quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Marxismo e Crítica Literária

            Dimas Macedo
 
 

                                                                                            Terry Eagleton


              Embora certas correntes teóricas, da tradição literária moderna, venham reclamando o engajamento do escritor nos conflitos e tendências políticas da sociedade; entendo particularmente que o compromisso maior do escritor é com a realidade. Enquanto agente de recriação da linguagem, do escritor não deve ser cobrado um posicionamento diante das posturas ideológicas instauradas no contexto social, senão que a sua obra venha a refletir, tanto quanto possível, uma coerência com o discurso que procura neutralizar as tensões resultantes da mutação das ideologias.

             A crítica literária, por seu turno, antes de buscar na obra do escritor os elementos que informam sua visão de mundo, nela deve perquirir os critérios da literariedade e os recortes da vida social que lhe são inerentes. Sem essas exigências, as formas de desleitura da realidade e dos contextos históricos não funcionam senão como canais vazios de significado, o que implica na interpretação deformada da obra literária, inclusive pelo próprio leitor. 

              E se assim ponho em discussão o questionamento do assunto, especialmente a recepção do texto – aí incluindo os seus valores culturais e linguísticos –, devo forçosamente admitir que, tanto a leitura quanto a escritura, são formas superiores de libertação e técnicas de aproximação da literatura com a dimensão do real, bem como que a crítica é o ajustamento dialético do texto ao significado literário que ele representa.

             Nesse contexto teórico, por conseguinte, não vejo outra forma de compreender a literatura, num primeiro momento, senão tomando como objeto de análise a sua identificação com a realidade, tal como esta se apresenta para a visão dialética do escritor e para o rigor metodológico do crítico, porém o crítico aqui entendido enquanto agente empreendedor de pronunciamentos opositivos, tendentes à consolidação de uma consciência literária militante e participativa.

            A partir dessa proposição doutrinária, portanto, os papéis do escritor e do crítico vão aos pouco assumindo uma nova configuração, inclinada à concepção de uma prática literária forjada sem as influências do aparelho ideológico superior, hibernado, como sabemos, no pântano da superestrutura social, ela própria, por consequência, modeladora de comportamentos e reprodutora de determinações. 

            Aliás, o conceito de determinação, assim como o de superestrutura, na formulação teórica marxista, sempre desfrutou de uma grande consideração, explicando-se a sua importância pelo fato de que nenhuma atividade sociocultural possui realidade e significação em si mesma, uma vez que os valores da cultura encontram-se reduzidos a uma expressão direta ou indiretamente ligada a um fator econômico ou a um conteúdo político determinados por uma circunstância que os precede e controla.

            É claro que quando faço esta afirmação não desconheço a posição assumida por Engels (1820-1895), quando, em setembro de 1890, num de seus escritos esparsos, segundo Raymond Williams (1921-1988), em Marxismo e Literatura (Rio, Zahar Editores, 1979), deixou escapar o seguinte: “segundo a concepção materialista da história, o elemento determinante final da história é a produção e a reprodução da vida real. Mais do que isso, nem Marx nem eu jamais afirmamos. Portanto, se alguém torce o que dissemos para afirmar que o elemento econômico é o único elemento determinante, transforma essa proposição numa frase sem sentido, abstrata, absurda. A situação econômica é a base, mas os vários elementos da superestrutura também exercem influência na determinação de sua forma”.

            Ainda no que tange à produção cultural, registre-se o fato de que, em 1857, Karl Marx (1818-1883) já havia observado que, “com relação à arte, sabe-se bem que alguns de seus momentos culminantes não correspondem ao desenvolvimento geral da sociedade, nem, portanto, à subestrutura material, ao esqueleto, por assim dizer, de sua organização”. (in Selected Writings, Londres, M. Press, 1963). 

          A produção literária, desta forma, nem sempre seria resultado da superestrutura social.  Os modelos concretos do real são os elementos que, no caso, nos compete de plano perquirir. No entanto, para pesquisar a ligação entre a produção cultural e a existência material, ainda segundo Marx, seria indispensável conceber a primeira em sua forma histórica determinada e não como uma categoria mais ampla e generalizante.

            Assim, a novidade teórica fundamental, capaz de levar o estudioso ao estabelecimento de parâmetros entre os enigmas da literariedade e os estigmas da existência material, seria o reconhecimento da literatura como uma categoria social e histórica especializada, metodologicamente separada de outros fenômenos sociais, ainda que inserida no universo de outros modos concretos de produção.

