terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Memento Para Alfredo Valente

                  Dimas Macedo



             Alfredo Valente é uma das mais envolventes figuras humanas que conheço. Tenho por ele uma afeição fraterna, uma admiração e um carinho que a cada dia mais e mais se adensam. 

       Sou, portanto, suspeito para falar acerca de virtudes ou defeitos que lhe possam ser atribuídos. E defeitos e virtudes ele certamente os tem, pois é humano, demasiadamente humano, e todo ente que se coloca diante do humano, para viver a graça e decidir acerca do destino, jamais pode negar suas imperfeições e a sua mais densa e nobre alteridade.

            Creio que não conheci Alfredo Valente tão-somente a partir de duas décadas atrás, numa turma de mestrado na UFC, pois acho que eu já o tinha no meu coração desde um tempo muito primitivo. Desde o tempo em que a verdade nos uniu pelos ideais da justiça e da fraternidade.

             Falo aqui em “ideais da justiça e da fraternidade”, mas não disse que não acreditamos na Justiça em si mesma, enquanto projeto social e convenção de juízes e legisladores.  


           É que em nós se estabeleceram liames, conversações e intenções que se voltam sempre para o próximo a partir de suposições do inefável e das linhas polidas do imponderável. Isto é: quanto mais fincamos no chão os nossos pés e as nossas objetivas do cotidiano (em busca da beleza da vida), mais em nós se tecem fios de cumplicidade a partir justamente de princípios e de forma que costuram as teias do silêncio.

            Alfredo é talvez mais luz para o mundo do que ele próprio imagina. E luz para mim, em primeiro lugar, que sou seu amigo e o admiro de uma forma cada vez mais franca e aberta, pois é sempre um prazer e uma graça os nossos reencontros na Vila de Jardim, no Porto do Fortim ou navegando pelas águas mansas do Rio Jaguaribe.

            Costumamos ancorar no Raimundinho para velejar num sonho. Para receber os vinhos que borbulham da nave do espírito, pois somos espirituais por atalhos que nos levam necessariamente a Deus e ao tecido de suas escrituras. Sabemos que religião é isso: transcendência e não embromação e que o fluir da vida é imanência. E fraternidade, por certo, no sentido do amor ao próximo. 

           Acho que Alfredo é o irmão que queremos ter e às vezes nunca conseguimos. É a fraternidade que nos leva ao leito da beleza. E por tudo que transmite a cada um de nós, pela opção de vida que se permitiu a si mesmo (e a todos nós que o admiramos), pairando a messe de seus olhos sobre as águas, talvez seja o texto que um dia teremos que pautar, pois o que nos toca em profusão é isto: ancorar uma nuvem nas areias móveis do deserto.

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