

que sangra nossos olhos

com lâmina de punhal.

Quando a ti me acheguei, Fortaleza, tive que trocar meus amores ribeirinhos por deusas abissais: esculturas de carne e osso a debutarem nas tardes de ressacas fatais. E eu a levitar, com punhal na calça jeans, à beira-mar de Iracema.

Sou todo fortaleza,

penumbra e nostalgia.

Existo enquanto sonho

sua geografia.

Eu, que me confessava, Dimas, matuto tristonho das ribeiras do Acaraú, hoje, inquieto, declaro-me adotado, de coração e abastança, por Fortaleza, metrópole que se me mostrava, na juventude, tão estranha.

Quando, Fortaleza, eu de ti me afasto, sonho a caminhar por tuas ruas, praças e avenidas todos os dias.

Em noites de insônia

Fortaleza é assim:

é casa do espírito,

é princípio e é fim.

                                         &&&

        Te amo sobretudo os lábios

e a resina viscosa dos teus seios,

pois a vulva dos teus olhos enlaça

a sedução invisível dos meus pelos,

onde começo a viver e me embaraço,

porque me mato de amor quando te vejo.

Sempre decantamos a amada guardada no casulo mais fremente. A ela, Dimas, nos entregamos com o corpo resinoso e frio, a sairmos de tal entrega com a alma inteira fervente. Na sedução invisível do embaraço e dos pespontos, eis que urdimos, na noite grávida de espanto, um tear de murmúrios e gritos infrenes. Nos olhos, no buço, na pele e nos órgãos instigados, o amor se entrega como se o casal estivesse diante do último tormento.

                                           &&&

         Pássaro soturno

pousado em minha sombra

tal como o corvo de Poe.

Poe me acena com seus olhos de corvo feroz, e eu fujo em direção aos verdes mares da bravia Iracema.

Gatos alados

que voam no silêncio

do quarto de Rimbaud.

Ah, Dimas!, tu nem ensinaste tão belo trocadilho com Rimbaud. Ficarei, então, a te esperar embaixo das lanternas cor de aurora do mestre Sânzio.

Besouro cego

e sem plumas

tal como o cão raivoso de Averróis.

Instigados pelo mundo que nos abandona, voltamo-nos para o coser da palavra em forma de manto: a um tempo, jazigo, ressureição, sepultura e acalanto.

Há em geral, Dimas, um cão a nos acolher e lamber quando seduzimos a lua com palavras-ossadas de arrebóis.

Vampiro surdo

de garras afiadas

deitado em meus lençóis.

                        &&&

         Minha querida, o esterno,

é mais do que eterno

o osso do teu peito.

Fico sem jeito

olhando o teu vestido

tão revestido de rosas

e o corpo tão ardente.

A musa se revela na sessão mais saudável e operosa. Sem notar que seu hálito de monarca, suas vestes de deusa helênica, seu perene riso em esterno arfante atiçam o corpo que segue tão puros ensinamentos.

Tão transparente o teu beijo,

assim como a salina dos olhos

e a franja dos cabelos.

Haverás de te entregares às rosas que flutuam em torno da manhã, pois sabes bem que o desejado corpo haverá de murchar com o anúncio do fim do tempo.

Teu tornozelo,

uma bela saliência,

e a tua leniência

me eriçando os pelos.

Daímôn!... Filho de Larvas, há um vulcão dentro das miradas dos ribeirinhos do Salgado?

                        &&&

         Deus mudou de residência

quando eu o procurei no meu corpo.

Eu o quis novamente no cérebro

e ele já se havia plantado na alma.

Ele tinha sossegado o meu busto.

Ele fazia escrituras nos dedos

e acariciava os meus olhos

que viviam completamente tontos de enganos.

Dimas, há muitos que ainda insistem em descrever nosso Deus com a tinta da razão, assim como acolhê-lO no fundo do cérebro. O Pai só quer o colo da alma; e só nos deixará quietos e sossegados quando nos deixarmos zelar pelas carícias de Seu mistério.

As minhas miragens morriam

quando ele chegou muito perto e me disse:

a luz é a que fica gravada na memória,

e o sol é o que nasce brilhando a cada dia,

pois a tua honra e a tua lâmina,

pois a tua glória e o teu escudo

são essas rugas de paz

e essas dálias brancas

e essas tardes mágicas

e essas plantas nobres

que se deixam cair na correnteza.

