terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Cultura e Democracia

              Dimas Macedo

                                       

            Nos capítulos iniciais do seu livro Cultura e Democracia (São Paulo, Editora Cortez, 13ª ed., 2011), Marilena Chauí fala de um discurso competente, legitimador do senso teórico comum, porém contrapõe a esse discurso uma outra forma de pesquisa que, apesar de não ser reconhecida como competente, constitui uma proposta de transformação da existência social.

         Cultura e Democracia, na sua totalidade, compreende uma reflexão plural e instigante sobre a questão das malhas do poder e sua implicação com as funções da ideologia, que numa sociedade discriminadora qual a nossa não é mais do que uma forma sutil e delinquente de controle da participação.

           Os argumentos desenvolvidos pela autora, nos capítulos a que me referi, afirmam que “o discurso competente confunde-se, pois, com a linguagem institucionalmente permitida ou autorizada, isto é, com um discurso no qual os interlocutores já foram previamente reconhecidos como tendo o direito de falar e ouvir, no qual os lugares e as circunstâncias já foram predeterminados para que seja permitido falar e ouvir e, enfim, no qual o conteúdo e a forma já foram autorizados segundo os cânones da esfera de sua própria competência”.

            E assim posicionando as suas concepções, Chauí como que coloca o leitor diante de uma imposição, tendente a uma leitura crítica de seus convincentes argumentos. E a opção por essa mesma postura crítica prende-se, em primeiro lugar, à necessidade de perquirição das falas subjacentes e dos níveis de reivindicação que elas representam.

             Sua proposição, por se converter em um périplo, em torno de uma questão crítico-epistemológica, antes de fundar a sua experiência num saber teórico defensor do senso comum, fundamenta sua exposição numa fala que não é transparente, mas que é imanente, uma vez que o recurso à chamada linguagem científica ou filosófico-científica a converte em contradiscurso e argumentação.

           No que tange ao núcleo essencial da reflexão, faz-se preciso, antes de tudo, que se ponha em realce a noção de ideologia, que aqui deve ser considerada, não como um discurso sobre as aparências, mas como um discurso que possui a sua essência indiscutivelmente ligada aos mecanismos do modo de produção.

            É que para a autora “a ideologia só pode efetivar-se plenamente nas sociedades históricas”, onde as representações institucionais incidem sobre dados concretos do real, daí extraindo configurações que passam a ser consideradas como categorias sociais verdadeiras, posicionando-se a ideologia não como filosofia das ideias, mas como um saber institucional que a todos se impõe qual um saber absoluto.

            Para a análise da categoria crítico-ideológica, perseguido por sua pesquisa, à autora interessa perquirir o aparecer social, a configuração do ser social e a condição da historicidade enquanto estratificação das classes sociais, revelando-se assim apara os leitores os fundamentos do poder político e a origem das desigualdades como obra concreta dos homens ou como empreendimento daqueles que, por um processo de astúcia ou um golpe de violência, institucionalizaram o processo de apropriação dos bens sociais.

            O questionamento da autora, daí por diante, passa para o entendimento do “problema do advento do poder político como um polo separado do social”, porém indissoluvelmente enraizado na práxis política de todas as elites sociais, elas próprias capazes de legitimar as formas institucionalizadas da dominação e da hegemonia.

          A crítica, na exposição de Marilena Chauí, apresenta-se como um discurso antiideológico, referindo-se também a autora a uma crítica que busca apreender o social no emaranhado de suas relações, a partir da inversão das suas mutações e das contradições entre alegoria e ideologia, consciência e alienação.

           Trata-se, portanto, de uma abordagem que ultrapassa as argumentações do senso teórico comum, que demarca e transcende às barreiras da alienação, que, recorrendo à epistemologia, desmascara a ideologia, exibindo-se também como um périplo em torno da verdade e do conflito que a democracia moderna representa.

2 comentários:

  1. É inegável que o uso do poder político como instrumento de promoção das desigualdades sociais, de alienação das classes inferiores e de manutenção do sistema não é de agora, nem é uma situação localizada especificamente em nosso País. Esse controle político, com raízes históricas fortíssimas, entranha e influência a economia, as relações sociais e o pensamento individual de todos, variando e se impondo de forma diferenciada de acordo com o padrão econômico e de instrução de cada um. Algo tão claro e que salta aos olhos, dificilmente é percebida pela maioria que continua perpetuando essa realidade.

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  2. Fernanda, é o que já disse:orgulho-me de ser seu professor. Parabéns pela sua consciência literária e estética.

    DIMAS MACEDO

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