            A arte, como já nos ensinou Georg Lucáks, nos seus Ensaios Sobre Literatura (Rio, Civilização Brasileira, 2ª ed., 1968), tipifica, por meios figurativos, “os elementos e tendências da realidade que se repetem segundo leis regulares”, ainda que modificadas essas leis pela variação das circunstâncias. Mas em qualquer hipótese, para Georg Lucáks, faz-se preciso que a arte e, por conseguinte, que a literatura reflita a realidade, concretizando o realismo crítico através da metáfora do reflexo.  

            Jan Mukarovsky (1891-1975), citado por Raymond Williams (1979), assegura-nos que certos elementos materiais, dentro e fora da arte, condicionam determinados objetos que, “em virtude de sua organização, destinam-se a ter um efeito estético”. E essa circunstância, para ele, a propriedade essencial da arte. Mas a função estética, ainda segundo Mukarovsky, somente se manifestaria em certas condições, isto é, em certo contexto social.

            Não podemos nos esquecer, aqui, que a realidade social concreta esconde-se por trás de uma cortina de mentiras e falsificações, de forma que assim, gradativamente, a sua face vai se tornando invisível. E se ela não se concentra captada no espaço da obra literária, na forma das exigências de Milan Kundera (1929), em “O Escritor e a Realidade” (Fortaleza, Diário do Nordeste, 14.04.1985), ela termina aventurando-se a não ser reconhecida pelo leitor, que não tem mais o hábito de conviver com o concreto real.

            A falta de noção do real concreto ou do concreto real, para Milan Kundera, na fonte acima referida, “responde ao caráter cada vez mais abstrato da vida, que perde pouco a pouco a sua diversidade, que é cada vez menos marcada pelas características dos indivíduos e da sua criação”.

             E prossegue Kundera: “nesta situação, o papel da literatura me parece difícil, porém ainda mais importante”. A literatura, pela sua essência, seria, para Milan Kundera, a escola do concreto real. Seria ela “a expressão de um indivíduo e de uma imaginação inimitável”, porém um indivíduo mergulhado num profundo combate contra as coisificações da existência material.

             Para libertar a literatura desse processo de escamoteação do real, faz-se preciso que o crítico esteja consciente de que o exercício de sua atividade de decodificador de linguagens está subordinado à compreensão de que a obra literária, assim como o autor e o leitor encontram-se inseridos no espaço do contexto social, que é o locus onde se forja um processo ainda mais amplo de produção e de reprodução de práticas sociais.

           Contudo, para que se possa compreender a função do crítico dentro de um quadro de exigências rigorosamente marxistas, torna-se imperativo que, preliminarmente, entendamos que a crítica literária de coloração marxista se mantém a partir de determinados conceitos sem a presença dos quais o seu objeto de especulação vai aos poucos se tornando enfadonho. Os conceitos de linguagem, história, engajamento e ideologia são, dentre outros, de importância gradativamente fundamental.

            A linguagem, para Raymond Williams (1979), “não seria apenas um meio”, mas, pelo contrário, “um elemento constitutivo da prática social material”, podendo, portanto, servir a determinadas formas de manipulação, em detrimento da explicitação da realidade social que se busca efetivamente problematizar.

            Já no que tange ao conceito de história, me vejo obrigado a concordar com Octavio Paz (1914-1998), para quem a história, efetivamente, “tem a realidade atroz de um pesadelo”, sendo daí extraída a lição de que “a grandeza do homem consiste em fazer obras belas e duráveis com a substância real deste pesadelo em visão”, isto na forma em tema se encontra problematizado em O Labirinto da Solidão (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1976).

            Ainda com relação ao assunto, não seria prudente desprezar a advertência de Tarso Fernando Genro (1947), expressa no seu livro Literatura e Ideologia (Curitiba, Edições Criar, 1982). Para Tarso Genro, “a busca de um sentido para a realidade, ainda que mágico, desde que desconforme e combativo, é mais importante do que a compreensão mal assimilada de uma teoria da história”.   
    
            A busca de sentido para o real torna-se importante, inclusive, na proporção em que questiona a chamada literatura tendenciosa, modeladora do conceito de engajamento. Engels, em outubro de 1851, já se mostrava preocupado com o assunto, sobre o qual, segundo S. Baxandal e S. Morawski (Max-Engels on Literature and Art, St. Louis, 1973), deixou registrado o seguinte: “torna-se cada vez mais um hábito, particularmente dos tipos inferiores de literati, compensar a falta de inteligência de suas produções com alusões políticas que certamente atraem a atenção, mas parecem nada dizer”.

            Na verdade, como assegura Raymond Williams (1979), a crítica à literatura tendenciosa não é um argumento contra o compromisso, mas, pelo contrário, um compromisso em favor da realidade. E adiante esclarece esse pesquisador: “a controvérsia sobre o compromisso não poderia, é claro, continuar nesse nível geral. Ela se tornou ativa, em várias situações sociais e históricas diferentes, quando o compromisso tornou-se prático e mesmo programático. Assim, os argumentos de Sartre em favor dele, nas condições específicas da Europa do pós-guerra, baseavam-se numa convicção de sua inevitabilidade”. 

             Não estou afirmando, aqui, que o problema da ideologia ou da vanguarda constitui uma categoria da literatura, nem que a materialidade modela o sentido estético da obra literária. A poética da experiência, assim como os recortes temáticos que lhe são correlatos nada mais ostenta do que reflexos concretos da realidade, sujeitos à ideologia da dependência, no terreno específico da cultura.

            O que se verifica no campo do engajamento, grosso modo, é que a literatura encontra-se comprometida com a ideologia, tanto no sentido da “totalização da cultura de uma época”, quanto no processo de “conscientização das lutas políticas de uma classe”. Em Literatura e Ideologia (Petrópolis, Vozes, 1979), Pedro Lyra (1945) acredita que as coisas acontecem, no primeiro caso, porque a literatura integra, enquanto arte, “as manifestações superestruturais de qualquer agrupamento civilizado”; e, num segundo momento, porque “as manifestações culturais do mundo contemporâneo, inclusive a religião, se envolveram no repto lançado pelo socialismo”, assumindo assim o seu cariz ideológico e burguês.

            Invocando aqui mais uma vez o pensamento de Milan Kundera, sou levado também a constatar que o escritor de hoje, por ser um agente social consciente e empreendedor, sem querer toma conhecimento das carências de que se ressente o mundo e, por isto mesmo, frequentemente as transfere para a sua atividade de escritor. “Ele se sente isolado da realidade e, nesta condição, conhece apenas um remédio: engajar-se. Transformar uma obra literária em um meio de luta organizada. Mas é um falso remédio. A literatura engajada, na medida em que isto significa a submissão a uma ideologia, a um programa político, é um modo mais seguro de escamotear a realidade concreta”.

            E assim o grande romancista tcheco conclui a sua intervenção acerca do engajamento na literatura: “o escritor só pode enfrentar a realidade sozinho, mobilizando toda originalidade de sua individualidade concreta. Se meus amigos e eu lutamos contra a opressão ideológica em nosso país, não era para criar uma literatura engajada na luta política da dissidência, mas para defender a independência da literatura. Pois é apenas assim que a literatura pode assegurar sua função social e ser útil ao homem de hoje, o homem cujo caráter tridimensional está a ponto de ser apagado pela manipulação social e pelas mistificações ideológicas cada vez mais poderosas”.

            As mistificações ideológicas, de que nos fala Kundera, correspondem não somente ao conceito de ideologia, enquanto teoria das representações, mas igualmente às simplificações tendenciosas da crítica literária tradicional. Tarso Genro (1982) igualmente questiona o trato do assunto a partir desta proposição: “a crítica literária, de uma forma geral, também é reflexo da conjuntura socialmente necessária, pois ela pretende ser o crivo histórico imediato de julgamento da literatura, seja em prosa, seja em poesia. A sua forma mais decadente é aquela crítica travestida, que existe não para promover a verdadeira literatura antifetichista, de ligação da subjetividade com a objetividade social, mas existe precisamente para aprofundar a fetichização da realidade e mistificar os objetivos da obra literária, tendo por critério verdadeiramente humano o mundo ideológico mesquinho da pequena burguesia”.

           E adiante, na fonte atrás mencionada, prossegue Tarso Genro, garantindo-nos que na crítica literária contemporânea, de forma sistemática, “percebe-se certas recomendações de natureza pessoal, de como iniciar ou terminar um conto ou um poema, sem qualquer referência à possível radicalidade da obra em relação à sua temática, ao sentido histórico, às suas relações com a conjuntura política e ideológica, ao seu processo de reprodução e finalmente à posição desta produção artística referente ao movimento histórico”. 

            Esse pronunciamento de Genro, por ser instigante, convida-nos ao exercício várias reflexões. Da sua tessitura discursiva, entretanto, extraio a alusão ao contexto ideológico e ao sentido histórico e cultural, como forma de aprofundar a discussão em torno do relacionamento entre marxismo e crítica literária.

          A crítica literária de inspiração marxista parte de um ponto de vista filosófico, metodologicamente problematizado e minuciosamente questionador, o qual radica o seu núcleo nas categorias do materialismo histórico e dialético, perquirindo as raízes do fenômeno literário a partir das suas mais profundas manifestações; ou, melhor dizendo, a crítica literária de configuração marxista compreende e empreende uma abordagem do fenômeno literário a partir das exigências do sistema histórico-filosófico que a fundamenta.