Numa tarde quieta e mansa, Tua voz rompeu por entre a correnteza dos meus pés, as horas se plantaram no chão sem viço, e a tarde, antes tão sem festa, anunciou-se florida e veloz.

E Deus já se havia chegado

por entre os fios do sonho

e se havia anunciado leve

como as espumas e os cristais de rocha,

mas ainda não se havia desnudo,

porque as marcas ficam na alma,

porque o vórtice e as vértebras

às vezes me levam para a morte.

Pleno da saudade do nosso “convívio inteligente”, respeito as horas de quaresma que Cristo nos impõe. Recolhemo-nos, amigo, ao calvário das tardes, à luz cambiante das reminiscências recentes. Eu, reles pedinte, oro a Deus e à Virgem que nos cubram com a proteção do divino manto.

Mas a luz de Deus chegou

para ficar dançando no silêncio

e o silêncio

para ficar gravado nas palavras

e as palavras para serem

faladas para o próximo,

porque no próximo o instante,

porque no próximo o quadrante

e as sarças de fogo da espera.

No instante em que tu te julgares pronto e refeito, dançaremos novamente o tango da amizade, tocaremos um blues sem ressentimento. A partir de então, gravaremos, em palavras poéticas, o samba da espera, ritmo de dorido lamento por tão difíceis momentos.

O amor não se compraz no pranto.

A alma é como a música do bosque.

Porque maduro e belo é o encanto

dos que se vão serenos pela vida.

Sigamos juntos, Dimas Macedo, somos duplo e uno. A amizade e a literatura nos irmanaram, egrégios siameses. Agora, ontem e, Deus haverá de querer, para todo o porvir.

Somos o duplo talvez

de algum castelo

misterioso

daquilo que há em nós.

 Obs.: os trechos em itálico foram extraídos dos livros Sintaxe do desejo, Liturgia do caos e O rumor e a concha, de Dimas Macedo.

 *Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-

grandense de Letras.

                                                                                                24/04/2020

                                           Oswald Barroso - Bibliografia

                                         Dimas Macedo

                                     


Mercado (Cordel). Juazeiro do Norte (CE): Ed. Urubu, 1976.

 

Urubu (Cordel). Juazeiro do Norte (CE): Ed. Urubu, 1976.

 

Poemas do Cárcere e da Liberdade. Fortaleza: edição do autor, 1979.

 

Cultura Insubmissa - Estudos e Reportagens (parceria com Rosemberg Cariry). Fortaleza: Ed. Nação Cariri / Secretaria de Cultura,1982.

 

Almanaque Poético de uma Cidade do Interior. Fortaleza: Editora Nação Cariri,1982.

 

Histórias Populares: teatro (O Reino da Luminura) e literatura de cordel. Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto, 1984.

 

Periferia - Poemas e Canções. Fortaleza: Secretaria de Cultura,1985.

 

Teatro - Duas Peças de Teatro e um Libreto de Ópera (A Irmandade da Santa Cruz do Deserto, O Pão e Moacir das 7 Mortes). Fortaleza: Secretaria de Cultura, 1986.

 

Romeiros - Textos sobre religiosidade popular. Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto, 1989.

 

Tristão Araripe (Alma Afoita da Revolução) - Perfil Histórico. Fortaleza, Secretaria de Cultura e Desporto, 1993.

 

Letras ao Sol - Antologia da Literatura Cearense (parceria com Alexandre Barbalho). Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha,1996.

 

Reis de Congo - Teatro Popular Tradicional. Fortaleza: Minc / Flacso / MIS, 1997.

 

Corpo Místico & Outros Textos para Teatro (Corpo Místico, Além do Vasto Oceano, Alma Afoita, Raimundo & Raimunda e Filho do Herói). Fortaleza: Casa José de Alencar / UFC, 1997. 

 

Theatro José de Alencar: O Teatro e a Cidade. Fortaleza: Terra da Luz Editorial, 2002.

 

A Arte e a Cultura na Reforma Agrária. Fortaleza: INCRA, 2004.

 

Memória do Caminho. Fortaleza: Terra da Luz Editorial, 2006.

 

Dormir Talvez Sonhar. Fortaleza: Fortgraf, 2007.

 

O Ceará de Curumins e Curuminhas (parceria com Ângela Rodrigues). Fortaleza: UNICEF e UNDIME, 2007.

 

Meninos e Meninas Potiguares. (parceria com Ângela Rodrigues). Fortaleza: UNICEF e FEMURN, 2007.

