domingo, 30 de agosto de 2015

O Barqueiro da Morte

           Dimas Macedo            



              As verdades conhecidas são uma grande montanha de destroços. Nada existe além das aparências. Somente o mistério reluz nos escaninhos da alma. A lucidez é o soro com o qual injetamos em nós a incerteza. E é certo que morremos enquanto acreditamos no credo social, nas convenções e mentiras no poder e nas tiranias e valores do capital.

            Pensei que não fosse morrer tão cedo e da maneira como estou morrendo: sufocado pela minha agonia e pela cegueira com que minha mulher se veste com suas ilusões e com as suas roupas e sapatos, que escondem a sua prepotência e que não denunciam a extinção da vida que se vai arruinando em seu sangue.

            Se pudesse, eu a mataria por asfixia, envolvida pelos seus lençóis que já não abrigam o meu corpo faminto, a minha necessidade de sexo, os meus orgasmos sufocados, a minha alegria de berrar feito um menino que não tem consolo e que chora com a sequidão dos seus afluentes.

             Que vida me está sendo ofertada pela morte, que silêncio profundo em meu esconderijo, que sufoco se planta na minha sobrevida! As crianças boiando no rio da infância, e a infância boiando em uma caixa fechada, da qual só exalavam a morte do meu pai e o bulício do sexo na porta do armário, lá onde o sol costumava se pôr e o gado de Zé Lobo morria.

               Quantos espiões eu matei nas margens do Salgado, quantas traições tiraram a vida do meu pai, quantos canoeiros atravessaram o Riacho da Extrema e foram tragados pelo medo, quantas mulheres jogaram as suas roupas de cima da barragem e das pedras que cortavam a serra, e da terra seca que mugia?

                Eis um pouco das perguntas que venho fazendo nessa idade madura da tristeza, depois que aprendi que viver não faz nenhum sentido, depois que Fuentes publicou Federico em sua Sacada e morreu sufocado pelas suas crises e pelos saques que lhes foram feitos, para que nunca recebesse as coroas que os seus leitores queriam lhe ofertar na sepultura.

              Pobre esse destino de ser um escritor esquecido, pobre essa república de merda que quer fazer de nós uns imbecis e nos sufocar com as suas promessas de grandeza, quando aquilo que nos resta é apenas o sufoco e a resiliência e a falta de pudor dos nossos dirigentes, que não fazem aquilo que deviam, amarrando o povo com as suas mentiras e com as ilusões da ideologia.

              O que é o social, me perguntam. E eu respondo que o social é fumaça, que os pobres são os excrementos e que a carne daqueles que não estão no poder é o alimento da elite que governa o Brasil, que põe seus ossos de serpente, que maquia o rosto da pobreza e que corrompe o sol da juventude.

               Existe futuro no Brasil, ou o nosso País é uma pequena colônia de banqueiros? Eis uma pergunta que cala nos recessos da alma. Por que se mente tanto nessa Nação de nanicos e por que eu tenho que escrever desta forma para não morrer sozinho, preso entre as paredes do armário?

                Eis o enredo dos meus dias, eis a minha verdade absoluta, eis a minha dor guardada na gaveta, depois que a vida se finou e levou consigo seus mistérios, depois que a morte fixou no meu ser a sua lâmina, costurando com sangue a minha desvalia.

                Teria a minha história algum prazer a ser relembrado? Teria a minha vida algum sentido a não ser a morte e a loucura? Teria eu morrido quando ainda era uma criança, e a minha mãe, uma gota de sexo em minha língua?

                 Um drama seria responder a todas as perguntas que se abalam em meu busto, sufocando a claridão do meu peito, fazendo pulsar a minha língua, arrancando de mim a minha última sacada e triturando os meus ossos com esse jorro de esperma, essa chuva colossal que me deixa sem forças, esse turbilhão de desejos que tenho que provar toda manhã.

                 Sei que o céu irá desabar sobre a minha roupa, que a morte me prende com seus guizos, que a lâmina de uma porta irá descer sobre a minha cabeça e que o corpo da amada será o meu novo refrigério e que irei adorar a estrela estampada na parede, para sorver a linhaça dos seus dedos e o esmalte que escorrega pela minha garganta.

                 Eis o que sorvo quando estou sozinho: a companhia das estrelas, o calcanhar de Medusa me pedindo o último suspiro do orgasmo, o gosto angelical com que desço da cama depois de uma noite de orgia, completamente tomado pelo medo e tentando sair do meu silêncio pela última porta.

                 É certo que não tenho medo da prisão e que a minha fala é quase uma linguagem que me deixa preso. Minha solidão, ao que penso, não seria igual a solidão de ninguém. Sou absoluto e individual e é certo que apenas me assemelho com a morte, e que a morte do meu corpo é o sexo, e que mastigo o sexo da amada como se fosse a asa de um anjo.

                Terei resposta para a minha vida, ou serei assim como Clarice, ou tão misterioso quanto Kafka, ou meio genial, assim como Karl Marx? Não, não acredito que Judas tenha traído seu irmão, nem que Buda tenha existido de verdade. A ilusão é o sal de que preciso para continuar escrevendo, e a morte é a primeira de todas minhas lembranças.

               Em Lavras, deixei meu umbigo enterrado na porteira; na França, fiz um pacto de amor com Beauvoir; e na China, levei Marguerite Duras para a cama, para sentir essa doença da morte que lhe deu a glória literária. Mas em todas o que vi, foi a chama do amor jorrando nas artérias, foi o pulso de Deus em meu pescoço.

               Como posso dizer que não morri, sendo eu o poeta que sou, sendo eu esse leitor voraz e compulsivo, sendo eu essa esfinge de pó e de ternura que se entranha nos recessos do corpo e que vive da morte dos seus personagens?

               Serei proprietário da língua? A Literatura será meu alimento daqui a uma década? Quando, afinal, morrerei para o mundo e ressuscitarei em uma casca de noz? Quando serei batizado no pó da solidão, e quando não mais serei aquilo que já fui e que não serve de esterço aos currais de gado do Nordeste?

                A vida toda que vivi não vale uma página sequer de todos os meus livros. Não os escrevi para glória, mas para serem esquecidos após a minha morte, pois deles o que guardo é o cheiro do sexo que ali pratiquei, escondendo entre eles os fulgores da minha libido e o pote de sangue e de esperma que jorrou do meu corpo desde a minha infância solitária.

3 comentários:

  1. Entre a confissão e o desabafo de um autor de hoje.

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    1. Emerson, é uma honra tê-lo na condição de leitor daquilo que escrevo.
      Grande abraço.

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  2. Em tudo na vida há um pouco de morte. E com a morte vem o medo. Para Rubem Alves, o medo tem muitas faces: “Lembro-me de que, bem pequeno ainda, acordei chorando, imaginando que um dia eu estaria sozinho no mundo. Foi uma dura experiência de abandono.”
    Lidar com o abandono sempre é difícil. ...eu tinha verdadeiro pavor de ser abandonado... Era um medo irracional, visto que sempre recebi muito amor de minha família. Mas, esse medo na verdade ainda perdura em mim e talvez em todos nós. ”O medo é a presença do terrível-não-acontecido” (Rubem Alves).
    Nada mais confortante do que ver que os sentimentos que se passam dentro da gente também são vividos em outras pessoas… me ajuda a sentir-me menos extraterrestre nesse mundão de meus Deus.
    Parabéns conterrâneo!

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