quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

As Aventuras do Professor Closeau



       Dimas Macedo


                                                                                               Tela de Ana Costalima

                O discurso erótico e a concretização da libido constituem um dos traços mais acentuados da cultura de todos os povos primitivos. Tanto no nascedouro do processo produtivo, quanto na fase ágrafa de expansão do culto do desejo, a ascese de nível corporal já demonstrava saber conciliar as aspirações do homo naturalis com os eflúvios da divindade e suas formas plurais de energia.

     A dimensão erótica, em todas as culturas primitivas, nunca se mostrou dissociada do sagrado, ainda que o céu e o cosmos e ainda que o éter e os astros, nos relatos da antropologia e de outras ciências correlatas, se mostrem como elementos integrantes dessa cosmologia erótica e planetária.

     O processo produtivo, a invenção do mundo do trabalho, a historicidade das relações sociais, a substituição do afeto (corporal e transcendente) pelo fetiche da mercadoria e pelas ilusões da mais-valia e do consumo indiscriminado, é que foram divinizando os objetos e substituindo os prazeres sagrados do erótico pelos processos de degradação e violência que tanto nos afetam a paz e a dignidade.

      E é por isso que os esforços para a restauração do erótico têm merecido tantos aplausos na modernidade, tanto por parte da psicanálise de orientação freudiana, que centra o seu ponto de apoio na liberação da libido reprimida, quanto na especulação de ordem literária, que aposta no discurso erótico como condução do fluxo narrativo em algumas vertentes da literatura, das quais Henry Miller e seus romances instigantes são representantes supremos.

      Os livros sagrados de todas as tradições religiosas, a eroticidade dos usos e costumes medievais e latinos, as culturas primitivas da América, as sodomias que marcaram a trajetória do Marquês de Sade, a filmografia dos grandes cineastas, as artes plásticas de tendência figurativa e neofigurativa e o mundo borbulhante das imagens torneadas de sedução e de beleza, que invadem, como nunca, o campo visual e auditivo, parecem nos trazer de volta a memória do erótico como o projeto de vida e esperança que nos cabe a cada minuto resguardar.

       As Aventuras do Professor Closeau (Fortaleza-Rio-São Paulo, Editora ABC, 2006), de Altere Aretino, é um desses livros que remarcam em cheio a tradição da eroticidade na cultura do Ocidente. Misto de ficção romanceada e ensaio crítico e erudito do naturalismo moral, este inventário de escritos sobre a vida e a obra de Jean Marie Pierre Closeau constitui um dos textos que se viram, de último, lançados no Brasil com imenso critério de justiça.

     Tal como Gandhi, Sócrates, Merton, Hermann Hesse ou Francisco de Assis, Closeau foi um apóstolo da compaixão e da bondade. Amante da filosofia, adepto do naturalismo e da liberdade dos sentimentos e impulsos que nos levam ao bosque dos prazeres e às seduções e fantasias do imaginário, Closeau nos toca com a sua mensagem de livre-pensador, esteta das esculturas de Apolo e dos desejos fesceninos mais imaginosos.

     Foi socrático, contudo, no sentido de uma prática discursiva que privilegia a inteligência dos seus discípulos e admiradores. Primeiro, em Paris e, depois, em Lyon e Toulouse, Closeau ensinou a teoria e a prática de uma certa didática do desejo, a partir de um empirismo que se pode dizer também aristotélico, pois via na relação causa/efeito de todos os ritos corporais o estágio último de realização da comunicação afetiva, o que foi contemplado, aliás com muita precisão, na versão brasileira dessa belíssima novela de costumes.

     O professor Closeau, como ensina o conteúdo maduro e profundamente humano desse livro, defendeu o predomínio da vida sensual reservada sobre a rigidez dos comportamentos histriônicos, a sobrevida das energias da libido sobre o psiquismo lógico dos raciocínios abstratos e, bem assim, o triunfo definitivo de Eros sobre as tentações terríveis de Tanatos. Foi um apologista dos prazeres do corpo (por mais elementares que fossem) em contraposição aos êxtases espirituais que tanto remarcaram certa tradição do sagrado. Via o corpo não como personificação de forças demoníacas, mas como o templo supremo da liberdade e da beleza.