 

Mãos Preciosas: O Artesanato do Ceará (fotografia de Valdenir Cunha e Ilustração Maurício Negro). São Paulo: Luste Editores, 2008.

 

Antropologia da Arte, 2ª ed. Fortaleza: UAB / UECE, 2010.

 

O Vasto Mundo dos Assentados. Fortaleza: Caldeirão das Artes, 2010.

 

Entre Ritos, Risos e Batalhas. Fortaleza: SECULT, 2011.

 

Teatro como Encantamento: Bois e Reisados de Caretas. Fortaleza: Armazém da Cultura, 2013

 

Um Certo Contato com a Lua: Antônio Girão Barroso: Poesia e Vida (organizador). Fortaleza: Armazém da Cultura, 2014.

 

Teatro São José (ilust. de Descartes Gadelha). Fortaleza: Expressão Gráfica, 2016.

 

Brincadeira de Boi (ilust. de Alexandre Jales). Fortaleza: Armazém da Cultura, 2017.

 

Menino Amarelo (ilust. de Descartes Gadelha). Fortaleza: Expressão Gráfica, 2018.

 

Ceará Mestiço. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2019.

 

Risco Vermelho (ilust. de Descartes Gadelha). Fortaleza: Expressão Gráfica, 2019.

 

Aproximações (Prosa de Antônio Girão Barroso - organizador). Fortaleza: Expressão Gráfica, 2019.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

                      Dona Fideralina Augusto – Mito e Realidade

Grecianny Carvalho Cordeiro

 

          No Dia Internacional da Mulher, achei por bem não falar em violação dos direitos das mulheres, em violência doméstica, em aumento de crimes contra as mulheres durante a pandemia. Nada disso. Escolhi escrever sobre uma mulher de fibra, à frente de seu tempo, cuja trajetória foi inspiradora, levando-a a ocupar um relevante papel na História do Ceará: Dona Fideralina Augusto.

          No excelente livro Dona Fideralina Augusto – Mito e Realidade (Fortaleza: Armazém da Cultura, 2017), o escritor, professor e poeta Dimas Macedo faz um criterioso estudo acerca da vida da matriarca de Lavras da Mangabeira-Ce, ali nascida aos 24 de agosto de 1832, cuja liderança política exercida na região do Cariri, tornou-a uma figura mítica, lendária, atributo concedido àqueles personagens que se mostram à frente de seu tempo.

          Conforme atesta o autor, Dona Fideralina nunca alimentou pretensões políticas, até porque, isso era vedado às mulheres da época, onde imperava o “patriarcalismo e a cultura machista”. Mas foi depois do falecimento de seu pai, o tenente-coronel João Carlos, que Dona Fideralina, a filha mais velha, passou a ser a provedora da família, assumindo “a condição de varão num território em que as mulheres sequer tinham direito à educação.”

          Tempos depois, com a morte de seu esposo, o major Idelfonso, que ocupou cargos influentes em Lavras, Dona Fideralina assumiu o protagonismo político, sua grande paixão. Mas seu maior rival viria a ser o próprio filho, o coronel Honório.       

          Em meio ao coronelismo reinante no Nordeste, Dona Fideralina, mulher inteligente e determinada, cooptava homens sem provisões e aspirações para serem seus jagunços, encarregados de sua proteção e de sua família, em troca, garantia-lhes o sustento.

          Mesmo sem exercer cargo algum, Dona Fideralina era detentora do poder e da força - numa época em que a lei tinha pouca valia-, para tanto, fazia alianças das mais diversas, dentre elas, com o Padre Cícero e outros líderes políticos.

          Com a projeção política de seu filho, o coronel Honório, tido por facínora, Dona Fideralina viu-se obrigada a destituí-lo do poder pela força, em 1907, então voltou a reinar soberana. Também tomou parte no Pacto dos Coronéis (1911); na Sedição de Juazeiro (1914), contra o governo de Franco Rabelo, fornecendo homens e armas; apoiou a destituição de Nogueira Accioly.

          O livro de Dimas Macedo nos faz passear pela História como se estivéssemos lendo um maravilhoso romance sobre uma mulher lendária.

Dois Livros de Roberto Pontes

                               Dimas Macedo


 1. Memória Corporal


         A produção poética de Roberto Pontes o insere, com muita propriedade, entre as mais expressivas vozes da poesia cea­rense contemporânea, revelando-nos, talvez, a mais amadure­cida criação artística experimentada por um poeta brasileiro da sua geração.

          As suas cogitações metafóricas repousam na captação do binômio tempo/espaço, se redimensionando, a partir desse ponto, numa complexa experiência do reen­contro do homem com as suas potencialidades sentimentais e afetivas.

          Roberto Pontes procurou sempre acompanhar a evolução da sua poesia por esse prisma, ou seja, buscou sempre perse­guir essa dualidade de fenômenos presente em sua poética, e isso o levou, finalmente, a cristalizar a sua percepção do mundo em Unidade, inventário poético ainda inédito, e que é, sem ne­nhuma dúvida, o resultado de toda uma vivência encontrada nos seus livros anteriores Contracanto (1968) e Lições de Espaço (1970).

          Memória Corporal (Rio: Editora Antares,1982) é a reflexão mais depurada da sua cria­ção poética. É, por assim dizer, o complemento da visão humanística do homem já prontamente saciado no que tange às suas inquietações existenciais, vivendo em estado de plenitude toda a exuberante e enigmática força do amor como expressão de sensualidade e transcendência.

          Em Memória Corporal Roberto Pontes lega-nos um livro denso de lirismo, porque através do exercício da palavra conduz­-nos ao exercício do amor. Memória Corporal é um poema per­didamente sensual, contagiante à proporção que nos devolve a oportunidade da redescoberta das nossas reservas eróticas.

           Todos os poemas de Memória Corporal são peças artesa­nalmente trabalhadas e que ao longo do contexto poético evo­luem com a disciplina com que o amor atinge o seu estágio de purificação. Para o poeta o amor nasce com os gestos e se ple­nifica com a posse, que antecede ao repouso dos amantes e enuncia a morte do amor. E o amor, assim descrito em todos os seus ingredientes conceituais e retóricos, é que nos vem por fim revelar a memória e a verdade do corpo.

          Memória Corporal é um poema feito de libertação e parti­cipação. Em toda a sua travessia o prazer termina por resgatar o esquecido do homem e a nudez mostra-se despida de todos os preconceitos. Para o poeta é o amor que deve prevalecer em toda a sua ternura sobre as demais opções que possamos ima­ginar eleitas para as nossas recriações e redescobertas. O que há de predominar, assegura o poeta, é o amor em todas as suas formas de interpretação e representação.

          O resgate do desejo patenteia-se em todos os poemas de Memória Corporal e tematiza a ideia do texto poético, de tudo se podendo aferir a certeza de que Memória Corporal encerra uma duradoura unidade de concepção. Cada um dos quarenta e cinco poemas pode ser conhecido e assimilado em separado, não implicando, por outro lado, que todo o livro possa ser lido como um poema autônomo, que no seu cerne congrega o ato do fazer e do sentir o amor.

           Em Memória Corporal Roberto Pontes metamorfoseia o amor, imprimindo-lhe os mais diferentes matizes. Da mesma forma que se anuncia em "Cinco Prelúdios", o amor termina por completar seu ciclo evolutivo em "Epitáfio", último poema do livro, o qual, depois de pacientemente repensado, chega a nos despertar a feliz iniciativa de que em nós mesmos podemos res­taurar a nossa própria memória corporal.

           Finalizando, eu diria já sem nenhuma dúvida: Memória Cor­poral é um livro de profunda densidade humana. É, como sen­tencia Carlos d'Alge em "A Verdade do Corpo": "um canto g eral de integração e de ternura, de paz e de realização humanas". Ou ainda como nos quis comunicar Lúcia Helena na apresenta­ção do pequeno volume: "uma obra que se apresenta como uma das melhores realizações da poesia lírica contemporânea".

 

2. Poesia Insubmissa

 

           Poesia Insubmissa Afrobrasilusa, de (Fortaleza: Edições UFC/Rio: Oficina do Autor, 1999), de Roberto Pontes, é um livro que fere assunto muito pouco versado no âmbito dos estudos literários, no caso, as aporias encontradas no universo da construção poemática e as alternativas para superar seus paradoxos e contradições. Uma ética fundante do discurso poético e as questões políticas que a envolvem – eis o que propõe o autor discutir em referido estudo.

          Trata-se de uma instigante pesquisa de motivação acadêmica, escrita sob o signo da erudição e da competência e apresentada, originalmente, como dissertação de mestrado junto ao Curso de Mestrado em Letras da Universidade Federal do Ceará, em 1991. É, pois, trabalho que honra a produção científica da Universidade e que distingue, também com louvor, a trajetória literária de Roberto Pontes.

             A abordagem pretendida pelo autor fala de três dimensões da poesia contemporânea, que são, a rigor, três dimensões da poesia de todos os tempos, sendo elas: a) a poesia de projeção retórica, cujo modelo escolhido foi o da produção do português Jose Gomes Ferreira; b) a chamada poesia de impasse, representada pela fase política da criação de Carlos Drummond de Andrade; e, por último, a poesia de combate e de motivação transfor­madora, recaindo, neste caso, a preferência sobre a poesia angolana de expressão portuguesa de Agostinho Neto, o poeta de formação social que utilizou a poesia como instrumento de libertação do seu próprio país.

           A poesia como arma, seu poder de intervenção e de provocação de rupturas sociais e históricas, seu papel de instrumento conscientizador e de ordenação do caos: estas, em linhas gerais, as propostas de Poesia Insubmissa Afrobrasilusa, que versa, como já afirmei neste comentário, tema original e indiscutivelmente muito pouco explorado no âmbito dos estudos universitários.

           Na introdução do seu belo ensaio acadêmico declina o autor que foi guiado por uma fascinação antiga e por uma crença cada vez mais inabalável, a de que “a poesia é fundamental para o ser humano, mormente nos momentos históricos atípicos, quando os indivíduos parecem haver perdido a noção de si mesmos, quando já não têm a identidade necessária para imprimir sentido e direção à existência individual e à coletiva”.

            De fato, se olharmos para a fase da poesia de Drummond escolhida para objeto de análise, aquela de dimensão lírica e social a um só tempo, que está enfeixada em A Rosa do Povo, não podemos discordar das argumentações do autor. E isso também poderíamos dizer da poesia de Agostinho Neto e de Gomes Ferreira, ambos, autores decisivos e com propostas poéticas decisivas para as experiências históricas vividas pelos seus países nas épocas em que fizeram suas intervenções artísticas.

           Por outro lado, se atentarmos para a literatura brasileira, no seu âmbito eu me permitiria citar, no rastro das argumentações do autor, o caso singularíssimo da poesia de Castro Alves, a qual foi elemento precioso no processo de libertação dos escravos e de tomada de posição em defesa de uma política do livro e da educação.

           A provocação acadêmica de Roberto Pontes, ao contrário do que se pode imaginar, não é uma proposta em torno do engajamento na área da literatura, que considero uma discussão falaciosa, nem uma tentativa de ideologização ou de partidarização da poesia ou de qualquer forma de criação literária. E, antes de tudo, uma tentativa de demarcação de uma ética fundante da construção poemática e as suas implicações políticas, sempre que fundamentadas numa estética de elevado nível literário, objetivo último a que poderia aspirar um escritor.

            As convicções do autor estão abeberadas em teóricos e críticos literários de formação clássica e moderna e no exame da produção original dos poetas escolhidos como objetos de estudo. Não se trata, portanto, de uma reinterpretação daquilo já interpretado, mas de uma leitura de fontes, com um tratamento de texto que retrata um modo de dizer muito pessoal, matizado por linguagem própria, com poucas citações, com indiscutível marca de estilo, com especificações que afastam o ensaio em apreço das técnicas de colagem ou copidescagem que têm caracterizado boa parte da produção universitária brasileira no campo da pesquisa de pós-graduação.

           Outro ponto a ressaltar é a rigorosa revisão de linguagem e de aspectos metodológicos, a qual, em parte, consagra, igualmente, a competência do orientador, que se lê no introito como sendo o poeta Linhares Filho, um dos mais eruditos professores do Curso de Mestrado em Letras da UFC.

            Falei de teóricos e críticos literários clássicos e modernos em que se abeberou a pesquisa. Entre os clássicos, gostaria de referir os nomes de Horácio, de Lucács, de Todorov, e de Lucien Goldmann e, entre os de língua portuguesa, os nomes de João Gaspar Simões e Otto Maria Carpeaux.

          Quanto à estrutura do trabalho e para finalizar as poucas linhas desta recensão, gostaria de destacar que o livro começa com uma introdução, onde são conceituados os elementos teóricos daquilo que o autor chama de Poesia Insubmissa Afrobrasilusa e cinco premissas metodológicas são ali racionalmente colocadas, como ponto de partida das argumentações, o que confere ao estudo um caráter de autêntica obra literária e não apenas o valor acadêmico que lhe possa ser atribuído.

