sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Roteiro de Aníbal Bonavides

                Dimas Macedo                          



              Aníbal Bonavides foi uma das grandes figuras humanas que conheci em vida. Com ele convivi nos recessos da sua famosa Livraria, sugerindo-me ele que eu me inclinasse para o Direito Administrativo, quando, ainda imberbe, ingressei na Universidade.

            A Assembleia Legislativa do Ceará, em momento oportuno, reverenciou a sua memória, concedendo-lhe o título de cidadão cearense (post-mortem), cabendo a Barros Pinho, então deputado estadual, a saudação do homenageado.

             As palavras de Pinho, recheadas de grande viés humanístico, revelaram, ao que penso, uma forma subliminar de protesto político que, deixando de atingir determinados alvos contra os quais foram preparadas, terminaram se convertendo num discurso cuja profundidade as lições da história saberão avaliar as suas circunstâncias.

             Sobre o deputado Aquiles Peres Mota – que propôs a homenagem à memória de Aníbal Bonavides –, Barros Pinho exaltou o seu tirocínio político, considerando-o um homem de personalidade controvertida, “que se enriquece na polêmica e na contradição de si mesmo”. 

             E, adiante, o autor de Planisfério (Fortaleza, 1969) acrescentou: “Não é um homem de espaço linear. Marca-o a vocação para o imprevisível. Parte da exacerbação do udenismo atavicamente gerado nas escarpas das Ipueiras, para atingir a ortodoxia do marxismo mais puro, ao homenagear, com o título de cidadão cearense post-mortem, a esse zumbi da revolução brasileira que será sempre Aníbal Bonavides”.

  A alusão ao assunto, acrescente-se, faz-se a propósito da releitura do livro Diário de Um Preso Político (Fortaleza: Gráfica O Povo, 1984), de Aníbal Bonavides, onde o texto de Pinho aparece reproduzido em apêndice, como a sugerir ao leitor uma tentativa de interpretação do seu enunciado. 

              E por falar em Diário de Um Preso Político, gostaria de fazer um recuo para trazer à colação um momento do processo político cearense, no qual a cooptação e a violência falaram mais alto do que qualquer outra forma de reivindicação, arrastando aos porões da tortura as Garantias Individuais de Direitos, as expressões da Dignidade e bravura da cultura política cearense.

               Aníbal Bonavides não foi e nem será uma voz isolada na denúncia desse momento de inquietação. Com ele, outros seus companheiros de militância revolucionária, foram violentados pela audácia com que procuraram resistir, a exemplo de Blanchard Girão, Pontes Neto, José Maria Barros de Pinho e Adhail Barreto Cavalcante, para aqui mencionar apenas alguns dos que tombaram segurando a verdade nas mãos.

               Com Diário de Um Preso Político, Aníbal Bonavides, de forma decisiva, tentou mostrar a face combatente de uma história que o povo ainda não está suficientemente preparado para assimilar e, por conseguinte, para interpretar ou compreender. 

                A leitura desse livro, contudo, vale pela luz que projeta sobre os caminhos obscuros do espaço político regional, ainda hoje relegados a segundo plano pela nossa Historiografia, cujos métodos de investigação ainda continuam alienados à ideologia do discurso tradicional.




                 

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