            Karl Marx não se preocupou propriamente com a elaboração de uma metodologia crítica destinada à avaliação da literatura, mesmo porque a sua formulação teórica, pela sua abrangência e contextura, sempre se prestou ao exame da totalidade da organização social. Na sua obra, como na de Engels, o que existem são passagens esporádicas e de circunstância (Marx-Engels: Sobre Literatura e Arte, São Paulo, 1986), as quais têm sido objeto das mais controvertidas preocupações, sem que nesse exercício de interpretações discordantes se tenha chegado a uma conclusão lógica fundamental.

            Ao filósofo e escritor húngaro Georg Lucáks (1885-1971), é que coube a primeira tentativa, verdadeiramente louvável, de acostar à crítica literária tradicional a metodologia de interpretação dialética e de inspiração marxista, investindo assim contra as categorias da crítica literária tradicional, com vistas à sistematização de uma teoria literária a partir de um ponto de vista histórico e materialista.

            Especificamente para Georg Lucáks, na fonte referida (1968), “uma tese fundamental do materialismo dialético sustenta que qualquer tomada de consciência do mundo exterior não é outra coisa senão o reflexo da realidade”. E também para ele, “a meta de quase todos os grandes escritores foi a reprodução artística da realidade: a fidelidade ao real, o esforço apaixonado para reproduzi-lo na sua integridade e totalidade, tem sido para todo grande escritor o verdadeiro critério de grandeza literária”.

            Com essas colocações, esclareça-se, outra coisa não faz Georg Lucáks senão teorizar exatamente a chamada metáfora do reflexo, que é, na sua concepção, justamente o ponto crítico do processo de justificação de uma crítica literária de inspiração marxista, a qual ancora o seu objeto no binômio: realidade versus literariedade, núcleo constitutivo da criação literária de formulação dialética.

            É que a crítica literária marxista, como quer Manuel Antônio de Castro (1941), em O Acontecer Poético (Rio, Editora Antares, 2ª ed., 1982), “formula o realismo crítico ou a teoria do reflexo”. E assim justifica o autor a sua proposição: “quando a crítica pergunta pelas condições de possibilidade do fenômeno literário, a crítica literária marxista, de acordo com o sistema filosófico-histórico de Marx, vai localizá-las no homem enquanto produz e reproduz a sua vida, enquanto a conserva e desenvolve”. 

              Por tudo isto, e considerando ainda as contribuições de Lucien Goldmann (1913-1970), Leon Trotsky (1879-1940) e Antônio Gramsci (1891-1937), no plano da literatura comparada; e de Fábio Lucas (1931) Antônio Cândido (1918) e Carlos Nelson Coutinho (1943-2012), no Brasil, é que me sinto pouco motivado a aceitar algumas conclusões de Terry Eagleton (1943) expressas no seu livro Marxismo e Crítica Literária (São Paulo: Unesp, 2011). 

              Apoiando-se em posições teóricas insuspeitas, mas simplificando o enunciado de suas conclusões, o autor de Marxismo e Crítica Literária termina oferecendo ao leitor vários caminhos por onde transitar, mas nenhuma perspectiva teórica segura por onde possa sair.  Ele não deixa transparecer no seu texto, por exemplo, que uma das preocupações fundamentais do escritor deveria ser o seu envolvimento com a transfiguração do real.

               Sei que Terry Eagleton é um pensador ambicioso. Os seus livros: Teoria da Literatura: Uma Introdução (São Paulo, Martins Fontes, 1985) e A Função da Crítica, publicado este último em 1984 e depois traduzido no Brasil (São Paulo, Martins Fontes, 1991), constituem reflexões poderosas sobre o destino da literatura e o desafio que ela terá que vencer tendo em vista o dilaceramento da arte e a sua fragmentação numa sociedade reificada e cada vez mais corrompida em suas deliberações de pensamento e de vontade.

             Isso, contudo, não anula as primeiras formulações teóricas de Eagleton, expressas em Marxismo e Crítica Literária; registrando-se aqui que esse ilustre crítico da cultura superou a si próprio numa circunstância: produziu uma obra qualitativamente maior na maturidade. E amadurecer, sendo-se um pensador de vanguarda, é tudo o que a reflexão filosófica precisa para resguardar a alteridade e a esperança como fundamentos de toda a noção da dialética: a que vem de Hegel (1770-1831), fundamentalmente, e aquela que Marx (1818-1883) intuiu para explicar a tradição moderna.

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