            As conclusões estão sincronizadas com as premissas levantadas originalmente e por todo o corpo do ensaio perpassa um jogo equilibrado de coerência do discurso com o esforço do autor de pensar os questionamentos pela reserva teórica da sua própria cabeça, circunstância que também singulariza o estudo universitário em comento.

          Por fim, cumpre registrar ser o autor de referida tese um dos poetas de maior destaque da literatura cearense atual, o que de plano confere a este novo livro de Roberto Pontes um aparato todo especial, confirmado assim uma vocação literária que sempre julguei aliciante e muito criativa, criteriosa e indiscutivelmente bastante relevante.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

 

Bibliografia – Roteiro Para Pesquisadores

José Augusto Bezerra


              Prezados leitores, este é o livro dos livros do seu autor. Com o título de Bibliografia – Roteiro para pesquisadores, o consagrado escritor cearense Dimas Macedo, traz-nos, incrivelmente, quase duas mil fontes acerca da sua bibliografia ativa e passiva. Um trabalho beneditino de pesquisa, altamente criterioso, baseado em referências minuciosamente cotejadas, tanto pelas normas científicas da Biblioteconomia e da documentação, quanto pelos princípios da verificação apodítica, o que transforma esta obra numa primorosa edição definitiva, em relação ao primeiro tombamento de 2007.

             É fantástico o universo mostrado nessa bibliografia, cujas galáxias, estrelas e outros corpos celestes, nos remetem a diferentes mundos, nos vários gêneros literários, todos com seus brilhos peculiares.

             Observemos que além dos livros e opúsculos solo, que ultrapassam os cento e cinquenta, e da sua participação em CDs e produções audiovisuais, o autor registra setenta e três participações em livros em prosa e em verso, como coautor. Soma-se a tudo isto, a impressionante marca de seiscentos e oito artigos em jornais e revistas impressos e oitenta textos em jornais e revistas eletrônicos, que o leva a estar entre os mais prolíficos escritores cearenses, mesmo considerando-se os de outras eras.

              Na parte final da obra, podemos destacar cento e quarenta e uma preciosas apreciações de mestres da nossa literatura, em todo o Brasil, sobre sua obra, numa consagração impressionante. Releve-se nesse cenário a alta dimensão da sua imagem como poeta, local e nacional, já que setenta e duas destas considerações louvam a sua perícia como carpinteiro da poesia e alguns ousam compará-lo com Drummond, João Cabral, Artur Eduardo Benevides e Ferreira Gullart, entre outros. As demais, destacam seus estudos nos domínios da prosa, pela crítica literária, direito, sociologia, história, biografia, filosofia e estilística. Distinguem aspectos pessoais como concisão, simplicidades, humanismo, idealismo, urbanismo, ruralismo, sensibilidade, fé, transcendência, elegância literária, guardador de memórias, carinho pela terra, amor sensual, dilúvio interior, cantor da aldeia e sentimento do mundo.

               Um último olhar sobre  o tema diz respeito ao fato de o constitucionalista e filósofo do Direito, Dimas Macedo, nacionalmente reconhecido, não mencionar em suas produções nesse campo, suas conquistas na poesia, bem como, igualmente, em suas criações no Parnaso ou na crítica literária, não informar sobre seus lauréis nas áreas científica e filosófica, permitindo que cada vocação caminhe por sua vereda e tenha sua luz própria.

            Enfim, esta é a síntese da excepcional bagagem de um literato extraordinário, entre os maiores que nesta terra nasceram e cujas pegadas, nas várias áreas mencionadas, honram a história e as letras, de Lavras da Mangabeira, do Ceará e do Brasil.

                                                      José Augusto Bezerra

                                              Presidente da Associação Brasileira de Bibliófilos

                                     Membro do Instituto do Ceará e da Academia Cearense de Letras

                                                                                             Trinta Navios

                                                                 Italo Gurgel

         Livros, como navios, são feitos para navegar. Alguns deles ficam presos ao cais; outros se lançam em curtas e acanhadas navegações; outros mais, arrojados, vão além da esquina do horizonte e cravam padrões em todas as terras onde aportam.

         Dimas Macedo confessa com sincero fervor: ser escritor é uma necessidade que o impede de “morrer a cada momento”. Há mais de 40 anos, esse estro vital o tem levado a lançar ao mar da literatura dezenas de embarcações de longo curso, que hoje transitam pelas caudalosas correntes da poesia, da crônica, do conto, do memorialismo, do ensaio literário.

       Trinta Navios – glorioso lançamento da Sarau das Letras (2021) – agrega-se agora a essa frota tão diversificada quanto transbordante de talento e sensibilidade. Permeados por crônicas e entrevistas, afloram aqui ensaios de variada cepa, que penetram a trama de um abrangente rosário de leituras, extraindo a essência profunda de cada texto.

          Ao final, não são apenas os autores perquiridos que se revelam aos nossos olhos, traduzidos em suas emoções e recursos estilísticos. Dimas também se descortina em cada análise, impregnando os ensaios com toda a riqueza de sua verve poética: “...colaram em minha língua o sêmen de uma ostra e untaram meus dedos de mel e porcelana”, revela.

          O livro reúne anotações sobre personagens e obras que transitaram pelo universo particular do autor e lhe instigaram as emoções. De Sânzio Azevedo a Clauder Arcanjo, de Nilto Maciel ao Padre Antônio Tomás, de Eduardo Fontes a Jáder de Carvalho, são muitos os que inspiraram as observações críticas assentadas nos Trinta Navios. Aqui se ouvem os acordes da poesia popular nordestina, ali se auscultam as nuances de um novo gênero de escrita que vem lá do Sul.

           Quando descortina os meandros da própria alma, Dimas se revela através de uma prosa poética cheia de reminiscências e delírios. Repassando as dobras do passado, ele se vê “sozinho, menino entre mangueiras a ler um livro de luz quando não se tinha um livro impresso pela frente”. Mais tarde direciona seus passos “em busca da solidão e do silêncio”, aspirando à resignação, pensando em se “recolher em uma concha e flutuar nas águas”.

           “Esse tempo que se desenrola em torno de mim é miserável”, assegura com a convicção de quem carrega “lembranças terríveis”. Nada lhe ensinaram “que valesse a pena”. E daí? Afinal, “a felicidade é uma eterna nuvem passageira”.

            Dimas é esse poeta que explora a eternidade do efêmero. É o que se deixa impregnar pelo mais puro sentimento de renúncia. É o que se recolhe, sempre que pode, às lembranças de sua Lavras da Mangabeira, o mágico recanto onde o Salgado fez florir a mais luminosa plêiade que o Ceará já concebeu. É dali que eles partem, os Trinta Navios. Lépidos, levantam âncoras, enfunam as velas, dobram a primeira curva do rio e descem apressados a correnteza rumo aos sete mares.

                                                                                

                                                                               Fortaleza, janeiro / 2021

                                                Letra Lúdica: Dimas e Daniel

Hildeberto Barbosa Filho

                                            

Dimas Macedo e Daniel Mazza, dois cearenses e dois livros à mesa. O de Dimas, uma coletânea composta de artigos, crônicas, entrevistas, perfis, prefácios, testemunhos, discursos e pequenos ensaios, intitulado Trinta navios (Mossoró – RN: Sarau das Letras, 2021); o de Daniel, um livro de poemas, ou melhor, e mais precisamente, um poema, com o título de Sacrificium (Itabuna – BA: Mondrongo, 2021).

Dimas Macedo também é poeta, autor de uma obra já consolidada e com diversos títulos, dos quais destaco, entre outros, A distância de todas as coisas (1994), Estrela de pedra (2005), Vozes do silêncio (2003), Sintaxe do desejo (2006) e O rumor e a concha (2009). Aqui, no entanto, comparece, exercitando a prosa, diria entre jornalística e literária, para atender ao compromisso crítico e exegético que também o envolve no seu convívio diuturno com as letras: do seu estado, do Nordeste e do país.

Aos textos de caráter mais objetivo, voltados para a leitura e análise de autores e obras, de grupos, movimentos e instituições, juntam-se peças de natureza mais íntima, a exemplo de “A terra onde nasci” e “Solidão na infância”, descortinando aspectos subjetivos, traços psicológicos, incidências geográficas, atitudes intelectivas, recortes da sensibilidade que formam o substrato espiritual e ético de um autor, ao mesmo tempo em que auxiliam o leitor na compreensão de sua personalidade literária e nas disposições temáticas e formais de sua obra poética e ensaística.

As entrevistas, enquanto aquele “diálogo possível”, na feliz expressão de Cremilda Medina, traz o Dimas Macedo quase que de corpo inteiro, noticiando os meandros multifários de suas leituras, os percursos intrínsecos de seus processos expressivos, sua concepção estética, política, existencial e, sobretudo, a posição do homem, do homem que se nutre da seiva luminosa da palavra, diante das coisas, dos seres e da vida.

Se pinçarmos os artigos que concernem à configuração de seus pares, temos, em certo sentido, e enviesadamente, um portal de acesso a nomes e obras relevantes que integram o acervo da literatura feita no Ceará, na sua rica e incontestável tradição histórica e cultural. Jáder de Carvalho, Clauder Arcanjo, Padre Antônio Tomas, Nilto Maciel, Joca do Arrojado, Sânzio de Azevedo e Cristina Couto são alguns dos nomes que constam desse livre mapeamento crítico, a alargar o olhar do leitor pela extensiva e diversificada produção literária deste país.

Seja falando dos outros, seja falando de si, mais uma vez o escritor, poeta e jurista Dimas Macedo se revela senhor de sua composição verbal, indispensável como documento de suas preocupações intelectuais, mas também como exemplo vívido de uma escrita fluente em seu estilo individual, marcada pela presença do leitor culto, ilustrado, perceptivo, e pelos sinais concretos da linguagem elegante e bem cuidada.

Daniel Mazza, por sua vez, de uma geração mais nova, tem, em Sacrifium, o seu quarto livro de poemas. Antes vieram a lume Fim de tarde (2004), A cruz e a forca (2007) e A sinfonia do tempo: primeiro livro de filosofia (2014), compondo, assim, o seu patrimônio poético singular.

Em que pese a distribuição dos poemas em conjuntos autônomos (“O túmulo vazio”, “O calvário”, “O deserto” e “Sacrficium”), vejo os textos como um poema só, cerrado e coeso na sua expressão formal e temática de índole sobretudo reflexiva, no que Daniel se põe em perfeita sintonia com os critérios escolhidos por sua poética individual, exercitada desde os livros anteriores.

Sacrificium associa o impulso lírico a uma intrínseca e intensa dramaticidade, enredada a partir de uma releitura, cuidada e criativa, dos episódios bíblicos, aqui e ali, cotejados com elementos próprios do paganismo laico, de que resulta, quase sempre, sugestiva tensão estética a reger o movimento das ideias e das emoções que constituem o tecido substantivo da matéria poética.

As epígrafes de Nicolai Berdiaeff e Tomás de Aquino podem, desde já, sinalizar para o conteúdo religioso do assunto e do drama que se desenrola neste poema. Mas não se iluda o leitor: a religiosidade, aqui, de fundo eminentemente cristão, não se estreita nos limites de um púlpito doutrinário nem na cadência fechada de uma liturgia dogmática. A pungente e iluminada meditação que se elabora, à força iterativa dos versos, com suas repetições, paralelismos e metáforas impactantes, se é de ordem religiosa, ou, mais precisamente mística, é, ainda mais, de ordem metafísica, na medida em que os signos bíblicos evocados como que transcendem seu estatuto primeiro, para alcançar a energia atemporal dos temas permanentes.

Esses temas permanentes residem no tempo, na eternidade, na morte, no sofrimento, na paixão, enfim, no calvário e no sacrifício de ser e existir. No segundo soneto, de “Tumulo vazio”, por exemplo, é a vida que se pensa poeticamente, para além dos acentos denotativos das referências sagradas. Leia-se o poema: “A chama morrediça, consumindo ∕ Vai a lenha dessa vida, e consumindo-se ∕ No mesmo instante vai em que o instante ∕ Se evola e deixa apenas um montículo ∕ De cinzas em silêncio: o resultado ∕ Da combustão da vida. Eis a única ∕ Resposta que este mundo pode dar: ∕ O silêncio de cinzas em silêncio. ∕ Porque é isto simplesmente a vida aqui: ∕ Um punhado de cinzas, o presente ∕ Que o sopro do futuro a cada instante ∕ Dispersa no passado... A vida aqui, ∕ Um sonho a cada instante, que não temos. ∕ E o que temos, só um sonho a cada instante”.

Não diria ser a poesia de Daniel Mazza uma poesia simplesmente religiosa, cristã ou católica. Os adjetivos a limitam e, em certo sentido, a conspurcam. Sua poesia me parece simplesmente poesia, sem atributos nem epítetos “esclarecedores”. Poesia enquanto sondagem e experiência do que vive e perdura na alma do ser humano, vertida, por assim dizer, numa linguagem de alta voltagem estética. Sagrada, não pela substância, mas pelo visceral acordo entre substância e forma.