terça-feira, 28 de março de 2017

Martins Filho, o "EU" e Outras Pessoas (1)

                        Vianney Mesquita*



                                                          Pensamento gentil de paz eterna,
                                                         Amiga, oh morte, vem! Tu és o termo
                                                         De dois fantasmas que a existência forma:
                                                         Estalma vã e este corpo enfermo.

                                                      (Luís José de JUNQUEIRA FREIRE.
                                                       Salvador, 31.12.1832; 24.06.1855 – 22 anos).

          A 74 anos de trânsito do celebrado e contraditado Autor da Fazenda Pau d’Arco, adita-se a sua copiosa bibliografia crítica outra peça de incontestável valor, didático quanto histórico, de autoria do Prof. Antônio Martins Filho, conhecido de todo o Ceará, mercê de sua atuação na vida educacional e político-institucional do Estado.

          Reporto-me a Reflexões sobre Augusto dos Anjos, obra lançada em outubro de 1988, pela Coleção Alagadiço Novo, da Universidade Federal do Ceará, coordenada pelo Autor. Este segmento editorial uefeceano publica estudos e debates inéditos sobre a prosa e o metro das letras alencarinas, bem como reedita alguns trabalhos que, por motivo de sua publicação restrita, já há algum tempo, desapareceram de circulação e, em consequência, fugiram do alcance do estudioso e do público ledor.

          A Coleção Alagadiço Novo, cuja mais recente produção é o citado livro do Reitor Martins Filho e acerca do qual procederei adiante lábeis considerações, dentre os 15 volumes trazidos a lume, serviu-se, também, com tempestividade e gosto, de selecionar excertos da literatura cearense – verso, prosa de ficção, historiografia literária e outros gêneros – restabelecendo a oportunidade de leitura, ao mesmo tempo em que traz achegas importantes à acumulação dos nossos feitos literários.

           Martins Filho, na plena forma de acompanhamento do estado d’arte e no seu invejável vigor físico (2), realiza, agora, antiga pretensão, até então insatisfeita, de vir a público, com os seus compreendimentos hauridos quando participante da Academia dos Infantes, da cidade do Crato e cuja divisa era Ad Augusta per Angusta (A lugares elevados por difíceis veredas), revelando-os ao imenso contingente de admiradores do Rapsodo dos Tamarindeiros.

         Consoante seu depoimento, manifesto na apresentação do livro, ainda não experimentara o lance de se pronunciar publicamente a respeito do assunto, conforme sua intenção, assentado no testemunho da imensa aleia de autores e biógrafos que perlustraram a vida e a obra deste profundissimamente hipocondríaco Vate Paraibano.

         Neste sentido, tomou tento em levantar dados e empreender investigações, comparando opiniões, acatadas umas e desprezadas outras, para, ao final, oferecer um volume muito bem organizado, onde alista, com alevantado padrão de análise, diversos aspectos do trabalho do Poeta, a quem Olavo Bilac, num de seus não raros assomos de enfatuamento, disse desconhecer-lhe a existência, negando o lipemaníaco estanceiro de A um Carneiro Morto, antes que o galo cantasse pela terceira vez.

         Não bastasse a cristalina exposição, em linguagem a um só tempo rica e acessível, do seu modo de entender Augusto dos Anjos (3) e sem a pretensão de alevantar voos no terreno da Teoria Literária, o volume enfeixa, subsidiariamente, excepcional extrato das mais doutas opiniões dos críticos que apreciaram a carreira daquele que teria convivido com Koch (4).

           A esse respeito, aliás, considerando a periculosidade da tísica (o doente era feito o portador da SIDA de hoje – 2017 -com gravidade, decerto, ainda maior), há de se repensar essa possibilidade, em vista, por exemplo, da calorosa recepção por ele experimentada, quando chegou a Leopoldina – MG, desde o Rio de Janeiro, para ser diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira. E, seja expresso, não se ajuntavam sob um mesmo recinto nem paratíficos, tampouco leprosos, muito menos tuberculosos.

          Em vista das controvérsias sobre os estados mórbidos que perseguiram Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nos 30 anos de vivo – se tísico, psicopata, lipemaníaco com tendências suicidas ou portador de bronquiectasia – Martins Filho é de opinião que o celebérrimo Autor de Eu e outras Poesias se constituiu num “belíssimo caso médico”, que até animou o facultativo cearense Saboya Ribeiro (5) a sustentar tese de doutor junto à Universidade da Bahia, subordinada ao título Estudo Nosográfico de Augusto dos Anjos.

         O Professor Antônio Martins Filho louva-se, exempli gratia, em Eugênio Órris Soares [João Pessoa (hoje) 14.10.1884; Rio de Janeiro, 02.1964], o maior biógrafo de Augusto dos Anjos, escritor coestaduano do Poeta, que, como ninguém, entendeu as atitudes idiossincrásicas daquele da progênie “do carbono e do amoníaco”, o qual versejou em sua incomparável loquacidade cientificista, burilando com excessiva facilidade os polissílabos esdrúxulos – como no verso decassilábico de apenas duas palavras – “Misericordiosíssimo carneiro” – com impecável cadência e agradabilíssima sonoridade.

         Augusto dos Anjos, qual Junqueira Freire (ver epígrafe), também, “poeta da morte”, tem a lembrança recobrada, como capítulo à parte da Literatura Nacional, por via do livro de Martins Filho. Não se lhe pode, pela maneira sui generis de tornear, filiar a nenhuma escola. Não foi simbolista, embora com alguns traços de Paul Marie Verlaine. Tampouco é válido estabelecer vínculos seus com Charles-Pierre Baudelaire, porquanto provindo de um Parnaso diferente, particular; modernista: nisso não é possível cogitar.

         Antônio Martins Filho está inserto como relevante componente da biobibliografia referente a Augusto dos Anjos, além do citado Órris Soares, na grande ala de Antônio Torres, Francisco de Assis Barbosa, Hermes Fontes e outros expoentes, os quais rememoram (quer Olavo Bilac queira ou não) a grandiloquência da “Paleontologia dos Carvalhos”. Ele inicia na apreciação do Áugure Paraibano aqueles que, diferentemente dos da minha idade, em tempo mais recuado e tranquilo, nunca tiveram a ventura de incursionar pelas incomparáveis medidas poéticas do Profeta da Vila do Espírito Santo.

            Augusto dos Anjos, como Álvares de Azevedo, Castro Alves, Fagundes Varela, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire e outros assomados pelo Mal do Século, influenciou, sobremodo, o jeito de versificar daqueles que lhe cultuaram e cultivaram como uma das maiores expressões da literatura poética do País, não apenas pela temática naturalista esquisitamente bela e chocante, senão, também, em razão da sua profunda cultura científica manifesta por intermédio de suas magnificamente cadenciadas e sonorosas estrofes.

NOTAS DO EDITOR

(1) Reprodução, em parte e com modificações, do Capítulo 2 de MESQUITA, Vianney. Impressões –Estudos de Literatura e Comunicação. Fortaleza: Agora-Imprensa Universitária da UFC, 1989. 176 p.

 (2) O Fundador e primeiro reitor da Universidade Federal do Ceará, mais antiga instituição acadêmica do nosso Estado, nasceu no Município do Crato, em 22.12.1904 e faleceu em Fortaleza em 20.12.2002.

(3) Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu na atual Sapé (Engenho do Pau d’Arco, na então Província da Paraíba do Norte, hoje Estado da Paraíba, cuja capital era a cidade de Paraíba, hoje João Pessoa), em 20 de abril de 1884, e morreu em Leopoldina-MG, no dia 12 .11.1914).

(4) Heinrich Robert Koch foi um patologista e bacteriologista alemão, nascido em Hanover em 11.12.1843 e falecido em Baden-Baden em 27.05.1910. Foi ele a descrever, pela primeira vez, a bactéria provocadora da maioria dos casos de tuberculose, pelo que recebeu, em 1905, o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia. Segundo Vianney Mesquita (Esboços e Arquétipos, 2016, p. 86), o remédio contra o chamado Bacilo de Koch, que teria acometido Augusto dos Anjos, a Penicilina (Penicilium Notatum), foi descoberto pelo bacteriologista escocês Sir Alexander Fleming (1881-1955), com a colaboração do cientista tedesco Ernst Boris Chain (1906-1979) e Sir Howard Florey (1898-1968), os quais repartiram o Nobel de Medicina e Fisiologia de 1945. “Eis que se deu o caso de o vento haver trazido um esporo de mofo, o célebre humilde cogumelo, que repousou na lâmina de um experimento (1928), com cultura de estafilococus”. (Opus citatum).


(05) O Visconde de Saboya – Vicente Cândido Silveira de Saboya, barão e visconde. Médico, juiz e oficial superior da Guarda Nacional. Nasceu em Sobral-CE, em 13 de abril de 1836; falecido em Petrópolis-RJ, 18 de março de 1909.