domingo, 27 de setembro de 2015

A Poesia Popular em Lavras da Mangabeira


              Dimas Macedo



           1) Em mais de uma oportunidade, escrevi sobre sobre a poesia popular em Lavras da Mangabeira, já esbocei um panorama da sua evolução, no meu livro – A Brisa do Salgado (Fortaleza: Imprece, 2011) –, mas alguma coisa sempre resta a dizer. Raimundo Otoni Caldas, lavrense estabelecido no Estado do Paraná, costuma se referir à sua terra como sendo “a capital do folclore e dos grandes poetas populares”. 

          Certa feita, escreveu-me esse meu parente acerca das suas origens e das saudades que sentia do sítio Logradouro, onde nasceu, adicionando na sua missiva esta sextilha do poeta Vicente Correia Lima, irmão da poetisa Eliza de Araújo Lima e filho do grande poeta popular lavense, Fausto Correia Lima:             

              Vicente Correia Lima
               Filho de Fausto Correia
               Para cantar tem repente
               Tem um peito de sereia
               Em qualquer Salão Decente
               Se quebra mas não bambeia.

             2) Quem se der ao trabalho de folhear o livro – O Ceará –, de Antônio Martins filho e Raimundo Girão, logo  na abertura do volume vai se deparar com uma epígrafe de autoria de Luiz Dantas Quezado, traçando um retrato do provecto cidadão lavense José Tomaz de Aquino, vulgo Zuza Tomaz:

   Você vem cumprindo a meta
Como nosso professor
Nosso poeta doutor
Nosso amigo, nosso irmão
Pra nossa satisfação
Da cultura é divulgadorVocê vem cumprindo a meta
Como nosso professor
Nosso poeta doutor
Nosso amigo, nosso irmão
Pra nossa satisfação
Da cultura é divulgador
Você vem cumprindo a meta
Como nosso professor
Nosso poeta doutor
Nosso amigo, nosso irmão
Pra nossa satisfação
Da cultura é divulgador

Sem orgulho, sem pantim
Um cidadão de verdade
E os Lôbos dessa cidade
São muitos e são assim
Dimas é um que pra mim
Tem valor que eu nem alcanço
Mais um comentário lanço
É fruto do grosso da rama
Um dos herdeiros da fama
Deixada por Lôbo Manso.
                    O velho Zuza Tomaz
                  É homem de opinião
                  Não vejo neste sertão
                  Quem desfaça o que ele faz
                  Apaga fogo com gás
                  Rebate bala com as mãos
                  Mas um dia estando armado
                  Apanhou de um aleijado
                  E deu num sego a traição.

               Posteriormente, apresentaram o poeta Luiz Dantas Quezado a Joaquim Tomaz da Várzea Grande, irmão de Zuza Tomaz, e este, de improviso, lembrando a caricatura de Zuza Tomaz, feita por Dantas Quezado, advertiu:

                    Meu nome é Joaquim Tomaz
                    Sou manso e muito prudente
                    E é certo que estando quente
                    Não respeito fidalguia
                    Seja de noite ou de dia
                    Comigo tudo se ajeita
                    E se a coisa não for direita
                     Da Várzea Grande pro Rato
                     Brigo, apanho, morro e mato 
                     Mas homem não me desfeita.

               Contam que, na ocasião, Joaquim Tomaz da Várzea Grande pegou a ponta do cinturão do poeta Luiz Dantas Quezado e o sacolejou de forma que o grande poeta caririense se sentiu em apuros.

               3) O poeta Mundoca do Barba passou para a história de Lavras como um dos seus principais aedos. Lembro-me da sua voz altisonante de aboiador por ocasião das vaquejadas, animadas pelo Dr. Aloysio Férrer. Um dia pediram ao poeta que descrevesse as belezas do Boqueirão de Lavras, aí ele arrematou:

                   Para ver que a natureza
                   Tem a maior perfeição
                   Basta olhar para o talhado
                   Da Serra do Boqueirão.
                   Ali não foi Engenheiro
                   Que fez aquele bueiro
                   Com largura e profundeza.
                   O corte daquela serra
                    É obra da natureza.

