sábado, 5 de setembro de 2015

Gentil Augusto Lima

         Dimas Macedo


                                                  




       Em passagem do meu livro sobre Dona Fideralina Augusto (que ainda se encontra inédito), registro acerca do mandonismo vigente em Lavras da Mangabeira (CE), em 1917, o seguinte:   

   “O feudo governado pelo Coronel Gustavo e que tinha Fideralina como rainha sem coroa, parecia mesmo uma civilização exótica nos sertões do rio Salgado, recheada de quermesses e de adivinhos, de jogos de bilhar e de azar, de festas que varavam as madrugadas e de confusões e brigas de famílias, nas quais brilhavam as armas de Gentil Augusto que nunca paravam de troar.

      Estudante de Medicina na Bahia, ali, segundo a imprensa de Salvador, ele teria induzido um colega ao suicídio; estivera envolvido numa briga com o chefe de gabinete do governador, não o matando por milagre; e no jornal O Paiz, do Rio de Janeiro, de 27 de maio de 1920, consta a notícia da sua “agressão a revolver e punhal a dois estudantes na Bahia”.

       Na sua terra de berço, destacou-se como o neto de Dona Fideralina que não a deixava sossegada, tamanhas as suas desavenças e a sua loucura. Conforme João Tavares Calixto Júnior, no seu livro – Considerações a Invasão a Lavras em 1910 (Fortaleza: Expressão Gráfica, 2015) –, Gentil “era uma mescla de desordeiro e intelectual. Um pensador erudito, e um arruador de mão cheia”, acrescentando Calixto Júnior ser esse inquieto membro da família Augusto um “Poeta engenhoso, [um] conferencista de classe, [e um] escritor de referência”.

          Encarnando a sua condição de escritor e cangaceiro, como veio a ser tratado por alguns jornais do Ceará, Gentil costumava intitular-se – “Governador do Pau Amarelo” –, em alusão à cidadela inexpugnável do seu pai – o célebre Coronel Gustavo, mas o certo é que “foram vários os seus envolvimentos em episódios violentos”  
              
           Em carta enviada pelo governador Justiniano de Serpa ao Presidente da República, cuja cópia me foi cedida por João Tavares Calixto Júnior, foi apontado, talvez, como responsável pela briga que resultou na morte dos seus primos e um dos seus cunhados, em 1922, naquela que foi a maior tragédia política da história de Lavras.
 
           Pelo seu valor histórico, pela sua importância e por se tratar de um documento insuspeito sobre uma guerra de família que sempre comprometeu o equilíbrio da velha Princesa do Salgado, transcrevo a seguir a missiva do Governador Justiniano de Serpa:

           “Há meses que em Lavras, sede de importante município do interior, se tornaram mais acesas as discórdias locais por divergências entre José Leite [coronel José Leite de Oliveira] e seus filhos [Simplício Leite de Oliveira e José Leite Filho] e o prefeito local, Raimundo Augusto Lima, aliás, parentes próximos. Com o objetivo de evitar que as duas parcialidades chegassem a excessos, substituí o delegado local por um delegado militar, mantendo ali forte destacamento sob o comando de um oficial estranho à política do município. Ultimamente a situação agravou-se pela divergência que se estabeleceu entre Gentil Augusto de Lima e o seu irmão e prefeito local. Ao lado de Gentil ficaram José Leite Filho e seus amigos, tornando-se assim mais perigosa a luta de família. A paz, entretanto, mantinha-se graças à vigilância do delegado militar e presença da força. 

           No dia 7 deste, porém, sucedeu repetir-se em Aurora um tiroteio dirigido por Isaias Arruda, contrário aos irmãos Moreira, comerciantes ali. Informado do fato, providenciei imediatamente, fazendo seguir para Aurora, 82 praças e quatro oficiais, mas, ao tempo que, tomava eu essa medida, o delegado militar de Lavras e o comandante da força, recebendo igual notícia, partiram incontinenti para Aurora, a cinco léguas de distância, para atender ao pedido de auxílio.

          Na ausência desses oficiais, deu-se em Lavras uma luta entre José Leite Filho e seu cunhado Raimundo Augusto de Lima, na qual tomaram parte alguns amigos de ambos, resultando no conflito que se desenrolou rapidamente, a morte de José Leite Filho e os ferimentos graves do prefeito Raimundo Augusto Lima, [e as mortes] de Simplício Leite e de Euzébio [Augusto] de Aquino. Tive do fato comunicação pelo coronel José Leite e pelo juiz de direito da comarca. Adotei imediatamente todas as medidas necessárias à manutenção da ordem e garantias individuais, e determinei que para ali seguissem o chefe de polícia para apurar responsabilidades e consequente punição dos culpados. A imprensa oposicionista entrou a explorar o fato desabridamente com objetivo partidário. Asseguro, porém, a V. Ex., que se trata apenas de uma lamentável questão de família, que de nenhum modo interessa ao momento político. Não posso nem devo determinar responsabilidades no crime cujos pormenores só posteriormente poderão ser averiguados. O que posso desde logo garantir é que autoridades insuspeitas apurarão a verdade e que justiça se fará a quem for devida. Não tenho outra preocupação nem interesse de qualquer natureza. Saudações atenciosas. Justiniano Serpa, Presidente do Estado”.

          Poeta que demonstrou, na juventude, razoável talento literário, atestado por Antônio Martins Filho, no seu livro de memórias – Menoridade (Fortaleza: Casa de José de Alencar, 1990), Gentil Augusto Lima publicou, entre outros, os seguintes livros de poemas: Prazeres Quentes e Elza, Adalgiza & Cia

          “Dado à boêmia literária”, segundo Emerson Monteiro, Gentil Augusto “tornou-se um poeta satírico e erótico dos mais intensos”. Essa dimensão erótica da sua poesia é também destacada pelo escritor Antônio Martins Filho e por outros lavrenses que leram os seus poemas tecidos à moda de Aretino ou de Bocage, destacando-se em tudo a sua poesia libertina. 

            Depois de preso em sua terra de berço, pelo seu irmão, o coronel João Augusto Lima, então prefeito da comuna, conforme notícia divulgada e O Ceará, de 20 de setembro de 1924, Gentil deixou a sua terra e passou a viver como andarilho pelos mais diferentes recantos do Brasil, brilhando, ora como conferencista, ora como jornalista.

            Na Associação de Imprensa da cidade de Campos (Rio de Janeiro), proferiu a sua conhecida conferência – Eu e a Minha Poesia –, publicada pela Imprensa Oficial do Espírito Santo (Vitória, 1955); e, no Recife, deu a lume a sua plaqueta – Cangaceiros, em 1959.

             Neste último ano, o seu sobrinho-neto Emerson Monteiro, no seu livro – Histórias do Tatu (Cajazeiras; Gráfica Ideal, 2016), registra que o conheceu no Recife, quando ele “já claudicava sobre uma bengala, vitimado por derrame cerebral que lhe reduzira as funções de um dos lados do corpo”. E acrescenta; “Senhor alvo, vestido de terno de linho branco, usava óculos e chapéu”, e que ouviu suas “falas de recordações e arrependimento diante das ações do passado, porquanto carregava algumas consequências de excessos cometidos”.  

         Em 6 de fevereiro de 1961, Gentil Augusto Lima foi atropelado. Nesta data, segundo relato da imprensa, ele tinha sessenta e um anos, o que implica ter nascido em 1889 ou 1900, registrando-se, aqui, terem sido seus pais Joana Augusto Lima e o coronel Gustavo Augusto Lima.

       Faleceu no Recife, aos 31 de dezembro de 1963, às 11:30 da manhã, no hospital da Tamarineira, e o seu sepultamento ocorreu no cemitério Santo Amaro, às 10:00 hs do dia 1º de janeiro de 1964, segundo o Diário de Pernambuco, desta última data, em notícia postada pela sua irmã, Blandina Augusto Lima, e por Elza Leite Carnevale.

      Casado com Branca de Holanda Lima, filha de Maria Machado de Holanda Cavalcanti e do Dr. Joaquim Brasil de Holanda Cavalcanti, antigo Juiz de Direito da Comarca de Lavras, o poeta Gentil Augusto Lima gerou uma descendência ilustre, assim como muitos integrantes da sua família. 

       Entre os seus filhos, destaca-se Iracema Lima Ainouz, professora titular da Escola de Agronomia da UFC e cientista das mais renomadas; e, entre os seus netos, aponto o cineasta Karim Ainouz, diretor de Madame Satã, O Céu de Suely e outros clássicos do cinema nacional.





Um comentário: