domingo, 15 de julho de 2012

Utopia e Manifesto

 
Dimas Macedo
 
 
 
       
           Uma das teses que informam a existência da sociedade liberal é o fato de a liberdade individual e coletiva encontrar-se reprimida pelos processos de automação e de mistificação autoritárias que as instâncias estatais produziram e as instituições sociais acharam por bem perpetuar.
 
           A dimensão em que se colocou a questão da atividade política, como uma ação emergente de dentro do aparelho do Estado e difundida na sociedade como tentativa de totalização do social, parece que freou o processo de participação, estancando, por assim dizer, o estopim de uma atitude libertária que ainda busca a sua afirmação no plano social.
 
          Assim sendo, me parece deveras limitado o universo que, conscientemente, podemos considerar como político no seio da sociedade neoliberal, ou mesmo na ambiência em que o Estado socialista erigiu, na qual a realidade estatal é quase tudo, mas a sociedade se encontra impedida de pensar.
 
          Na maneira específica de entender o fenômeno considerado como político na sociedade, assim como Fausto Brito e Roberto Freire, no seu livro Utopia e Paixão (Rio, Editora Rocco), eu diria que “ele tem a ver fundamentalmente com o Estado, com os partidos políticos e com as organizações do tipo sindical ou de base”; e que “são estas, na verdade, as consideradas instituições políticas”, as quais sempre se colocam contra liberdade e a revolução das nossas utopias.
 
          “O interessante é que esse tipo de visão, própria tanto da esquerda quanto da direita – como atestam os autores acima referidos –, disfarça o modo como realmente a sociedade se organiza, isto é, como uma rede de relações de poder autoritário que se espraia não só pelas chamadas instituições políticas, mas por todas as relações sociais.”
 
          A servidão social e os potenciais de injustiça que se têm instalado no Brasil e em todos os quadrantes do mundo, em defesa da comodidade de alguns e da vida dissoluta dos que estão no centro do poder, feriu definitivamente a dignidade do homem e a sua mais bela tradição.
 
          Tentando garimpar uma fresta que possa iluminar o humano no sentido da sua libertação, os autores de Utopia e Paixão buscam construir uma identidade de pensamento para seu discurso e para a sua ação, capaz, por assim dizer, de libertar o homem da dependência e da automação.
 
           Ser livre, para os autores, seria o mesmo que ser revolucionário e alegre. Expressaria, pois, a capacidade de fomentar a construção de utopias com vistas à concretização dos nossos sonhos e das nossas paixões, num processo onde a liberdade da cada um se pudesse somar à liberdade dos outros, numa busca permanente de possibilidades e de maiores realizações.
 
          O que buscam os autores, em essência, é questionar a permanência do autoritarismo na sociedade multicultural, isto para que a liberdade possa florescer, porque a liberdade constitui a esperança em um novo amanhã, e porque o desejo já não representa a busca do prazer, mas a decadência dos valores em toda a cultura ocidental
 
            Muito embora a temática de Utopia e Paixão se refira a um modelo de sociedade superada pela queda do socialismo e pela emergência da política neoliberal, o certo é o fantasma do totalitarismo tem transformado a globalização em espaço privilegiado da cena social, como se o Mercado, e não o Parlamento fosse a única forma de representação na sociedade da informação.
 
           Urge, pois, que possamos nos abrir para o novo, e para muito além das redes sociais e do universo das suas ilusões. O que precisamos não é da comodidade e do prazer à custa da exclusão e do crescimento das misérias sociais. Precisamos da política e da sua regeneração, antes do triunfo do caos e da desordem; e do predomínio da corrupção, praticada pelos governantes e pela falta de postura do Judiciário.