segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A Reforma Política do Brasil


                  Dimas Macedo

  

                                                                       Tela de Ana Costalima


              Entre as mazelas que vem ocupando a vida política brasileira, tem sido objeto de destaque a proposta de reforma política do Brasil, que teria o fito de conter as reivindicações populares pela melhoria dos serviços públicos e a sua insatisfação contra a corrupção que mina os poderes da República.

              Contraditoriamente instalada no Brasil, em 1889, por um autêntico golpe de Estado, desfechado por uma elite autoritária e ansiosa por influir no aparelho do Poder, a forma republicana que nos serve de modelo tem sido, infelizmente, balcão de despachos de uns poucos em detrimento dos grandes interesses da nação. 

               Basta a rememoração desse episódio – o do Golpe de Estado que criou a forma republicana de governo –  para que possamos vislumbrar que tipo de República a nossa elite política nos legou, representando um jogo de trapaças que modelou o tecido político do Brasil.

               Refiro-me a um modelo de República que se fez domínio de uns poucos, mas que se travestiu, em certos momentos da história, para se tornar mais sedutora, vestindo de retórica a sua pregação do “tudo pelo social”, e do quase nada de políticas públicas efetivas em proveito da população.

                Não me parece justo, assim, fazer a louvação do nosso modelo de República que, conceitualmente falando, jamais existiu entre nós; que, se existiu, serviu unicamente à classe social que se abrigou debaixo das asas do poder, que descurou as necessidades do povo em proveito das suas bases de sustentação, alimentadas e sistematicamente corrompidas pelo capital.

                Sabemos e não podemos deslembrar o quanto é importante para um povo participar do seu processo de politização, o quanto é salutar e exitoso para um povo se debruçar por sobre a história palpitante das suas tradições e lutar pela superação das suas crises institucionais. 

                O povo brasileiro, no entanto, sangrado e ressangrado no seu projeto de participação, reprimido e controlado: quer pela violência militarizada que, durante muitos anos, sustentou as rédeas do poder; quer pelo discurso burocrático que inibe o avanço da Administração, ainda não se sente à vontade para acreditar nos seus representantes.

                 De coisa pública, com certeza, no Brasil não se pode falar: quer acerca da postura que forjou o nosso modelo do Estado; quer no pertinente à nossa sociedade civil, repartida entre um segmento que apregoa a mudança, mas pouco faz para sua concretização; e uma facção parasitária que idolatra as elites e teme as mudanças com medo de enfrentar a seriedade de propósitos que a corrupção privada e o clássico jeitinho brasileiro lhe ensinaram a combater.

               Assim sendo, sem a consciência política da nação, talvez ainda não fosse razoável pensar num projeto que pudesse dar ao Estado brasileiro um desempenho público respeitável e uma máquina administrativa despida da inércia e da corrupção, capaz de tender às exigências das novas demandas sociais.

               Advogo que o povo brasileiro possa se manifestar sobre as nossas crises pontuais, mas espero, sempre, que essa forma de manifestação passe pelo sentimento íntimo da nação; e que o despertar da nossa consciência política possa pensar na transformação dos nossos valores culturais, consorciados esses novos paradigmas com um novo projeto social.

               O significado, pois, das sucessivas crises da República reside em que possamos olhar com ceticismo para o nosso sistema partidário e para as mazelas da nossa desventura institucional, examinando, também, os arquétipos da nossa depressão social, para que possamos, assim, indagar até que ponto o Brasil é uma monarquia presidencial, que desrespeita a Constituição ou, por outro lado, uma via tortuosa da cidadania que insiste a cada passo em se legitimar.

Um comentário:

  1. Assino embaixo esta postagem. E muito embora com o desânimo de quem se vê obrigado (de certo modo) a descrer da "utopia" de um bom governo brasileiro, isto é, justo e eficaz.
    Este círculo vicioso de corrupção/conformismo infelizmente atingiu a grande massa desde o cerne, de modo que não se faz uma verdadeira revolução política (não só reforma) com só algumas centenas de cabeças pensantes; que, em geral, tende a protestar entre iguais. A solução é a "moda": o poder de sugestão, de influência; como vinha de ocorrer neste breve intervalo de tempo em que o patriotismo, de fato, inflamou no coração de nosso povo.
    Esperamos que esta "moda" volte, pegue, fique, e que não mais de espaço às demais.

    Abraços.

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