quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Notas à História Política de Lavras nas Páginas de O Araripe



        João Tavares Calixto Júnior








      O Jornalismo no interior da Província do Ceará surgiu com a publicação, na metade do decênio de 1850, do impresso O Araripe (1855-1864)jornal de cunho liberal de grande notoriedade, redigido e publicado por João Brígido dos Santos, político e jornalista de ampla atuação. Segundo Nobre (2006), é considerado, até hoje, uma das maiores expressões da referida atividade no Brasil, superando qualquer outro jornal cearense.

  Através das páginas de O Araripe, Brígido escreveu e publicou também documentos e apontamentos sobre fatos do passado, artigos sobre os homens e episódios ocorridos na zona meridional do Ceará (ALVES, 2010). Dentre os fatos, alguns passados em Lavras da Mangabeira, à época, Vila das Lavras, mentoreada já pelo clã dos Augustos, hegemonia que perdurou por cerca de um século. 

  Ressaltemos aqui, sem prolegômenos, o que noticia o periódico cratense em 1857 (nº 37, p. 3), acerca de persistente querela entre o então Vigário Colado de Lavras, Padre Luis Antônio Marques da Silva Guimarães (Padre Luis do Calabaço), e o então Delegado de Polícia local, Ildefonso Correia Lima, em nota publicada a pedido do Sacerdote, endereçada ao Presidente da Província:

Não podendo eu soffrer a persiguição atrós, que me fez o delegado dessa Villa, Ildefonso Correia Lima, vou queixar-me a V. Exc. e o motivo passo a expôr. Não merecendo eu as simpathias desta authoridade, pelo simples facto de pertencer á opposição, tem este persiguido meos moradores com recrutamento, mandando escoltar os casados, que vivem em vida marital, os filhos unicos de lavradores, que tem isenção da lei, só com o fim de saciar odio, que contra mim tem, e muito mais aquelles que commigo votarão, dando isto lugar, Exm. Sr., a que andem foragidos pelo matto os meos trabalhadores, soffrendo assim a agricultura. V. Exc. conhece mui bem quanto esta industria tem deminuido com a falta dos escravos, e que indispensavelmente se fasem precisos braços livres, principalmente a mim, que trabalho em quatro sitios differentes, em cada um dos quaes já tenho engenho de moer canas, esforço este bastante pesado; e vivendo eu Exm. Sr. com meos moradores persiguidos da policia, que lucro tirarei e elles para manterem suas familias e pagar de disimo 300$ a 400$ rs. annuaes?
Exm. Sr. a vida sedentaria, em que era occupado, como vigario desta freguesia, me tendo feito adquerir a molestia Diabetis, fui aconselhado pelos medicos a que viesse para o campo, afim de transpirar com o trabalho, e com licença do Rd. Visitador me acho no sítio Calabaça legoa e meia da Villa, onde me é preciso ter por meos moradores homens, que usão do trabalho ex vi de que tenho nelle um engenho alem dos tres outros ja mencionados, e nestas circustancias a policia só acha a elles para seos desabafos, mandando um individuo de nome João Francisco, meo desafecto cercar as suas casas à meia noite abrindo portas e entrando pelo interior das casas allumiando-as com fachos pelos quartos e assoalhos, que os camponeses costumão faser em suas cabanas para deposito de seos legumes: não respeitando mesmo as famílias em seos agasalhos, como as senhoras de casa e suas filhinhas môças. Entretanto a nada se move essa authoridade não respeitando nem a lei, que prohibe correr casas à noite, nem o sagrado das famílias.
Por tanto Exm. Sr., imploro a V. Exc. dê remedio a essas persiguições com que desde março não cessão de me faser todo o mal. Tudo provarei, se necessario for. Deos Guarde & ampare. Engenho Calabaça, 26 de Janeiro de 1857. Illm. e Exm. Sr. Dr. Francisco Chavier Paes Barreto, Presidente da Província. O Vigário Luis Antônio Marques da Silva Guimarães.        
     
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      Frisemos, por ser relevante, a exposição do motivo alegado pelo Sacerdote Paraibano em residir no sítio Calabaço: indicação médica de se "exercitar na roça", por ser vítima de diabetes. É verdadeiro, porém, que o levita residiu por muito tempo em um sobrado ainda hoje existente próximo à confluência do Riacho das Emas com o Riacho do Rosário, nas férteis terras de São Vicente das Lavras, onde desfrutou de vida marital, e foi pai de cinco filhos, o que consta nos autos de seu testamento. Poderia ter sido este, portanto, um motivo mais "intenso" de se morar no Calabaço e não na Casa Paroquial na sede da Vila das Lavras.

    Podiam-se constatar em outros noticiários da época, evidências sobre as pendengas políticas entre o Padre e o então delegado de Lavras, Ildefonso Correia Lima, um colecionador de adversários e esposo da lendária Fideralina Augusto Lima. Admitindo-se o predito, atentemos ao que comenta O Araripe sobre correspondência redigida por "O Lavrense", em 12 de janeiro de 1857, enviada ao redator do jornal caririense:

Me é preciso diser-lhe que não tinha vistas algumas de occupar as paginas de seu conceituado jornal, e a rasão puderosa e forte para assim o faser é minha fraca e limitada intelligencia; porem, sr. Redactor, chegando me ás mãos uma folha do Pedro 2º cujo numero ignoro (que um meu amigo fes me o especial favor de mandar me) vi um (ilegível) em título de correspondencia sem nenhum estilo, sem encadiamento de ideias, com erros de Retorica, Grammatica, e Orthografia; em fim obra que mostra evidentemente quem seja o seu dono - sendo a sua epigrafe um dos membros da família Favella. Antes pois de entrar na analyse dos factos da correspondencia desse Favella é da mais estreita precisão declarar ao publico sensato quem foi este Favella e quem é a sua decendencia. Esse herói foi um pobre matuto, q' morava no Riacho do Machado, alli vivia lutando com a fome com a miseria, e com a nudez, o Major João Carlos Augusto compadecendo-se delle chamou-o para esta Villa e obteve para elle o lugar de Delegado, o qual não soube desempenhar, porque a sua vida publica foi uma serie de corrupção não interrompida.
Pela morte desse Delegado succedeu seu Sobrinho Ildefonso Correia Lima: este matuto não só aqui como na Cidade de Icó serve de espetaculo publico pelos seus continuados desfrutes, é um individuo bastante pobre, e dis que está muito bem, que tem muitos contos de reis, e com toda esta fortuna colossal apenas toma no Icó, a credito, um conto e poucos mil reis. Se elle não tivesse casado com uma filha do Major João Carlos estaria redusido a sua triste condição de 1848 - 1849, que era vender nos sambas garrafinhas de aguardente enfiadas estas na ponta de uma tualha. Chega a tal o estado de sua desmoralisação neste lugar, que um negro desta Villa de nome José Branco contou-o na folha chamando-o mentiroso. É pois a um homem destes que o Governo encarrega de grande puder de prender e processar. Temos mais aqui um membro da família Favella, o qual é Sub-delegado , e muitissimo conhecido pelo Vicente Burundanga, este espoleta tem sido muitas veses sensurado no Cearense e as qualidades que o cercam são a crapula, a devassidão, a corrupção, a trapaça, a manha e a velhacaria. Agora passo a responder os factos da correspondencia desse Favella. Diz elle que nesta Villa tem quatro chimangos sem familia, sem prestigios, e sem fortuna, um deste é o Tenente Coronel José Joaquim da Silva Brasil, cidadão muitissimo respeitável, bem conhecido nesta Província nascido no Icó, e filho legítimo de paes ilustres e que tem prestado relevantes serviços no estado nas commoções políticas, como fosse em 17, 21, e 32, e tem occupado alem disto os empregos mais vantajosos no município em que mora, cujos empregos tem sabido desempenhar com toda honradêz, e dignidade e bastante actividade; o segundo de que trata-se, é o ajudante  José de Sousa Mattos, este benemerito cidadão é muitissimo conhecido nesta província pelos seus precedentes honrosos, dedicou-se a carreira militar, prestou bastantes serviços a Patria e ao Estado. O terceiro é o Vigario collado desta Freguesia Luis Antônio Marques da Silva Guimarães, homem este bastante rico e de uma posição elevada, a sua família é uma das primeiras da província da Parahyba, os seus manos o Vigário José Antônio, e o Dr. Açanã, passão por uma das illustrações daquella província. O quarto que menciona-se que é filho do Rio do Peixe e que é bem conhecido pela sua família do Umary, esta pessoa responde-vos que não o enxerga, e nem o ouve, e que só se lembra deste membro Favella, assim como lembra dos porcos quando os incontra na rua; que para não o imporcalhar da-lhe com os saltos dos botins nas ventas. São estes infelises e manivellas que tem a coragem de quererem menoscabar a reputação de homens que tem sabido adquirir em tempos e epochas em que o espírito da corrupção se tem mais estendido. Não quero ser mais infadonho aos meus leitores e por isto quero findar esta no firme propósito de não dar o menor cavaco a estes desgraçados, o que se agora faço foi em satisfação ao publico, pois acosto-me a maxima do Marquês de Maricá, - quem disputa com a canalha fica a nível  com ella. Tenha pois a bondade de inserir estas linhas que são de seu constante leitor. O Lavrense.

     Enfatizemos o que comenta O Cearense de 4 de abril de 1856 (p. 4), no quadro Notícias da Província, acerca do famigerado Padre Luis Antônio Marques, figura emblemática dessa fase provinciana regional: “O vigário de Lavras o revd. Luis Antônio Marques da Silva Guimarães acaba de ser insultado em sua própria matriz por uma sedição promovida pela autoridades policiais, tirando-lhe a chave da matriz, e passando a outro sacerdote, a quem investirão de jurisdição paroquial” (CALIXTO JÚNIOR, 2012).

     Como visto, eram frequentes as notícias e acusações por divergências políticas nas edições dos jornais regionais, sobretudo no liberal O Araripe. Para Alves (2010), tornou-se perceptível, em vários números do periódico cratense, o cuidado em rebater as ofensas feitas pelos políticos de cunho conservador através de outro jornal regional, a Gazeta do Cariri, bem assim como o de publicar em seus números (O Araripe) insultos e comentários sobre os artigos publicados pelos oponentes. 

     Desta forma, os jornais haviam se tornado espaços em que os políticos não apenas discutiam seus projetos, já que se acusavam mutuamente e expunham, naquele meio, as respectivas representações acerca da índole e dos comportamentos particulares de personagens que, por condescendência, a própria história fez questão de omitir.

Referências:

ALVES, Maria Daniele. Desejos de Civilização: Representações Liberais no Jornal O Araripe (1855-1864)Dissertação de Mestrado em História e Cultura. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará, 2010.
CALIXTO JÚNIOR, João TavaresVenda Grande d'Aurora. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2012.
NOBRE, Geraldo. Introdução à História do Jornalismo Cearense. Fortaleza: Edições NUDOC (Departamento de História – UFC), 2006.

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