sábado, 31 de janeiro de 2015

Ritual do Fogo e da Renúncia



            Dimas Macedo


 
                                                            Para Nicola Miccione




           Quando organizei o meu livro - Crítica Dispersa, em setembro de 2002 – voltado, inicialmente, para os escritos das décadas de 1980/1990 –, pensei que os meus arquivos literários e que as minhas resenhas haviam sido reunidas, na sua maior expressão, e que eu ia, finalmente, comemorar o fim da minha atividade de crítico literário.

Em janeiro de 2004, contudo, dei-me conta de que outros textos de diferentes épocas clamavam por serem reunidos em um novo volume. E foi assim que se organizou, em pouquíssimo tempo, um livro que me parece recortado por um afeto muito especial. Intitula-se Ensaios e Perfis, reúne 50 escorços literários e foi publicado com ilustrações de Wando Figueiredo.

Um ano antes desse janeiro a que me referi anteriormente, um documento de máxima importância para a minha obra se foi estruturando diante da minha visão de escritor, ainda que o seu termo final somente viesse a se fazer a 30 de junho de 2006, com recuos que vão de outubro de 2004 a janeiro de 2005. Trata-se de Bibliografia: Roteiro Para Pesquisadores, cuja edição definitiva circulou em maio de 2007.

Dois mil e quatro representou, também, o ano da estruturação de Ressonâncias e Alteridades – Fortuna Crítica Selecionada, cuja confecção e montagem do projeto arrastou-se pelos anos de 2005/2007, sendo finalmente publicado, em junho deste último ano, pela Editora Omni.

 Entre janeiro e junho de 2006, eu andava muito atarefado, preparando a edição de Sintaxe do Desejo, o meu mais importante livro de poemas, e no resto do tempo que sobrava, eu ia recolhendo, em uma outra pasta, os ensaios produzidos entre julho de 2004 e junho de 2006, o que resultou em um livro que muito me engrandece – A Letra e o Discurso.

  Em maio desse último ano, considerei que os meus arquivos estavam liquidados e prontos para o ritual do fogo e da renúncia. Chamei, então, os meus filhos e avisei para eles qual seria o fim das minhas referências, no plano da cultura, e eles, como sempre, concordaram comigo, pois reconheceram a minha lucidez em dar o destino que quisesse aos originais acerca da minha produção.

  Alguns dos meus livros (possivelmente a metade de tudo o que eu possuía), eles, Pablo e Diego, tinham recolhido com carinho, como lembrança, talvez, daquilo que queriam cultivar. E o restante de tudo quanto reuni, eu havia sido levado para longe ou doado a pessoas ou instituições com as quais eu mantinha relações.

 O casamento de mais de vinte anos tinha se partido e, na época, eu estava impregnado do mais puro sentimento de renúncia. Os procedimentos terapêuticos e a reordenação de todas as leituras do passado tinham recuperado a minha fé, e o meu pensamento, a seu turno, já se achava bastante transformado.

 Eu direcionava os meus passos em busca da solidão e do silêncio, aspirava aos louvores da quietude e da resignação e pensava em me recolher em uma concha e flutuar sobre as águas de um lago. O casulo que encontrei, no entanto, foi o regaço de uma bela mulher, cuja tatuagem mudaria o sentido de toda a minha vida. A ela uni-me pelos laços profundos do amor e, ainda que tocado por um gesto dessa natureza, continuei, como sempre, fiel à minha condição de escritor.

Contudo, quando me dei conta de que os meus arquivos da minha trajetória de artista seriam incinerados, uma dor intensa começou a pulsar em toda a extensão do meu ser. E uma crise moral e afetiva se abateu sobre mim de uma forma quase enigmática. E de jeito que pensei que o mundo fosse se findar.

As expressões do amor e do instinto, pela primeira vez em toda a minha vida, se foram arruinando diante dos meus olhos e se foi clarificando em mim o princípio que me aguça a ânsia de criar: o ritual do fogo e da renúncia, quando não queima até a exaustão, é porque ainda não estamos preparados para os desafios do ato de viver.

Transformei, então, a noite escura do meu ser em uma grande fogueira e me deixei levar pelos insights da dor e da paixão. E, a 20 de junho de 2006, da forma que eu havia planejado, consumou-se a incineração dos registros da minha vida de escritor. A esse momento, associei a minha mais sincera emoção, e a ele vinculei, também, o maior de todos os alívios.

Apesar de alguns amigos acharem que, por trás dessa minha decisão, escondia-se uma pulsão de morte do desejo, que me levaria para o vazio da minha identidade, sempre achei que no limite e na essência de tudo estão as grandes energias da vida e os prazeres que se revelam diante da renúncia.

E assim como não tenho receio de viver, também não tenho medo de errar. Basta olhar a vida de perto, para sentir o quanto ela é infinitamente bela e prazerosa e o quanto vale a pena desfrutá-la, quando podemos, é claro, conduzir o barco que Deus ancorou no firmamento.

A vida é um rio, indiscutivelmente. Viver é saber remar contra a maré. O perigo não está fora das prisões que escolhemos para viver ou sucumbir, mas no âmbito daquilo que guardamos e temos medo de partilhar até com quem escuta o nosso coração. 

 Creio, por outro lado, que não existe obstáculo que a Fé e a Esperança não possam remover, pois quem ama sabe que a vida sempre recomeça e que a morte é uma variável que podemos transpor ou superar, quando assumimos nossa imperfeição e decidimos preservar o patrimônio que edificamos em nossa trajetória.


Fortaleza,
Junho de 2007

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