          4) Ainda acerca do lendário Boqueirão de Lavras, ouvi do poeta Custodinho este belíssimo improviso:

                    O Boqueirão do Talhado
                    É feito por natureza
                    Ali passam as correntezas
                    De todo o Rio Salgado,
                    Tem um poço aprofundado
                     Feito por Deus verdadeiro,
                     Ali não foi engenheiro
                     Que fez o corte na trilha
                     Dessa oitava maravilha
                     Que vejo no mundo inteiro.

   Você vem cumprindo a meta
Como nosso professor
Nosso poeta doutor
Nosso amigo, nosso irmão
Pra nossa satisfação
Da cultura é divulgadorVocê vem cumprindo a meta
Como nosso professor
Nosso poeta doutor
Nosso amigo, nosso irmão
Pra nossa satisfação
Da cultura é divulgador
Você vem cumprindo a meta
Como nosso professor
Nosso poeta doutor
Nosso amigo, nosso irmão
Pra nossa satisfação
Da cultura é divulgador

Sem orgulho, sem pantim
Um cidadão de verdade
E os Lôbos dessa cidade
São muitos e são assim
Dimas é um que pra mim
Tem valor que eu nem alcanço
Mais um comentário lanço
É fruto do grosso da rama
Um dos herdeiros da fama
Deixada por Lôbo Manso.
                5) Em viagem de férias, vindo do Rio de Janeiro, o escritor João Gonçalves de Lemos foi visitar seu mano Manoel Gonçalves de Lemos em Várzea Alegre, seguindo depois para o Cedro com o poeta Zé Pequeno (José Duarte Pequeno), dali prosseguindo de trem para Aurora, para uma visita a Augusto Landim de Macedo, mas a viagem se interrompeu em Lavras, quando os viajantes foram informados que, por motivo de saúde na família, Augusto Macedo encontrava-se em Cajazeira (PB). Tentaram um transporte de volta para Cedro, mas o jeito foi esperar a volta do trem. João Lemos disse, então, para o seu companheiro de viagem: Zé Pequeno, Lavras da Mangabeira é um beco sem saída. E o poeta, sempre de bom humor, garantiu, ao amigo, que tudo seria resolvido e, de improviso, argumentou com essa joia preciosa:

                      Hoje é segunda-feira
                      Viajei de Cedro a trem
                      Outro transporte não tem
                      A Lavras da Mangabeira
                      Achei que fiz foi besteira
                       Uma viagem pedida
                       Me valho de Santa Guida
                       Pra eu poder regressar
                       Que aqui nesse lugar
                       É um beco sem saída

                   Zé Pequeno deixou diversos poemas populares do mais alto valor, como esta poesia ele fez por ocasião do nascimento de seu filho Hilário Duarte de Alencar:

                        Foi a treze de janeiro
                        Mais ou menos sete horas
                        Quando quis Nossa Senhora
                        E o nosso Deus Verdadeiro
                        Nasceu meu filho primeiro
                        Quando Jesus foi servido
                         Hoje meu filho querido
                         Batizou-o seu vigário
                         Dando nome de Hilário
                         E Canju por apelido.

                   6) Pereira de Albuquerque, natural de Ipaumirim, sempre devotou carinho especial à terra da sua mulher, afirmando sobre Lavras da Mangabeira o seguinte:

                         De Lavras, bela cidade,
                         São o amor que conquistei,
                         Meu coração e a saudade
                         Dos sonhos que lá sonhei.
              
                   7) E Luiz Dantas Quezado, rememorando o tempo em que foi funcionário da Rede Viação Cearense, em Lavras da Mangabeira, deixou para a posteridade este registro:

                          Já fui doutor engenheiro
                          Fui coadjutor em Roma
                          Já trabalhe em diploma
                          Já fui homem de dinheiro
                          Na Corte fui conselheiro
                          Fui deputado no Rio
                          Fui capitão de navio
                          Fui bispo missionário
                          Em Barbalha, Secretário
                          Em Lavras sou guarda-fio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário