sexta-feira, 5 de julho de 2013

A Chave do Mistério


                       Enéas Athanázio


                                                                             Escultura de Ana Costalima

                       Dimas Macedo, doublé de jurista e escritor, escreve como poucos e sabe prender o leitor. Tenho lido com prazer muitos dos seus textos e acabo de me deliciar com – A Face do Enigma (Fortaleza, Imprece, 2012), segunda edição da biografia e análise da obra de José Alcides Pinto (1923-2008), uma das figuras mais inteligentes e pitorescas do mundo literário.

             Sei de experiência própria o quanto é difícil o gênero biográfico, dificuldade que se agrava quando se trata de uma personalidade tão complexa como a do biografado, ainda por cima autor de uma obra vasta e diversificada, que se espraia pela poesia, o romance, o conto, a novela, o ensaio, a crítica literária e os textos variados a que denominou miscelânea.

           Parece não haver gênero que permaneceu alheio à curiosidade e à inquietação intelectual de José Alcides Pinto. Cuja vida, por sinal, já constitui uma autêntica peça literária. Mas Dimas Macedo enfrentou e superou todos esses entraves, penetrou no mar de letras produzidas pelo seu biografado e compôs um texto delicioso, leve e repleto de informações.

          Nascido nas brenhas do interior cearense, José Alcides Pinto teve a infância típica dos meninos do sertão. Perambulava pelos campos e pelas estradas, sonhava, inventava maneiras de enganar a monotonia. Já deveria estar inoculado pelo carnegão literário, eis que as letras parecem ter predileção pelos garotos das pequenas vilas.

              Graças a um protetor, andou por muitos rincões e acabou em Fortaleza, a capital, onde já escrevia para a imprensa. Depois, tomado pelo ímpeto ambulatório, viajou para o Rio de Janeiro, fazendo uma prolongada escala no Recife. Ali se envolveu em manifestações socialistas e provou a cadeia, iniciando uma série de detenções por razões ideológicas. 

              Naquele meio efervescente, lançou-se à campanha de Yedo Fiúza, candidato das esquerdas à presidência da República, fazendo, por outro lado, contatos com escritores importantes, como Gilberto Freire e Mauro Mota. A paixão pelo jornalismo e pela literatura, no entanto, o salvou da política e o período recifense foi significativo para a sua formação intelectual.

              Já no Rio de Janeiro, entregou-se a mil atividades e teve toda sorte de experiências. Uma vida de gangorra, ora abrigado o escritor sob um teto seguro, ora dormindo ao relento em bancos de praças públicas. Mesmo assim, José Alcides Pinto estudou, ingressou no serviço público e retornou a Fortaleza como funcionário público federal. Mais tarde abandonaria o cargo para se tornar fazendeiro, entregando-se à administração da fazenda – Terras do Dragão.

               Mas o interessante ainda é que o ardoroso socialista da juventude se tornou um místico e passou a envergar, do dia para a noite e até o fim da vida, o hábito religioso dos franciscanos. Com esse hábito, JAP passou a desfilar “pelos espaços públicos de Fortaleza e Santana do Acaraú, aprofundando-se também na mística de Santa Teresa d’ Ávila e São João da Cruz e adotando a oração e a renúncia como norma de vida”, como escreveu o autor.

              Quanto à obra, parece inexistir caminho por onde sua inquietação não o tenha levado. Foi pioneiro e mentor do concretismo, mas também produziu poemas nos moldes tradicionais. Foi vanguardista e experimental. Publicou variados gêneros com criatividade incomum e produziu em quantidade sem jamais perder a qualidade.

             “Seria muito difícil ao crítico acompanhar a trajetória desse escritor multifacetado, cuja escritura abrange quase todos os gêneros literários”, ainda porque, “a literatura é o pano de fundi de sua própria existência, isto é, a arte literária em estado de realização humana e de mistério”, como bem afirmou Dimas Macedo. Ou como disse Gilberto Amado: “concretismo, pós-surrealismo, qualquer que seja o rótulo, seus poemas rápidos, intensos, são poesia ressonante, reveladora do seu talento admirável”.

                Em síntese, José Alcides Pinto viveu com a intensidade a vida de escritor e legou uma obra vasta e admirável. Com imenso trabalho e dedicação invulgar, Dimas Macedo realizou um excelente serviço para divulgar e preservar sua memória de JAP, e forneceu a chave para desvendar o mistério de sua obra.

                                                                                   in Jornal Página 3.
                                                                          Balneário de Camboriú (SC), 04.05.2013.

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