quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Ubiratan Aguiar: Fragmentos da Vida

             Dimas Macedo 

                                                    
                  Manoel de Barros, o poeta maior do Pantanal, revolucionou o jeito de fazer poesia no Brasil. A estalagem das folhas, o zumbido das abelhas, os troços e teréns que deparamos ao alcance dos olhos, e as coisas sem sentido da vida passaram para o lugar do desejo na imaginação do grande poeta brasileiro.

O seu modo de fazer a previsão do poema juntou-se ao dialeto algo geométrico de Cabral, abrindo assim uma porta para a poesia seminal de todas as idades, de forma que não mais precisamos da gramática da poesia moderna para medir aquilo que se faz de novo do lado de cá dos Pirineus.

A esse postulado, creio que podemos vincular a poesia de Ubiratan Aguiar, que sabe viver a liberdade do verso que lhe sai do batimento cardíaco e que lhe deixa os olhos marejados.

A nada se pretende, enquanto escritor, o poeta Ubiratan Aguiar. E a tudo ele aspira ao fragmento da vida e à comunhão madura da palavra. É na emoção que ele se enternece de forma soberana. E é na partilha do ser em movimento que ele se entrega, carregando consigo a estesia de fundir a letra com a música.

Seus poemas têm sido interpretados por nomes expressivos da Música Popular Brasileira. E não seria pouco dizer que ele é autor de meia dúzia de CDs, e dos seguintes livros de poemas: Idioma dos Pássaros (2003), Passageiro do Tempo (2005) e Versos da Vida (2007), aos quais se soma este Tropel do Tempo (São Paulo, Editora Elevação, 2011), que é o coroamento da sua trajetória lírica, da sua inquietude melódica e da sua escansão paradigmática.

Ubiratan é um dos melhores seres humanos que conheço: ético, disciplinado, polido e insurgente. Correto com o seu estilo de lutar pelo novo, de defender a Ética e a Justiça, de insistir na causa da cultura e de reconhecer a autonomia daqueles que estão no entorno.

Poeta ele o é, como já afirmei em outro momento deste texto. E poeta dos bons, para quem tiver ouvidos para ouvir. É dizer a palavra poética ou morrer. É dizer a sua solução poética para quem o quiser escutar, porque voo livre ele o tem, porque a liberdade do seu texto é a sua grande expressão.

Tropel do Tempo é um livro uno e plural a um só tempo. Uno e singular, é certo, antes de ser também universal, porque incita e muito nos enleva a escritura secreta do desejo e o arroio sublime da revolta.

O farfalhar das folhas, a brisa dormente das auroras, o sussurro melódico dos amantes e o sertão sublime da memória se juntam, com acerto, em seu universo criativo, em harmonia de sinos e em melodia de luzes e de alteridades.

Não sei o que dizer a respeito deste seu novo livro. E o que me ocorre pensar é convocar a sinfonia cósmica que nos une. Tê-lo como irmão é o que basta. E ler a sua produção poética é o que fica na nossa forma serena de dizer e de ouvir as vozes do desejo.

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