     Em Closeau, a teoria e a prática se conciliavam de forma bastante harmônica e indistinta. O seu naturalismo ético, o seu anarquismo filosófico e a sua sede, sempre renovada, de formas e prazeres, levaram-no às práticas do frenesi e da satisfação orgiástica com um número sempre crescente de alunas, com as quais aprendeu e para as quais ensinou métodos antigos e modernos de satisfação sexual, quer pelas vias normais da relação sensual procriativa, quer pelas vias sodômicas e devassas que levam as energias do corpo até as vibrações maiores do espírito.

     A força das suas ideias e a sua prática sexual libertária, no circuito interno das Universidades ou fora do âmbito acadêmico da Europa, ganharam corpo em todos os quadrantes do planeta. A sua divulgação, porém, se fez um pouco atenuada no Brasil, onde a moral católica e ultraconservadora de direita tem bloqueado, há mais de um século, a difusão em cadeia da sua filosofia e do seu legado cultural.

     Em 2005, mais precisamente a 15 de outubro, decorreu o primeiro centenário de morte desse grande humanista francês. E enquanto a França reparou, em parte, a injustiça que o moralismo e a cultura livresca impuseram à sobrevida e à divulgação de suas ideias luminosas, o Brasil orgulha-se de ver publicado em Fortaleza esse livro pioneiro de Altere Aretino – As Aventuras do Professor Closeau.

     O autor desse instigante romance de costumes se esconde, infelizmente, sob um pseudônimo, pois não acha seguro que se divulgue abertamente o pensamento de Closeau. E dessa circunstância, é certo, faz o tradutor desse livro certa aura de mistério, que funciona para o leitor como uma segura técnica de romance, levando-o a duvidar se Altere é a) um alter ego de Closeau; b) o autor da versão primitiva do relato; c) o organizador da edição; d) ou ainda prefaciador do romance, quando da sua versão em língua portuguesa.

     Não importa. A publicação que ora se faz desse belíssimo livro na Terra de Iracema é comemorativa do primeiro centenário de morte de Closeau. Trata-se de edição bilíngue francês/português, onde o leitor pode cotejar a autenticidade dos ensinamentos do grande filósofo e literato de Paris, e saborear lances de naturalismo, de sodomias pansexuais e de compulsões prazerosas que esse livro revela.

     Pelas razões acima nominadas, não vou me deter no nome do autor. Mas como não posso desconhecer que o estilo é o homem, começo por apreciar a escrita e, por conseguinte, o estilo literário maduro que esse volume condensa. Detenho-me na sua linguagem literária de viés estético requintado e de criterioso acento polifônico: vozes por certo plúrimas de quem nesse livro faz do pensamento por imagens e do fluxo da narrativa descontinuada um dos grandes achados para veiculação da arte literária.

     Nesse livro de texto plural e instigante, o conteúdo da obra revela-se em pé de igualdade com a forma. E a glória de qualquer escritor que se preza, como sabemos, decorre justamente disso. Platão, príncipe maior dos ensaístas que pensaram com uma cabeça de filosofo, se fez arauto dessa modalidade de escrita. Assim também Montaigne. E Chamfort. E Chesterton. E todos os grandes moralistas. Impressionante, contudo, no caso desse livro, é a constatação de que a escrita se mostra toda ela carregada de eroticidade e se faz contra os princípios da moral e em defesa de uma estimulante estética do desejo. 

    E se assim não fosse, creio que não valeria recomendar a leitura desse livro. E nem caberia dizer que seu autor é uma grande vocação de escritor, que redescobre e revela uma nova técnica de romance, que renova o pensamento filosófico entre nós e que faz da erudição e do talento uma forma permanente de sedução e de beleza.

     Ainda que de forma passageira, esse livro lembra o poético Lolita de Nabokov, A Divina Relação do Corpo, de Alcides Pinto, ou ainda o polêmico Hieronymus Bosch em sua fase mais audaciosa. Não se trata de relato histórico, acredito. Trata-se de ficção e de memória. Memórias da liberalidade e das aventuras eróticas do autor. Lembra A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, mas nos remete, essencialmente, à eroticidade que refaz os caminhos do prazer. É ficção, por certo, presa aos encantos da verossimilhança e da modernidade que recria, a cada sentimento, a perfeição da arte literária.

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